quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Ana Terra — fundação violenta, amor interditado e a força que permanece


ANA TERRA

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2025

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE 

Ana Terra é uma dessas personagens que ficam. Mesmo quando os detalhes da trama se embaralham com o tempo, o que permanece é a imagem de uma mulher forte, atravessada pela violência da fundação do Brasil, sobrevivendo onde tudo parece conspirar contra ela. O que me marcou na leitura foi justamente isso: a força de Ana, o amor vivido com o indígena e a brutalidade com que esse amor é interrompido.

Ana vive em um território de fronteira — geográfica e simbólica. A terra ainda não é “Brasil” no sentido pleno, é espaço de disputa, de violência, de apagamento. Seu amor com o indígena (Pedro Missioneiro) carrega essa tensão desde o início: não é apenas um amor proibido no plano familiar, mas um amor impossível dentro da lógica colonial. Ele representa o outro que deve ser eliminado, não apenas rejeitado.

A morte do indígena — assassinato cometido pelos homens da família — é um dos momentos mais duros da narrativa. Não se trata apenas de um crime passional ou moral, mas de um gesto fundador: o patriarcado e o colonialismo se afirmam juntos, eliminando o corpo indígena e silenciando o desejo feminino. Ana não é consultada, não é escutada, não é considerada. Seu amor é tratado como desvio, vergonha, ameaça.

E, ainda assim, ela permanece. Violentada pela história, pela família, pelas condições materiais, Ana Terra não desaparece. Ela cria o filho, sustenta a vida, atravessa o tempo. Sua força não é heroica no sentido épico, mas resistente, silenciosa, cotidiana. É a força das mulheres que ficam quando os homens matam, partem ou morrem.

É impossível não ler Ana Terra como uma metáfora da própria formação do sul do Brasil, uma formação marcada pela expulsão dos indígenas, pela dominação masculina e pela naturalização da violência como método de organização social. Ana carrega no corpo e na memória essa história, tornando-se uma espécie de testemunha involuntária da fundação do mundo que virá depois.

Reler Ana Terra pela lembrança é perceber que Érico Veríssimo construiu ali uma personagem que escapa do tempo. Ana não é apenas uma mulher forte; ela é o ponto de tensão entre amor e violência, entre vida e morte, entre o que poderia ter sido e o que foi imposto. E talvez seja por isso que ela continue sendo lembrada — não como figura dócil, mas como presença que resiste à tentativa de apagamento.



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