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sábado, 7 de fevereiro de 2026

O ESPÍRITO DA VELHICE SEM ILUSÕES


 

SEM TEMPO A PERDER: REFLEXÕES SOBRE O QUE REALMENTE IMPORTA

URSULA K. LE GUIN

GOYA – 1ª ED. 2023

272 páginas 

Nunca havia lido nada de Ursula K. Le Guin, mas este pequeno livro de ensaios — baseado no blog que ela criou, inspirado por Saramago — me deixou determinada a mergulhar em sua ficção. A obra é simplesmente genial: concisa, irônica, perspicaz e profundamente honesta.

Le Guin imprime aos textos sua veia sarcástica, um humor fino que percorre, com elegância, situações que só a velhice nos coloca diante. Ela questiona, observa e ironiza o envelhecimento com sensibilidade e lucidez. Não há pieguice nem autoindulgência; não há o clichê do “sou jovem por dentro”. Para Le Guin, a idade impõe limites — no corpo, na energia, e até no espírito — e reconhecê-los não diminui a intensidade da vida, pelo contrário, acrescenta consciência e valor ao que realmente importa.

Entre reflexões sobre a rotina, os gatos, a escrita e a passagem do tempo, a autora evidencia algo fundamental: a velhice não é perda total, mas uma etapa peculiar de aprendizado, liberdade e percepção. Saber que estamos “sem tempo a perder” nos obriga a valorizar o essencial, a enxergar prioridades e a viver com mais presença.

Sem tempo a perder é, portanto, um convite à reflexão, à honestidade com a própria vida e à celebração daquilo que permanece inestimável, mesmo quando os anos avançam. Um livro pequeno, mas intenso, que combina leveza e profundidade, humor e filosofia, e que revela o espírito de uma escritora que encara a velhice sem disfarces, mas também sem amargura.



Ursula K. Le Guin nasceu em 1929 em Berkely, Califórnia e faleceu em 2018 em Portland, Oregon, EUA. Autora de dezenas de livros de fantasia e ficção científica, é uma das principais autoras do gênero. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: A VIAGEM VERTICAL - ENRIQUE VILA-MATAS


Vila-Matas, Enrique.Cosac Naify, 2014
252 páginas
Tradução: Laura Janina Hosiasson
Título Original: El viaje vertical

País: Espanha 

Mayol vive em Barcelona e está acomodado em sua vida, acredita que fez tudo correto, enriqueceu com sua empresa de Seguros que agora é presidida pelo seu filho, deu uma vida boa a sua família, mas não consegue se entender com o filho mais novo e está furioso com ele por ter compreendido que ele o chamou de inculto. Sem saber Julían tocou no ponto mais sensível de Mayol, sua falta de cultura. Ele foi obrigado a abandonar os estudos por causa da guerra civil na Espanha e depois nunca mais retomou. 

Tudo teria continuado desta forma se não fosse a esposa de Mayol, Julia sem mais nem menos lhe dizer que está farta, que quer que ele vá embora porque ela precisa ficar sozinha e ter tempo para si mesma e descobrir quem ela é, depois de tantos anos se dedicando e fazendo as vontades de todos. Mayol não compreende, mas Julia está de certa forma dando uma dica para Mayol, sempre é tempo de se ir em busca de seu desejo, de descobrir quem somos. Julia, como o marido, considera que cumpriu sua missão e agora quer um tempo para si mesma que nunca pode ter antes.

Mayol sem compreender nada do que sua esposa Julia deseja acaba indo embora. Começa o que ele vai chamar de viagem vertical para o sul. Primeiro Porto, depois Lisboa até que ele chega a Ilha Madeira. É uma viagem para o fundo, de descobrimento de si mesmo. É um recomeço onde ele poderá finalmente enfrentar seu trauma e buscar o que deseja. Sempre é possível, a derrota às vezes é apenas a forma de sacudir uma pessoa para que ela saia de seu conformismo e autopiedade para fazer algo por si mesma.

É como os romances de formação só que aqui o personagem já tem mais de setenta anos, mostrando que enquanto se está vivo é possível ir em busca de si mesmo e do que se deseja.


Enrique Vila-Matas nasceu em 1948 em Barcelona, Espanha

terça-feira, 14 de outubro de 2014

LIVRO: A ORIGEM DO MUNDO - JORGE EDWARDS


Edwards, Jorge. Cosac Naify, 2014
158 páginas
Tradução: José Rubens Siqueira
Título original: El origen del mundo

Primeiro livro do meu projeto livros por país

País: Chile

Gustave Courbet pintou em 1866 o quadro "A origem do mundo", uma mulher com o rosto velado, de pernas abertas com sua vulva aparecendo. O quadro foi encomendado por um bei da Turquia. Pertenceu a Jacques Lacan, o psicanalista francês, e depois foi exposto no Musée D'Orsay em Paris.

A história começa quando o médico setentão Patrício Illanes e sua mulher Silvia, ambos exilados do Chile, vão à esta exposição e diante do quadro Patrício, ou Patito, como era seu apelido chileno, pensa que o mesmo parece muito com sua mulher. Na sequência dos acontecimentos temos o suicídio de Felipe Díaz, outro exilado, mas não sem antes haver um encontro entre este e Patito num café onde Felipe lhe fala de uma mulher filósofa, mexicana-japonesa, e de que acabou trocando um garrafa por uma mulher. Felipe bebia muito. Quando Silvia vê Felipe morto tem uma reação histérica que surpreende Patito e parece lhe confirmar suas suspeitas de que ambos eram amantes. A partir daí temos o relato neurótico de Patito em busca das provas desta traição.

É um retrato belo e cru do que o ciúme é capaz de fazer. Até que ponto chega a imaginação e o que passa a acreditar alguém que está submerso no ciúme, na paixão, na dúvida. Nada fara com que ele deixe de pensar que tem razão. Vai buscar as provas de forma patética, ridícula até, perguntando a todos que conheceram Felipe e pedindo que sejam generosos e lhe contem a verdade, pois somente assim poderá se curar do que tem consciência ser uma doença. Mas de nada adianta todos dizerem que isto é um total absurdo, que nunca viram ou ouviram nada, pois na mente delirante de Patito, eles estão com pena dele, ou querem poupá-lo, ou protegem, ou acham melhor mentir para preservar o casamento dele com Silvia.

Mas esta história vai muito além do ciúme, é uma história sobre a velhice, como o personagem de Memória de minhas putas tristes de Gabriel García Marquéz, que ao completar noventa anos deseja uma virgem, pois o sexo e a paixão fazem viver.

Quando Patito vê o quadro algo deve ter despertado dentro dele sem que o mesmo tivesse consciência disto. Sua vida sexual já não era como quando era jovem, e no seu entender, por ouvir tantas histórias de Felipe sobre mulheres, talvez pensasse que este devia ter uma vida sexual gloriosa, e que justamente chegava ao fim, quando escolhe a garrafa ao invés da mulher. Mas isto não descarta que antes disto teria sido amante de Silvia. E a imaginação é cruel neste momento, fazendo-o imaginar os dois juntos, o que o exasperava mais ainda.

Ao final de sua patética busca ele se volta para Silvia e lhe pergunta. Esta é de uma sensibilidade espantosa, pois acaba por compreender o que se passa. E lhe diz que sim, que foi amante de Felipe e lhe conta detalhes, o que desperta a sexualidade de Patito levando-o a ter uma relação sexual com ela que havia muito tempo não tinham.

A fantasia inconsciente, o desejo, a paixão, o sexo e o erotismo, a fantasmagoria, tudo isto está neste livro e descrito de uma maneira esplêndida. O quadro A origem do mundo também pode ser interpretado como de onde nascemos, de onde viemos, e a velhice é o fim, e não é um retorno ao paraíso, mas é o nada, o vazio, o não conhecido que assusta. Somente com a ficção ou a fantasia, ou a imaginação, se pode lidar com a morte, e a velhice é o momento onde isto vai surgir fortemente, este medo da morte e a consciência que estamos muito longe desta origem. Patito prefere a ilusão do que a morte, prefere o amor-paixão que reaviva o desejo, e o que mais é a vida do que o desejo? ele nos movimenta. Quando o desejo cessa, estamos mortos.

Felipe Díaz não suportou e preferiu morrer, Patito optou pela vida, mesmo que sofrendo, mas quem sofre está vivo. Ambos sofreram a frustração de seus ideais políticos, ambos tiveram que sair de seu país e se exilarem, e sabiam que mesmo depois de tudo ter passado, não seria mais possível voltar ao seu país, não se identificariam mais com este lugar que ficou no passado. Se esta origem não lhes permitia viver, então porque não a origem da vida? o sexo e todo seu lado erótico.

Na velhice o erótico já não é como antes, e para não cair num sexo carne, animal, a fantasia e a ficção vem para sanar isto. Não é mais o belo corpo, mas a fantasia.

Recomendo a leitura

Jorge Edwards nasceu em 1931 em Santiago, Chile. 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

LIVRO: MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES - GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ


Márquez, Gabriel García.17ª ed. Record, 2007
Tradução: Eric Nepomuceno
127 páginas
Título original: Memoria de mis putas tristes.

Ao completar 90 anos um cronista e crítico musical decide comemorar seu aniversário ao lado de uma jovem virgem, e para isto liga para sua conhecida Rosa Cabarcas, dona de um bordel que não via há muitos anos.

Conhecido como sábio e professor, aposentado ainda escreve crônicas dominicais. Vive sozinho na casa que foi de seus pais, dorme na cama que foi de sua mãe, nunca se casou, nunca amou uma mulher, mas sempre as teve, todas sempre pagas para suas noites de amor.

Agora ele irá passar sua noite de aniversário ao lado de uma jovem virgem que ele irá chamar de Delgadina e o inesperado acontece, ele se apaixona pela primeira vez e irá cometer todas as loucuras de amor que temeu sua vida toda. Irá lhe dar presentes, entre estes uma bicicleta que ele não resistirá a experimentar andando com ela e cantando, comprará flores, irá decorar o ninho de amor para que fique mais aconchegante, irá minar sua amada, mas não irá deflorá-la. Se contentará em olhá-la, tocar seu corpo, beijar seu corpo e dormir ao seu lado indo embora sempre antes das cinco horas da manhã.

E viverá pela primeira vez tudo que o amor pode proporcionar, seu pensamento estará constantemente no ser amado, a imaginará ao seu lado, sentirá sua presença, seu cheiro, a tal ponto que teme olhar a realidade e perder a imagem que ama. Terá que se haver com o ciúme, o desespero, a ansiedade da espera, o temor de perdê-la.

Na redação irão lhe fazer uma pequena festa surpresa e ele ganhará um gato, também velho, um ser estranho para ele que sempre viveu sozinho, e tão ranzinza quanto ele, tão solitário quanto ele. Ele que pretendia se demitir continuará escrevendo suas crônicas, mas agora para surpresa de todos, serão crônicas de amor.

Um livro que nos fala de uma vida de solidão, de um homem que nunca conheceu o amor mas irá descobri-lo na velhice quando todos esperariam que isto não acontecesse mais, até mesmo ele. O milagre da vida, do amor, e do desejo de viver. Nunca é tarde para amar, e talvez amar aos 90 anos seja muito mais belo e próximo de um amor verdadeiro do que quando se é mais jovem.


Gabriel García Márquez nasceu em 1927 em Aracataca na Colômbia. Prêmio Nobel em 1982 foi o criador do realismo mágico na literatura latino-americana.
Após eu postar o livro Gabriel García Márquez faleceu em 17 de abril de 2014 na Cidade do México, México.

sábado, 4 de janeiro de 2014

LIVRO: A BELA VELHICE - MIRIAN GOLDENBERG




GOLDENBERG, Mirian. Record, 2013
128 páginas

Mirian nos fala de uma velhice bonita, saudável, cheia de vida, de prazeres, ao contrário do que normalmente se julga ser ficar velho, uma pessoa que terá doenças, não conseguirá mais se locomover com liberdade, que terá limitações. Sim, haverá limitações, assim como a criança que não consegue andar ainda, a pessoa após certa idade já não consegue escalar o Everest, mas isto em momento algum lhe tira o prazer de viver e desejar e de ter autonomia e liberdade sobre sua vida.
Muito bom, apesar de que fico triste por ver quantos preconceitos ainda existem e como a sociedade, principalmente as mulheres, são cruéis com elas mesmas. É interessante porque a criança e o adolescente sempre se projeta na vida adulta e se interessa por isto, mas o adulto nega que vai ficar velho. Não é com ele isto. E gostei muito da posição de que não existe isto de melhor idade, melhor idade pode ser em qualquer época da vida.