Mostrando postagens com marcador Traumas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Traumas. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de maio de 2015

FILME: PARFUMS D'ALGER - 2013



Direção: Rachid Benhadj
Duração: 108 min
País: Algéria 

É a história de Karima (Monica Guerritore) uma fotógrafa algeriana que vive em Paris e acaba de ter seu trabalho premiado. Desde que ela saiu da Argélia para escapar a tirania e violência do pai ela nunca mais retornou, mas recebe um telefonema da mãe falando sobre seu irmão, que aderiu a um grupo terrorista e está preso, condenado a morte. Ela então retorna ao seu país depois de 20 anos.

Neste retorno ela será então confrontada ao seu passado, aliás como se diz no filme, do qual nunca podemos escapar. Irá se recordando de sua infância, do seu irmão, de como se davam bem, mas também de toda violência sofrida vindo de seu pai. Aos poucos ela vai se reconciliar com sua família e acima de tudo consigo mesma. 

É um retorno as suas origens, suas raízes, e mesmo tendo vivido durante 20 anos em Paris, lutado por sua liberdade e independência ela irá se sensibilizar com a situação das mulheres na Argélia e sua falta de liberdade. Enfrentará seu passado em relação ao pai, mas terá que também aceitar que seu irmão não é mais aquele menino doce e fraterno que ela conhecia, sua realidade é outra agora e o que ele fez é terrível. Ela vai se apropriar de sua memória, mas acima de tudo dela mesma, do que ela é. 

Não temos como nos libertar das origens, podemos viver em outros lugares e desfrutar de uma liberdade do entorno, mas em nós vive algo que faz parte da infância, a família e um país onde nascemos com sua história,cultura e o social. O que Karima consegue fazer é um retorno a tudo isto e se reconstituir, conciliando seu lado de origem e também incluindo sua liberdade e independência. Ela vai ter que curar suas feridas que não estavam cicatrizadas como ela pensava ter feito ao não pensar no passado, e depois atar os fios de sua vida. 

Ao deixar a Argélia ela pensa esquecer tudo. Ninguém sabe nada sobre esta parte de sua vida, ela não fala nada sobre isto, nem mesmo ao homem com quem vive há 05 anos. Nunca mais falou a língua e não se interessou pelo o que ocorreu em seu país enquanto esteve fora. Ela terá que resgatar tudo isto para deixar de ser uma estrangeira em seu próprio país e se apropriar de sua identidade. 

O filme tem cenas locais muito bonitas, principalmente o jardim no começo do filme com suas árvores centenárias. 
Mohamed Rachid Benhadj nasceu em 1949 em Argel, Argélia. 

sábado, 25 de abril de 2015

FILME: TRACKS - 2013


Direção: John Curran - 2013
Duração:  112 min

Baseado na biografia homônima de Robyn Davidson

Em 1995 Robyn Davidson (Mia Wasikowska) decide atravessar o deserto da Austrália por 2700 quilômetros partindo de Alice Springs. Para conseguir o dinheiro para a travessia ela aceita ser patrocinada pela National Geographic, mas para isto terá que ir acompanhada do fotógrafo Rick Smolan (Adam Driver) que irá documentar a viagem para a revista. Ela parte em 1997 com sua cachorra e mais quatro camelos em direção ao Oceano Índico.



Robyn é uma pessoa solitária que prefere mesmo se manter afastada e ao longo do filme vemos algumas lembranças de sua infância traumática com o suicídio da mãe, sua cachorra que teve que ser sacrificada por não terem onde deixá-la, a Tia que vai buscá-la para ficar com ela após a morte de sua mãe. Compreendemos que esta vida se arriscando, indo as vezes à exaustão nas caminhadas, passando por obstáculos, mas ao mesmo tempo podendo estar consigo mesma, em contato com a natureza é uma maneira de lidar com esta infância difícil.



As paisagens são belas, o deserto é sempre algo que me cativa. 

Roby Davidson nasceu em 1950 em Miles, Austrália 

Roby Davidson e sua cachorra e Mia Wasikowska com a cachorra do filme.

 Capa da National Geographic

Roby Davidson e Rick Smolan 


John Curran nasceu em 1960 em Utica, Nova Yorque, EUA.

domingo, 8 de março de 2015

FILME: ATTILA MARCEL - 2013


Direção: Sylvain Chomet - 2013
Duração: 102 min

" Achamos tudo em nossa memória, ela é uma espécie de farmácia, de laboratório de química, onde encontramos sem querer, ora um calmante, ora um veneno perigoso." 
Marcel Proust 

Paul (Guillaume Gouix) vive com suas duas tias Annie (Bernadette Lafont) e Anna ( Hélène Vincent), professoras de dança. Ele tem 33 anos e deixou de falar aos dois anos quando presenciou a morte de seus pais o que lhe causou um trauma. 

O filme nos mostra de forma delicada esta dolorosa história. Suas tias o protegem ao excesso, o que não lhe permite ter sua própria vida, elas controlam tudo. São duas figuras que se refletem uma à outra, e num dado momento cômico são chamadas de Dupont Dupont referência a dupla das aventuras de Timtim, pois se vestem sempre igual, andam juntas, se complementam. 


Paul sofre de pesadelos, ele tem uma imagem do pai como cruel e ruim, e o recorta de todas as fotos que tem onde está junto, mantendo somente sua mãe. As tias e amigos não falam do assunto o que permite que Paul construa suas idéias sobre o que aconteceu. 

Um dia ele conhece sua vizinha Madame Proust ( Anne Le Ny), clara referência à Marcel Proust, e com ela Paul inicia sua busca pelo tempo perdido através de chás que o fazem entrar num estado de inconsciência, onde tem visões, como se estivesse sonhando e ele começa a ter lembranças até chegar o dia em que verá a cena que recalcou e compreenderá o que realmente aconteceu. 


O filme é muito interessante para vermos em termos psicanalíticos como um trauma se instala e atua na vida de uma pessoa. Na falta de palavras e de capacidade de compreensão de um fato, no caso a morte de seus pais de forma violenta na sua frente, há um recalque do ocorrido. Madame Proust é como uma psicanalista que lentamente vai acompanhando esta recuperação de lembranças, enquanto as tias parecem fazer o papel do psiquismo que recalca tudo e impedem que a verdade surja, são como uma censura. Um trauma não pode ser lembrado de uma só vez, ele precisa ser recuperado aos poucos, de acordo com o tempo de cada um. Com seus bolinhos, músicas, Madame Proust acolhe Paul e ele confia nela podendo relaxar e permitir que as lembranças venham. Isto ocorre em várias sessões da mesma forma que um processo de análise.



Antes da rememoração está paralisado, congelado. A cena fica, e vai se repetir constantemente de alguma maneira. Não há como voltar ao antes, não se avança, é eterno presente. Paul não fala porque ele não falava aos dois anos, ali ele ficou, apesar de ter crescido, aprendido coisas, tocar piano maravilhosamente bem, ele continua lá no momento do trauma. Quando ele fala ele parte exatamente de sua última palavra antes de se calar. 
Sylvain Chomet nasceu em 1963 em Maisons-Laffitte, França 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

FILME: CAKE uma razão para viver - 2014


Direção: Daniel Barnz - 2014
Duração: 102 min
Título original: Cake

Claire (Jennifer Aniston) frequenta um grupo de terapia, percebe-se logo que ela sofre, está traumatizada, a sua dor é grande e também percebe-se que sofreu um acidente devido sua situação física. Mas será somente ao longo do filme que iremos descobrir o que aconteceu com ela. 

O grupo de terapia está reunido, uma das integrantes se suicidou e a terapeuta se coloca no papel da morta para que todas possam lhe dizer o que sentem e ela tenta responder. Claire não foi gentil, o que na minha opinião é bem mais real do que tentar ser solidária com uma suicida, pois ninguém consegue compreender este ato que nos coloca numa posição de culpa, de impotência, e sem poder explicar, não há o que dizer, nem mesmo "Deus quis assim" não cabe neste caso. Claire é convidada a deixar o grupo, ela se tornou inconveniente ali. 

Claire faz uso de muitos remédios, ela não consegue enfrentar sua dor e ninguém consegue ajudá-la, ela expulsou o marido de casa, se desentende com sua fisioterapeuta, mente para sua médica. Somente Silvana (Adriana Barraza), sua empregada, permanece ao seu lado e a ajuda. Ela não consegue se desligar do ocorrido e fica obcecada pelo o que poderia ter levado Nina (Anna Kendrick) a se suicidar. Se aproxima de seu marido Roy (Sam Worthington) e filho e se tornam amigos, ambos com sua dor. 

Há algo mais difícil do que enfrentar uma dor muito forte? Sim, talvez o suicídio tenha sido uma saída mais fácil para Nina, apesar de que no filme não se revela o motivo dela, mas Claire começa a ter alucinações e vê Nina que conversa com ela, é uma tentativa de compreender. Ela vai ao local onde Nina se matou, tenta se imaginar fazendo a mesma coisa, mas ela não consegue, o que Claire busca é uma razão para viver. 

Um belo filme sobre a dor de uma tragédia e de como reagimos a isto e lidamos com a situação. Claire consegue, ela vai se levantar e olhar a vida de frente novamente ao perceber que é incapaz do suicídio. 

Daniel Barnz nasceu em 1970 em Gladwyne, EUA.

domingo, 14 de dezembro de 2014

FILME: MORTE NO AMOR - 2008



Direção: Boaz Yakin - 2008
Duração: 97 min 

Título original: Death in love 

O Filme tem algumas cenas fortes, e no começo é confuso, porém deve ser visto não como uma sequência, pois trata-se de mostrar a herança psíquica nos filhos de pessoas que passaram pelo horror dos campos de concentração. 

Uma mulher judia (Jacqueline Bisset) que esteve presa num campo de concentração é mãe de dois filhos (Josh Lucas e Lukas Haas), ambos problemáticos e com questões sérias, como o mais mais jovem que não consegue se afastar de casa, é totalmente dependente e se agarra à mãe, tem problemas de alimentação e é autodestrutivo, inclusive fisicamente. O mais velho tem questões sexuais e de amor. 

A Mãe quando jovem foi deixada para trás por seus pais que fugiram. A oportunidade para fugir era apenas para dois, e o pai decide que é a esposa e a filha, mas a esposa se nega a ir sem ele, e então deixam a filha, que acabara presa num campo de concentração. Ela é uma das escolhidas para participar do programa de experiências médicas, e as cenas do filme são chocantes. Ela está aterrorizada enquanto caminha para a sala onde o médico a espera, e quando entra ela sorri para ele que lhe pergunta porque está sorrindo ao que responde que nunca viu um homem tão bonito. 

O médico se envolve com ela e a coloca sob sua proteção. Ela se apaixona por ele, mas aqui temos uma questão que é a do amor ao agressor, a introjeção do mesmo, o que é muito bem mostrado no filme O porteiro da Noite que já postei no blog. Não é um amor, é doença. Mas ela nunca mais o esquecerá. 

Anos depois quando seus filhos estão adultos vemos que ela continua tendo crises sérias, ela ficou marcada e traumatizada, e toda esta herança psíquica passou para seus dois filhos. O filho mais velho gosta do sexo violento, com sadomasoquismo, mas está perdido em sua vida, diz que na verdade não temos nada para dar ao outro, no que ele tem razão, mas não consegue construir nada também. Ele não consegue amar. Nenhum deles consegue amar, a começar pela mãe que se ilude ao pensar que sempre esteve apaixonada por seu agressor. Ela nunca se libertou do horror que viveu, e para sobreviver se entregou a isto sem mesmo se dar conta. O nazista também se envolve, e está atras dela, ambos não conseguem sair desta relação patológica. 

O filme O porteiro da Noite é melhor, mas neste aqui temos algo além, que é o que se passa aos filhos, que ignoram esta parte da história da mãe, mas mesmo assim sofrem as consequências. 

Para muitos o filme pode parecer confuso, chato, com excesso de cenas de sexo, e sem muito sentido. Mas se levarmos em conta o trauma de um campo de concentração e das marcas que ele deixa, e de como isto reflete na vida da pessoa e de seus descendentes, o filme nos surge de outra forma. É preciso levar em conta o inconsciente, e a sexualidade, a pele e o corpo. A mãe passa pelas experiências do médico, mesmo se tornando a "amante" dele, o que ele lhe dá em troca é comida e roupas, mas ela não passa de mais um objeto de experiências dele assim mesmo. Ela também viu o que se passava ali, os gritos, o medo. Ela foi abandonada pelos pais, e depois o médico quando foge na chegada dos russos. Experiências com o corpo e sexo, é isto que ela viveu no campo, e ficou marcada, mesmo que achando que está apaixonada, devido a introjeção do agressor. Não fosse assim, o que seriam as crises que ela tem e que aparecem durante o filme? A marca está no corpo, assim como seu número no campo, onde não tem nome, nem mesmo para o médico que a chama pelo número. 

Ele vai e volta no tempo, muda de cenários e situações, como se fossem as marcas, os traços do inconsciente. 

Boaz Yakin nasceu em 1966 em New York, EUA 

quinta-feira, 13 de março de 2014

FILME: A PELE QUE HABITO - 2011


Direção: Pedro Almodóvar - 2011 
Duração: 120 min
Título original: La piel que habito 
Roteiro: Pedro Almodóvar e Agustín Almodóvar 
País: Espanha 

Baseado no romance Mygale, renomeado como Tarântula de Thierry Jonquet e uma homenagem à escultora Louise Bourgeois. 

Ganhou o Bafta 2012 como melhor filme estrangeiro e o Prêmio da Juventude em Cannes 2011 


O filme retrata a situação limite refletida em dois personagens - Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas) e Vicente (Jan Cornet)/ Vera (Elena Anaya).

Robert é um reconhecido cirurgião obcecado por encontrar a pele  que resiste ao fogo, picadas de insetos, a tudo que possa vir do exterior. Apesar de alertado pelo diretor do Hospital sobre ser anti-ético o que estava fazendo ele persistirá. Esta busca se explica inicialmente por sua esposa haver sofrido um acidente de carro onde ficou com o corpo totalmente queimado, e mesmo com todas suas tentativas de salvá-la, ela acaba se suicidando. Ele dirá numa conferência que a pessoa precisa de um rosto.

Robert continuará com suas experiências, e em sua casa vive Vera que usa uma segunda pele e lhe serve de cobaia para suas experiências com peles que obtém através de métodos transgênicos e com sangue animal. Há também Marília, sua fiel empregada (Marisa Paredes) que cuida de Vera, mas percebe-se que esta está presa ali.



O filme inicia em 2012, mas retornará ao passado para que possamos compreender o que o levou a esta obsessão. Robert é filho de Matilde com um homem rico que o adotou pois sua esposa era estéril, mas ela também teve um outro filho com um empregado da casa que é chamado de Tigre. Uma mulher fria, distante, que cuida do bem estar do filho, mas não é amorosa. Tigre por sua vez cresceu nas ruas, como um animal abandonado, sem lar. Gal a esposa de Robert se apaixonará pelo meio-irmão de Robert e fugirão juntos, justamente quando ocorrerá o acidente com o carro se incendiando.

Robert e Gal tem uma filha, Norma (Blanca Suárez). Ao ouvir sua filha cantando Gal irá até a janela e então verá seu reflexo no vidro da janela e não suportando o que viu se suicida jogando-se pela janela e caindo em frente à sua filha que se traumatiza e passa a sofrer de fobia social.
Numa festa Norma começa a olhar um rapaz e acabam saindo para o jardim. Ela quebra o salto de seu sapato e o retira, também a blusa dizendo que não suporta roupas, ou talvez, a pele que habita, e isto instiga o rapaz a avançar. Fica  uma incógnita se ele efetivamente a estuprou, pois ele para quando ela começa a gritar Não! dá-lhe um tapa para fazê-la parar e foge. Seu pai a encontra e ela está desmaiada, porém ao acordar ela vê no pai o agressor.

Ela será internada, não suporta mais ver o pai, e acabará se matando, repetindo a mãe. Seu pai que viu o agressor fugindo irá atrás dele e o capturará, e como vingança o transformará na cobaia para seus experimentos, inicialmente com uma vaginoplastia, e o transformará em Vera, a mulher ideal, aquela que não o abandonará, que terá uma pele resistente à tudo.



Até aqui o que vemos é o lado limite de Robert. Um filho que não teve o amor, o contato da pele de sua mãe, e que perdeu suas mulheres. Primeiro a esposa para seu meio-irmão e depois ela e a filha pelo suicídio. Ele busca esta mãe que lhe falta, ele deseja uma mulher idealizada que não o abandonará, que resistirá a tudo. Por outro lado, ele não soube reagir as supostas ofensas, não se libertou da mãe e do desejo de ser amado por ela, não se vingou do meio-irmão e da esposa, não necessariamente em ato, mas no simbólico, mas ao contrário, ele tenta salvá-la e ficar com ela que novamente o abandona. E sua filha é a repetição de tudo isto, ela também o deixa.

Quando Tigre retorna ele estuprará Vera, mas desta vez quando Robert chega, ele o matará, vingando-se deste primeiro que lhe tomou a mulher e que ele não aceitou perder. Por outro lado Tigre tenta se apoderar do que supõe ser seu direito, do que poderia ser seu, se não tivesse sido abandonado pela mãe, e se vinga do meio-irmão conquistando sua mulher.

De outro lado temos Vicente, que tem uma mãe amorosa, que está apaixonado por Cristina que é homossexual e o rejeita como homem. Ele é sequestrado por Robert e se vê transformado num objeto, no objeto de gozo e desejo do cirurgião. Aqui temos o outro estado limite, como lidar com esta pele que habito mas que não é a minha, que não tem referências, que não tem marcas, ou seja, transformado num organismo, e não mais em um corpo. Uma pele fina totalmente resistente, um corpo de mulher. A primeira coisa que ele faz é tentar passar ao ato, fugir, se matar. Não consegue. Então ele começa através da Yoga a buscar dentro de si o que é, e usando restos de tecidos dos vestidos de Gal, com linha e costura ela vai esculpindo algo, através da escrita na parede ele tenta se reconstituir. Aqui a referência à Bourgeois, com seus morcelés, o corpo fragmentado.



Resta-lhe o agressor, a única coisa que lhe resta e ele se entrega ao gozo deste outro. Nas cenas finais, quando ele vê no jornal sua foto e a informação que sua mãe nunca desistiu de encontrá-lo, algo se reconstitui deste antigo Outro, e é o momento que ele para se livrar do carrasco e de ser objeto, ele mata.

Retorna para sua casa, Cristina é a primeira a saber o que lhe ocorreu. Ele usa o vestido que desejou ver Cristina usando e que ela por ser homossexual lhe disse para que vestisse, agora ele o veste, ela veste. Fica a pergunta, será que agora ele/ela poderá estar no lugar do desejo de Cristina?. E sua mãe, o aceitará como mulher? Fica a incógnita que Almodóvar nos deixa.

A presença da referência à Louise Bourgeois é belíssima e muito bem elaborada no filme, uma vez que a artista sempre trabalhou seu inconsciente e tudo que lhe era de dentro em suas obras, a dor, a frustração, o amor, o ódio, seus agressores internos, sua identificação, através do corpo que se expressa na arte. Bourgeois sentia o cruel e o trágico da existência humana.



Pedro Almodóvar

Música de Alberto Iglesias

Alberto Iglesias nasceu em 1955 em San Sebastián, Espanha. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

FILME: NO LIMITE DO SILÊNCIO - 2001


Direção: Tom McLoughlin - 2001 
Duração: 109 min 
Título Original: The Unsaid 

O difícil de falar sobre este filme é não contar as revelações que surgem no decorrer do mesmo e assim não permitir o suspense a quem ainda não assistiu.

Michael Hunter (Andy Garcia)  um psiquiatra renomado que não consegue aceitar que seu filho adolescente Kyle (Trevor Blumas) se suicida deixando-o arrasado. Após o ocorrido Michael deixa de dar consultas e aulas, ele se fecha em si mesmo, tem seu casamento desfeito pois sua esposa Penny (Chelsea Field) o culpa pelo o que aconteceu, o que ele também sente achando que poderia ter evitado este desfecho trágico. A irmã de Kyle também se sente mal, pois foi no dia de sua apresentação onde todos se ausentaram para ir vê-la que o irmão que não quis ir comete o suicídio.

Três anos depois, uma ex-aluna de Michael, Barbara (Teri Polo) o procura e pede que examine um caso que está sob seus cuidados, é o de Thomas (Vincent Kartheiser) que sofreu uma tragédia familiar e agora está prestes a atingir a maioridade e obter sua liberdade de viver por conta própria, saindo do orfanato para onde foi encaminhado após seu pai haver matado sua mãe. Barbara sente que algo não está bem e que ele não está pronto para sair.

Inicialmente Michael reluta, mas acabara se envolvendo com o caso. Aos poucos todo o drama virá à tona, e Michael sofrerá uma transferência para Thomas em quem ele vê seu filho morto. É surpreendente o que fica oculto nas histórias e o que elas podem causar. A culpa que Michael sente se mostrará muito mais profunda do que o fato de não ter impedido o suicídio e a história de Thomas também é mais trágica do que se pensa.

Entre Michael  e o pai de Thomas , só existe uma única diferença, a sorte.

Um excelente filme.
Tom McLoughin nasceu em 1950 em Los Angeles, Califórnia, EUA 

domingo, 23 de fevereiro de 2014

FILME: JIMMY P. Psicoterapia de um índio das planícies - 2013


Direção: Arnaud Desplechin - 2013 
Duração: 117 min 
Título original: Jimmy P. Psychothérapie d'un indien des planes. 
País: França

Indicado no Festival de Cannes 2013 para longa-metragem

Baseado em fatos reais e no Estudo de Georges Devereux - Realidades e Sonhos 

Jimmy Piccard (Benecio del Toro) é um índio americano da etnia Blackfoot que lutou na Segunda Guerra Mundial na França. Ele sofre de dores de cabeça muito fortes, vertigens e perda de audição que inicialmente são atribuídas ao acidente que sofreu na Guerra quando teve uma fratura no cérebro. Sua irmã o leva para o melhor hospital sob os cuidados do exército, em Kansas, nos Estados Unidos.

Chegando lá ele passará por uma bateria de exames que nada revelarão de anormal em seu físico e por uma avaliação psicológica pensando nos traumas de guerra que levará o psicólogo a pensar numa esquizofrenia. Mas a equipe é competente, e não acreditam de imediato num diagnóstico de psicose. Chamam então um colega, o antropólogo Georges Devereux (Mathieu Amalric) que faz análise e espera poder ser também um psicanalista. Georges é divertido e de bem com a vida, viveu entre os índios, mas oculta que na verdade ele é húngaro e não francês como faz crer a todos.



Aos poucos vamos vendo a antropologia se unir à psicanálise e desvendar os traumas deste sujeito, mostrando inclusive que a psicanálise é aplicável aos índios desde que se possa compreender que eles tem outros costumes, parentesco, linguagem, rituais, o que não requer que o psicanalista seja um deles. Devereux irá trabalhar com as duas ciências e acabara percebendo que os traumas de Jimmy não são da guerra como todos acreditavam, mas sim de sua infância.

O filme demonstra bem como um trauma psíquico se reativa pelos traços e geralmente a causa, o fato que causou o trauma está oculto, e nem mesmo o paciente sabe qual é. O trauma se forma no momento em que se vê pela primeira vez o traço e não no momento do ocorrido. Nunca é o real, mas sim sua representação que causa o trauma. E será através dos sonhos de Jimmy que o recalcado surgirá.



O que será que Jimmy percebia ou via no momento que dava inicio em sequência às suas insuportáveis dores de cabeça? o que causou o acidente dele na guerra? Aos poucos as respostas vão surgindo e sua alma vai se curando.

Recomendo a todos que se interessam pela psicanálise e principalmente àqueles que como eu acreditam que a Antropologia e a psicanálise devem trabalhar juntas, não apenas por ser um índio neste caso, mas porque todos nós somos formados pela linguagem e pela cultura.

Também vale ressaltar que há os traumas de guerra, mas Jimmy não participou da guerra, quando ele chegou os alemães já haviam ido embora. Ele fez parte dos soldados que foram para ajudar a libertação e limpeza do terreno.



Georges Devereux nasceu em 1908 na Hungria e faleceu em 1985. Estudou no Instituto de Etnologia de Paris e fez estudos de campo na América do Norte, Melanésia, Nova Guiné e no Vietname. Nos Estados Unidos fez doutoramento em Filosofia e se especializou em Psicologia e Psicanálise onde lecionou por muitos anos. Retornou à França em 1963 onde dirigiu a Escola Prática de Altos Estudos à convite de Claude Lévi-Strauss. É considerado um dos fundadores da Etnopsiquiatria. Ele foi aluno de Marcel Mauss. Foi durante sua temporada entre os índios Mohave que Devereux aprendeu com eles a dar importância aos sonhos levando-o para a psicanálise.
Foi analisado por Marc Schlumberger e por Robert Jokl e completou sua formação analítica em 1952 na clínica Menninger, em Topeka, Kansas onde se passa o filme.


Arnaud Desplechin nasceu em 1960 em Roubaix, Nord de France, França.

Trilha sonora de Howard Shore

Howard Shore nasceu em 1946 em Toronto, Canadá. É um compositor e já compôs mais de 40 trilhas para filmes. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

FILME: A TETA ASSUSTADA - 2009


Direção: Claudia Llosa - 2009
Duração: 95 min
Título original: La teta asustada 
Roteiro: Claudia Llosa
País: Peru 

Venceu o Urso de Ouro em Berlin em 2009 e o Festival de Cinema de Havana

No Peru existe uma lenda que diz que as mulheres que foram estupradas transferem para suas filhas através do leite materno a doença do medo "a teta assustada" que rouba a alma. Estes estupros ocorreram durante a guerra do terrorismo no país.
Fausta ( Magaly Solier) é filha de uma destas mulheres  e quando sua mãe falece ela terá que enfrentar esta situação e também um segredo que guarda, uma batata em sua vagina para protegê-la dos estupros e assim evitar a repetição do destino trágico de sua mãe. A batata, uma planta que não dá flores.

Um lenda que lida com a herança psíquica de filhas de mães violentadas. O medo de sair à rua, o medo do outro. Fausta após a morte de sua mãe vai viver com os tios no subúrbio de Lima. Ela deseja dar um enterro à sua mãe, mas para isto precisa de dinheiro e seu tio não pode ajudá-la, ele está casando sua filha e todas suas economias são para isto. Fausta terá que trabalhar para conseguir o dinheiro, mas para isto ela terá que sair de casa.

O filme se inicia com a mãe em seu leito de morte cantando, e ela canta a dor e o horror do que sofreu, ver o marido ser assassinado e ser estuprada estando grávida de Fausta. O olhar de sua mãe reflete isto, e é neste olhar que Fausta se constitui, um olhar de medo, pavor e dor.



Mas quando sai para a rua para ir trabalhar ela terá que enfrentar isto de alguma maneira. Seus primos sempre iam buscá-la ao final do dia para que não retornasse sozinha, porém um dia eles não podem ir e o jardineiro da casa onde trabalha se oferece para acompanhá-la. Ela desconfia de todos que não são parentes, mas acaba aceitando e aos poucos vai criando confiança neste outro.

Ela usará as canções como uma proteção a cada vez que se vê em uma situação que cria ansiedade e medo, ou seja, a cada vez que se vê frente a uma pessoa que não conhece, seu nariz sangra, ela tem sangramentos vaginais. Sua patroa, Aída (Susi Sánchez)  uma musicista se interessa por suas canções, ela está numa fase de pouca criatividade, e para fazer com que Fausta cante ela lhe oferece pérolas em troca.


Um dia no carro sua patroa a expulsa deste, e ela se vê sozinha na rua e sem ter recebido suas pérolas, é a primeira vez que caminha sozinha na rua. Ela retorna à casa de sua patroa para buscar as pérolas, que precisa para o enterro de sua mãe, e na volta para a casa de seu tio ela desmaia na rua e é socorrida pelo jardineiro.

Finalmente ela pede que lhe retirem a batata. Irá levar sua mãe para ser enterrada, mas no caminho para para lhe mostrar o mar, a imensidão de possibilidade que uma vida pode oferecer.

Ela está curada, livre do medo e pode finalmente receber do jardineiro um pequeno vaso com uma batata plantada e que tem uma pequena flor.


Ouça a canção de sua mãe no leito de morte



Claudia Llosa nasceu em 1976 em Lima, Peru. É sobrinha do escritor Mário Vargas Llosa.

Musica de Selma Mutal - La Sirena 

Selma Mutal nasceu em 1968 em Lima, Peru. É uma pianista 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

FILME: MARCAS DA GUERRA - 2005




Direção: Lajos Koltai - 2005 
Duração: 140 min 
Título original: Sorstalanság 
País: Alemanha 

Baseado na autobiografia Sem Destino de Imre Kertész 

Gyorgy  (Marcell Nagay) vive uma infância e pré-adolescência feliz com sua família até que estoura a Segunda Guerra Mundial. Ele é judeu e será deportado para um campo de concentração onde apesar de tudo tentará ainda sorrir e encontrar razões para viver. Será auxiliado por outro judeu nesta travessia dolorosa, com muita fome e assistindo às atrocidades que se comentem neste lugar que o marcará para sempre, porém Gyorgy consegue apesar de tudo manter a fé da vida e sonhar com a volta para Budapeste, sua cidade natal.



Este filme tem um outro lado do Holocausto, onde nos mostra não apenas o sofrimento, mas a luta pela vida, seja de uma forma ignóbil quando judeus presos vendem comida aos outros, seja pela solidariedade e ajuda que oferecem um ao outro. Após a libertação ele retorna para sua cidade onde já não encontra sua família, mas irá encontrar amigos que o acolherão.

"Você pode fechar os olhos, pode virar o rosto, mas jamais esquecerá" 

Lajos Koltai nasceu em 1946 em Budapeste, Hungria. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

FILME: VOLVER - 2006


Direção: Pedro Almodóvar - 2006
Duração: 121 min 
Roteiro: Pedro Almodóvar
País: Espanha 

Ganhou vários prêmios entre eles: European Film Awards, Prêmio Goya, Festival de Cannes, Festival de San Sebastián, César entre outros.

Volver - Retornar - repetir

Um filme de Pedro Almodóvar que enfoca o feminino e o materno, dentro de uma repetição patológica do trauma.



A avó, a mãe e a filha. Raimunda ( Penélope Cruz) foi estuprada quando adolescente pelo pai, e deste incesto nasceu sua filha. Agora ela vive com um homem que assumiu a paternidade da garota, sem que esta saiba que ele não é seu pai. Mas a história se repete, e este tenta abusar da jovem, que para se defender o mata.

Raimunda assume este assassinato, porém há algo que vai muito além do que se poderia pensar, ou seja, que fosse uma mãe protegendo a filha e sendo generosa e altruísta com ela. O que ela realmente faz assumindo a morte do companheiro é se vingar do pai que a violou. Seu pai e o pai da adolescente que matou de fato.



Este pai assassinado de forma inconsciente pelo ato real da morte do padrasto na verdade foi realmente assassinado, pela mãe de Raimunda, sua mulher que se cansou de suas infidelidades.

O filme mostra como um trauma se repete por várias gerações, até que num determinado momento se coloque um fim nisto, e a melhor forma é falando a verdade. Os segredos criam seus fantasmas e sempre aparecem de novo. Somente quando fantasmas não choram é que se pode acessar a verdade.

Mas também fala da morte, e daquela que é social, que se divide. O ritual de lavar os túmulos para o dia de finados que se repete todos os anos e que é sempre feito por mulheres. Mas lavar túmulos também se associa a limpar, tirar as manchas, eliminar o sujo. Elas limpam obsessivamente, é um ritual de purificação.

Assista ao trailer em espanhol





Pedro Almódovar nasceu em 1949 em Calzada de Calatrava, Espanha.

Música de Estrella Morente

Estrella Morente nasceu em 1980 em Las Gabias, Granada, Espanha. É uma cantora de flamenco. 

FILME: AS AVENTURAS DE PI - 2012




Direção: Ang Lee - 2012
Duração: 127 min 
Título original: Life of Pi 
Roteiro: David Magee
País: Estados Unidos 

Venceu o Oscar de melhor diretor em 2013 

Adaptação do livro A vida de Pi de Yann Martel 

Talvez o melhor filme que assisti para abordar o trauma. Pi ( Suraj Sharma/Irrfan Khan)  se utiliza de uma metáfora para falar o que não consegue contar de outra forma e com isto superar um trauma.
A viagem ao inferno se transforma numa aventura, e Richard Parker não precisa ser vencido, ele se torna um aliado, que ajuda-o a sobreviver, após ser domado. Mas não esqueçamos que isto se passa dentro de Pi, é uma luta interior com este lado tigre que todos nós temos e que às vezes vem á tona e nos assusta.




Quando assisti ao filme senti que havia algo em mim que se angustiava, e eu não compreendia o que. Cheguei a sentir vontade de sair do cinema, o que nunca me ocorreu antes. O que era isto? Somente uma semana após ver o filme as coisas foram se acomodando e revelando a imensa riqueza do filme, onde ao não podermos falar de algo, no caso de PI, sobre sua mãe e tudo que ele viu e sentiu, e também o confronto com o agressor introjetado ou aquele que todos temos e aparece, é que pude perceber o motivo do meu mal estar inicial.

O filme oferece várias versões de compreensão, e cada um pode escolher a sua. Há a religião, há o pensar positivo e seguir em frente, e quantas se desejar mais. Porém, a minha foi esta, a metáfora para falar de algo e poder tirar de si toda a dor e o ódio que ele por um momento carregou dentro dele mesmo. A viagem de Pi é no fundo uma grande luta com ele mesmo, até que o Tigre se vá, e ainda assim, ele deixa um resto, um pequeno traço em Pi.



Assista ao trailer





Ang Lee nasceu em 1954 em Chaojhou , Pingtung - Taiwan. Primeiro de origem asiática a ganhar o Oscar de Melhor Diretor. Vive nos Estados Unidos. 


TRILHA SONORA 


MÚSICA DE MYCHAEL DANNA - trilha sonora 


Mychael Danna nasceu em 1958. É um compositor canadense