terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

VER A GUERRA É TAMBÉM UMA RESPONSABILIDADE ÉTICA


 

É ISSO QUE EU FAÇO: Uma vida de amor e guerra

LYNSEY ADDARIO

INTRÍNSECA – 2016


Nesta autobiografia, a fotógrafa de guerra Lynsey Addario nos conduz por alguns dos cenários mais violentos do mundo contemporâneo. Fome, miséria, medo, mortes, lutos, deslocamentos forçados. O livro nos expõe a realidades que, muitas vezes, só conhecemos por imagens rápidas nos noticiários. A leitura provoca uma pergunta incômoda e inevitável: e se fosse eu? O que significa viver em meio a conflitos armados, com bombas explodindo sobre casas, com a morte como presença cotidiana?

Addario nos aproxima de guerras que parecem distantes, mas cujas consequências atravessam fronteiras. Ela narra estupros em campos de refugiados, a vulnerabilidade extrema de mulheres e crianças, a precariedade absoluta da vida quando o Estado deixa de existir como proteção. Suas palavras e imagens desmontam qualquer tentativa de romantização da guerra.

O livro também nos obriga a confrontar nossas próprias contradições. Vemos, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, manifestações contra imigrantes e refugiados — mas o Brasil não está à margem desse processo. Houve e ainda há revoltas contra venezuelanos, haitianos e outros povos que fogem da fome, da violência e do colapso social. A pergunta que o livro insiste em nos fazer é simples e devastadora: para onde essas pessoas deveriam ir?

Ao dedicar sua vida a fotografar dor, destruição e morte, Addario não o faz por voyeurismo, mas por uma ética do testemunho. Seu trabalho parte da esperança de que aqueles que não vivem a guerra, aqueles que acreditam estar protegidos por fronteiras e privilégios, consigam, ao menos, enxergar. Enxergar que, mesmo em pleno século XXI, mesmo após o horror do Holocausto nazista, violências extremas continuam acontecendo.

É Isso Que Eu Faço nos lembra que ainda não podemos dizer, com honestidade, “Nunca Mais”. O mundo segue produzindo zonas de exceção, corpos descartáveis e vidas consideradas sacrificáveis. O livro é um chamado incômodo à responsabilidade: ver, saber e não fingir que não é conosco.


Lynsey Addario nasceu em Westport, Connecticut, EUA, em 1973. É fotojornalista. 


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