ZIKA: Do sertão nordestino à ameaça global
DEBORA DINIZ
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2016
Em Zika: Do sertão nordestino à ameaça global, Debora Diniz nos
leva ao centro da epidemia de Zika que assolou o Brasil em 2016, expondo o
sofrimento das mulheres grávidas e de suas famílias, bem como a complexa
resposta da ciência e do Estado diante de crises sanitárias.
O
livro mostra que, muitas vezes, os protagonistas silenciosos da investigação
científica são esquecidos: médicos e médicas na linha de frente — “na beira do
leito”, como Diniz define — são quem geralmente identifica os primeiros sinais
antes que a ciência formal confirme os casos. No Nordeste, um grupo de
profissionais locais foi pioneiro no diagnóstico da epidemia. E, entre eles,
uma médica do Cariri foi a primeira a perceber a relação entre o vírus Zika e a
microcefalia fetal. Apesar de seu trabalho decisivo e do envio das amostras à
Fiocruz, seu nome desapareceu da história oficial, enquanto o crédito ficou
para um pesquisador homem de instituição estatal. Este episódio evidencia, mais
uma vez, como os feitos das mulheres são apagados na ciência e na memória
institucional.
Outro
ponto crucial levantado por Diniz é a forma como a resposta à epidemia se
concentrou no vetor — o mosquito transmissor — ignorando as mulheres afetadas.
O aconselhamento oficial se limitava à abstinência sexual, sem oferecer
anticoncepção adequada ou legalizar a interrupção da gravidez em casos de risco
comprovado. Para as mulheres que carregavam fetos com diagnóstico de
microcefalia, a dor física e psicológica era imensa. Muitas precisaram lutar
sozinhas para garantir cuidados adequados, transporte frequente a centros de
reabilitação e o sustento de suas famílias, quase sem apoio do Estado. Somente
em 2020 foi aprovada a lei que garante pensão vitalícia para crianças afetadas,
evidenciando o atraso e a negligência da política pública.
Diniz
também problematiza a desigualdade social implícita na resposta à epidemia.
Mulheres pobres do Nordeste enfrentaram quase quatro anos de luta isoladas,
enquanto mães de classes média e alta provavelmente teriam recebido apoio
profissional e financeiro. A obra questiona a responsabilidade do Estado: a
epidemia se agravou onde há falta de saneamento básico, lixo acumulado e
controle epidemiológico insuficiente.
Zika: Do sertão nordestino à ameaça global é
mais do que um relato científico ou social: é um alerta sobre desigualdade,
gênero, ciência e memória institucional. É também um testemunho da coragem de
mulheres e médicos que, muitas vezes invisibilizados, fizeram a diferença e
salvaram vidas.
Debora Diniz nasceu em Maceió, Alagoas, em 1970. É
antropóloga, pesquisadora e documentarista.


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