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segunda-feira, 8 de junho de 2026

FILME: TO KILL A TIGER - (Matar um Tigre)

 

Direção: Nisha Pahuja – 2002

Duração: 2h 7 min

País – Canadá – Índia

Disponível na Netlfix – acesso em junho/2026


Durante uma festa de casamento em uma pequena aldeia da Índia – Jharkhand - uma menina de 13 anos não retornou para casa. Algumas horas depois, ela é encontrada cambaleando.

Ela havia sido levada à força para uma área de mata e estuprada por três homens. Seu pai, Ranjit, vai à polícia, e os homens são presos. No entanto, as famílias dos homens detidos e os líderes da aldeia iniciam uma campanha para que ele retire as acusações.

É o início da luta de um pai para obter justiça por sua filha. Os moradores da aldeia alegam que a questão deve ser resolvida pela comunidade, e não pela justiça, e a solução é um casamento forçado para reestabelecer a honra da menina. O pai não aceita essa solução. Não aceita casar sua filha com um dos estupradores.  

O documentário é filmado ao vivo, e inclusive a equipe de filmagem é hostilizada pelos moradores da aldeia, ao mesmo tempo que a família da menina. Mesmo diante das ameaças e pressões, o pai decide ir até as últimas consequências para obter justiça por sua filha.

Não é um documentário fácil de assistir. A luta é árdua, e ficamos torcendo por esse pai que não aceita a imposição da comunidade. Para o Estado indiano, ao qual a grande maioria dos crimes sexuais não são reportados e resolvidos nas aldeias com casamentos forçados, é um caso inédito.

Os líderes das aldeias são homens, patriarcais, que olham para a mulher como um objeto. E temos um pai, também um homem, que se opõe a eles. Ele enfrentará inúmeros obstáculos e dificuldades, inclusive para sustentar sua família, mas não irá desistir de defender os direitos de sua filha na justiça e de buscar a condenação dos estupradores.

To Kill a Tiger é um documentário sobre violência sexual, mas também sobre a coragem moral. Sua luta transforma um caso particular em uma discussão universal sobre justiça, dignidade e os direitos das meninas e mulheres.


Nisha Pahuja nasceu em Nova Delhi, Índia, em 1967. É uma cineasta nascida na Índia radicada em Toronto, Ontário, Canadá. 


quinta-feira, 12 de maio de 2016

FILME: A GAROTA IDEAL - 2007


Direção: Craig Gillespie - 2007
Duração: 91 min
Título Original: Lars and the real girl
País de Origem: Estados Unidos e Canadá

Lars Lindstrom (Ryan Gosling) vive na garagem de seu irmão mais velho, Gus (Paul Schneider) e sua cunhada Karin (Emily Mortimer). Ele é introvertido, tenta escapar de todos os convites insistentes de sua cunhada para tomar café ou jantar com eles. Tem um emprego, frequenta a igreja, mas é distante apesar de educado e simpático com todos. 

Através da internet ele encontra Bianca. O problema é que Bianca é uma boneca inflável erótica, mas Lars a recebe como uma mulher de verdade, e diz a todos que ela é uma missionária religiosa. Quando ela chega fala com sua cunhada inclusive para que ela possa ficar na casa deles, uma vez que não é bem visto uma mulher solteira ficar junto de um homem sozinho em sua casa. Karin fica feliz com esta novidade até... descobrir que Bianca é uma réplica de uma mulher mas feita de silicone. 

Karin e Gus procuram ajuda com uma psicóloga Dra Dagmar (Patricia Clarkson)  que lhes diz que ela é real. Esta ali na sala de espera com Lars, e para ele se trata de alguém. 

O filme é muito interessante, uma vez que vemos que questões psíquicas que normalmente seriam tratadas através de medicação, internação aqui tomam outro rumo, com a sociedade local que é pequena fazendo parte da encenação de que ela existe e é real. Falam com ela, a levam passear, lhe arrumam até um emprego de manequim numa vitrine.  

Desta forma surge a possibilidade para que Lars consiga expressar o que sente, e principalmente o que lhe faltou em sua infância, com a morte de sua mãe por ocasião de seu nascimento. Aos poucos Lars irá passando de apaixonado por Bianca ao afastamento, como no Édipo, e começará a se interessar por outras pessoas. Em seus encontros com a Dra. Dagmar sob o pretexto de tratar de Bianca, ele irá se abrindo e falando. Mas somente ele mesmo poderá encontrar uma saída para isto, e ao final poder afastar Bianca de sua vida da forma que lhe é possível e inclusive necessário para que possa se libertar de suas angústias e dores da infância. 

O filme é de extrema sensibilidade e respeito ao ser humano em suas dores de viver. E nos mostra que nem sempre tudo é patológico como a psiquiatria e a sociedade considera, levando a um tratamento através de medicação e que não iria resolver a questão de Lars. 

Craig Gillespie nasceu em 1967 em Sidney, Austrália

domingo, 14 de junho de 2015

FILME: LA VALLÉE DES LARMES - 2012


Direção: Maryanne Zéhil - 2012
Duração: 95 min
País de Origem: Canadá
Filmado no Canadá e Líbano

Marie Simard (Nathalie Coupal) é uma editora que vive em Québec. Ela passa a receber diariamente envelopes que são deixados embaixo da porta da editora de alguém que conta sua história do que aconteceu no Líbano, os massacres que assistiu inclusive de sua família em dois campos de refugiados palestinos - Sabra e Chatila. Ela logo vai descobrir que quem lhe envia os envelopes é Joseph (Joseph Antaki) , um pintor que trabalha na editora. Ela quer publicar o testemunho, mas algo acontece que a faz ir pessoalmente ao Líbano para poder compreender finalmente esta história. 

Por outro lado Marie também vive um momento difícil, sua mãe está em coma no hospital. Ela tem uma mágoa profunda e não consegue perdoá-la. Quando jovem a mãe a fez abortar o filho de um namorado e ela acabou estéril o que mais tarde destruiu seu casamento com um homem que ela amava por não poder ter filhos. Há um jogo aqui, pois se realmente o marido a amasse não a teria deixado por outra mais jovem que lhe deu filhos, mas é assim que ele a responsabiliza pelo fim do casamento e ela aceita. Marie bebe muito para esquecer. 

Joseph aceita trabalhar com Marie para a publicação de seu testemunho, aos poucos vamos vendo o passado dele, o massacre, a morte de deu pai e irmãos por cristãos vizinhos, a fuga dele, da mãe e uma irmã até se esconderem num convento que os acolheu. Mas há algo que Joseph não pode contar. É o final desta história que irá se produzir a seguir quando Joseph efetua a vingança pedida pela sua mãe e mata os assassinos de sua família que agora também vivem no Canadá. É após isto que Marie parte para o Líbano, para compreender este ato. 

Lá os cristãos mortos por Joseph são considerados mártires. Suas fotos estão nas paredes. Marie vai até o convento onde a freira lhe conta a história do que se passou anos atrás com mais detalhes. Finalmente Marie vai procurar a mãe de Joseph e será dela que ouvirá que se trata de vingança para manter a honra e a dignidade de sua família e de seu povo. 

Ao retornar para Québec há um último envelope de Joseph. Ele então relata seu ato, mas deixa uma mensagem de esperança e perdão. Diz que o fez para que ocorra uma ruptura neste círculo de vinganças, para que seus filhos não precisem matar ninguém e possam ser felizes. Joseph se suicidou. 

A questão que o filme também enfoca, mas de forma infelizmente superficial é a questão da Mãe. A de Marie que lhe impôs um aborto se colocando como responsável por sua fertilidade e feminilidade, a de Joseph o instrumento da vingança que obriga o filho a cumpri-la.  

O filme me lembrou outro - Abril Despedaçado - onde sempre há a vingança e se espera por ela, que ocorre no Nordeste Brasileiro, mas também a mensagem do amor, de encerrar o círculo como neste filme quando Rodrigo Santoro o ator do filme toma um caminho diferente e no filme Incêndios, também  no Líbano, quando a mãe escreve as duas cartas. 

É um belo filme, mas menos profundo e intenso do que estes dois que acabo de citar, mas vale a pena assistir. 

Maryanne Zédhil nasceu em Beirute, Líbano

quarta-feira, 3 de junho de 2015

FILME: REPÓRTERES DE GUERRA - 2010



Direção: Steven Silver - 2010
Duração: 106 min
Título Original: The bang bang club
País de Origem: Canadá e África do Sul 

Baseado no livro The Bang Bang Club escrito por Marinovich e João Silva. 

Um filme que nos mostra a realidade dos repórteres de guerra. Baseado em fatos reais, é a história de um grupo conhecido como Bang Bang Club, formado por Greg Marinovich (Ryan Phillipe), João Silva ( Neels Van Jaarsveld), Kevin Carter (Taylor Kitsch) e Ken Oosterbroek (Frank Rautenbach). 

O grupo se formou na África do Sul, juntos para maior segurança, mas também unidos pela amizade, eles arriscam suas vidas para contar ao mundo toda a violência, brutalidade, fome, horrores que acontecem ao nosso redor. São as primeiras eleições livres da África do Sul após o fim do regime de Apartheid e a violência étnica impera. Greg ganhou um Pulitzer por suas fotos do confronto, mas o preço que pagaram foi muito alto. 

Foto de Greg Marinovich que ganhou o Pulitzer em 1991, um assassinato brutal cometido por apoiadores do Congresso Nacional Africano a um homem que acreditavam ser um espião do Partido da Liberdade Inkatha. 

Estes repórteres são obcecados por tirar suas fotos, mas o preço emocional, psíquico, psicológico que pagam é extremamente alto. Eles tiram fotos, mas não interveem, não fazem nada. 

Greg Marinovich 

A noite eles tentam se divertir, bebem, mulheres, tentam apagar as imagens, mas não é possível. A questão ética se impõe, a consciência cobra seu preço. Eles reagem dizendo que tiram as fotos para que elas sejam divulgadas e desta forma algo aconteça para mudar. Mas não é o que acontece. 

Kevin Carter se drogava para suportar. Ao ser afastado do conflito na África partindo para o Sudão, ele tira uma das fotos mais famosas no mundo, mas que foi o seu fim. Ele suicidou-se um tempo depois por não suportar as perguntas, ele foi cobrado por não ter feito nada pela menina, exceto espantar o abutre. E somado a isto ainda houve a morte de Ken Oosterbroek. 

Foto de Kevin Carter que ganhou o Pulitzer

Ken Oosterbroek foi atingido por um tiro durante as últimas manifestações antes da eleição. Ele morreu no local. Gren também foi atingido, mas sobreviveu. 

Ken Oosterbroek 

João da Silva continuou fotografando, em outubro de 2010 ficou gravemente ferido num acidente com uma mina no sul do Afeganistão e teve suas duas pernas amputadas, mas ele voltou a fotografar.

João da Silva 

Steven Silver 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

FILME: INCH' ALLAH - 2011


Direção: Anaïs Barbeau-Lavalette - 2011
Duração: 101 min
País: Canadá - França 

Chloe (Evelyne Brochu) é uma médica canadense que trabalha para as Nações Unidas e vive na Cisjordânia ocupada por Israel atendendo palestinas que vivem do outro lado do murro que separa os palestinos dos israelenses. Ela se sensibiliza com a situação as pessoas que vivem ali e acaba se envolvendo mais do que seu chefe acha que deva fazer lhe lembrando que deve ser fria. 

Ela é amiga de Ava (Sivan Levy), uma israelense que trabalha no posto de controle para a passagem entre o campo de refugiados onde vivem os palestinos e o lado israelense. Acaba se aproximando de Rand (Sabrina Ouazani) uma de suas pacientes e com ela convive mais de perto com os refugiados conhecendo seu drama. 

O filme retrata o conflito entre israelenses e palestinos sob a ótica de uma mulher, tanto a diretora do filme como a médica Chloe. Apesar de mostrar o conflito e o drama das pessoas o foco do filme é o olhar da médica, uma estrangeira ocidental e como ela reage a tudo isto.



Chloe acaba se envolvendo com o irmão de Rand, Faysal (Yousef Sweid) que faz parte da resistência Palestina, ou como alguns chamariam, de grupo terrorista.  Se no início do filme Chloe procura se manter neutra transitando entre os dois lados sem tomar partido, é após ver um jipe israelense atropelar e matar uma criança de forma proposital que ela repensa sua posição e tende mais para o lado palestino. 

Não vou entrar aqui na questão deste conflito, de quem está certo ou não, fato é que Israel tomou posse do território e deslocou inúmeros palestinos de suas casas, construindo o murro que divide a cidade. Mas vou focar na questão de uma estrangeira no meio disto tudo. Da dificuldade de se olhar para um outro ser humano e ter que ser fria com ela, o que Chloe não consegue mais ser após a morte do menino envolvendo-se com a família. Ela consegue inclusive uma permissão para que eles possam ir ver onde moravam antes, os escombros da casa, onde nasceram e viveram em paz durante anos antes do conflito.

Porém quando Rand dá a luz, Chloe está em Tel Aviv, e demora para chegar. Eles não conseguem transpor a barreira israelense para chegar ao hospital e a criança nasce no carro vindo a morrer em seguida por falta de oxigênio. Neste momento Rand se volta contra Chloe alegando que foi devido sua demora que a criança morreu, dizendo que quem está dos dois lados não está de nenhum lado. Rand acaba se transformando numa mulher bomba. 

Se por uma lado temos a humanidade, e estamos diante de outro ser humano que sofre, de outro há toda uma questão cultural, histórica e de guerra que separa, e isto faz com que Chloe não possa se aproximar de Rand como uma amiga. É a dificuldade e o drama que enfrentam os que trabalham nestes campos de refugiados em todo o mundo. Até que ponto posso me aproximar e me envolver, se é que posso? Até que ponto vai minha humanidade neste caso diante de outro ser humano? Uma linha tênue, tão tênue quanto o murro construído para separar os dois lados. 

Anaïs Barbeau-Lavalette nasceu em 1979 em Quebec, Canadá

quarta-feira, 22 de abril de 2015

FILME: TEMPESTADE NA ESTRADA - 2011


Direção: Thom Fitzgerald - 2011
Duração: 93 Min
Titulo Original: Cloudburst

Stella (Olympia Dukakis) e Dot (Brenda Fricker) vivem juntas há 31 anos, na costa do Maine nos Estados Unidos. Dot é doce e serena enquanto que Stella é determinada e fala muitos palavrões, ocupando nesta relação o lugar masculino. Elas vivem bem até o dia em que Dot sofre um acidente doméstico e é internada, já cega, sua neta resolve interná-la num asilo e para isto a ludibria fazendo-a assinar uma procuração dizendo que se trata de uma declaração isentando Stella pelo acidente. Dot ingênua e confiante assina. 

Porém Stella não vai aceitar isto pacificamente e resolve sequestrá-la da casa de repouso e ir para o Canadá onde podem finalmente se casar e com isto tirar da neta a possibilidade de gerenciar a vida da avó. No caminho elas dão carona para um jovem bailarino, Prentice (Ryan Doucette), que está indo visitar a mãe doente. 

Os temas centrais do filme são a velhice e a união homossexual. Como sempre vemos uma pessoa mais jovem que quer determinar a vida de um idoso pensando que ele é incapaz de decidir por si mesmo,chegando ao ridículo no filme de não enxergar a relação de amor de Stella e Dot, chamando a primeira de amiga e avisando-a que tem alguns dias para cair fora da casa da avó que agora é dela. O preconceito e os dilemas de idosos como o de Stella que após Dot quase morrer afogada, não fosse a presença de Prentice para ajudar, que se conscientiza que já não consegue cuidar de Dot sozinha. 

Ao final veremos a neta se redimir apesar de todos seus preconceitos.

Thom Fitzgerald nasceu em 1968 em New Rochelle, Nova Iorque, EUA

domingo, 12 de abril de 2015

FILME: MOMMY - 2014




Direção: Xavier Dolan - 2014
Duração: 139 min
País: Canadá 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014

O filme se passa no Canadá. Diane Després (Anne Dorval) está indo buscar seu filho Steve (Antoine-Olivier Pilon) em uma instituição para jovens problemáticos de onde foi expulso por haver ateado fogo na cafeteria local e com isto um garoto sofreu queimaduras de terceiro grau. Diane acredita que é capaz de cuidar dele sozinha.

Steve é hiperativo e muitas vezes se torna agressivo. Em uma das cenas por haver sido contrariado em seu desejo de ofertar um presente à mãe que sabe que se trata de um objeto furtado ele a agride e ela tem que se refugiar em outro cômodo. É quando a vizinha da frente se aproxima e irá tentar ajudar Diane.

Um filme que é tocante e terno por um lado e que nos angustia por outro. Uma relação limite entre mãe e filho. Steve em certos momentos é terno e doce como um bebê, mas em outros agressivo e hiperativo. A presença de Kyla (Suzanne Clément), a vizinha, traz alguns momentos de alegria, e um fará bem ao outro, mas quando se vive em situações limites alguém terá que fazer uma escolha e tentar que ela seja a melhor, acreditar e ter esperança.


O que notamos é que após a morte do pai o filho se agarra à mãe, há algo até mesmo de incestuoso na relação dos dois, fusional, sem espaço para que um terceiro entre. Steve tem ciúmes de sua mãe e se torna agressivo. Por outro lado a mãe o superprotege dos outros. Não admite que ninguém fale algo dele, ou queira colocá-lo em seu lugar. Ela tenta ser rigorosa com ele, mas acaba não conseguindo, seja porque ele a cativa e seduz, ou porque ele se torna agressivo e neste momento ela não dá conta.



Para Steve talvez seja muito difícil ter uma mãe bonita e sexy, uma mãe sexuada, e na falta do pai para ser o objeto de desejo dela, ele não aceita que outro venha ocupar este lugar, então ele tenta suprir a falta da mãe de todas as maneiras. Kyla por um momento é uma interrupção disto, um terceiro que entra para afastar um pouco esta fusão. 


Xavier Dolan nasceu em 1989 em Montreal, Canadá 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

FILME: GRANDES OLHOS - 2014


Direção: Tim Burton - 2014 
Duração: 105 min
Título Original: Big Eyes 

Cinebiografia da pintora  Margaret Keane 

Anos 50, EUA, Margaret (Amy Adams) acaba de se separar de seu primeiro marido. Ela sobrevive trabalhando numa fábrica de móveis e expõe suas pinturas de crianças com olhos grandes num parque onde conhece Walter Keane ( Christoph Waltz) que também está ali vendendo quadros. 

Fragilizada diante de uma sociedade machista onde uma mulher não é levada em conta como artista, ao receber uma carta informando que seu ex-marido requer a guarda da filha por considerá-la incapaz de cuidar da criança, Walter propõe casamento e ela aceita sem ao menos conhecê-lo direito. Sua vida irá mudar a partir daí. Ele começa a expor os quadros dele e dela, e se inicialmente ele informa que são quadros de sua esposa, aos poucos ele vai se apoderando da arte dela com a desculpa de poderem ganhar muito dinheiro. Ao fim ela desapareceu, as obras são dele. Ela pinta escondido, até mesmo de sua filha. 

O que Margaret não sabia é que estava diante de uma pessoa que mentia o tempo todo dentro do seu delírio. Os quadros que ele dizia serem dele, não eram. Ele nunca esteve em Paris, nem estudou arte. Foi casado e também tem uma filha. Diante de tudo isto ela começa a rever sua situação, mas ainda não tem coragem de tomar uma decisão, se sentia cúmplice na farsa e ele se aproveitava disto, dizendo que eles eram cúmplices numa fraude, até o dia que ele é criticado num jornal e perde as estribeiras numa festa e depois a culpa por isto, mostrando seu lado que não suporta frustrações, ser contrariado, e seu sonho megalomaníaco. Mais uma vez Margaret foge com sua filha e vai viver no Havaí. 

Ela pede o divórcio e ele a chantageia, quer os direitos sobre suas obras e mais 100 quadros ao que ela novamente cede. Sua vida é isolada, até mesmo sua melhor amiga foi afastada devido ao fato da mentira não poder ser revelada, nem mesmo no Havaí ela pode receber pessoas, pois seus quadros estão pela casa e ela está pintando para cumprir o acordo do divórcio. Somente quando certo dia ela acaba recebendo em sua casa duas mulheres que foram ali para pregar sobre sua religião é que ela começa a enxergar uma possibilidade de se libertar. E o faz, acabará levando Walter ao tribunal e onde o juiz para poder determinar a autoria decide que eles terão que pintar, ali mesmo. Obviamente Walter não consegue. Ela ganha a causa, e ele nunca se conformou dizendo sempre que os quadros são dele. 

Os quadros de crianças de olhos grandes marcaram uma época, eram encontrado em todos os lugares como Posters, cartões postais e reproduções. Keane abriu uma galeria e revolucionou a venda da arte. Quando a fraude veio a tona não causou polêmica, uma vez que os quadros não eram considerados obras de arte, mas Kitsch. 

O diretor precisou convencer Margaret a ter sua vida exposta no cinema, hoje com 88 anos. Walter Keane morreu em 2000 pobre e esquecido. Ele não era o pintor, mas era um gênio em vendas e marketing, só que desejava ser um pintor, e seu ego se apoderou, introjetou a arte de Margaret e a deixou totalmente de lado, para Walter ela era como uma fábrica, uma linha de montagem de seus quadros. 

Margaret Keane 
Margaret Keane 



Walter Keane 


Tim Burton nasceu em 1958 em Burbank, Califórnia, EUA. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FILME: INCÊNDIOS - 2010



Direção: Denis Villeneuve - 2010
Duração: 139 min
Título original: Incendies

Baseado no livro homônimo de Wajdi Mouawad. 

O melhor filme que assisti este ano.

Canadá. Nawal Marwan (Lubna Azabal) acaba de falecer e deixa com seu amigo e notário Jean (Rémy Girard) seu testamento com seus últimos desejos para seus dois filhos gêmeos, Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) que são surpreendidos por duas cartas com revelações sendo que a carta de Jeanne é a para ser entregue ao pai deles que ambos acreditavam morto e a de Simon para ser entregue ao irmão deles que ambos desconheciam ter. Ela também pede para ser enterrada sem caixão, nua, de costas com o rosto voltado para a terra e sem nenhuma lápide com seu nome, pois quem não cumpre uma promessa não tem direito a ter seu nome gravado numa pedra tumular. Após entregarem estas cartas receberão outra e também poderão colocar uma pedra tumular com seu nome. É o início de uma jornada em busca de um passado totalmente desconhecido para ambos.



Simon resiste, diz que a mãe era louca e que vai enterrá-la normalmente sem nada disto, mas Jeanne se opõe e diz que vai cumprir com os últimos desejos de sua mãe, até porque como lhe diz seu professor de matemática de quem é assistente, sem desvendar isto ela nunca terá paz de espírito para estudar a matemática pura como ela deseja. Jean diz à Simon que a morte não termina uma história, que ela continua.

Jeanne parte para o Líbano em busca de seu pai. O filme então nos trará em retrospectiva a vida de Nawal e a busca de Jeanne desvendando aos poucos tudo que aconteceu antes de Nawal partir para o Canadá com seus dois filhos.

Há cenas fortes e o desfecho é um soco no estômago, é um filme que trata do ódio, da guerra, do racismo, das divergências religiosas, mas também trata do amor e surpreende ao nos mostrar o ódioamor juntos, simultâneos, quando o amor surge na violência extrema.





Difícil falar deste filme sem se adiantar aos acontecimentos o que tiraria a possibilidade de impacto e interpretação dos que ainda não assistiram.

Há questões psicanalíticas no filme, como Édipo, que reconhecemos logo no início do filme com o nascimento da criança que é o irmão procurado e que terá seu pé marcado pela avó, mas também várias questões antropológicas e culturais, além de nos mostrar o que a guerra produz nos seres humanos, e que é algo que ninguém desejou, uma contingência que afeta a todos e muda a vida de todos sem que se possa fazer nada.



Nawal é conhecida como a mulher que canta, e isto me remeteu a um mito contado por Clarissa Pínkola Estés no livro "Mulheres que correm com os lobos" sobre a catadora de ossos e que ela canta sobre os ossos para lhes restituir a vida. Cantar é uma forma de se manter vivo, de fazer viver. Os ossos podem ser vistos como estrutura e cantar sobre a estrutura é colocar palavras. E no filme podemos associar isto ao fato da morte não terminar uma história, ela continua, ela é cantada/contada, reconstruída.





O filme nos mostra quando o drama acaba e entramos no terreno do trágico. Há algo de Édipo e de Antígona também, mas vai muito além disto, estamos na realidade, no mundo atual, nas guerras fratricidas por questões religiosas, na falta de aceitação do outro, das diferenças, onde uma vida não vale nada, mas onde uma vida pode ser tudo.
Denis Villeneuve

O Filme foi transposto para o teatro no Brasil e encenado por Marieta Severo. Felipe de Carolis assistiu ao filme e estando vivendo uma tragédia pessoal quando esperava o resultado de um exame de biópsia de linfoma ele tomou a decisão de que se morresse antes faria algo foda e no mesmo dia iniciou a cruzada para obter os direitos da peça. Ele conseguiu e também recebeu o resultado como negativo do linfoma. Por incrível que pareça, recebeu vários "nãos" de produtores e então se associou à atriz Marieta Severo, ao ator Pablo Sanábio e à produtora Maria Siman. O sucesso da peça foi estrondoso. 


Assisti recentemente a peça. Postado no blog. 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

FILME: AS INVASÕES BÁRBARAS - 2003


Direção: Denys Arcand - 2003 
Duração: 94 min 
Título Original: Les invasions barbares 

Rémy (Rémy Girard) está com câncer terminal. Encontra-se num hospital público no Canadá e vemos um cenário com corredores repletos de macas com pacientes. Sua ex-mulher liga para os filhos para dizer que é o fim, e pede ajuda a Sébastien (Stéphane Rousseau) que vive em Londres.

Sébastien vem com sua namorada. Num primeiro momento tem um desentendimento com o pai por querer levá-lo para os Estados Unidos onde poderia ter mais conforto e privacidade, seu pai lhe diz que ele lutou pela estatização e que agora tem que aguentar as consequências. Sébastien resolve ir embora, mas sua mãe lhe pede e recorda o quanto seu pai sempre lhe foi dedicado quando criança. Ele fica, mas resolve agir. Seu pai está só, e ele irá ligar para todos seus amigos. Também irá subornar a direção do hospital para que possa utilizar o segundo andar que está vazio e sem uso para poder acomodar seu pai ali onde seus amigos poderiam estar presentes. Para isto também terá que subornar o sindicato. Até aqui temos uma crítica a estatização onde as coisas continuam funcionando como sempre, mas sob outra máscara. Também vemos um homem que não está em boas relações com sua família, sua ex-mulher o deixou por suas traições e os filhos foram embora, cada um para seu lado. A filha também está longe, num barco no Pacífico.

Mas o filme não se prende à uma crítica social, muito pelo contrário. Os amigos virão e será neste convívio que veremos como a vida de Rémy foi boa. Ele ama a vida. O grupo se recorda de suas vidas, de todos os livros e intelectuais que leram, nos quais acreditaram, e como cada um foi passando, todas as ideologias nas quais acreditaram e que depois se mostraram tão ruins quanto o que havia antes, senão pior. Também lembrarão da revolução sexual e da vida livre que levavam buscando orgasmos e prazer no sexo. Mas será Rémy quem dirá que toda sua vida por um tempo ele dormia e sonhava que estava com uma atriz que ele tinha visto em algum filme ou na TV até o dia que ele acordou e percebeu que havia sonhado com o mar do Caribe. A velhice havia chegado.

Sébastien irá atrás de uma amiga de infância que é drogada para conseguir heroína para seu pai, pois isto o ajudaria a enfrentar a dor. A relação dela com Rémy a fará ver a vida de outra forma, pois ela não via sentindo nenhum na vida, viver para quê?

Rémy opta pela eutanásia e é um dos momentos mais tristes do filme, a despedida, mas como lhe disseram, no momento em que ele fechar os olhos outros milhões no mundo também estarão morrendo. A morte faz parte da vida.

Mas o que há de mais forte no filme é que apesar de toda esta aparente futilidade da vida, onde tudo aquilo em que acreditamos de repente de mostra horrível, onde não há sentido em nada, e no caso de Sébastien que vive no mundo atual pragmático, onde se corre a todo instante sem parar, e não se consegue desligar, até que sua amiga joga seu celular na fogueira, o que há de mais belo e válido são os laços afetivos, a família, os filhos e os amigos, aqueles com quem podemos contar na hora que precisamos. Rémy estava só e de repente se viu rodeado de pessoas. No filme isto ocorre num momento difícil, mas é bom prestar atenção e levar isto a sério, na vida o que é mais importante são os laços que nos unem uns aos outros.

Quanto ao título do filme o que penso é que todos estavam vivendo uma vida insignificante e de repente houve uma intrusão, uma invasão em suas vidas, e eles tiveram que se mexer e ir ao encontro de Rémy, e este por sua vez sofreu uma invasão em seu corpo com o câncer.

Denys Arcand nasceu em 1941 no Canadá 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

FILME: UN 32 AOÛT SUR TERRE - 1998


Direção: Denis Villeneuve - 1998 
Duração: 88 min 

Projeto um filme por país  País: Canadá 

Simone Prévost (Pascale Bussières) vive acelerada com seu trabalho e acelera tanto que indo para o aeroporto sofre um acidente, por adormecer no volante. Este acidente a fará repensar sua vida e a leva a pedir demissão de seu trabalho e pedir ao seu melhor amigo Philippe (Alex Martin) que faça um filho com ela que irá criar sozinha.

O problema é que Philippe é apaixonado por ela e não consegue simplesmente fazer um filho como lhe pede Simone, ele quer fazer amor. Faz 03 anos que está deprimido por causa deste amor não correspondido e não sabe o que fazer. Então sugere que o fará desde que seja num deserto. Ela aceita.

Ambos partem para Salt Lake City, mas as coisas não sairão como imaginam e Philippe escreverá uma carta para Simone dizendo sobre tudo que sente.

Simone após o acidente passa a questionar a sua mortalidade e por isto deseja um filho, que é a forma de dar continuidade a si mesmo, uma maneira que encontramos inconscientemente de alcançar a eternidade e se perpetuar. O título do filme é como uma metáfora disto, o dia 32 de agosto é o dia seguinte da sua sobrevivência ao acidente, como se tivesse tido direito a mais dias de vida. Depois o filme retorna à setembro, a realidade, onde é preciso de confrontar com a solidão, com a vida e os desejos do outro, como Philippe que a ama e não quer lhe fazer um filho para não ficar com esta lembrança que acabaria por destruí-lo, uma vez que se apegaria demais a isto para viver.

O filme é repleto do simbólico da morte. No deserto de sal, o nada, o vazio, a luz forte. Quando Simone se afasta para fazer xixi ela vê um corpo carbonizado e fica horrorizada. Quando retornam ao aeroporto o quarto que é como um túmulo, fechado, hermético, pequeno. Já para Philippe ele se transforma como numa nave espacial sem gravidade.

Um filme para refletir.

Denis Villeneuve 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

FILME: LÉOLO - PORQUE EU SONHO - 1992


Direção: Jean-Claude Lauzón - 1992 
Duração: 107 min 
Título Original: Léolo 

Leo Lauzon ou Léolo (Maxime Collin)  como ele gostava de ser chamado vive em um cortiço em Montreal em meio a sua família um tanto excêntrica, para se dizer o mínimo . Suas duas irmãs vivem mais em hospitais psiquiátricos do que em casa, seu pai tem fixação anal controlando toda a família através de seu cocô. A mãe (Ginette Reno) é uma mulher obesa e carinhosa apesar de às vezes ter atos surpreendentes como queimar vivas com água fervendo a coleção de mariposas do menino, e o irmão Fernand vive seu trauma de infância.O avô é quem é responsabilizado por tudo isto por ser portador de uma loucura hereditária.  É o próprio Leo adulto (Gilbert Sicotte) quem narra o filme lendo o que escreveu.

Para escapar de toda esta miséria Leo começa imaginando que sua mãe engravidou não de seu pai, mas sim de um tomate italiano, e por isto decide que se chama Léolo Lozone, no que não é levado a sério por ninguém.

O pai toda semana dava laxantes a todos na família e controlava o resultado esperando na porta do banheiro e depois indo conferir. Dizia que o cocô era sinal de saúde. Leo é o único que tenta escapar disto, enganando o pai escondendo o laxante e depois colocando no lugar as fezes de animais.

Seu irmão Fernand (Yves Montmarquette) levou uma surra no início de sua adolescência de um marmanjo do bairro que queria dominar a área de entrega de papéis e o medo se torna sua razão de ser. Passará o tempo se preparando, ficando forte, levantando pesos e fazendo exercícios de forma obsessiva. Porém, quando maior e já bem forte se vê novamente diante do mesmo agressor não consegue se defender e apanha e chora como uma criança, não superando o trauma, onde nada faria diferença diante do medo.

Leo cresce amando sua mãe, negando o pai, que era o tomate, odiando seu avô que tentou afogá-lo numa piscina de crianças, e gostando muito de seus irmãos. Ele se refugiava lendo o único livro que havia na casa " L'avalée des avalés" de Réjean Ducharme e escrevia sem parar. Ele criou um mundo para ele, imaginário, onde havia Bianca uma descendente de italianos que nunca esteve na Itália e vivia no cortiço cantando enquanto pendurava as roupas para secar. Ele a via cantando para ele, e ela se torna seu único amor.

Ele irá passar por toda descoberta da sexualidade de forma precária, sem informações, diz que tinha um rabo mas que não sabia como se chamava e que ninguém o dizia, desconfiava que ninguém tinha nome para isto. Como todo garoto ele irá espiar e será Bianca até descobrir que seu avô tem algo com ela e isto o levará a tentar matá-lo. Ele se masturba usando carnes que sua mãe comprava e depois terá sua primeira experiência com uma prostituta.

Ele sempre lia a frase do livro : Porque eu sonho, eu não sou. E um dia dirá: porque tive medo de amar, não sonho mais. Tem um surto e irá para o Hospital sendo tratado com remédios e banhos gelados.

O filme não trabalha apenas com este lado da insanidade e problemas mentais, mas ele também reflete muito da pobreza local. A todo instante vemos ratos, casas feias e podres, o cobertor furado, os meninos pegam papel para vender, Leo vasculha o fundo do rio imundo onde há até cachorros mortos, para conseguir algo para vender e conseguir comprar uma bicicleta. Quando ele sonha ele se afasta desta dura realidade, o que vemos são belos campos verdes e floridos, imagens da Itália, um lugar bonito. Ele usa sua imaginação para lidar com este real, para de alguma forma construir algo mais belo. Ele não é quando sonha, ele está em outro mundo, e no dia que ele deixa de sonhar ele cai em sua realidade que não é a Itália, nem sua Bianca, mas esta família e a pobreza. Como seria possível sonhar neste mundo em que ele vivia?

Na escola ninguém está preocupado em formar futuros, mas apenas em sobreviver ali, como diz o professor, minha especialidade não é o francês, é o judô. Ele dá aulas para futuros operários, que nunca passarão disto.

Como viver uma infância num contexto destes? mesmo os adultos? Cada um lida com isto como pode. A irmã diz que lhe roubaram seu bebê, mas o que será que ela teve de realmente roubado dela? a outra se veste de rainha num mundo de insetos, como se quisesse se diferenciar de tudo aquilo, o irmão com seu trauma, o pai e sua obsessão, e Leo vive em outro mundo o que lhe permite sobreviver a tudo isto.


Jean-Claude Lauzon nasceu em 1953 em Quebec, Canadá e faleceu em 1997 em um acidente de avião. Léolo foi seu último filme. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

FILME: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - 2008


Direção: Fernando Meirelles - 2008
Duração: 120 min
Título original: Blindness 

Baseado no romance homônimo de José Saramago

Aos poucos uma estranha cegueira chamada "cegueira branca" por deixar as pessoas vendo apenas uma superfície leitosa vai tomando conta de todos os moradores de uma cidade. Inicia com um motorista no trânsito e vai avançando e se espalhando.

O medo toma conta, a paranoia e começam a isolar as pessoas afetadas que acabam sendo deixadas à própria sorte. Porém, uma única mulher (Julianne Moore), esposa do médico oftalmologista (Mark Rufallo) não fica cega, mas para não deixar seu marido sozinho, ela finge estar cega.

Ao se darem conta que estão abandonados os internos começam a lutar por suas necessidades básicas, e os piores instintos e pulsões irão aparecer. As máscaras civilizatórias caem, e tudo aquilo que uma cultura e educação reprime surge. Um dos internos se proclama rei e é ajudado pelo único ali que é realmente cego, irão exigir dos outros que seus desejos sejam realizados.

A cegueira branca, ou seja, o que não enxergamos na vida, ou o que não queremos enxergar, o pior de cada um de nós que só vemos no outro. A mulher que enxerga ainda é uma representante da luz, da civilização, mas até ela, ao ver o que não quer sucumbe. É preciso reaprender a viver, a enxergar as coisas como elas são e não como desejamos que sejam.

É um viver sem moral o que acontece no sanatório, mas é justamente quando se defrontam com o real é que surge a possibilidade de reconstruir algo. Talvez seja otimismo demais, mas não deixa de ser uma tentativa.


A reação de Saramago ao filme 

Fernando Meirelles nasceu em 1955 em São Paulo, Capital. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

FILME: O HOMEM DUPLICADO - ENEMY - 2014


Direção: Denis Villeneuve - 2014 
Duração: 90 min 
Título original: Enemy 
Roteiro: Javier Gullón
País: Canadá - Espanha 

Baseado no livro O Homem duplicado de José Saramago 

Não li o livro e vou fazer uma interpretação deste filme que talvez não seja condizente com outras opiniões e visões, mas prefiro falar o que eu senti e percebi no filme.

O protagonista é interpretado por Jake Gyllenhall. Adam é um professor de história que passa por uma crise e está deprimido. Suas aulas falam de ditadura e da eterna repetição de tudo. Logo no início do filme temos uma visão da cidade onde ele mora, poucas cores, algo claustrofóbico. Seu celular toca e é sua mãe (Isabella Rossellini) que diz que está preocupada com ele por morar ali sozinho, que quer reatar com ele. Ele não atende.

Ao seguir uma dica de um colega ele acaba assistindo um filme para se distrair, e é ali que verá seu sósia. Ficará obcecado com isto e irá atrás deste outro. A primeira coisa que pensei foi: como é difícil enxergar a si mesmo no outro.

Ele tem uma namorada (Mélanie Laurent), mas que sempre vai embora, não fica ali com ele, mesmo ele morando sozinho. No início do filme vemos uma mulher grávida e depois vários homens voyeurs vendo uma encenação erótica. Adam encontra seu sócia Anthony. Um ator de pouca relevância que vive com sua esposa grávida. Os dois irão se encontrar, mas antes disto a mulher de Anthony, Helen (Sarah Gadon)  o vê na faculdade. Ela está enciumada, e quer que o marido se afaste de uma amante.



Aparece novamente a cidade e agora com uma imensa aranha sobre ela, uma referência à aranha Maman de Louise Bourgeois? nada é dito no filme, mas de imediato foi o que pensei, me remetendo também à Louise Bourgeois: a aranha, a amante e a tangerina.



Adam irá se encontrar com sua mãe e lhe fala disto, ela lhe responde que ele é seu único filho, ela é sua única mãe e acrescenta que é para ele deixar de querer ser um ator de terceira categoria.

Adam e Anthony trocarão de lugar por imposição deste último que então se veste com as roupas de Adam, pega seu carro e vai buscar sua namorada para um passeio romântico. Adam vai para o apartamento de Anthony. A namorada de Adam verá uma marca de aliança no dedo de Anthony que diz que sempre esteve ali e ela diz que não, eles saem, discutem, um acidente de carro e morrem os dois. Adam fica no apartamento com a mulher grávida que lhe pergunta como foi na faculdade. No dia seguinte ele abre a carta que era para Anthony, confidencial, e dentro tem a nova chave para o local onde se passam as encenações eróticas. Ele pergunta à esposa se quer fazer algo à noite, porque ele precisa sair, ela não responde e ele vai até o quarto, na cama uma imensa aranha.

Adam e Anthony são a mesma pessoa, um duplo, aquele que faz tudo que o outro deseja fazer mas não consegue por estar preso na teia de aranha de sua mãe, o retorno do desejo de Bourgeois, onde a mãe é a desejada mas proibida, a mulher grávida, mãe. Ele não consegue se relacionar com uma mulher, a namorada que parte, que descobre que ele é casado, mas não com outra mulher. A mãe protetora mas também a que sufoca o desejo, que não o liberta para viver sua vida e seu desejo. O duplo que temos em nós, aquilo que sonhamos e desejamos e não podemos fazer por estarmos presos de alguma forma dentro de um contexto social, mas também preso ao desejo do outro.



O duplo é um reflexo de si mesmo, mas nem sempre pelo lado que amamos, a questão é quando este duplo nos assusta, é nosso lado perverso, é o lado que queremos negar, que não suportamos, o inimigo, um estranho familiar que nos apavora.

A questão que fica é se aquela aranha na cama irá impedi-lo de sair ou não. Ele poderá finalmente viver sua sexualidade? assumir seu desejo? ou continuará sendo o pacato, metódico e deprimido professor?

Um filme que causa um mal estar que leva à reflexão sobre o que fazemos de nós mesmos, e onde estamos presos. Como a frase inicial do filme o caos está onde ainda não se colocou ordem.


Denis Villeneuve nasceu em 1967 em Québec, Canadá.

Trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans