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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

IFEMELU: IDENTIDADE E IMIGRAÇÃO

 


AMERICANAH

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2014

520 páginas~

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um romance poderoso que explora questões de identidade, raça, imigração e pertencimento, a partir da experiência de Ifemelu, uma jovem nigeriana que se muda para os Estados Unidos em busca de educação e novas oportunidades. A obra examina de maneira sensível e crítica os desafios enfrentados por imigrantes e as nuances do racismo estrutural, das diferenças culturais e da adaptação em um país estrangeiro.

O romance também aborda a vida na Nigéria, revelando as complexidades sociais, econômicas e políticas do país, bem como as relações humanas marcadas por classe, gênero e tradição. Ao acompanhar o percurso de Ifemelu, Adichie investiga a construção da identidade, a experiência do “não-lugar” do imigrante e a importância da memória cultural para manter o vínculo com suas origens.

Além disso, o livro destaca a questão racial de forma direta, especialmente nos Estados Unidos, discutindo como a cor da pele influencia oportunidades, interações e percepção social. Americanah é, portanto, tanto uma história de amor e autodescoberta quanto uma análise crítica sobre raça, identidade e as tensões entre pertencimento e deslocamento.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, Nigéria, em 1977. É uma feminista e escritora nigeriana. 




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

TRADIÇÃO, COLONIZAÇÃO E A TRAGÉDIA DE UM MUNDO EM RUPTURA

 


O MUNDO SE DESPEDAÇA

CHINUA ACHEBE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2009

240 páginas 

O Mundo se Despedaça é, antes de tudo, um romance sobre a violência das rupturas. Achebe nos apresenta o povo ibo, na região que hoje corresponde à Nigéria, antes da colonização, permitindo que conheçamos seus rituais, sua organização social, suas crenças, sua justiça e suas formas próprias de pertencimento. Trata-se de um gesto político e literário fundamental: mostrar que havia mundo, sentido e complexidade antes da chegada europeia.

No centro da narrativa está Okonkwo, um grande guerreiro de Umuófia, cuja vida é marcada por um medo profundo: o de se tornar semelhante ao pai, considerado fraco e indigno pela comunidade. Esse pavor molda sua personalidade e o conduz a uma adesão quase violenta à tradição, à honra e à virilidade. Okonkwo não se permite falhar, não se permite sentir, não se permite vacilar. Sua rigidez é tanto sua força quanto sua ruína.

Achebe constrói Okonkwo como uma figura trágica. Seu apego intransigente à tradição não nasce de uma reflexão serena, mas de uma ferida íntima. O que está em jogo não é apenas a preservação cultural, mas uma identidade masculina construída sobre o medo da fragilidade. Quando o destino o atinge — obrigando-o ao exílio por sete anos —, não é apenas um indivíduo que se afasta da aldeia, mas uma forma inteira de estar no mundo que começa a se desfazer.

Durante sua ausência, chegam os missionários e os homens brancos. A colonização não aparece como um evento súbito, mas como um processo lento de infiltração, que atua sobre as fissuras internas da sociedade ibo: a conversão de alguns membros, a introdução de novas leis, a deslegitimação das autoridades tradicionais, a substituição gradual dos sentidos do sagrado e da justiça. O mundo não explode — ele se despedaça.

Quando Okonkwo retorna, encontra uma aldeia transformada. Aquilo que antes era consenso agora é dúvida; o que era tradição torna-se objeto de negociação. Incapaz de se adaptar, Okonkwo percebe que já não há lugar para ele naquele novo arranjo colonial. Sua tragédia pessoal espelha a tragédia coletiva de um povo cuja cosmologia, linguagem e organização social são violentamente reordenadas a partir de parâmetros externos.

Achebe escreve contra a narrativa colonial que retratou as sociedades africanas como primitivas ou sem história. O Mundo se Despedaça devolve densidade, humanidade e contradição a esses mundos, ao mesmo tempo em que revela que a colonização não destrói apenas culturas, mas produz sujeitos deslocados, presos entre um passado que não pode retornar e um presente que não lhes pertence.

É um romance profundamente antropológico, político e ético. Um livro que mostra que a perda mais radical não é apenas territorial ou econômica, mas simbólica: perder o sentido do que se é.



Chinua Achebe em Ogidi, Nigéria, em 1930 e faleceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 2013. Foi um romancista, poeta e crítico literário. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

LIVRO: CIDADE ABERTA - TEJU COLE


Cole, Teju. Companhia das Letras, 2012
Tradução: Rubens Figueiredo 
315 páginas

Julius é um nigeriano que vive nos Estados Unidos em Nova York no pós-Onze de Setembro e faz residência em psiquiatria
Um livro sobre o híbrido, traumas e uma imensa solidão. Ele passa seus dias no Hospital e depois sai para caminhar pela cidade. A sensação da solidão que ele nos passa caminhando e relatando o que vê somado a informações históricas e também suas lembranças do passado. Aquele momento onde percebemos em alguma coisa ou algo uma pequena lembrança de algo que nos ocorreu que nos vem da memória. Mas ele também empreende uma fuga de tudo, deixa muitas reticências, não consegue se confrontar com seus fantasmas e prefere esquecê-los. 
Faz uma tentativa indo procurar sua avó que mora na Bélgica, mas passa seus dias naquela cidade fazendo a mesma coisa, flanando pela cidade, com uma diferença que ele conhece Farouq e mantém conversas com ele, porém em todos os momentos de seus encontros ele mais escuta e pensa do que fala. E não me parece que faz algum esforço para encontrar sua avó de fato, e que talvez nem ele mesmo saiba o que foi fazer ali, pois provavelmente tinha consciência da dificuldade que seria encontrá-la, supondo que ainda estivesse viva.
É no relato de suas errâncias que notamos mais profundamente o hibridismo atual, nas diferenças e nos iguais, que ele relata. Seja nos restaurantes que cita e que são vários podendo ser locais ou indianos, chineses, seja nas lojas que visita e que igualmente podem ser representativas de vários locais, e nas pessoas que encontra nas ruas. Farouq defende a diferença, outros acham que as pessoas precisam ser vistas como iguais. 
Os traumas de guerra e da vida que surgem seja nas lembranças de Julius, no que ele vê ou nos relatos de pacientes. As pessoas que deixam seus locais de origem devido ditaduras cruéis, genocídios, guerras e lutas tribais e sonham com um país que haja liberdade, mas será que esta liberdade tão desejada existe? Ou será que há algo oculto na representação da Estátua da Liberdade que a tantos fez chorar de alegria ao vê-la pela primeira vez? 
Porém há um outro lado neste livro que só me surgiu quando eu já estava quase terminando a leitura, e confesso que há momentos que se torna até cansativo aquele desenrolar de suas percepções, e foi quando ocorre uma revelação de um fato ocorrido há muitos anos atrás no qual ele seria o vilão. O que realmente me chocou foi que Julius apenas assume que todos nós temos um lado bom e outro mau

" Temos a capacidade de fazer o bem e o mal, e na maioria das vezes optamos pelo bem. Quando não o fazemos , não nos perturbamos com isso..." 

Ele deixou uma vida marcada para sempre, e com consequências trágicas, porém não é isto o que me revelou este livro, o que ele mostra claramente, depois que acompanhamos Julius por 300 páginas é sentir e perceber como se sente ou não se sente uma pessoa que cometeu uma violência, relegando isto totalmente ao esquecimento, ou talvez recalcando, mas não acredito que aqui seja isto, ele simplesmente esqueceu, por que para ele isto não o afetou. E quando Moji lhe relata ele chega mesmo a pensar que talvez seja mais uma história onde o outro se vitimiza sem perceber que também está no centro da questão, apesar de ela lhe parecer convincente. Ele não lhe diz nada, apenas dá graças por ela não ter chorado. 

Enquanto Moji passou sua vida toda pensando a cada dia nisto, sentindo a marca em si, ele continuou andando e vivendo sua vida, e nem a reconheceu quando a viu no mercado.

Cole nos dá um relato excepcional aqui, pois como esta revelação vem ao final do livro, surpreende e nos pega já mergulhados na vida de Julius, e diante do fato é que percebemos como é com outros que também cometeram atos assim. Crimes que se perpetuam, não só este, mas a violência que vemos no mundo. 

Um relato trágico do que ocorre nestes crimes, e que também fazem parte de todas as guerras.  

Teju Cole nasceu em 1975 na Nigéria. É fotógrafo, escritor e historiador de arte.