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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

SOLIDÃO, DINHEIRO E FÉ: UM RETRATO MORAL DA SOCIEDADE QUE AINDA NOS ATRAVESSA

 


SILAS MARNER: O TECELÃO DE RAVELOE

GEORGE ELIOT

JOSÉ OLYMPIO – 1ª ED. 2017

238 páginas 

Há livros que encontram o leitor no momento certo. Silas Marner é um desses. Em tempos difíceis, George Eliot oferece um romance que, sem ingenuidade, insiste em pensar a possibilidade da mudança individual, da reparação e da bondade — mesmo em um mundo atravessado pelo egoísmo, pelo dinheiro, pela mentira e pela culpa.

A narrativa acompanha a vida do tecelão Silas Marner, um homem marcado por sucessivas perdas, injustiças e exclusões. Vítima de uma acusação falsa e de uma comunidade religiosa rígida e hipócrita, Silas se afasta do convívio social e passa a viver de forma isolada, quase automática, concentrando sua existência na repetição do trabalho e na acumulação de dinheiro. Não por ambição, mas por medo: o ouro torna-se seu único vínculo com o mundo, uma falsa promessa de segurança.

George Eliot constrói, ao longo do romance, uma crítica severa aos valores sociais e morais de sua época, crítica que permanece atual. A religião aparece como espaço de controle e exclusão; a vida comunitária, como lugar de julgamentos precipitados; o dinheiro, como substituto empobrecido dos vínculos humanos. Ainda assim, Eliot não cai no cinismo. Há, em Silas Marner, uma aposta deliberada na possibilidade de transformação.

Uma frase do livro sintetiza esse movimento: “Quando um homem fecha a porta para uma bênção, ela pertence a quem a acolhe.” A ideia de bênção, aqui, não é religiosa, mas ética. O que se perde pela recusa, pelo endurecimento ou pelo apego excessivo pode se deslocar, encontrar outro corpo, outra forma de vida. Nada está definitivamente perdido.

Embora não esteja entre os romances mais famosos de George Eliot, Silas Marner concentra muitos de seus temas centrais: a amargura produzida pela exclusão social, a crítica às instituições morais, a desconfiança em relação a soluções coletivas abstratas e a ênfase na transformação ética individual. Eliot nunca foi uma autora interessada em movimentos sociais ou revoluções externas; sua aposta estava na mudança lenta, silenciosa, íntima.

Há também algo de autobiográfico nesse romance. A marginalidade de Silas, sua obsessão pelo trabalho, seu afastamento da vida social e sua relação ambivalente com o dinheiro ecoam aspectos da própria experiência de Eliot — uma mulher intelectual que viveu à margem das convenções e desconfiava profundamente dos julgamentos morais da sociedade.

Silas Marner é, assim, um livro discreto e profundo. Um romance que não promete salvação fácil, mas que insiste em algo cada vez mais raro: a possibilidade de redenção sem espetáculo, de bondade sem heroísmo, de mudança sem ilusões.



George Eliot pseudônimo de Mary Ann Evans, nasceu em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra em 1819  e faleceu em Chelsea, Middlesex, Inglaterra em 1880. Foi uma autodidata e romancista. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Poder, violência e vozes que não descansam

 



PEDRO PÁRAMO

JUAN RULFO

José Olympio, 7ª ed. 2020

176 páginas 

Juan Rulfo é um escritor mexicano, e sua obra-prima é Pedro Páramo. Confesso que, no começo, quase desisti: o livro é tétrico, funesto. Mas, aos poucos, fui percebendo o quanto essa obra é magistral.

Sim, Rulfo retrata um México de pobreza, miséria e revoluções, onde um único personagem concentra todo o poder: o nosso “coronel” no México, o latifundiário cruel, aquele que faz as leis e determina tudo de acordo com seus próprios desejos. E, para isso, manda matar se for preciso, como se fosse a coisa mais banal do mundo.

Recentemente postei aqui um livro da Sigrid Nunez, que fala de uma paciente terminal e da vida diante da morte. Em Pedro Páramo, temos o inverso: é a morte falando da vida. São os mortos que narram a história de Comala e de Pedro Páramo.

Juan Preciado, após a morte da mãe, atende a seu último desejo: ir até a aldeia onde ela nasceu — descrita por ela como um lugar muito bonito — e exigir de seu pai, Pedro Páramo, tudo o que lhe é devido, mas sem lhe pedir nada. Ao chegar, encontra um lugar ermo, seco, abandonado. Não há uma única árvore. Tudo é extremamente desolador.

Aos poucos, começam a aparecer pessoas. Mas essas pessoas estão mortas — e são elas que vão contando o que aconteceu ali. Preciado acaba se juntando a elas. Em Comala, já não há mais lugar para a vida. Pedro Páramo decretou isso após a morte de sua amada, cujo luto a aldeia desrespeitou. Em vingança, decidiu deixar todos morrerem de fome.

É realismo fantástico, sim — e é genial. A maneira como Rulfo conta essa história não segue um tempo linear, mas se constrói como uma reunião de lembranças, fragmentos, vozes. Penso que, assim, sentimos muito mais o que foi aquele México e aquele tempo.

 


Juan Rulfo nasceu em Apulco, Tuxcacuesco, Jalisco, México, em 1917 e faleceu na Cidade do México em 1986. Foi escritor. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

LIVRO: A DAMA DOURADA -A extraordinária história da obra-prima de Gustav Klimt, Retrato de Adele Bloch-Bauer - ANNE-MARIE O'CONNOR



O'Connor, Anne-Marie. 1ª ed. José Olympio Editora. 2013
Tradução: Mario Pontes
474 páginas.
Título original: The lady in gold: the extraordinary tale of Gustav Klimt's masterpiece, Portrait of Adele Bloch-Bauer .

Viena, final do século XIX, um momento extremamente rico quando Freud criava a psicanálise, Wittengestein e seu pensamento, as artes com seus pintores e músicos, mas que condenava as mulheres que desejassem ir para a Universidade ou votar. Adele Bloch-Bauer casada com Ferdinand Bloch-Bauer irá ignorar estas convenções e posar para Gustav Klimt que era considerado um sedutor, dizia-se que tinha casos com todas suas modelos.

Com a Segunda Guerra Mundial e a ascensão do nazismo a família de Adele, que era judia, terá que fugir, ir para o exílio, e para isto muitas vezes eram forçados a vender suas obras de arte ou doá-las para pagar a taxa para sair do país. Tudo que ficou para trás foi roubado pelos nazistas ou até mesmo por aqueles que eram antissemitas e colaboracionistas e ficaram no país. Adele já havia falecido, aos 44 anos de uma meningite, antes da guerra, e havia deixado em testamento ao seu marido seu desejo de que as telas fossem doadas ao Belvedere em Viena, um museu de arte. Com sua morte as telas passaram ao marido que com a guerra teve que fugir e perdeu tudo.

O livro nos relata a história de Adele e sua família, a guerra, e o pós-guerra. Maria Altmann filha da irmã de Adele é uma das herdeiras, e irá lutar para recuperar as telas no pós-guerra levando 50 anos para conseguir. Assim que a guerra terminou tudo que foi roubado não foi devolvido e isto foi criando processos de restituição aos seus legítimos donos, uma vez que eles foram forçados a vender ou a doar.

Normalmente numa guerra estes roubos são considerados butim de guerra, mas a questão do nazismo e do extermínio dos judeus, por terem sido forçados a fugir e entregar seus bens, pela apropriação inclusive dos imóveis por pessoas que não eram soldados, o que ocorreu em quase todos os locais onde haviam judeus que foram deportados ou fugiram, os sobreviventes iniciaram processos para recuperar pelo menos uma parte de seus bens. A Áustria se posicionava como vítima do nazismo, porém a situação real não era bem esta, eles festejaram quando foram anexados à Alemanha e receberam com aplausos os nazistas que acreditavam lhes devolveriam o esplendor de antes da Primeira Guerra. O país se negou a devolver as obras alegando que pertenciam a cultura local, e que no caso do quadro de Adele ele fora doado por ela ao museu.

A questão era, Adele o doaria se tivesse vivido o suficiente para ver o que aconteceu? o que houve com sua família? Legalmente o quadro pertencia ao seu marido, e este não o doou. O quadro foi considerado arte degenerada, porém ele exercia um fascínio tão grande que lhe foi roubado a identidade também, passando a ser identificado como A dama dourada, e não mais como um retrato de Adele, que era judia.

Um livro interessante, que além da história da família Bloch-Bauer, de um retrato da segunda guerra na Áustria, no fala principalmente do saque das obras de arte efetuada pelos nazistas para atender ao desejo de Hitler de ter um museu do führer e à ganância de outros.

Uma pequena ressalva, há momentos no livro que se divaga um pouco, trazendo informações muito superficiais sobre Freud, por exemplo, que seriam dispensáveis, uma vez que não fazem muita conexão ao assunto e ficam como que perdidas no relato. É como uma demonstração excessiva de cultura que é desnecessária dentro do relato que por si só já é rico o suficiente e interessante.

ANNE-MARIE O'CONNOR - correspondente de guerra, repórter cultural que se interessa pela criação e destino das obras de arte. 

GUSTAV KLIMT 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

LIVRO: O ATENTADO - HARRY MULISCH



Mulisch, Harry. José Olympio Editora, 2007
Tradução: Cristiano Zwiesele do Amaral
287 páginas

" Sua postura implica que, para ele, os acontecimentos já estejam de alguma maneira presentes no futuro, até chegar o momento em que alcançam finalmente o presente para virem a repousar no passado."

Em questão de minutos a vida de Anton muda completamente, tudo o que poderia ser, o que deveria ser, nunca mais o será, mas aquele instante em sua infância o marcará e irá sem que ele perceba definindo seu futuro até que ele finalmente possa confrontá-lo, compreender para então colocá-lo no passado.

O trauma foi forte, trágico, mas ele o esquece, recalca, e segue sua vida , sem se sentir uma vítima, sem perceber todos os efeitos daquele momento em si mesmo e também do quanto a dúvida, o não saber pode afetar sua vida.

Ele se tornará um anestesista, aquele que anestesia, que faz com que uma pessoa não sinta a dor, o que não deixa de ser uma metáfora sobre ele mesmo, haveria outra possibilidade para o menino que sonhava em ser piloto de avião? Escolherá para sua esposa uma mulher que traz em si os traços de outra mulher que o acalentou no momento trágico de sua infância. Seu filho se chamará Peter, como o irmão. Ele sentirá um mal estar a cada vez que encontra algo que traz o traço do trauma, uma cena de uma mulher na varanda, um dado em cima de uma mesa, até que acabará tendo uma crise de pânico.

Mas o livro não se atém apenas aos efeitos do trauma, ele também fala de como um ato, ou no caso, o atentado, pode modificar várias vidas e salvar outras. No relato da vida de Anton,  surge o panorama da vida na Holanda e do mundo após a Segunda Guerra até os anos 80. Mulisch penetra a alma humana, de como ela reage diante do medo, da culpa, do heroísmo, do que pode ser irrisório para uns e de suma importância para outros, de como o assassino pode se transformar num anistiado, e outro pode ser perdoado, mas a história sempre se repete em outros contextos, com outras pessoas.

Somente quando ele finalmente reconstrói sua história, lhe dá uma coerência e a aceita é que ele pode construir seu futuro, ao invés de deixá-lo ser apenas a consequência.

Um belo livro que recomendo.

Harry Mulisch nasceu em 1929 em Haarlem e faleceu em 2010 em Amsterdam - Holanda.