ANA TERRA
ÉRICO VERÍSSIMO
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2025
LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE
Ana Terra é uma dessas personagens
que ficam. Mesmo quando os detalhes da trama se embaralham com o tempo, o que
permanece é a imagem de uma mulher forte, atravessada pela violência da
fundação do Brasil, sobrevivendo onde tudo parece conspirar contra ela. O que me
marcou na leitura foi justamente isso: a força de Ana, o amor vivido com o
indígena e a brutalidade com que esse amor é interrompido.
Ana vive em um território de fronteira —
geográfica e simbólica. A terra ainda não é “Brasil” no sentido pleno, é espaço
de disputa, de violência, de apagamento. Seu amor com o indígena (Pedro
Missioneiro) carrega essa tensão desde o início: não é apenas um amor proibido
no plano familiar, mas um amor impossível dentro da lógica colonial. Ele
representa o outro que deve ser eliminado, não apenas rejeitado.
A morte do indígena — assassinato cometido
pelos homens da família — é um dos momentos mais duros da narrativa. Não se
trata apenas de um crime passional ou moral, mas de um gesto fundador: o
patriarcado e o colonialismo se afirmam juntos, eliminando o corpo indígena e
silenciando o desejo feminino. Ana não é consultada, não é escutada, não é
considerada. Seu amor é tratado como desvio, vergonha, ameaça.
E, ainda assim, ela permanece. Violentada pela
história, pela família, pelas condições materiais, Ana Terra não desaparece.
Ela cria o filho, sustenta a vida, atravessa o tempo. Sua força não é heroica
no sentido épico, mas resistente, silenciosa, cotidiana. É a força das mulheres
que ficam quando os homens matam, partem ou morrem.
É impossível não ler Ana Terra como uma
metáfora da própria formação do sul do Brasil, uma formação marcada pela
expulsão dos indígenas, pela dominação masculina e pela naturalização da
violência como método de organização social. Ana carrega no corpo e na memória
essa história, tornando-se uma espécie de testemunha involuntária da fundação
do mundo que virá depois.
Reler Ana Terra pela lembrança é
perceber que Érico Veríssimo construiu ali uma personagem que escapa do tempo.
Ana não é apenas uma mulher forte; ela é o ponto de tensão entre amor e
violência, entre vida e morte, entre o que poderia ter sido e o que foi
imposto. E talvez seja por isso que ela continue sendo lembrada — não como
figura dócil, mas como presença que resiste à tentativa de apagamento.


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