quinta-feira, 5 de junho de 2014

FILME: CAFUNDÓ - 2005


Direção: Clóvis Bueno e Paulo Betti - 2005 
Duração: 102 min

Baseado na história real de João Camargo, um ex-escravo que viveu em Sorocaba -SP no fim do século XIX  e inicio do XX, era um preto velho milagreiro, mas apesar de sua simplicidade era muito complexo. 

João Camargo (Lázaro Ramos)  é um escravo liberto que tem sede de viver, mas o fim da escravidão não traz prosperidade para os negros, e ele terá que passar por trabalhos pesados, irá para a guerra, lutará para sobreviver, mas encanta-se com a cidade, suas cores, sua alegria, suas festas e mulheres. Leva sua mãe para viver junto a outros negros e volta, conhece Rosario (Leona Cavalli) e se casa com ela, mas ela não se acostuma a vida simples de João. Em uma ida à cidade eles dão de encontro com o que chamam de Peste, mas é a febre amarela. João corre ver sua mãe, mas ela está morrendo. Na volta encontra Rosario com outro homem. Ele a expulsa, passa a beber, perde o rumo de sua vida.

Um dia após beber muito ele cai, e tem uma visão com o padre da cidade, que lhe diz que ele tem uma missão, a de curar as pessoas. João já havia tido visões antes, até mesmo Rosario parece algo misterioso. Ele ouvia vozes. A partir deste momento sua vida toma outro rumo, ele se volta para a espiritualidade, constrói uma igreja para Nosso Senhor do Bonfim, mas acolhe nela todos os santos, mas também entidades da Umbanda, espíritos, e até mesmo símbolos judaicos. Ele acredita que pode curar e passa a fazê-lo. Claro ,irá enfrentar o desagrado da igreja católica e dos que são racistas e não gostam destes rituais, ou do espiritismo.

O filme retrata o sincretismo religioso do Brasil, onde o povo se apega a todos os santos e também às oferendas, rezas, poções, óleos, ervas. A parede da igreja está coberta de ex-votos, mas também de pedidos. Mostra que naquela época havia uma divisão entre a religião dos brancos e a dos negros, há santos para ambos, e há locais no Brasil onde haviam igrejas católicas para negros e outra para os brancos. Além do contraste entre o bem e o mal, a todo momento surgem cenas que se referem a isto, como a mulher que foge com seu amante e ele correndo atrás com um chicote e a aparição de uma igreja.

O Brasil se formou com os índios, afros e portugueses, e há também aparições no filme de um índio, mas o forte é mesmo a mistura que se concretiza de todas as crenças num povo de fé.

João de Camargo teve uma vida difícil, primeiro em uma senzala como escravo, depois se deparou com um mundo que não conhecia e que o encanta. Era ingênuo, simples, não conseguia usar as botas da farda de soldado, preferia andar descalço. Não sabia ler, tinha que sobreviver. Apaixona-se e é traído, perde a mãe, e entra em depressão e cai no alcoolismo. Ouvia vozes, tem visões, e acredita nelas. A força da crença e da fé.

Cafundó significa um lugar de difícil acesso, um mundo além, longe, o fim do mundo como diz o menino no filme . Um lugar imaginário.Existiu um lugar no Estado de São Paulo que se chamou Cafundó, que era uma comunidade de negros libertos. Eles receberam esta terra para morar, desde que não saíssem de lá. Foram enviados para o Cafundó, onde quase não se vai. A expressão popular nos cafundós de judas é para se referir a um lugar perdido, muito longe, difícil de se chegar. Mas o cafundó também pode estar dentro de si mesmo, um lugar perdido que pode proporcionar experiências místicas, iluminações. No filme o Cafundó é a África, pelo tipo de casas construídas, os rituais, é a mãe.

A mãe de João era uma curandeira, ela conhecia os segredos das ervas e rezas. O interessante é que ela coloca pedras na cruz do menino Alfredinho, o que seria um costume judaico.Um filme que nos mostra a imensa riqueza do Brasil em termos de cultura, rituais, crenças, e da nossa capacidade de crença e fé, e de como mesmo diante de situações difíceis sempre há uma maneira de se falar com o divino, não importa a via que se use. João adere ao sincretismo afro-indigena-católico-judaico. Tornou-se após sua morte com 84 anos uma lenda. Seu enterro foi um dos mais concorridos de Sorocaba.

O filme foi rodado em quatro cidades do Paraná em torno de Ponta Grossa.



Clóvis Bueno nasceu em 1940 em Santos, Brasil








Paulo Betti nasceu em 1952 numa zona rural de Rafard, interior do Estado de São Paulo, Brasil. Mudou-se ainda durante a infância para Sorocaba.