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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

FILME: A PELE DE VÊNUS - 2013



Direção: Roman Polanski - 2013
Duração: 96 min
Título Original: La Vênus a la fourrure
Roteiro: Roman Polanski e David Ives
País: França - Polônia


Baseado no romance do século XIX do austríaco Leopold Sacher-Masoch publicado em 1870 que acabou originando o termo masoquismo, baseado em seu nome.

"E o todo poderoso o golpeia e o coloca nas mãos de uma mulher."

"Amar e ser amado é como ser encantado. Entretanto, mais forte e mais lindo. E esse tormento que me consome. A cópula com essa mulher para a qual sou um brinquedo, um escravo miserável, servil, o chão onde ela pisa, minha deusa, minha ditadura, minha vênus coberta por peles."

Thomas ( Mathieu Amalric) é um dramaturgo que pretende encenar no teatro uma livre adaptação do livro de Sacher-Masoch. Ele está a procura de uma atriz e tem dificuldades em encontrá-la. Mas eis que surge Vanda ( Emmanuelle Seigner), atrasada, toda atrapalhada, quase que implorando uma chance para fazer o teste do papel de Vanda, pois o personagem tem o mesmo nome.



Se no início Vanda parece despreparada além de criticar a peça aos poucos ela adentra o personagem de forma impressionante e conduz Thomas a desempenhar o papel de Severin. De repente já não sabemos o que é encenação e o que é realidade, os papéis se invertem, há momentos que Vanda o chama de Thomas e outros de Severin, levando-o a confessar que há muito de sua vida pessoal na peça.

Quando Vanda lhe passa (à Severin) a sua "pele" (no filme um cachecol de lã), suas mãos tremem. Vanda lhe pergunta o porque e indaga se em sua infância não houve algo ao que Severin responde: " nós todos somos explicáveis e permanecemos inextricáveis. A vida nos faz ser o que somos num instante, imprevisível." É quando ele lhe conta sobre sua tia que usava uma pele. Ele foi uma criança terrível que perturbava a vida dos criados e do gato, e também não se portava bem com sua tia, até o dia que ela resolve se vingar e lhe dar uma lição. Ela entra em seu quarto junto com duas criadas munida de uma vara, ele tenta fugir, mas as criadas o seguram, é jogado sobre a pele, e elas cavalgam sobre ele enquanto de calças arriadas a tia lhe dá uma surra, o chamam de menina. A tia ainda o obriga a agradecer de joelhos e a beijar seu pé. A partir deste dia uma pele nunca mais foi uma simples pele e uma vara uma simples vara. "Em um instante ela fez de mim este que sou agora."

Até os dias atuais ela retorna em seus sonhos, e Severin diz à Vanda que ela lhe ensinou a coisa mais preciosa do mundo, que nada é mais sensual que a dor, nem nada mais excitante que a degradação. Ela se tornou meu ideal diz ele. Desde então eu procuro sua réplica e quando encontrar essa mulher me casarei com ela.

Há muito de psicanálise nisto. Quando nos apaixonamos geralmente o fazemos por nós mesmos,ou seja, vemos no outro nosso ideal. Aqui no filme talvez Séverin diz meu ideal como o ideal de mulher para ele, ou seja, alguém que o faça sofrer. Mas ao nos apaixonarmos também vemos um traço, que geralmente é de nossos amores objetais primários, ou seja, normalmente a nossa mãe. Porém em casos de abusos na infância, de algo que marca muito forte, que causa um trauma, esta marca pode mudar e permanecer se não for analisada e desvendada, para poder ser superada. Há a introjeção do agressor ou a posição de objeto deste agressor. De cruel ele passa a ser o objeto da crueldade de outro, de um sádico. Por que sua tia bem o é, uma vez que não seria necessário isto para educar o garoto.

O filme pode ser visto também sob o viés da questão do poder. No amor como na política, só um pode ter o poder, diz Severin. Vênus só pode reinar em um mundo de escravos. No início Vanda parece frágil, está à mercê do poder do diretor da peça do teatro, mas aos poucos isto muda, e na medida em que ambos vão ensaiando a peça, eles encarnam seus personagens, trocam de lugar, e ao final temos Vanda no lugar do mais forte, do que subjuga o outro.



Mas se pensarmos no que aconteceu na infância de Severin, e o diretor Thomas não nega que há muito de sua vida e de si mesmo na peça, vamos ver alguém que tem o desejo da dor como prazer, e que irá em busca de alguém que seja o sádico. Porém Vanda questiona isto, não aceita o desejo de dominar pois compreende que ele ao lhe pedir que o domine a está submetendo ao desejo dele e com isto a domina. É aqui o ponto da liberdade de Vanda que não entra neste "jogo" nem de poder, nem do sadomasoquismo.

Temos uma cena num divã onde Vanda nos parece assumir o lugar de um psicanalista. Thomas está no divã e ela lhe fala de sua noiva e da relação dos dois. Fala sobre o desejo dele.

Um filme que fala do amor, do patológico, de desejos, de poder. Do querer ser um objeto para preencher um espaço vazio que se vê no outro.



Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Emmanuelle Seigner, protagonista deste filme é sua esposa. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

FILME: BRUEGEL O MOINHO E A CRUZ - 2011


Direção: Lech Majewski - 2011
Duração: 96 min
Título Original: Bruegel  The Mill and the cross
País: Polônia e Suécia

Bruegel, o velho (Rutger Hauer) pintou "A procissão para o calvário" em 1564. O filme é uma recriação em movimento da criação deste quadro. É algo diferente e impressionante. O fundo do filme é o quadro, mas os personagens estão ali vivendo seu dia a dia como foi na época. É de onde Bruegel tira seu quadro.



É um mergulho diretamente no quadro. Acompanhamos vários personagens na época da ocupação espanhola dos Flandres, uma época de guerra de religiões e em meio a isto temos o pintor, seu amigo colecionador Nicholas Jonghelinck (Michael York)  e a Virgem Maria (Charlotte Rampling). 



O quadro se compõe com os personagens locais, os camponeses, os guardas espanhóis em vermelho, e a paisagem flamenga. O Cristo está no centro da pintura, caído ao lado da cruz. Corvos negros, as rodas levantadas em paus onde suspendiam os condenados para serem ressequidos. No centro os guardas espanhóis. O filme nos mostra as cenas no dia a dia que depois estarão no quadro. 





O grande moinho está no alto de uma rocha. Bruegel diz que nos outros quadros Deus está sempre próximo, aqui não. Ele é representado pelo moinho no Alto. 


É a construção de uma obra de arte. Bruegel observa, desenha, e assim vai compondo este quadro. Ele nos conta a história do quadro.


O quadro encontra-se hoje no Kunsthistorisches Museum, em Viena.

Um filme belíssimo, diferente, que todo amante da arte deve assistir. Não é apenas a história do quadro contada, é vivida nos seus pormenores.

Veja o trailer:


Lech Majewski nasceu em 1953 em Katowice, Polônia

Pieter Bruegel, conhecido como O Velho, para diferenciá-lo do filho, nasceu em 1525 em Breda,  Países Baixos e faleceu em 1569 em Bruxelas, Bélgica. Foi um pintor do Renascimento Flamengo

sábado, 3 de janeiro de 2015

FILME: IDA - 2013


Direção: Pawel Pawlikowski - 2013
Duração: 82 min

Polônia - 1962. Anna (Agata Trzebuchowska) é uma jovem noviça que em breve vai fazer os votos para se tornar freira no convento onde vive desde pequena, porém a Madre obriga-a a conhecer seu único parente vivo antes disto, sua tia Wanda (Agata Kulesza). Anna não sabe nada de sua história e origem e sua primeira descoberta é que se chama Ida e é judia.



Wanda é uma mulher amargurada, uma promotora e membro do partido comunista. Ambas partem então em busca do passado e terão que enfrentar seus fantasmas e suas origens. 

A católica Anna terá que aceitar a Ida que ela conscientemente desconhecia, e para fazer isto ela irá se identificar com a tia imitando-a em determinado momento do filme, a identificação com sua família, sua história, ao lado da que construiu no convento que fez dela a Anna, ela terá que fazer uma escolha, mas somente após experienciar seu outro lado, como um ser dividido que é.




O filme recupera um momento triste da história da Polônia e da Segunda Guerra, especialmente na Polônia onde houve um antissemitismo forte por parte dos poloneses aos judeus, o que vemos retratado no filme na história dos pais de Anna e da posse da casa deles por um casal polonês que agora teme que as duas Tia e sobrinha queiram tomar posse novamente do que é delas. Isto ocorreu muito quando judeus sobreviventes retornaram e encontraram suas casas com novos moradores que nem os recebiam, ou fechavam a porta em suas caras. 

Tanto Anna quanto Wanda terão que se ver com o passado que até o momento estava oculto e arcar com isto. Tudo que fica reprimido acaba voltando e com mais força. E o filme talvez traga esta mensagem, que é necessário trazer a tona e colocar em palavras aquilo que muitos tentam esquecer. 


Pawel Pawlikowski nasceu em 1957 em Varsóvia, Polônia

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

FILME: O PIANISTA - 2002


Direção: Roman Polanski - 2002 
Duração: 150 min. 
Título original: The pianist
Roteiro: Ronald Harwood
País: Polônia 


Baseado na autobiografia com o mesmo título de Wladyslaw Szpilman, um músico polonês. 

Indicado a sete oscars, ganhando o de melhor ator, melhor diretor e melhor roteiro adaptado. Também ganhou 02 Baftas, 06 Césars e a Palma de Ouro. 

O pianista Wladyslaw (Adrien Brody)  quando ocorre a ocupação alemã da Polônia é enviado para os campos de concentração junto com sua família, porém no último momento antes do embarque é salvo por um amigo que não é judeu e que o retira da fila que segue para o vagão de trem.

Wladyslaw vivia com sua família e tocava piano em uma rádio quando começam as primeiras restrições aos judeus, tendo que usar a estrela que identificava os judeus é obrigado a se mudar com sua família para o gueto de Varsóvia. Após a deportação de sua família ele se vê sozinho, vivendo escondido e tendo ajuda no início de resistentes, mas ele se verá sozinho e após o bombardeamento terá que se esconder em casas destruídas, passará fome e frio. Será descoberto no final da guerra por um oficial alemão que ao saber que ele era um pianista vai protegê-lo.

Após a libertação o oficial estará preso em um campo e pedirá que peçam a Wladyslaw que testemunhe a seu favor por tê-lo protegido. Quando fica sabendo ele vai até o campo, mas já não há mais ninguém.

O filme retrata o que se passou em Varsóvia quando os nazistas entraram, como enganavam os judeus com promessas falsas fazendo com que não acordassem a tempo e terminassem num trem com destino para o extermínio. Wladyslaw assistiu de sua janela a cenas chocantes quando os alemães chegavam após terem recebidos denúncias e entravam nos apartamentos onde havia judeus matando a todos ou levando-os para serem deportados.O filme também tem relações com o diretor Roman Polanski que escapou do Gueto de Varsóvia após a morte de sua mãe. 

Ele volta a tocar após o fim da guerra e viveu em Varsóvia até morrer em 2000.

Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Iniciou sua carreira na Polônia. O filme O Pianista se passa no Gueto de Varsóvia onde o diretor esteve na infância por ser judeu.

Wladyslaw Szpilman nasceu em 1911 em Sosnowiec, Polônia e faleceu em 2000 em Varsóvia.

Trilha Sonora de Wojciech Kilar


Wojciech Kilar nasceu em 1932 em Lviv, Ucrânia e faleceu em 2013 em Katowice, Polônia. Foi um compositor.