AS BRASAS
SÁNDOR MÁRAI
COMPANHIA DAS LETRAS – 2ª ED. – 2021
MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS
As Brasas é um romance que não se
organiza pela ação, mas pela espera. Lido há muito tempo, o que permanece não
são os acontecimentos em si, mas a atmosfera: o ciúme que se instala
silenciosamente, a suspeita que nunca se resolve, a dúvida que atravessa uma
vida inteira. É um livro sobre aquilo que não se diz — e sobre o que nunca
deixa de arder.
Dois homens, ligados por uma amizade antiga,
se reencontram após décadas. Entre eles, uma mulher, um amor, uma traição
possível — mas nunca plenamente esclarecida. O romance inteiro se constrói em
torno dessa incerteza. Não há prova definitiva, não há confissão que encerre o
conflito. O que existe é a memória revisitada, o ressentimento cultivado, a
necessidade quase obsessiva de entender o passado.
O ciúme, em As Brasas, não é explosivo.
Ele é lento, contido, aristocrático até. Um sentimento que não se manifesta em
gestos violentos imediatos, mas em silêncio, distância, afastamento. O
personagem masculino que narra ou conduz o confronto carrega esse ciúme como
quem carrega uma ferida nunca cicatrizada. A dúvida se torna mais importante do
que a verdade.
Márai escreve sobre o tempo — o tempo que não
cura tudo, como se costuma dizer, mas que às vezes apenas aprofunda a obsessão.
O reencontro não é reconciliação; é tentativa tardia de dar forma a algo que
nunca foi elaborado. O passado não passa. Ele se acumula.
Há também uma crítica sutil a um mundo
aristocrático em decadência, onde honra, amizade e lealdade são valores
proclamados, mas atravessados por silêncios estratégicos e emoções reprimidas.
A contenção emocional, longe de evitar a tragédia, a prolonga. O que não é dito
não desaparece — fermenta.
As Brasas é um romance sobre a
impossibilidade de encerramento. Mesmo quando tudo é dito, algo permanece em
suspenso. Talvez porque certas perguntas não tenham resposta. Talvez porque o
ciúme, uma vez instalado, nunca se apague completamente — ele apenas se transforma
em brasa, escondida sob a cinza, pronta para reacender.
Reler As Brasas hoje é perceber que o
livro não fala apenas de traição ou amizade, mas da fragilidade das relações
humanas quando se baseiam mais na posse e no orgulho do que na escuta. É um
romance que não grita, não acusa — mas que queima lentamente.
Sándor Márai nasceu em Kosice,
Eslováquia em 1900, e faleceu em San Diego, Califórnia, EUA, em 1989. Foi um
escritor e jornalista de etnia húngara, nascido na Eslováquia.


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