quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O CIÚME COMO INCÊNDIO LENTO E A DÚVIDA QUE NUNCA SE APAGA


 

AS BRASAS

SÁNDOR MÁRAI

COMPANHIA DAS LETRAS – 2ª ED. – 2021

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS


As Brasas é um romance que não se organiza pela ação, mas pela espera. Lido há muito tempo, o que permanece não são os acontecimentos em si, mas a atmosfera: o ciúme que se instala silenciosamente, a suspeita que nunca se resolve, a dúvida que atravessa uma vida inteira. É um livro sobre aquilo que não se diz — e sobre o que nunca deixa de arder.

Dois homens, ligados por uma amizade antiga, se reencontram após décadas. Entre eles, uma mulher, um amor, uma traição possível — mas nunca plenamente esclarecida. O romance inteiro se constrói em torno dessa incerteza. Não há prova definitiva, não há confissão que encerre o conflito. O que existe é a memória revisitada, o ressentimento cultivado, a necessidade quase obsessiva de entender o passado.

O ciúme, em As Brasas, não é explosivo. Ele é lento, contido, aristocrático até. Um sentimento que não se manifesta em gestos violentos imediatos, mas em silêncio, distância, afastamento. O personagem masculino que narra ou conduz o confronto carrega esse ciúme como quem carrega uma ferida nunca cicatrizada. A dúvida se torna mais importante do que a verdade.

Márai escreve sobre o tempo — o tempo que não cura tudo, como se costuma dizer, mas que às vezes apenas aprofunda a obsessão. O reencontro não é reconciliação; é tentativa tardia de dar forma a algo que nunca foi elaborado. O passado não passa. Ele se acumula.

Há também uma crítica sutil a um mundo aristocrático em decadência, onde honra, amizade e lealdade são valores proclamados, mas atravessados por silêncios estratégicos e emoções reprimidas. A contenção emocional, longe de evitar a tragédia, a prolonga. O que não é dito não desaparece — fermenta.

As Brasas é um romance sobre a impossibilidade de encerramento. Mesmo quando tudo é dito, algo permanece em suspenso. Talvez porque certas perguntas não tenham resposta. Talvez porque o ciúme, uma vez instalado, nunca se apague completamente — ele apenas se transforma em brasa, escondida sob a cinza, pronta para reacender.

Reler As Brasas hoje é perceber que o livro não fala apenas de traição ou amizade, mas da fragilidade das relações humanas quando se baseiam mais na posse e no orgulho do que na escuta. É um romance que não grita, não acusa — mas que queima lentamente.


Sándor Márai nasceu em Kosice, Eslováquia em 1900, e faleceu em San Diego, Califórnia, EUA, em 1989. Foi um escritor e jornalista de etnia húngara, nascido na Eslováquia. 



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