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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

QUANDO ATÉ O AFETO É ATRAVESSADO PELA FOME

 

VIDAS SECAS

GRACILIANO RAMOS

RECORD - 1984

155 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE

Vidas Secas é um daqueles livros lidos na juventude que permanecem como imagem, quase como cicatriz. No meu caso, o que ficou de forma mais nítida foi a morte de Baleia. Não apenas por ser uma cadela, mas porque Graciliano Ramos consegue concentrar nela uma humanidade que, ao longo do livro, vai sendo arrancada dos próprios personagens humanos. Baleia sonha, sente, imagina um mundo melhor, algo que a seca, a fome e a miséria já haviam tornado quase impossível para Fabiano, Sinhá Vitória e os filhos.

A seca não é apenas um fenômeno natural no romance; ela é estrutura de vida, destino imposto, força que empurra à migração, ao deslocamento contínuo, à perda de qualquer possibilidade de enraizamento. A família caminha, trabalha, foge, retorna, sempre sem escolha. A migração não é aventura, é expulsão. O sertão não aparece como espaço mítico, mas como lugar de sobrevivência mínima, onde o tempo se repete sem promessa.

O que impressiona em Vidas Secas é a linguagem seca, contida, quase árida, que acompanha a experiência dos personagens. Há pouco espaço para elaboração emocional, porque a própria vida não oferece esse espaço. A violência é cotidiana, a humilhação é naturalizada, o silêncio é uma forma de existência. Graciliano escreve como quem retira tudo o que é excesso, deixando apenas o essencial — e o essencial é duro.

Mesmo lido muito jovem, o livro já se impõe como denúncia. Não há heroísmo, não há redenção. Há apenas a exposição de um Brasil que empurra seus habitantes para fora de si mesmos. A morte de Baleia, tão lembrada, talvez seja o momento mais doloroso justamente porque revela o quanto a sensibilidade ainda resiste ali, mesmo em condições extremas.

Voltar a Vidas Secas hoje é perceber que ele continua atual. A seca, a migração forçada, a pobreza estrutural, o deslocamento de populações inteiras seguem presentes. O romance permanece como um espelho incômodo, que nos obriga a perguntar até que ponto essa história realmente ficou no passado — ou se seguimos, de outras formas, caminhando sob o mesmo sol.


Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 


A VIOLÊNCIA FRIA DO PODER E O SILENCIAMENTO FEMININO

 

SÃO BERNARDO

GRACILIANO RAMOS

RECORD – 109ª ED. – 2019

288 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


São Bernardo é um romance que permanece na memória não pelos acontecimentos espetaculares, mas pela atmosfera de secura que atravessa tudo: a linguagem, as relações, os afetos. Lido ainda na juventude, o que mais me marcou foi a situação da mulher de Paulo Honório: a maneira como ela é tratada com frieza, desconfiança e progressivo apagamento, num ambiente onde o poder masculino se exerce como posse.

Paulo Honório é um personagem árido, endurecido pela ambição e pela lógica da propriedade. Tudo para ele é cálculo, domínio, resultado. Essa forma de estar no mundo se estende à relação conjugal: a mulher não é parceira, mas parte do patrimônio, algo que deve obedecer, se ajustar, permanecer silencioso. O amor, se existe, aparece deformado pela incapacidade de lidar com o outro como alteridade.

A violência em São Bernardo não é estridente. Ela se manifesta no controle, na vigilância, no ciúme paranoico, na redução da mulher a um objeto suspeito. A aridez do personagem masculino é também emocional: Paulo Honório não sabe escutar, não sabe compartilhar, não sabe amar sem dominar. E é justamente essa incapacidade que conduz à destruição do vínculo e à tragédia.

A figura da esposa — intelectual, sensível, deslocada naquele universo — funciona como contraste absoluto. Ela representa tudo o que Paulo Honório não compreende e não tolera: pensamento, dúvida, palavra, autonomia. Seu sofrimento não é apenas individual, mas estrutural: é o sofrimento de uma mulher inserida em um mundo moldado por homens para homens, onde não há espaço para fragilidade, reflexão ou dissenso.

Reler São Bernardo hoje é perceber o quanto Graciliano Ramos constrói uma crítica profunda às formas masculinas de poder. O romance não absolve seu narrador. Ao contrário, deixa exposta a pobreza afetiva de um homem que conquistou tudo, menos a capacidade de se relacionar sem destruir.

Talvez seja isso que torna o livro tão incômodo e tão atual: ele mostra que a violência não está apenas nos gestos brutais, mas também, e sobretudo, na frieza cotidiana, na lógica da posse e no silenciamento sistemático das mulheres.

Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 




O CIÚME COMO NARRATIVA E A CONDENAÇÃO SEM PROVA


 

DOM CASMURRO

MACHADO DE ASSIS

PRINCIPIS – 2019

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS

208 páginas


Dom Casmurro é um romance sobre o ciúme, mas, sobretudo, sobre o poder de quem narra. Lido há muito tempo, o que permanece é menos a dúvida sobre Capitu e mais a certeza da insegurança de Bentinho. Para mim, Capitu não traiu. O que existe ali é a imaginação de um homem incapaz de lidar com o amor sem posse.

Bentinho narra a própria história tentando convencer o leitor, e talvez a si mesmo, de que foi traído. Mas o romance inteiro se constrói sobre indícios frágeis, suposições, interpretações enviesadas, leituras paranoicas de gestos e olhares. Capitu é condenada sem prova, julgada sem defesa, silenciada sem possibilidade de resposta. Tudo passa pelo filtro de uma subjetividade ressentida.

O ciúme em Dom Casmurro não nasce de fatos, mas da insegurança. Bentinho projeta em Capitu seus medos, suas dúvidas, sua fragilidade emocional. Ele não confia nela porque não confia em si. O olhar de Capitu — famoso, enigmático, “de ressaca” — torna-se ameaça justamente porque ele não suporta a autonomia do outro.

Machado de Assis constrói uma obra-prima ao transformar o narrador em personagem pouco confiável. O leitor atento percebe as fissuras do discurso, as contradições, o esforço excessivo de convencer. A narrativa não busca a verdade objetiva dos acontecimentos, mas revela o funcionamento do ciúme: como ele reorganiza a memória, distorce o passado e cria uma lógica própria.

Capitu, por sua vez, é uma personagem de força silenciosa. Inteligente, observadora, estrategista em um mundo que não lhe oferece espaço de fala, ela incomoda exatamente por não ser transparente. E talvez seja isso que Bentinho não perdoe: Capitu pensa, decide, age, e ele não a controla.

Dom Casmurro não é um romance sobre adultério. É um romance sobre a construção da culpa. A tragédia não está na traição, que jamais se comprova, mas na incapacidade de Bentinho de amar sem vigiar, sem suspeitar, sem reduzir o outro a uma extensão de si.

Reler Machado hoje é perceber o quanto ele antecipa discussões profundamente contemporâneas: gaslighting, narrativas de poder, silenciamento feminino. Capitu não precisa ser inocentada — porque talvez nunca tenha sido culpada. O verdadeiro réu sempre foi Bentinho, e o tribunal é a própria linguagem.


Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e faleceu na mesma cidade em 1908. Foi um escritor brasileiro. 


INFÂNCIA, POBREZA E ESCÂNDALO MORAL


 

CAPITÃES DA AREIA

JORGE AMADO

COMPANHIA DE BOLSO – 2009

280 páginas

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Ler Capitães da Areia muito jovem é uma experiência que não se esquece. Talvez porque Jorge Amado não escreva sobre a infância a partir da nostalgia, mas a partir da rua, da fome, da violência e da liberdade brutal que marca a vida dos meninos e meninas abandonados de Salvador. O livro revela um Brasil que prefere não ver: crianças vivendo à margem, organizadas em bandos, sobrevivendo entre pequenos furtos, afetos precários e uma relação dura com a cidade.

O que mais me marcou à época foi justamente essa revelação da pobreza infantil não como exceção, mas como estrutura. Jorge Amado não romantiza completamente esses meninos, embora haja ternura, ele os insere em um sistema social que os produz e depois os condena. A violência não surge do nada, ela é resposta, defesa, aprendizado precoce.

Há também um segundo impacto, inseparável da idade em que li o livro: a presença de uma cena de sexo envolvendo personagens muito jovens. Algo que causa polêmica até hoje e talvez por isso mesmo continue sendo um ponto sensível da obra. Na época, o choque não vinha apenas do conteúdo, mas do fato de que o livro desmontava a imagem idealizada da infância como espaço de pureza e proteção. Em Capitães da Areia, a infância é atravessada pelo desejo, pela exploração, pela falta de escolha.

Essa cena, tantas vezes isolada em debates morais, só faz sentido dentro do universo que o livro constrói: um mundo onde não há mediação adulta cuidadora, onde o corpo também é um território exposto. A polêmica persiste porque o livro obriga o leitor a encarar uma pergunta incômoda: o que a sociedade faz com suas crianças antes de julgá-las?

Reler Capitães da Areia hoje, mesmo à distância da leitura original, é perceber que o romance não envelheceu. A pobreza infantil, a criminalização da juventude pobre, o desconforto diante de corpos jovens fora do controle moral continua presente. O escândalo, talvez, nunca tenha sido o livro — mas a realidade que ele insiste em mostrar.


Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 1912 e faleceu em Salvador em 2001.Foi um escritor brasileiro. 


Um Certo Capitão Rodrigo — sedução, liberdade e a força de Bibiana


 

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS - 2005

192 páginas

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Um Certo Capitão Rodrigo é um daqueles livros que a gente guarda com afeto. Há nele uma vibração diferente, mais viva, mais solar, marcada pela figura carismática de Rodrigo Cambará — conquistador, andarilho, provocador das normas — e, sobretudo, pela presença firme de Bibiana, que não se deixa apagar pelo brilho masculino.

Rodrigo entra na narrativa como quem entra numa cidade: anunciando-se, ocupando espaço, desafiando regras. Seu jeito sedutor, livre, quase teatral, faz dele uma figura magnética. Mas Érico Veríssimo não constrói um herói simples. O mesmo impulso que encanta também desestabiliza; a mesma liberdade que seduz traz insegurança e conflito. Rodrigo é movimento, enquanto a vida exige permanência.

É Bibiana, porém, quem sustenta a densidade do romance. Sua força não é estridente, mas sólida. Ela ama, escolhe, enfrenta a família, aceita o risco de se unir a um homem que não se encaixa. Bibiana não é ingênua diante do temperamento de Rodrigo; ela sabe com quem está lidando e, ainda assim, decide. Há nela uma autonomia rara para personagens femininas de romances históricos: não é prêmio, não é sombra, não é apêndice.

A relação entre Bibiana e Rodrigo se constrói nesse contraste: ele, o conquistador, o que passa; ela, a que fica, a que sustenta, a que transforma a instabilidade em vida possível. Enquanto Rodrigo se move pelo mundo, Bibiana cria raízes. E é nessa diferença que se revela sua força maior.

Lido na juventude, o romance encanta pela aventura e pelo carisma do Capitão Rodrigo. Lido mais tarde, ele revela algo mais profundo: a história de uma mulher que escolhe amar sem se dissolver no outro. Bibiana não perde a si mesma na relação; ao contrário, afirma-se dentro dela.

Talvez seja por isso que Um Certo Capitão Rodrigo permaneça tão querido. Não apenas pelo charme do personagem masculino, mas porque, por trás dele, há uma mulher que sustenta a narrativa com firmeza, coragem e presença. Sem Bibiana, Rodrigo seria apenas passagem. Com ela, a história permanece.



Ana Terra — fundação violenta, amor interditado e a força que permanece


ANA TERRA

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2025

112 páginas 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE 

Ana Terra é uma dessas personagens que ficam. Mesmo quando os detalhes da trama se embaralham com o tempo, o que permanece é a imagem de uma mulher forte, atravessada pela violência da fundação do Brasil, sobrevivendo onde tudo parece conspirar contra ela. O que me marcou na leitura foi justamente isso: a força de Ana, o amor vivido com o indígena e a brutalidade com que esse amor é interrompido.

Ana vive em um território de fronteira — geográfica e simbólica. A terra ainda não é “Brasil” no sentido pleno, é espaço de disputa, de violência, de apagamento. Seu amor com o indígena (Pedro Missioneiro) carrega essa tensão desde o início: não é apenas um amor proibido no plano familiar, mas um amor impossível dentro da lógica colonial. Ele representa o outro que deve ser eliminado, não apenas rejeitado.

A morte do indígena — assassinato cometido pelos homens da família — é um dos momentos mais duros da narrativa. Não se trata apenas de um crime passional ou moral, mas de um gesto fundador: o patriarcado e o colonialismo se afirmam juntos, eliminando o corpo indígena e silenciando o desejo feminino. Ana não é consultada, não é escutada, não é considerada. Seu amor é tratado como desvio, vergonha, ameaça.

E, ainda assim, ela permanece. Violentada pela história, pela família, pelas condições materiais, Ana Terra não desaparece. Ela cria o filho, sustenta a vida, atravessa o tempo. Sua força não é heroica no sentido épico, mas resistente, silenciosa, cotidiana. É a força das mulheres que ficam quando os homens matam, partem ou morrem.

É impossível não ler Ana Terra como uma metáfora da própria formação do sul do Brasil, uma formação marcada pela expulsão dos indígenas, pela dominação masculina e pela naturalização da violência como método de organização social. Ana carrega no corpo e na memória essa história, tornando-se uma espécie de testemunha involuntária da fundação do mundo que virá depois.

Reler Ana Terra pela lembrança é perceber que Érico Veríssimo construiu ali uma personagem que escapa do tempo. Ana não é apenas uma mulher forte; ela é o ponto de tensão entre amor e violência, entre vida e morte, entre o que poderia ter sido e o que foi imposto. E talvez seja por isso que ela continue sendo lembrada — não como figura dócil, mas como presença que resiste à tentativa de apagamento.



sábado, 7 de fevereiro de 2026

RACISMO ESTRUTURAL, SISTEMA DE COTAS E PERMANÊNCIA UNIVERSITÁRIA

 


DE ONDE ELES VÊM

JEFERSON TENÓRIO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2024

208 páginas 


Joaquim é um jovem negro que teve uma infância marcada pela pobreza. Criado pela avó após a morte da mãe, ainda doente, ele precisa cuidar dela com a ajuda de uma tia. Apaixonado pela literatura, realiza um de seus maiores desejos ao ingressar na universidade por meio do sistema de cotas.

Acompanhamos Joaquim durante esses anos de formação. O sistema de cotas aparece como o que ele é: uma medida de justiça social. No entanto, a entrada na universidade não o poupa dos preconceitos estruturais da sociedade brasileira. As diferenças permanecem visíveis e, quando o racismo não se manifesta de forma explícita, surge sob a forma da condescendência, da compaixão, do olhar que não reconhece o outro como igual. Joaquim sente isso profundamente.

Além disso, a universidade não está preparada para acolher esses estudantes — nem institucionalmente, nem pedagogicamente. Professores despreparados, ausência de políticas de permanência, falta de compreensão das realidades sociais dos alunos. Cabe ao estudante “se virar”: buscar livros, tempo para estudar, condições mínimas para permanecer.

Joaquim mora longe, muitas vezes não tem dinheiro sequer para o ônibus ou para se alimentar. Precisa cuidar da avó e não compartilha da mesma vida de seus colegas, que vão a festas, têm carro próprio ou são buscados por motoristas. Ele vive da pensão da avó, mas sabe que precisaria trabalhar — o que significaria abandonar a universidade, já que o curso é diurno.

Nesse contexto, Joaquim não consegue sustentar o sonho de ser escritor como força organizadora de sua vida. Afoga suas frustrações no bar, nos encontros com amigos, na relação com a namorada branca, de classe social mais alta, que não consegue compreendê-lo — ao contrário da ex-namorada, negra e cotista, que partilhava de seu universo.

Há um momento emblemático: Joaquim precisa ler Ulisses, de James Joyce. A pergunta se impõe quase naturalmente: se mesmo leitores com formação sólida encontram dificuldades diante dessa obra, o que acontece com jovens da periferia, vindos de escolas públicas, que trabalham, cuidam da família e enfrentam o racismo cotidiano? A universidade propõe igualdade, mas ignora a equidade.

O romance evidencia o paradoxo do sistema de cotas: ele é justo e necessário ao permitir que negros, indígenas e estudantes pobres ingressem na universidade, mas falha ao não estruturar a permanência desses alunos. São os próprios cotistas que se organizam, se mobilizam e, aos poucos, forçam transformações no espaço universitário. Ainda assim, a sociedade insiste em atacar um sistema que é, antes de tudo, um direito.

Ao mesmo tempo, o livro provoca desconforto — e isso é importante dizer. Joaquim é um personagem que incomoda. Ser negro e pobre não justifica todas as suas escolhas. Usar o dinheiro da pensão da avó doente para beber ou frequentar prostíbulos, ainda que como forma de aliviar a dor, revela irresponsabilidade. Ficar sem dinheiro para o transporte porque gastou com bebida é uma escolha problemática. Outros estudantes negros, cotistas, enfrentam situações semelhantes e conseguem seguir, se formar, provar mais uma vez sua capacidade.

Mas talvez seja justamente aí que reside a força do romance. Joaquim não é um herói. É um ser humano, atravessado por falhas, fragilidades e contradições. O livro recusa a idealização do jovem negro como símbolo de superação permanente. Ele reage ao mundo que o violenta — muitas vezes da pior maneira possível. E isso também é real.

De onde eles vêm nos obriga a pensar não apenas nas estruturas injustas, mas também nos limites humanos diante delas. Joaquim precisará crescer, e esse processo se dá ao longo da narrativa — um desfecho que não cabe aqui relatar, para não antecipar o final do livro.



Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro em 1977. É doutor em teoria literária pela PUC-RS e escritor.


UM ROMANCE SOBRE OS LIMITES DA CIVILIZAÇÃO

 


NADA MAIS SERÁ COMO ANTES

MIGUEL NICOLELIS

PLANETA MINOTAURO – 1ª – 2024

512 páginas 

Miguel Nicolelis é conhecido sobretudo como cientista. Sua obra, até aqui, sempre esteve ligada à divulgação científica, às neurociências e à reflexão sobre os limites e as responsabilidades da ciência contemporânea. Em Nada mais será como antes, ele faz um deslocamento significativo: decide escrever um romance de ficção científica. A motivação, segundo o próprio autor relata em entrevistas, nasce de um dilema muito concreto — como alcançar um público mais amplo para falar dos perigos reais que ameaçam nossa civilização.

A aposta na ficção não significa fuga da realidade. Pelo contrário. O romance se constrói a partir de fatos históricos, personagens reais e outros ficcionais, mas o que está em jogo não é a imaginação livre, e sim a tradução narrativa de diagnósticos científicos bastante precisos. A ficção funciona aqui como estratégia de comunicação e como dispositivo de alerta.

A trama se organiza em torno de dois personagens centrais — um matemático e uma neurocientista — que conduzem o leitor por aquilo que a ciência efetivamente sabe sobre o presente e sobre os riscos que se acumulam no horizonte. Embora o cenário seja projetado no futuro, o reconhecimento é imediato: muitos dos elementos descritos já fazem parte do nosso cotidiano, enquanto outros estão em processo de gestação e podem ter consequências profundamente destrutivas para a humanidade.

O romance é bem construído e mantém o interesse do início ao fim. A narrativa se desloca por diferentes espaços — Suíça, Egito antigo e contemporâneo, São Paulo, Estados Unidos, Amazônia — compondo um mosaico global que reforça a ideia de interdependência planetária. Nada acontece de forma isolada: crises ambientais, decisões financeiras, avanços tecnológicos e colapsos éticos se entrelaçam.

Entre os temas abordados estão o meio ambiente, a inteligência artificial, o mercado financeiro e, de maneira mais profunda, questões filosóficas como ética, moral, vida e morte. Nicolelis não oferece respostas fáceis nem soluções messiânicas. O que ele propõe é um exercício de lucidez: reconhecer que o conhecimento científico já aponta limites claros e que a insistência em ignorá-los pode nos conduzir a um ponto de não retorno.

Nada mais será como antes é, acima de tudo, um livro de advertência. Ao recorrer à ficção, Nicolelis amplia o alcance de uma mensagem que há muito circula nos meios científicos, mas raramente atravessa o debate público com a urgência necessária. Trata-se de uma leitura envolvente, inquietante e necessária — daquelas que não se encerram na última página, mas continuam ecoando depois.



Miguel Nicolelis nasceu em São Paulo em 1961. É um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro amplamente reconhecido como como  um dos pioneiros mundiais no campo das interface cérebro-computador e das neuropróteses. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTRE O MITO E A EXPLORAÇÃO: A VIDA NAS FAZENDAS DO VALE

 


ÁGUA FUNDA

RUTH GUIMARÃES

EDITORA 34 – 1ª – 2018

200 páginas 

A leitura de Água Funda veio logo após Torto Arado, e a aproximação entre os dois livros é inevitável. Ambos são fundamentais para compreender a vida nas fazendas brasileiras a partir do ponto de vista de quem trabalha a terra — e não dos fazendeiros, de suas famílias ou da narrativa oficial que sempre lhes deu centralidade.

Ruth Guimarães nos conduz ao Vale do Paraíba, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e ali reconstrói o cotidiano caipira da região, marcado pela herança do café e pela presença de ex-escravizados lançados à própria sorte após a abolição. Não se trata de uma paisagem idílica, mas de um mundo atravessado por precariedade, hierarquias rígidas e permanências coloniais.

Há, nesse romance, uma dimensão de reconhecimento. Para quem viveu ou conviveu com essa região, a linguagem, as crenças, as comidas e o modo de vida do caboclo reaparecem com familiaridade. Ruth Guimarães escreve a partir da escuta: a fala não é caricata nem forçada, mas orgânica, próxima da oralidade que ela própria conheceu.

Muitas leituras classificam Água Funda como literatura fantástica. Essa rotulação, no entanto, empobrece o livro. O que aparece aqui é cultura, folclore e sistema de crenças, aquilo que, como lembra Itamar Vieira Junior, talvez devesse ser chamado simplesmente de religião. O caboclo acredita em assombração, praga, maldição, encantamento. A Mãe de Ouro, a Mãe d’Água, a Iara, a sereia: essas figuras não surgem como exotismo, mas como parte constitutiva da vida cotidiana e da forma como o mundo é interpretado.

O romance se organiza em torno de duas narrativas centrais: a de Sinhá Carolina e a de Joca. Este último é enfeitiçado pela Mãe de Ouro, num encantamento que ecoa o mito das sereias que arrastam os homens para o fundo do mar. No seu caso, o deboche e a irreverência acionam a praga — embora o feitiço já estivesse, de algum modo, em curso. O sobrenatural não rompe a realidade: ele a aprofunda.

Ruth Guimarães não romantiza a pobreza, mas tampouco faz dela espetáculo. Há alegria possível, afetos, pequenas felicidades. Ainda assim, o livro carrega uma denúncia clara: o recrutamento de trabalhadores para o sertão, seduzidos por promessas de ganho maior, que se revelam armadilhas brutais. Ali, são tratados pior do que escravizados. Não é um tema encerrado no passado — basta lembrar que o trabalho análogo à escravidão ainda persiste nas fazendas brasileiras.

Água Funda é também a história do próprio Vale do Paraíba e de suas transformações: das fazendas dos coronéis à chegada das grandes companhias, mudanças que pouco ou nada alteraram a vida dos trabalhadores. A exploração permanece, apenas muda de nome.

Ruth Guimarães nos entrega, assim, um livro belíssimo e necessário sobre esse povo das fazendas e das pequenas cidades do Vale — um retrato atento, sem exotização, que inscreve suas vidas, crenças e sofrimentos no centro da literatura brasileira.



Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista em 1920 e faleceu na mesma localidade em 2014. Foi poetisa, contista, cronista, tradutora e romancista.

QUANDO A MEMÓRIA DAS MULHERES NEGRAS REVELA A HISTÓRIA QUE O BRASIL INSISTE EM ESQUECER

 


ÁGUA DE BARRELA

ELIANA ALVEZ CRUZ

MALÊ – 5ª ED. – 2018.

322 páginas 

Água de Barrela é um livro de fôlego e de memória. A partir da história das mulheres de sua própria família, Eliana Alves Cruz constrói um relato poderoso da experiência negra no Brasil, atravessando cerca de 150 anos de história — do tráfico negreiro ilegal, já proibido por lei, passando pela Lei do Ventre Livre, pela abolição formal com a Lei Áurea, até alcançar o presente.

O que se revela nesse percurso é menos uma narrativa de superação e mais uma exposição crua daquilo que nunca foi realmente interrompido: a violência estrutural, o abandono do Estado, a negação sistemática da cidadania plena à população negra. Trazidos à força, explorados até o limite, libertos apenas no papel, os corpos negros seguem sendo empurrados para as margens, sem que lhes seja garantido um lugar de igualdade na sociedade brasileira.

Mas Água de Barrela é, sobretudo, um livro sobre mulheres. Mulheres negras que sustentaram famílias, memórias e afetos em meio à precariedade extrema. Há aqui dignidade, força e determinação, não como virtudes romantizadas, mas como estratégias de sobrevivência. As dores, as perdas e as humilhações encontram respiro nas rodas de samba, no candomblé, na palavra compartilhada, nos rituais que mantêm viva a possibilidade de sentido e esperança.

O romance expõe, com clareza incômoda, o funcionamento do racismo cotidiano e estrutural, revelando também o comportamento da elite branca frente à população negra: a naturalização da desigualdade, o distanciamento moral, a herança não elaborada da escravidão. Esse contraste aparece de forma contundente na oposição entre a família Tosta — ligada historicamente à posse de pessoas escravizadas — e a família de Damiana, cuja trajetória é narrada a partir de seu centenário, contado pela bisneta, a própria autora.

Ao entrelaçar essas histórias, Eliana Alves Cruz não apenas recupera memórias silenciadas, mas desmonta a ideia de que o passado escravista é algo distante. Água de Barrela mostra que a história das mulheres negras é também a história do Brasil — uma história ainda em disputa, ainda ferida, ainda exigindo escuta e responsabilidade.



Eliana Alvez Cruz nasceu no Rio de Janeiro em 1966. É uma escritora e jornalista brasileira. 

ENTRE A FACA, A TERRA E OS ENCANTADOS: NARRAR A HISTÓRIA PELO OLHAR DAS MULHERES

 


TORTO ARADO

ITAMAR VIEIRA JUNIOR

TODAVIA – 1ª ED. – 2019

264 páginas 

Torto Arado é talvez o livro mais comentado dos últimos tempos e, de fato, é um livro surpreendente.

O relato trata da vida dos pós-escravizados que, apesar da Lei Áurea, em 1888, que os libertou formalmente da escravidão, não tiveram garantido nenhum cuidado com seu destino, suas possibilidades de sobrevivência e, menos ainda, com sua inclusão na sociedade como pessoas livres. Isso repercute até os dias atuais, produzindo preconceitos, racismo e indiferença à situação de muitos negros e negras.

Analfabetos, não encontravam emprego, não tinham onde morar. Muitos permaneceram nas fazendas onde já viviam e continuaram a trabalhar no mesmo sistema, ou seja, sem receber nada. Outros partiram e acabaram pedindo morada em fazendas: solicitavam um lugar para ter teto e comida e, em troca disso — que deveria ser um direito básico — trabalhavam de sol a sol, seis dias por semana. Apenas no domingo podiam cuidar de sua própria horta. Durante a semana, eram as mulheres que realizavam esse trabalho.

As casas só eram permitidas se fossem de barro, pois se desmancham com o tempo; as de alvenaria poderiam ser questionadas como propriedade. Os armazéns das fazendas, com preços abusivos, obrigavam a maioria a comprar ali mesmo, perpetuando a dependência.

Muitos romances já retrataram a miséria, as tristezas e as dificuldades do sertão, dos pobres, dos negros e das negras. No entanto, Itamar Vieira Junior traz um diferencial fundamental: quem fala são as mulheres. E ele, sendo homem, consegue falar pela voz feminina, consegue escrever pelo feminino.

Há ainda outro ponto importante: não há ideologia explícita, não é militância, e eu nem chamaria de literatura engajada, apesar da denúncia implícita. Trata-se do dia a dia dessas pessoas, narrado pelo viés feminino.

O livro é dividido em três partes: na primeira, quem fala é Bibiana; na segunda, Belonísia; e, na terceira, Santa Rita Pescadeira. Mas temos também Salu, Miúda, Donana e várias outras personagens. Um objeto atravessa toda a narrativa e traça a linha do romance: uma faca de prata com cabo de marfim, pertencente a Donana, a avó, que logo no início é o centro de um acidente que marcará para sempre a vida de Bibiana e Belonísia, duas irmãs.

Além desses personagens, há os encantados, entidades do jarê, religião encontrada na Chapada Diamantina, que muito se assemelha à Umbanda. O pai das meninas é curador, e a avó e a mãe são parteiras.

A ligação com a terra é profunda, seja no campo do alimento, das curas e dos remédios, seja, mais tarde, na luta pelo direito à terra. O livro é muito mais ecológico do que muita “ecologia” que vemos por aí — inclusive quando retrata a chegada de um novo dono da fazenda que se diz ecológico.

Forma-se um amplo painel da vida nas fazendas deste Brasil que ainda persiste e que permanece desconhecido do olhar urbano: seus rituais, crenças, comidas, dificuldades, miséria, mas também as alegrias, as festas, os laços de parentesco não sanguíneos que se criam, o compadrio. É a vida das mulheres nessas fazendas.

Gosto especialmente do fato de que o foco não está apenas na miséria e na violência, embora elas estejam presentes, mas na vida como ela é.

E o que mais apreciei: é o oprimido que fala. Poucas vezes se dá voz aos donos da fazenda; eles surgem apenas para recolher aquilo que pensam ser deles, inclusive parte da produção da roça, o que gera profunda revolta. Em geral, vemos romances desse tipo escritos pelo olhar do opressor — mesmo quando ele não se reconhece como tal. Aqui, são os trabalhadores, os ex-escravizados que falam, e, sobretudo, as mulheres.



Itamar Vieira Júnior nasceu em Salvador em 1979. É um escritor brasileiro. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Entre o santo e o contrato: o destino feminino

 


A CABEÇA DO SANTO

SOCORRO ACIOLI

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2014

176 páginas 

Há livros que se deixam ler com gula. A Cabeça do Santo é um deles: desses que se devoram sem culpa, mas que, ao final, permanecem ecoando, como se a leveza da narrativa escondesse algo mais fundo.

A história começa com um gesto ancestral. A mãe de Samuel, pertencente a uma linhagem de mulheres que sabiam quando iam morrer, anuncia sua partida iminente e lhe confia seus últimos pedidos: acender uma vela aos pés da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro; outra diante de São Francisco, em Canindé; e mais uma para Santo Antônio, em Candeia. Depois disso, Samuel deveria retornar a essa cidade para encontrar o pai que nunca conheceu. Contrariado, ele promete cumprir a missão — promessa que o coloca em movimento, tanto no espaço quanto na própria vida.

A viagem até Candeia dura dezesseis dias de estrada dura: fome, cansaço, solidão. Quando finalmente chega ao endereço indicado pela mãe, é recebido pela avó, que não abre o portão. Apenas lhe diz para procurar abrigo, pois uma forte chuva se aproxima. Samuel obedece. No dia seguinte, ao despertar, escuta vozes — muitas vozes de mulheres. Descobre, então, que está abrigado dentro de uma enorme cabeça de concreto: a cabeça de Santo Antônio, esquecida no chão, separada do corpo da estátua que permanece no alto do morro.

É a partir dessa imagem insólita que Socorro Acioli constrói o coração do romance. Samuel passa a ouvir, de dentro da cabeça do santo, os pedidos das mulheres que recorrem ao santo casamenteiro. Pedidos íntimos, desesperados, às vezes cômicos, às vezes dolorosos. Incapaz de ignorá-los, ele começa a agir em favor dessas mulheres — e, nesse movimento, acaba reanimando uma cidade quase morta. A decadência de Candeia é atribuída, pelos moradores, à “desgraça” simbólica de um santo incompleto, decapitado. A intervenção de Samuel reorganiza não apenas destinos individuais, mas o próprio imaginário coletivo da cidade.

O tom do livro oscila com inteligência entre o comovente e o hilariante. Há momentos de humor afiado, mas nunca gratuito. O fantástico aqui não serve como ornamento exótico, e sim como linguagem para falar de fé, desejo, abandono e esperança — sobretudo a esperança feminina, tantas vezes silenciada.

Muito se fala da aproximação do romance com o realismo fantástico latino-americano, e é verdade que Acioli estudou com Gabriel García Márquez. Ainda assim, o mérito do livro não está em qualquer filiação estética, mas na autonomia de sua escrita. A Cabeça do Santo não imita: inventa. É fruto de uma imaginação própria, profundamente enraizada no Nordeste brasileiro, capaz de transformar religiosidade popular, oralidade e crítica social em literatura de alta qualidade.

É um livro que parece simples — e talvez por isso seja tão poderoso. Porque sob a leveza da narrativa, o que se revela é uma reflexão delicada sobre fé, escuta e reparação. E, sobretudo, sobre o que acontece quando alguém decide levar a sério as vozes que o mundo costuma ignorar.

Há ainda um aspecto decisivo do romance que merece ser destacado: o modo como A Cabeça do Santo organiza sua narrativa a partir dos desejos femininos — desejos que, não por acaso, se dirigem a Santo Antônio, o santo casamenteiro. As vozes que Samuel escuta são, majoritariamente, vozes de mulheres. E o que elas pedem não é qualquer coisa: pedem casamento, pertencimento, reconhecimento social. Pedem um destino.

O livro expõe, com delicadeza e ironia, como o casamento aparece como horizonte quase obrigatório da vida feminina, especialmente em contextos marcados pela precariedade material e simbólica. Não se trata apenas de fé, mas de sobrevivência. Casar, aqui, é promessa de proteção, de saída da invisibilidade, de algum tipo de futuro possível. Ao transformar esses pedidos em murmúrios incessantes dentro da cabeça do santo, Acioli materializa o peso desse destino imposto — um destino que ecoa, insiste, cobra resposta.

É significativo que seja um homem, Samuel, quem escuta essas vozes e age em nome delas. O romance não ignora essa assimetria; ao contrário, torna-a parte da engrenagem narrativa. As mulheres falam, mas não são ouvidas diretamente pelo mundo. Precisam atravessar o santo, o milagre, o intermediário masculino. Nesse deslocamento, o livro sugere uma crítica sutil às estruturas que condicionam o desejo feminino à mediação alheia — seja religiosa, social ou patriarcal.

Assim, A Cabeça do Santo pode ser lido como uma fábula sobre fé e comunidade, mas também como uma reflexão sobre o modo como o destino das mulheres é historicamente reduzido a um único enredo possível. Ao dar corpo e voz a esses pedidos, Acioli não os ridiculariza; ela os expõe. E, ao fazê-lo, nos convida a escutar o que essas vozes dizem — e, talvez, a perguntar por que ainda dizem sempre a mesma coisa.


Socorro Acioli nasceu em Fortaleza no Ceará em 1975. É jornalista e escritora brasileira 



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Entre o acolhimento e a opressão das tradições

 


UM AMOR DE FILHA

Hanaide Kalaigian

1ª ed. Editora Autêntica Contemporânea - 2023

144 páginas 

Meliné é uma mulher de meia-idade, casada, e mãe de Aline. O livro articula três eixos principais: as tradições e a cultura armênia — com um pouco da história da Armênia —; a comunidade armênia em São Paulo, profundamente patriarcal; e a relação de Meliné com sua filha.

As mulheres são matriarcas, mas vivem sob a opressão masculina. Entre elas há uma regra clara: as mais velhas mandam nas mais jovens. Dentro de suas casas e de suas cozinhas, elas reinam. Meliné cresceu nesse mundo, sendo subjugada por um patriarcalismo no qual as mulheres dependem dos homens em todos os sentidos. A mulher é vista como frágil, alguém que deve sempre ser protegida pelo homem. Já a filha de Meliné tem outras ideias, e isso inevitavelmente cria um atrito entre mãe e filha.

Surge então outra personagem, Amanda, uma curadora de arte que está em busca de artistas que sejam filhos, netos ou bisnetos de pessoas que passaram por guerras, genocídios e diásporas. Seu objetivo é investigar se há algo na arte produzida por essas pessoas que reflita, ainda que inconscientemente, o trauma herdado. Meliné é artista e tem seu ateliê em casa. Nunca foi reconhecida nem expôs suas obras, mas Amanda a descobre. A partir daí, começa a emergir a história do genocídio armênio e dos horrores vividos por seus antepassados, principalmente pelas mulheres. Não espere, no entanto, um aprofundamento maior nessa questão.

Após sofrer um revés em sua vida pessoal, Meliné passa a viver um conflito interno. Ela se vê dividida entre submeter-se à comunidade ou libertar-se “de uma tradição que a oprime, mas também a acolhe; que amarra, mas também afaga; que protege, mas também limita”.

É o medo que surge quando se dão os primeiros passos em direção à autonomia — um medo que faz gritar por socorro e remete novamente à proteção do conhecido, do familiar. Tudo isso acaba se refletindo no corpo de Meliné.

O livro é curto e este é o primeiro romance da autora, mas ele nos faz sentir toda a angústia da personagem: seus medos, seus conflitos, seu desconhecimento de muitas coisas — do mundo e da própria história. Torcemos para que a filha consiga seguir outro caminho, mas também acabamos gostando de todas essas mulheres, do cuidado que têm umas com as outras e do fato de serem elas as responsáveis por manter vivas as tradições de seus ancestrais dizimados.


Hanaide Kalaigian nasceu em São Paulo em 1962. Um amor de filha é seu primeiro romance.