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quinta-feira, 12 de maio de 2016

DOCUMENTÁRIO: O GUIA PERVERTIDO DA IDEOLOGIA - 2012


Direção: Shopie Fiennes - 2012
Duração: 134 min
Titulo Original: The pervert's guide of ideology
País de Origem: Irlanda


Neste documentário o filósofo Slavoj Zizek aborda através de vários filmes usando ao mesmo tempo roupas e cenários que se referem aos filmes, as muitas faces da ideologia. Zizek analisa os filmes pelo viés da filosofia e da psicanálise. Também se utiliza de músicas e de comerciais ou de produtos bem conhecidos. 

O primeiro filme que ele aborda é "Eles Vivem" de 1988 do diretor John Carpenter sobre os óculos que o protagonista encontra e ao usá-los ele vê o que os outros não conseguem ver. Zizek então nos fala que a ideologia é nossa relação espontânea com o mundo social, é como percebemos seu significado. Gostamos da ideologia e sair dela machuca. Eis o porque da recusa das pessoas de usarem o óculos, pois têm consciência de que ao colocá-los irá ver a verdade que pode ser dolorosa e não querem passar pela violência extrema da libertação, a liberdade dói. 

Com o filme "A Noviça Rebelde" de 1963 do diretor Robert Wise ele nos fala de uma parte da música que em seu país foi censurado e fazendo uso da psicanálise fala do gozo, de distinguir o gozo dos prazeres corriqueiros. A lógica da igreja católica, não do cristianismo, é que protegido pelo grande Outro - goze! Se você fingir, renunciar poderá ter tudo. O gozo é um estranho dever perverso, o excesso está sempre conosco. 

Para falar do sublime ao excremento, Zizek toma uma coca-cola, de gelada à quente. A dialética elementar da mercadoria é o excedente ilusório. Já o Kinder Ovo é usado para demonstrar o objeto do desejo, o brinquedo que está dentro do ovo que preenche o espaço vazio do ovo. A surpresa é o excedente. 

Com o "Hino à alegria" de Beethoven - Nona Sinfonia ele mostra como esta música é usada por opostos, nazismo, comunismo, maoismo, é o hino não oficial da União Europeia. Cena perversa de fraternidade universal.

A ideologia funciona como invólucro vazio. 

O filme "Laranja Mecânica" de 1971 do diretor Stanley Kubrick nos diz sobre o discurso liberal quando justifica a delinquência pela pobreza, miséria, exclusão. O homem não é apenas um produto de circunstâncias objetivas, tem uma margem de decisão. 

Com o filme "Taxi Driver" de 1976 do diretor Martin Scorsese e "Rastros de ódio" de 1956 de John Ford sobre a vítima que de um modo perverso goza ou participa de sua vitimização. Não quer ser redimida, resiste. 

O filme "Tubarão" de 1975 do diretor Steven Spielberg, Zizek demonstra como este filme unifica todos os medos. Fala do racismo, que o outro tem um gozo , perverso, ele tenta roubar de nós o nosso gozo. Perturba o nosso estilo de vida. 

Além destes filmes também serão citados Titanic para o sagrado e o obsceno, A Queda de Berlim, Mash, Nascido para matar, Batman o Cavaleiro das trevas, A última tentação de Cristo, O segundo rosto entre outros.

Zizek falará ainda sobre o capitalismo ter uma estrutura religiosa, a inércia do Real, dos ritos obscenos que regulam as escolas na Inglaterra. Sobre o grande Outro - o stalinismo. Sobre a histeria e por sermos responsáveis por nossos sonhos que encenam nossos desejos. 

Trata-se de um  documentário denso, para assistir mais de uma vez, mas vale a pena!

Shopie Fiennes nasceu em 1967 em Ipswich, Reino Unido.

domingo, 14 de junho de 2015

FILME: LA VALLÉE DES LARMES - 2012


Direção: Maryanne Zéhil - 2012
Duração: 95 min
País de Origem: Canadá
Filmado no Canadá e Líbano

Marie Simard (Nathalie Coupal) é uma editora que vive em Québec. Ela passa a receber diariamente envelopes que são deixados embaixo da porta da editora de alguém que conta sua história do que aconteceu no Líbano, os massacres que assistiu inclusive de sua família em dois campos de refugiados palestinos - Sabra e Chatila. Ela logo vai descobrir que quem lhe envia os envelopes é Joseph (Joseph Antaki) , um pintor que trabalha na editora. Ela quer publicar o testemunho, mas algo acontece que a faz ir pessoalmente ao Líbano para poder compreender finalmente esta história. 

Por outro lado Marie também vive um momento difícil, sua mãe está em coma no hospital. Ela tem uma mágoa profunda e não consegue perdoá-la. Quando jovem a mãe a fez abortar o filho de um namorado e ela acabou estéril o que mais tarde destruiu seu casamento com um homem que ela amava por não poder ter filhos. Há um jogo aqui, pois se realmente o marido a amasse não a teria deixado por outra mais jovem que lhe deu filhos, mas é assim que ele a responsabiliza pelo fim do casamento e ela aceita. Marie bebe muito para esquecer. 

Joseph aceita trabalhar com Marie para a publicação de seu testemunho, aos poucos vamos vendo o passado dele, o massacre, a morte de deu pai e irmãos por cristãos vizinhos, a fuga dele, da mãe e uma irmã até se esconderem num convento que os acolheu. Mas há algo que Joseph não pode contar. É o final desta história que irá se produzir a seguir quando Joseph efetua a vingança pedida pela sua mãe e mata os assassinos de sua família que agora também vivem no Canadá. É após isto que Marie parte para o Líbano, para compreender este ato. 

Lá os cristãos mortos por Joseph são considerados mártires. Suas fotos estão nas paredes. Marie vai até o convento onde a freira lhe conta a história do que se passou anos atrás com mais detalhes. Finalmente Marie vai procurar a mãe de Joseph e será dela que ouvirá que se trata de vingança para manter a honra e a dignidade de sua família e de seu povo. 

Ao retornar para Québec há um último envelope de Joseph. Ele então relata seu ato, mas deixa uma mensagem de esperança e perdão. Diz que o fez para que ocorra uma ruptura neste círculo de vinganças, para que seus filhos não precisem matar ninguém e possam ser felizes. Joseph se suicidou. 

A questão que o filme também enfoca, mas de forma infelizmente superficial é a questão da Mãe. A de Marie que lhe impôs um aborto se colocando como responsável por sua fertilidade e feminilidade, a de Joseph o instrumento da vingança que obriga o filho a cumpri-la.  

O filme me lembrou outro - Abril Despedaçado - onde sempre há a vingança e se espera por ela, que ocorre no Nordeste Brasileiro, mas também a mensagem do amor, de encerrar o círculo como neste filme quando Rodrigo Santoro o ator do filme toma um caminho diferente e no filme Incêndios, também  no Líbano, quando a mãe escreve as duas cartas. 

É um belo filme, mas menos profundo e intenso do que estes dois que acabo de citar, mas vale a pena assistir. 

Maryanne Zédhil nasceu em Beirute, Líbano

quarta-feira, 20 de maio de 2015

FILME: O ARTISTA E A MODELO - 2012


Direção: Fernando Trueba - 2012
Duração: 105 min
Título Original: El artista y la modelo
País: Espanha e França 

Um filme sublime! Logo no início vemos Marc (Jean Rochefort) caminhando pela natureza, e ficamos encantados com sua capacidade de ver coisas onde a maioria não vê nada. A capacidade de ter a mente e o olhar livre, como uma criança, que vê formas em tudo, cores diferentes, capaz de uma percepção absolutamente sensível ao mundo. A alma de um artista, mas que todos nós poderíamos e deveríamos ter. Marc senta-se no Café do vilarejo, observa as pessoas passando, vê principalmente as mulheres e observa sempre suas pernas e tornozelos. Ele senta em sua cadeira e olha a natureza ao seu redor. Quase não há som, é o olhar que conta. 

Marc tem 80 anos, está aposentado, é um cultuado escultor que vive com sua mulher Léa (Claudia Cardinale) em um vilarejo no interior da França perto da fronteira com a Espanha. Estamos em 1943, plena Segunda Guerra Mundial. Léa vai ao mercado e vê nas ruas uma jovem (Aida Folch) dormindo, é uma fugitiva do regime de Franco na Espanha. Ela então a acolhe. Marc logo se encanta com a beleza de seu corpo e sente despertar em si mesmo o desejo de retomar a escultura. Mercé passa a viver no ateliê de Marc no alto da montanha e posa para ele. 

O filme é preto e branco, mas é justamente o que valoriza a arte, podemos ver nitidamente o corpo e as sombras, as dobras, o contorno que vai se esculpindo, e aos poucos os formatos, a posição, os músculos. São poucas falas, mas as que ocorrem valem o filme inteiro. Em dado momento Marc fala sobre o equilíbrio e a plenitude. Sobre o equilíbrio nos diz que quando o encontramos é para destruí-lo, como uma pedra que joga na água. Sobre a plenitude diz que vê uma árvore que cresceu no meio de uma pedra, é violento mas belo, a natureza triunfa sempre. A beleza se revela em lugares que pareciam impossíveis, vilarejos bombardeados e árvores crescendo ele diz. 



Uma das mais belas cenas é quando Marc que durante todo o tempo vê a nudez de Mercê com olhos de artista de repente tem uma ereção. Ele parte, caminha. No dia seguinte Mercê o deixa tocar seu corpo, aquelas mãos que seguem as curvas para senti-las também em sua escultura, mas o quadro se inverte, e Mercê passa a tocar o velho com suas mãos. Fiquei pensando no quanto seria belo também uma escultura de um velho ou uma velha, e não apenas a beleza perfeita que tanto se busca e que no final não existe, é inatingível. 



Para Marc um modelo não é para fazer uma cópia, mas sim para consultar a natureza. Ele busca a essência da mulher brotando da natureza. Em dado momento ele relata sua visão do gênesis, diz que Deus não seria tão idiota a ponto de criar o homem à sua imagem, mas sim, que ele criou a mulher e então tiveram um filho que chamaram de Adão. Só havia uma proibição, de Adão se deitar com sua mãe e ele o fêz e por isto foram expulsos do paraíso. Eis o pecado original. A mulher para Marc é a primeira forma, a forma essencial. 

Um filme espetacular!

Fernando Trueba nasceu em 1995 em Madri, Espanha. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: TERRAFERMA -2012


Direção: Emanuele Crialese - 2012
Duração: 89 min
País: Itália - França 


Filme atualíssimo sobre a questão da entrada de refugiados na Europa, em especial na Itália, assunto que vem sendo notícia quase que diariamente nos noticiários, divulgando o drama destes refugiados que chegam da África fugindo das guerras civis e da fome,  sendo que muitos morrem no mar e da posição cada vez mais restritiva da Europa em recebê-los ou socorrê-los. 

O filme se passa numa ilha que sobrevive da pesca, mas principalmente do turismo, uma vez que a atividade pesqueira está em declínio. Mas a comunidade dos pescadores tem suas leis próprias, e principalmente a de nunca abandonar ninguém no mar. Com as novas leis restritivas eles entram em choque, uma vez que se sentem entre duas situações, ou obedecem ao que acreditam e sempre fizeram ou cumprem a lei, pois do contrário sofrem as punições. 


Filippo (Filippo Pucillo) acompanha seu avô Ernesto (Mimmo Cuticchio) que insiste em manter a tradição pescando no mar, sendo que a maioria ou vendeu seus barcos ou os utilizam para passeios turísticos como Nino (Giuseppe Fiorello), filho de Ernesto e tio de Filippo, cujo pai morreu no mar e de quem era o barco que eles usam para pescar. Um dia eles avistam uma pequena embarcação lotada de pessoas, refugiados. O avô avisa a polícia costeira, porém recolhe a bordo vários que estavam no mar, entre eles uma mulher etíope grávida , Sara (Timnit T.) e seu filho. Como isto é ilegal eles a levam para a casa de Filippo e sua mãe Giulietta (Donatella Finocchiaro) é quem faz o parto da menina que nasce.




As consequências deste ato virão, uma vez que a polícia descobre que alguns deles foram recolhidos pelo pesqueiro e no dia em que eles estão saindo para levar alguns turistas para passear são abordados pela polícia que confisca o barco. 

Há um conflito moral, principalmente para Filippo entre seguir o que fazem os ancestrais e os mais velhos da ilha ou respeitar a lei. Ele vê os efeitos de desrespeitar a lei que recaem sobre seu avô, o medo de sua mãe de serem descobertos. Sara relata para Giulietta que o bebê é fruto de estupro que ocorria na frente do menino. Que levaram dois anos para chegar à ilha. Em um dado momento Filippo está no mar com uma garota, e ao ver os refugiados se aproximarem de seu barco ele tenta ir embora, precisa bater com os remos nas mãos deles para poder ir embora. É uma cena triste, difícil, pois de um lado temos seres humanos que irão morrer afogados e de outro a lei que manda não socorrer. 

Já Nino se preocupa com o turismo, é seu ganha pão, e diz a todos que ali não há refugiados, o que os turistas não desejam ver uma vez que foram para a ilha para descansar e ver belas paisagens, se divertir. Mas tudo muda no dia em que vários náufragos chegam à praia mais mortos do que vivos.  Os moradores estão divididos entre manter tudo em ordem por causa do turismo e a comunidade dos pescadores que tem um código de ética e de humanidade que os leva a socorrer estas pessoas que estão no mar. 

Apesar do filme não se aprofundar muito ele nos dá uma pequena ideia do drama dos refugiados que chegam à Europa pelo mar. Também nos deixa uma lição de ética e moral, afinal, o que fazer? socorrer seres humanos famintos, sedentos, em desespero ou não? ou seguir a lei que determina que não é para recolhê-los? A polícia o faz e os leva de volta de onde vieram. 

Há outra questão que não aparece no filme, mas se nos aprofundarmos um pouco mais na história veremos a responsabilidade da Europa nas guerras civis da África, sejam por causa da colonização, ou das divisões territoriais que elaboraram, ou seja pela manutenção de grupos militares ou até mesmo ditadores em função de interesses econômicos. A fome que existe em vários destes países, a falta de perspectiva, a violência, à qual o ocidente fecha os olhos. É cada um por si. 

O diretor Crialese decidiu fazer este filme após ler a história de uma africana que foi um dos cinco sobreviventes de um barco lotado que passou 21 dias à deriva no mar sem ajuda antes de chegar a Lampedusa, na Itália. "Fiquei hipnotizado pelo rosto dela, por sua expressão. Ela tinha acabado de passar pelo inferno, três semanas em alto mar, com pessoas que os viam, se aproximavam e jogavam água e então os abandonava novamente. E ela parecia ter chegado ao paraíso." disse Crialese. 

É Sara quem representa esta mulher no filme. O filme é uma denúncia à repressão da imigração ilegal. O que vale mais? o Estado, sua fronteira e leis ou a vida humana? O planeta Terra pertence a todos, mas as fronteiras e as leis foram criadas pelo homem. A situação é delicada com certeza e envolve muito mais do que o humanitarismo, mas com certeza não é deixando morrer as pessoas que isto se resolve.

Emanuele Crialese nasceu em 1965 em Roma, Itália. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

FILME: ATRÁS DA PORTA - 2012


Direção: István Szabó - 2012
Duração: 97 min
Título Original: The door

Baseado no livro de Magda Szabó (não tem parentesco com o diretor) 

Magda ( Martina Gedeck ) é uma escritora casada que vive na Hungria, ela e o marido acabam de se mudar para uma casa onde ela pretende se dedicar totalmente à escrita. Para isto procura por Emerenc ( Helen Mirren) e a contrata para cuidar da casa. Porém, a relação entre as duas ultrapassa o profissional. 



Emerenc vive numa casa onde não abre a porta para ninguém, nem mesmo para seus parentes que costuma receber no jardim. Isto desperta a curiosidade de todos. Além disto ela tem uma bela porcelana que usa nestes encontros e também para levar quitutes que faz para Magda e seu marido. Emerenc é temida pelos outros por ter muitas vezes um comportamento agressivo. Ela carrega traumas de guerra que se refletem em muitas de suas atitudes e comportamentos. É uma pessoa estranha, mas como ela mesma o diz, uma estranheza que nunca prejudicou ninguém. 



Aos poucos ela passa a confiar em Magda e a gostar muito dela, e vai lhe contando sua história e um dia devido um temporal dos quais Emerenc foge com muito medo, ela permite que ela entre em sua casa desde que jure que nunca contará a ninguém o porque de manter sua porta sempre fechada. Quando Emerenc adoece Magda se verá numa situação extrema, trair a confiança dela e lhe salvar a vida, ou respeitar o desejo dela de morrer sozinha dentro de sua casa. Emerenc não tem medo da morte, e diz "que é preciso aprender a matar. Deus mata!". 

A questão do limite de até onde podemos interferir na vida ou morte do outro. A questão do mistério que se cria em torno de uma pessoa que decide manter uma privacidade absoluta, que não abre a porta para ninguém entrar em sua casa. Até onde podemos ultrapassar estes limites do outro? mesmo diante de um caso como doença? São questões que o filme nos coloca. 


István Szabó nasceu em 1938 em Budapeste, Hungria 

domingo, 7 de dezembro de 2014

FILME: A CAÇA - 2012




Direção: Thomas Vinterberg - 2012
Duração: 115 min
Título Original: Jagten

Um filme que nos coloca numa posição de termos que imaginar a situação sem estarmos cientes de que Lucas não fez nada, que nos provoca a capacidade de termos empatia.Nunca devemos julgar baseados em nossos preconceitos, mas antes, dar ao outro a possibilidade de falar e se defender. 

Quem não assistiu seria melhor não ler, uma vez que vou falar do filme na íntegra. 

Lucas (Mads Mikkelsen) está passando por um momento difícil com sua ex-esposa que não lhe dá muito acesso ao filho Marcus, mas por outro lado está reconstruindo sua vida. Conseguiu um lugar de professor em uma creche e se interessou por uma mulher com quem começa um relacionamento. Tem seus amigos do grupo de caçadores. Vive numa pequena cidade pacata próximo a natureza.

Ele é o único homem na creche e as crianças gostam dele, costumam se esconder para lhe pregar sustos quando ele está chegando e ele adere à brincadeira. Como professor lhe cabe também levar as crianças ao banheiro, limpá-las e por isto muitas vezes ele fica sozinho com elas, como as professoras mulheres. 

Tudo está se encaminhando, ele está conseguindo o que deseja, que seu filho Marcus venha passar uns tempos com ele, até o dia que Klara, a filha de seu melhor amigo Theo (Thomas Bo Larsen) aparece, ela está sozinha, meio perdida. Lucas então a acompanha até em casa. Ela tem uma mania, andar pelas listras que vê na calçada. Klara é uma linda menininha, mas que não recebe muita atenção de seus pais, aparece sempre sozinha, e ela tem um irmão adolescente que lhe mostra num tablet um homem com o pênis ereto. Ela fica meio sem compreender direito isto, mas de alguma maneira isto a marca. 

Ela se afeiçoa à Lucas e gosta muito da cachorra dele, Fanny, e faz um coração para lhe dar de presente e no meio de uma brincadeira na creche ela se lança sobre ele e lhe dá um beijinho nos lábios. Lucas lhe diz que estes beijinhos são só para papai e mamãe e quando ele recebe o presente o devolve à Klara dizendo que ela poderia dá-lo à outra pessoa. Lucas agiu corretamente, mas Klara se ressentiu, se sentiu novamente rejeitada, e em sua tristeza no final do dia quando a diretora da creche Grethe (Susse Wold) a vê no escuro ela acaba lhe dizendo que não ama Lucas, que ele tem um pipi. A diretora ri e lhe diz, sim como seu pai e irmão e todos os homens, mas Klara responde, mas o dele é duro... como um pau. O que seu irmão havia dito no dia que lhe mostrou a cena no tablet. 

A partir disto a diretora ficará inquieta, o que é absolutamente correto. Ela fala para Lucas que uma das crianças o acusou de abuso, mas não diz quem, não o que foi, não lhe dando nenhuma oportunidade de compreender, se explicar e se defender. Ela o manda para casa enquanto procedem as investigações. Grethe então chama em auxílio um homem, que me parece ser um psicólogo, e aí ocorre o erro, porque ao falar com Klara e não obter respostas, as que ele queria ouvir, ele coloca palavras na boca da criança fazendo perguntas que induziram a criança a responder. Isto ao meu ver não é o melhor procedimento. 

Os adultos acreditam que a criança não mente, e aí temos uma ilusão pois crianças mentem sim. Ver a criança como a inocência pura, ignorando a sexualidade que ela possui, e que ela não é cruel é o desejo do adulto que se esquece, que recalca sua própria infância. Klara ao se sentir rejeitada usou de algo que ela sabia de alguma forma que era errado, mas ao mesmo tempo sem saber exatamente o que era. É como a criança que ouve um palavrão e o repete e é repreendida pelos pais que o falaram, dizendo que ela não pode falar. Por outro lado, quando uma criança diz algo assim é óbvio que o adulto vai ficar extremamente preocupado e terá que fazer algo. Em quem acreditar? o que faríamos no lugar de Grethe? da mãe de Klara? do pai de Klara? 

Quando Klara diz que Lucas não fez nada ninguém a escuta, acreditam que ela recalcou, que esqueceu e que se trata de uma reação da criança ao ocorrido, o que realmente pode acontecer. 

A partir do veredicto do psicólogo Grethe chama os pais de Klara, conta para sua mãe o que aconteceu e depois alerta a todos os pais para ficarem atentos aos sintomas do abuso sexual em seus filhos. A paranoia se instala e apesar do filme não mostrar podemos imaginar os pais pressionando os filhos por respostas, o que as leva a dizer coisas que eles acreditam ser sintomas do abuso. Não sabemos se elas repetem o que os pais pensam, o que seus amiguinhos dizem ou o que, mas apesar da evidência da mentira quando a polícia vai à casa de Lucas e descobre que não há nenhum porão que todas as crianças descreveram como o local do abuso, ninguém muda seu discernimento sobre tudo. 

A vida de Lucas é destruída, ele é agredido por todos, seu filho também, matam seu cachorro, a namorada fica em dúvida e ele a manda embora. Até a véspera do natal quando Lucas vai à missa na igreja e na frente de todos diz ao pai de Klara para olhar em seus olhos e ver o que está ali. 

Após um ano, meio que sem explicações de como ocorreu a reaceitação de Lucas na sociedade local, todos aparecem felizes para o dia que Marcus fará a passagem da fase de garoto para homem, ou seja, o dia que ele recebe sua licença para caçar e ganha do pai uma espingarda. No dia seguinte eles vão caçar e Lucas escapa por pouco de um tiro que foi para ele, ou ele supõe que foi para ele, uma vez que ao olhar novamente não há ninguém. Ele é a caça, e não o caçador, o que demonstra que nada ficará bem como se supõe quando todos se abraçam e estão felizes. Há certas coisas pelas quais passamos na vida que não se apagam tão facilmente. 

Por outro lado uma comunidade que valoriza a morte, matar animais, caçar, e considera isto o ritual de passagem para a fase adulta para o homem, tem que ser uma sociedade agressiva, portanto as agressões que Lucas sofreu no decorrer do filme dos moradores não são algo estranho  para eles.

Olhando mais ainda para o filme percebemos que a pedofilia e o incesto movem o inconsciente das pessoas, e isto provoca uma reação exagerada, violenta, uma vez que é uma reação à uma tentação que todos carregam de seu édipo. A pequena Klara reage a rejeição de sua demanda de amor com ódio, o que a leva à vingança. Muitos dirão que crianças não fazem isto, mas fazem, não são tão inocentes como a sociedade gostaria de crer. A comunidade se vira contra ele, vemos uma histeria coletiva onde ninguém em momento algum pergunta à Lucas sua versão dos fatos. Nem adiantaria, não iriam acreditar nele. 

Thomas Vinterberg nasceu em 1969 em Copenhagen, Dinamarca 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

FILME: METEORA - 2012


Direção: Spiros Stathoulopoulos - 2012
Duração: 82 min
País: Grécia 

Metéora é um dos maiores complexos de mosteiros do Cristianismo Oriental. Foram construídos sobre rochas de arenito na Grécia Central. Os monges eremitas fugindo dos otomanos encontraram nas cavernas dos rochedos de Metéora um lugar ideal para se refugiarem. Foram construídos em torno de 20 mosteiros dos quais restam atualmente apenas seis, sendo que cinco são masculinos e um feminino. É neste local que o filme se passa.

Theodoros (Theo Alexander) vive em um destes mosteiros. É um monge do cristianismo ortodoxo. Em frente ao seu mosteiro, separados por um abismo e uma rocha onde há uma árvore vive Urania (Tamila Koulieva), uma freira. Os dois se apaixonam e se vêem frente uma escolha entre a fé e o desejo.



O filme é repleto de simbolismos. O que mais me tocou foi o labirinto que é representado através de desenhos animados lembrando a arte bizantina. O labirinto é extremamente simbólico, como um retorno ao centro para enfim alcançar a liberdade, e no filme quando o Theo animado entra nele levando um bola de lã, numa referência ao fio de Ariadne, alcança o centro ele encontra Cristo na Cruz, e então ele lhe prega as mãos na cruz provocando um mar de sangue que o leva de volta para onde está Urania. Para alguns pode simbolizar o inferno, mas o sangue também é a vida.

O desespero é considero o maior pecado, o único que não tem perdão. Mas também pode levar à liberdade e ao amor. No início do filme vemos um retábulo onde Theo e Urania estão separados por uma imagem dos dois mosteiros e Deus acima. Ao final do filme voltamos a este retábulo, mas já com mudanças.



Os mosteiros parecem estar no céu, muito acima do mundo, da vida que corre abaixo dele. E os dois se encontram neste plano inferior. Quando retornam tentam expiar o pecado, ele com orações e ela queimando sua mão, mas o desejo fala, e há uma bela cena de Urania tocando seu corpo se masturbando. Ela tenta não ver os sinais que Theo lhe envia usando espelhos para que o sol brilhe do outro lado, mas finalmente numa lembrança à Rapunzel ela irá estender seus cabelos que crescerão e irão até o outro lado.

O cenário é belíssimo, e podemos ver detalhes dos costumes do povo e também rituais dos monges. De minha parte apenas não gostei do abate de um cabrito para servir de almoço para Urania, feito por Theo. A cena é muito triste, o animal grita desesperado, também desesperado. O filme nos traz em muitos momentos a questão da natureza com a civilização, da razão com a fé, mas principalmente do desejo, e este, será da natureza ou da cultura? Será o urso que come o figo ou o homem? como vemos na animação?


Veja o trailer:


Spiros Stathoulopoulos  nasceu em 1978 na Grécia. Mudou-se com sua família para a Colômbia.

Assista imagens de Metéora na Grécia

sábado, 16 de agosto de 2014

FILME: QUARTETO - 2012


Direção: Dustin Hoffman - 2012 
Duração: 98 min 
Título Original: Quartet 

Em uma grande casa no meio de um parque belíssimo vivem vários idosos que são músicos e cantores aposentados. Eles passam o tempo lembrando os bons tempos, mas também continuam tocando e cantando. Todos os anos eles realizam uma festa com apresentações para arrecadar fundos para manter a casa. Cissy (Pauline Collins), Reggie (Tom Courtenay) e Wilfred (Billy Connolly) vivem lá e estão ensaiando para a apresentação. 

É quando chega uma nova moradora que ninguém sabe quem é. Trata-se de Jean (Maggie Smith), ex-esposa de Reggie que de início não fica nada satisfeito em vê-la ali. Mas logo os três pensam em reviver o quarteto que interpretou Rigoletto, porém Jean se recusa. 

O filme toca em temas da velhice, a perda da memória, as doenças, o corpo que já não é o mesmo. Novamente vemos pessoas mais jovens tratando idosos como se fossem débeis, o que não são, mas ali, os moradores tem respostas na ponta da língua. Chega a ser deprimente ver Wil ter que pedir a médica que cuida do local para poder ir jantar fora com os outros três afim de convencer Jean a cantar, ela impõe até horário que só é estendido após uma pequena chantagem feita por Wil. Este tipo de comportamento tão comum em nossa sociedade é algo que precisa mudar, idosos não são dementes, eles tem limitações naturais de sua idade, mas muitos ali são lúcidos e portanto capazes de escolhas. 

O encontro de Reggie e Jean trará a tona também velhas mágoas e será uma oportunidade de mudar isto. No fim ela aceita cantar, principalmente quando vê que sua concorrente na ópera irá cantar, como bom ser humano e como uma prima-dona, ela não irá permitir que ela brilhe mais do que ela. 

Um filme bonito, uma comédia dramática. 

Dustin Hoffman nasceu em 1937 em Los Angeles, Califórnia, EUA. 

FILME: PÃO DA FELICIDADE - 2012


Direção: Yukiko Mishima - 2012
Duração: 114 min
Título original: Shiawase no pan 

Um dos mais belos filmes que assisti nos últimos tempos. De uma delicadeza, sensibilidade e de uma beleza estética ímpar, onde o cuidado com os mínimos detalhes, cores, visuais é extremo ao ponto de quase se sentir o cheiro e o sabor do pão.

Rie (Harada Tomoyo) e Sang (Oizumi Yo) mudam-se de Tóquio para o Lago Toya em Hokkaido e abrem um café com pousada. Ele faz pães com muito amor e um mais bonito e aparentemente saboroso que o outro, ela prepara o café moendo os grãos num moedor manual e cozinha as refeições. As estações passam, e a cada uma alguém vem para ficar na pousada e temos sua história e de como o prazer de comer um simples pão com um café maravilhoso pode fazer a diferença.





O filme nos mostra uma globalização do Japão, mas também nos traz o antigo, tudo preservado junto neste local acolhedor. Vemos um japonês tocando acordeon, uma mulher que tem uma loja e que tem um ouvido muito bom, pois sempre está pronto e embrulhado o que a pessoa pensa comprar em sua loja, o pão é assado no forno a lenha, o café moído em um moedor manual, as panelas são lindas, os detalhes da louça, dos enfeites, tudo de um extremo bom gosto, mas simples.





A generosidade e o que é feito com paixão é o que acolhe e transmite calor humano aos que buscam um pouco de aconchego. O pão é um alimento básico e simples, mas é justamente sua simplicidade que oferece às pessoas a possibilidade de perceber que é nas coisas simples que está o prazer.

Recomendo.


Yukiko Mishima 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FILME: BISTRÔ ROMANTIQUE - 2012


Direção: Joël Vanhoebrouck- 2012
Duração: 102 min
Título Original: Brasserie Romantiek

Pascaline (Sara De Roo) tem 40 anos e é proprietária de um pequeno restaurante mais conhecido como Brasserie na Bélgica que mantém junto ao seu irmão Angelo (Axel Daeseleire) que é o chef de cozinha. Eles possuem uma estrela no guia gastronômico. Além disto ela tem sua sobrinha que mora com ela, pois a mãe não lhe dá atenção.

É o dia dos namorados e todas as mesas estão reservadas e o cardápio neste dia é fechado e terá 05 pratos entre a entrada e a sobremesa. O filme passará por estas etapas apresentando a cada uma o prato que será servido.

As pessoas começam a chegar, mas o primeiro surpreende Pascaline, ele não está acompanhado como todos os outros, mas vem sozinho e somente para encontrá-la, trata-se de Frank (Koen de Bouw) que é um ex-namorado de Pascaline, por quem ela continua apaixonada depois de tantos anos. Ele lhe faz uma proposta que ela jamais poderia esperar. Após 20 anos sem aparecer ele está de partida para Buenos Aires naquela noite e quer que ela vá com ele.

Roos (Barbara Sarafian) chega e espera seu marido Paul que como sempre está vendendo um carro pelo celular. Durante o jantar Roos contará a ele que tem um amante.

Mia (Ruth Becquart) chega sozinha, ela explica que o marido a deixou pela sua melhor amiga, se é que se pode chamar de amiga, mas que retornou ali pois foi onde tudo começou, ele a pediu em casamento ali. Agora ela come chocolates e os vomita e pensa seriamente em se suicidar. O garçom Lesley (Wouter Hendrickx) se ocupa dela durante o jantar tentando fazer com que ela olhe a vida de outra forma.

Walter (Mathijs Scheepers) também aguarda sua convidada que ele não conhece pessoalmente, foi um contato pela internet e ela está atrasada o que o deixa extremamente tenso.

Outros casais também chegam e ocupam suas mesas, menos uma que fica vazia, não vieram nem justificaram sua ausência.

Durante o jantar iremos ver a história de cada um se desenrolar, as dificuldades no relacionamento, um casamento falido, as tentativas de arrumar alguém, as dúvidas.

Um filme sem grandes novidades, mas que é gostoso de assistir. Eu pessoalmente gostei muito foi de ouvir a língua flamenga sendo falada, pois minha família materna é dos Flandres.

Joël Vanhoebrouck nasceu em 1974 em Vivoorde, na Bélgica

sexta-feira, 4 de julho de 2014

FILME: A NEGOCIAÇÃO - 2012


Direção: Nicholas Jarecki - 2012
Duração: 107 min
Título original: Arbitrage

Robert Miller (Richard Gere) é um milionário que está com problemas em sua empresa e a está vendendo, mas às vésperas de fechar o negócio ele envolve-se em uma acidente de carro que mata sua amante. Para não atrapalhar seu negócio e manter sua imagem ele não assume a responsabilidade e foge do local, porém um investigador Michael (Tim Roth) não o deixará em paz.

Robert é casado com Ellen (Susan Sarandon) mas tem um caso com outra mulher, a que morre no acidente. Tudo parece perfeito, perfeito demais, uma vida em família, uma bela casa, são ricos, mas tudo isto é apenas a fachada. Robert não mede esforços para manter sua imagem custe o que custar.

Filme sobre moral, o que se faria no lugar de Robert? e de Ellen? é possível condenar?

Nicholas Jarecki nasceu em 1979 em Nova York, EUA.

Trilha sonora Cliff Martinez

Cliff Martinez nasceu em 1954 no Bronx, New York, EUA. É compositor e baterista

quarta-feira, 28 de maio de 2014

FILME: O IMPOSSÍVEL - 2012



Direção: Juan Antonio Bayona - 2012 
Duração: 113 min 
Título original: The impossible  / Lo imposible 
Autora: María Belon 
País: Espanha 

Baseado em fatos reais

26 de dezembro de 2004 o tsunami atinge a costa Asiática. Maria (Naomi Watss), Henry (Ewan MacGregor) e seus três filhos passam o Natal num resort na Tailândia. Na manhã seguinte estão todos na piscina quando um tsunami devastador atinge a costa.





A família se separa, uns não sabem dos outros. Maria e seu filho Lucas (Tom Holland) estão juntos, lutam para sobreviver, são arrastados pelas águas até que conseguem subir numa árvore. Encontram o pequeno Daniel e o levam junto. Maria está muito ferida. O socorro chega de forma precária, ela é arrastada pela ilha, não há macas ou padiolas, até chegar a um lugar onde arrancam uma porta para levá-la ao hospital. Os dois pensam que o pai e os dois menores estão mortos.



Maria é socorrida, Lucas a pedido de sua mãe procura ajudar aos outros, todos estão desnorteados, perdidos, procurando pelos seus familiares. Quando ele volta para perto da mãe para contar que havia ajudado um menino a encontrar o pai ela não está mais lá. Uma enfermeira o leva, sua mãe morreu enquanto ele estava fora. Sua dor e desamparo é imensa.

O local está devastado, mas seu pai e seus irmãos não estão mortos. O pai os encontrou e agora procura por Maria e Lucas. Enquanto isto Lucas descobre que sua mãe não morreu, ela havia sido levada para uma cirurgia. Finalmente o pai vai ao hospital onde eles estão, mas não os encontra. É Lucas que encontra seus irmãos e então finalmente o pai.



A mãe se salva, passa por nova cirurgia e finalmente eles vão embora. O impossível aconteceu, todos estão ali, juntos.

O filme traz cenas doloridas, o desamparo, o medo, a dor, o inferno que é um local após um desastre destas proporções. Os que perderam sua família, filhos, mulher, marido. Um retrato do que ocorreu ali, depois do tsunami.

Lucas amadureceu, passou por coisas difíceis, o garoto do início do filme que não queria falar com os irmãos menores, que dizia não ter medo, aprendeu o que é o medo. Quando ele conta para sua mãe que viu Daniel, e que ele estava nos braços de alguém que deveria ser seu pai, ela diz que o ama muito e que está muito orgulhosa dele. Lucas finalmente chora, liberta todo o medo que sentiu, o garoto que ele ainda é.

Uma experiência que trouxe lições a todos, de valorizar o que realmente é importante, e não a obsessão que Henry tinha com sua casa, emprego, ele aprendeu que o mais importante é sua família.


Juan Antonio Bayona nasceu em 1965 em Barcelona, Espanha.

Trilha sonora de Fernando Velázquez

Fernando Velázquez nasceu em 1976 em Bilbao, Espanha. É um compositor espanhol. 

domingo, 25 de maio de 2014

FILME: LORE - 2012


Direção: Cate Shortland - 2012
Duração: 109 min  
País: Alemanha - Austrália - Irlanda - Reino Unido

Baseado no livro de Rachel Seiffert - A Câmara Escura - Revelação comovente de uma dolorosa herança nazista. - The dark room. 


1945, a Alemanha é derrotada. Um oficial nazista tem que fugir às pressas e leva sua família para a Floresta Negra, a mulher e seus cinco filhos, entre eles um bebê. Lore (Saskia Rosendahl) é a fiha mais velha e quando sua mãe se entrega a incumbe de levar seus irmãos para a casa da avó em Hamburgo.



Será um longo trajeto em meio as zonas ocupadas. Lore terá que procurar comida e locais para passar a noite. No caminho vê jornais com fotos do holocausto e de seu pai. Hitler se suicidou.

Ela encontrará Thomas (Kai Malina), um judeu que escapou com vida e que irá ajudá-la, mas ainda assim ela terá todos seus preconceitos sua ideologia nazista impedindo que se aproxime ou acredite nele. Para isto terá que vencer toda a educação e ideologia que recebeu em sua formação e será se defrontando com todas as dificuldades durante o percurso que lentamente ela perceberá que os judeus não eram sujos ou mentirosos como sempre acreditou.

Os alemães no filme não demonstram compaixão nem mesmo por crianças, para conseguir comida ela tem que ter algo para oferecer, dinheiro ou jóias que sua mãe lhe deu para a fuga. É sempre pedido algo em troca, até mesmo o corpo, mas nada é gratuito e com generosidade, exceto Thomas que divide com ela o que conseguiu e ainda assim há uma cena que me repugna, mas que é compreensível pela sua formação, quando ele traz comida e ela o afasta, separando a ela e seus irmãos dele para comer.

Os alemães não acreditam nas fotos do holocausto, dizem que é montagem, que são atores, que é obra dos americanos, que nunca o Führer faria isto. A sacralização deste líder como um pai, que não comete erros e que ama a todos seus filhos alemães como se fosse Deus.

Finalmente conseguem chegar a casa da avó graças a ajuda de Thomas que num determinado momento tem que ir embora, pois seus documentos desapareceram. A avó os recebe, dá comida, tomam banho, e uma boa cama. Quando um dos gêmeos pega o pão com a mão recebe uma dura reprimenda da avó, onde aprendeu estes modos? ela é dura, enérgica, autoritária. Diz que seus pais não estavam errados, que Hitler não estava errado, que seus pais não fizeram nada de errado. É neste momento que Lore rompe com toda esta farsa, ideologia fanática. Ela pega o pão com a mão, derruba a água na mesa e a puxa para a mão para beber para total indignação da avó que a manda se retirar imediatamente, o que ela faz de muito bom grado.



Toda esta educação, disciplina e obediência que levam a não pensar, a aceitar tudo como certo e correto, sem avaliar nada. Estas crianças foram educadas para considerar os judeus sujos, mentirosos, ladrões, indesejáveis. Mas foi um judeu quem ajudou Lore, não foi nenhum alemão.

A Lore do início do filme, em sua bela casa, belas roupas, ainda uma criança que acredita em tudo que lhe dizem vai ter que através deste percurso difícil crescer e se tornar uma mulher no final do filme que consegue ver com seus próprios olhos.

O filme tem dois belos momentos simbólicos, logo no início a irmã de Lore brinca de amarelinha, indo do inferno para o céu, e depois quando Lore enterra a foto de seu pai, a do jornal e a que tinham.



Cate Shortland nasceu em 1968 em Temora, New Shouth Wales, Austrália.

Trilha sonora de Max Richter

Max Richter nasceu em 1966 em Hamelin. É um compositor germânico naturalizado na Grã-Bretanha. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

FILME: UM DIVÃ PARA DOIS - 2012


Direção: David Frankel - 2012
Duração: 100 min 
Título original: Hope Springs 
Roteiro: Vanessa Taylor
País: Estados Unidos 

Kay (Meryl Streep) e Arnold (Tommy Lee Jones) estão casados há trinta anos. Porém, o casamento já perdeu todo seu romantismo e caiu na rotina, já não há mais erotismo, namoro e Kay faz várias tentativas para estimular e cativar novamente Arnold que não funcionam. Ela compra livros para ver se descobre algo novo até que chega a um terapeuta de casais que parece ter a fórmula mágica.

Ela então compra as passagens e marca a sessão com o terapeuta Dr. Feld ( Steve Carell) e consegue "arrastar" Arnold para lá.

Apesar do cômico do filme ele trata de um assunto sério, pois são muitos os casais nesta situação e a insatisfação se instala, porém conformam-se e passam a viver com este vazio e falta. Não será fácil reavivar a chama da paixão, mas para quem pelo menos tenta, há sempre uma possibilidade.

O importante é não se deixar levar pela rotina e se acomodar, e principalmente não acreditar nos estereótipos de que o desejo acaba com a idade. Ele pode ser mais tranquilo do que a fogosa juventude, porém está ali, e a qualquer momento ele se acende, em qualquer idade. Um filme importante para casais que perderam a magia da união, do erótico, do prazer.



David Frankel nasceu em 1959 em New York, EUA.

Musica do filme: I don't want to be your mother - Rachael Yamagata