A PRAGA: O holocausto da hanseníase
Histórias emocionantes de isolamento, morte e vida nos
leprosários do Brasil
MANUELA CASTRO
GERAÇÃO EDITORIAL – 1ª ED. – 2017
Em A Praga, Manuela Castro traz à tona uma das páginas mais
violentas e silenciadas da história brasileira: a política de isolamento
compulsório das pessoas diagnosticadas — ou apenas suspeitas — de hanseníase.
Mais do que uma narrativa médica, o livro revela um projeto de exclusão social
legitimado pelo Estado, sustentado pelo medo, pelo estigma e pela
desumanização.
No
Brasil, homens e mulheres eram arrancados de suas casas, afastados das famílias
e confinados em leprosários. O pânico social era tão intenso que, muitas vezes,
eram os próprios familiares que denunciavam os suspeitos. No caso das mulheres
grávidas, a violência se aprofundava: seus bebês eram retirados imediatamente
após o nascimento, sem qualquer possibilidade de vínculo, e enviados para
educandários. Muitos eram transportados em cestas, junto a outros
recém-nascidos, chamados cruelmente de “ninhada de leprosos”.
As
consequências dessa política sanitária foram devastadoras. Milhares de pessoas
passaram décadas confinadas, enquanto seus filhos cresciam separados,
igualmente marcados pelo estigma. O livro expõe, sem rodeios, os maus-tratos
sofridos nesses espaços: surras, castigos, humilhações e, de forma ainda mais
trágica, casos de abuso sexual contra meninas institucionalizadas. A violência
não era exceção — era estrutural.
O
que mais choca é constatar que, mesmo após a comprovação da cura da hanseníase,
o Brasil levou anos para pôr fim ao confinamento obrigatório. Quando finalmente
libertas, essas pessoas se viram sem lugar no mundo: não tinham para onde ir,
não conseguiam trabalho e continuaram sendo tratadas como párias sociais. O
estigma não terminou com o fim do isolamento — ele se perpetuou.
Muitos
acabaram permanecendo nas antigas colônias, que só muito recentemente começaram
a ter seus territórios reconhecidos legalmente, com a concessão de títulos de
propriedade. Foi necessária uma longa e árdua luta para que o Estado assumisse
minimamente sua responsabilidade. Durante o governo Lula, foi sancionada a lei
que concedeu pensão vitalícia aos ex-internos que ficaram impossibilitados de
trabalhar. Hoje, a luta segue sendo travada pelos filhos, igualmente afetados
por essa política de exclusão, em busca do mesmo reconhecimento e reparação.
A Praga é um livro duro, necessário e
profundamente político. Ele nos obriga a encarar como o medo, quando
institucionalizado, pode se transformar em uma máquina de produção de
sofrimento — e como certas formas de violência continuam ecoando por gerações.

Nenhum comentário:
Postar um comentário