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sábado, 6 de junho de 2026

FILME: QUANDO BANGLADESH CHOROU – FARAAZ



 

FILME: QUANDO BANGLADESH CHOROU – FARAAZ

Direção: Hansal Mehta – 2023

País: Índia

Duração: 1h 52 min


O filme é inspirado no atentado em Daca, Bangladesh, em 2016, em um restaurante que deixou 20 civis mortos, além de policiais e dos próprios terroristas. O local era o Holey Artisan Bakery, localizado no bairro diplomático.

A importância deste filme neste momento, no Brasil, é que mostra o que são, de fato, terroristas. Diante da tendência de considerar narcotraficantes ou grupos de resistência armada, em outros lugares, como terrorismo, é importante saber diferenciar essas três categorias.

A resistência armada, ou guerrilha, tem como objetivo lutar contra invasões de seus territórios, ocupações, ditaduras ou governos opressores e busca a libertação do território, a independência ou uma mudança de regime político.

O terrorismo, por sua vez, tem como objetivo coagir governos, impor ideologias, desestabilizar a ordem pública ou o governo através da intimidação e do medo generalizado.

Enquanto a resistência armada procura evitar atingir a população civil, o terrorismo não se importa com isso; ao contrário, a população costuma ser seu principal alvo, atacando locais públicos e cidadãos desarmados.

O narcotráfico são organizações criminosas que atuam no tráfico de drogas, pessoas e outras atividades ilícitas em larga escala, formando redes de crime organizado.

O filme relembra o atentado em Bangladesh perpetrado pelo Estado Islâmico (ISIS), um grupo extremista armado de ideologia jihadista sunita. Seu objetivo é instituir o califado, isto é, um governo sob interpretação rigorosa da lei islâmica – a sharia. São considerados terroristas devido seus ataques contra civis, execuções brutais, extrema violência e destruição de patrimônios históricos e culturais.

Cinco jovens foram cooptados pelo ISIS. Um deles é bem educado e formado em Universidade. Eles passam a acreditar em uma interpretação extremista e distorcida do Alcorão, convencendo-se de que, ao morrerem, irão para o paraíso e de que o martírio representa uma honra.

Faraaz (Zahan Kapoor) é um jovem muçulmano que está no restaurante acompanhado de duas amigas estrangeiras. Ele conhece o líder do grupo (Aditya Rawal), justamente aquele que estudou na Universidade. O confronto entre os dois deixa clara a diferença entre suas interpretações do Alcorão.

Durante o ataque, os terroristas matam todos os estrangeiros e não-muçulmanos, enquanto poupam os muçulmanos. Ao mesmo tempo, começam a pregar, afirmando que Bangladesh precisa voltar a ser o que era no passado. Em determinado momento, as críticas feitas pelo líder ao Ocidente apresentam questões legítimas, mas isso não serve, em hipótese alguma, como justificativa para atos terroristas.  

Foram horas de terror até que eles libertam os muçulmanos. No entanto, Faraaz se recusa a sair sem suas amigas estrangeiras e sela seu destino.

Outro ponto que chama a atenção, e não apenas neste filme, é a sensação de desorganização na polícia indiana e, neste caso, bengalesa. Elas aparecem sempre discutindo entre si e demonstrando dificuldade para agir de forma rápida e coordenada. No filme, ao final, quem invade o restaurante e mata os terroristas é o Exército.

Preciso incluir aqui um adendo: os Estados tendem a definir como terroristas os grupos que desafiam sua autoridade por meio da violência. Ao mesmo tempo, grupos insurgentes costumam se apresentar como movimentos de libertação, resistência ou revolução. “O terrorista de uns é o combatente da liberdade de outros”.

Terrorismo é um conceito frequentemente disputado na política internacional, mas naquele dia em Daca, no restaurante, se manifestou de forma concreta.


                          Hansal Mehta nasceu em Mumbai, Índia, em 1968. É um cineasta indiano. 


domingo, 24 de maio de 2015

FILME: PARFUMS D'ALGER - 2013



Direção: Rachid Benhadj
Duração: 108 min
País: Algéria 

É a história de Karima (Monica Guerritore) uma fotógrafa algeriana que vive em Paris e acaba de ter seu trabalho premiado. Desde que ela saiu da Argélia para escapar a tirania e violência do pai ela nunca mais retornou, mas recebe um telefonema da mãe falando sobre seu irmão, que aderiu a um grupo terrorista e está preso, condenado a morte. Ela então retorna ao seu país depois de 20 anos.

Neste retorno ela será então confrontada ao seu passado, aliás como se diz no filme, do qual nunca podemos escapar. Irá se recordando de sua infância, do seu irmão, de como se davam bem, mas também de toda violência sofrida vindo de seu pai. Aos poucos ela vai se reconciliar com sua família e acima de tudo consigo mesma. 

É um retorno as suas origens, suas raízes, e mesmo tendo vivido durante 20 anos em Paris, lutado por sua liberdade e independência ela irá se sensibilizar com a situação das mulheres na Argélia e sua falta de liberdade. Enfrentará seu passado em relação ao pai, mas terá que também aceitar que seu irmão não é mais aquele menino doce e fraterno que ela conhecia, sua realidade é outra agora e o que ele fez é terrível. Ela vai se apropriar de sua memória, mas acima de tudo dela mesma, do que ela é. 

Não temos como nos libertar das origens, podemos viver em outros lugares e desfrutar de uma liberdade do entorno, mas em nós vive algo que faz parte da infância, a família e um país onde nascemos com sua história,cultura e o social. O que Karima consegue fazer é um retorno a tudo isto e se reconstituir, conciliando seu lado de origem e também incluindo sua liberdade e independência. Ela vai ter que curar suas feridas que não estavam cicatrizadas como ela pensava ter feito ao não pensar no passado, e depois atar os fios de sua vida. 

Ao deixar a Argélia ela pensa esquecer tudo. Ninguém sabe nada sobre esta parte de sua vida, ela não fala nada sobre isto, nem mesmo ao homem com quem vive há 05 anos. Nunca mais falou a língua e não se interessou pelo o que ocorreu em seu país enquanto esteve fora. Ela terá que resgatar tudo isto para deixar de ser uma estrangeira em seu próprio país e se apropriar de sua identidade. 

O filme tem cenas locais muito bonitas, principalmente o jardim no começo do filme com suas árvores centenárias. 
Mohamed Rachid Benhadj nasceu em 1949 em Argel, Argélia. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

FILME: TIMBUKTU - 2014




Direção: Abderrahmane Sissako - 2014 
Duração: 95 min

País de Origem: Mauritânia 

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem


Baseado no caso real ocorrido em Aguelhok no Mali em 2012 - Um casal com dois filhos foi apedrejado até a morte por serem casados no papel. O ambiente ficou turbulento, os tuaregues fizeram uma rebelião e declararam independência da parte norte do país, os militares deram um golpe de Estado, e os grupos islâmicos tomaram o controle de partes do território com o objetivo de implantar a sharia. Em 2013 tropas francesas interferiram e recuperaram algumas áreas. Sissako não faz uma adaptação literal do fato.


Nunca um filme me provocou tamanha angústia. Sissako é brilhante!

Estamos em 2012 em uma pequena aldeia ao norte de Mali. Os extremistas religiosos estão no controle do lugar. Nada de cigarros, nada de música, nada de futebol, tudo é proibido. As mulheres tem que cobrir não só o corpo e os cabelos, mas também os pés e as mãos com meias e luvas. 

O que antes era uma aldeia alegre, cheia de vida, colorida, passa a ser seco e árido como o deserto, as pessoas se retraem, outras fugiram. Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino) vive com sua mulher Satima (Toulou Kiki) e sua filha em uma tenda afastado da aldeia. Todos foram embora, só eles ficaram. Ali eles conseguem ainda viver como antes até o dia que um pescador mata uma de suas vacas e ao tirar satisfações com ele a arma que Kidame levava dispara acidentalmente e mata o pescador. Então Kadime se vê nas mãos deste grupo de fundamentalistas.


O filme tem cenas fortes mas mostradas com cortes, e também nos traz Zabou (Kettly Noël) que aparentemente seria meio doida o que a coloca fora das interdições, sendo a única a manter a cor, a alegria no local. Seria necessário ser louco para ser livre numa situação assim? Até as mulas que andam pela aldeia tem mais liberdade. O futebol que é proibido, a bola descendo as escadas e a prisão do jogador. Em seguida vemos uma cena antológica de um grupo de rapazes e homens jogando futebol, mas detalhe, não há bola, mas o jogo acontece.



Uma mulher canta e é presa, julgada é condenada a chibatadas. Durante o castigo ela canta em lágrimas. Duas pessoas estão enterradas na areia e são apedrejadas. Uma jovem é dada em casamento a um dos extremistas sem o consentimento de sua família. Ela chora.




Onde está Deus nisto tudo? Não há piedade, nem misericórdia, há apenas o desejo do grupo que quer ser o Outro das pessoas que ali vivem. 

Um grupo fundamentalista que se apodera do lugar de Deus, do lugar da cultura e passa a ditar as regras e normas, mas as transgride, pois vemos um dos líderes (Abel Jadri) assediando a mulher de Kidane e este mesmo se esconde no deserto para fumar. 

O que sentimos surge das imagens do filme, da nossa percepção e do que nos toca como seres humanos, e no meu caso, como mulher diante de uma situação onde a mulher é um objeto e não um sujeito. Mas elas lindamente resistem, como a mulher que canta enquanto recebe chibatadas, como Zabou que penso se finge de louca, como Satima que dribla o que o líder esperava com a morte de seu marido, indo até ele e morrendo junto.



O que Sissako consegue é através da beleza e arte criar um impacto que é muito maior do que se ele filmasse apenas o horror, a violência de forma explicíta. Ele o faz, mas com cortes entremeados de cenas ontológicas. 

Abderrahmane Sissako nasceu em 1961 em Kiffa, Mauritânia