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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: O ABRIGO - 2011


Direção: Jeff Nichols - 2011
Duração: 120 min
Título Original: Take Shelter
Roteiro: Jeff Nichols 
País: Estados Unidos

Curtis (Michael Shannon) e sua esposa Samantha (Jessica Chastain) vivem numa pequena cidade de Ohio. Eles tem uma única filha com seis anos que possui uma deficiência auditiva. Apesar das dificuldades de conseguir ter os meios para ajudar a filha que precisa de uma cirurgia, eles vivem felizes e são até mesmo considerados um modelo de casal que tem uma vida boa pelos amigos. Até o dia em que Curtis começa a ter pesadelos com uma tempestade apocalíptica e fica obsessivo.

Além dos pesadelos, Curtis começa a ter visões, alucinações, como pássaros voando, mas a questão é que para ele isto é real, assim como seus pesadelos são premonitórios, um aviso. Mesmo assim ele procura ajuda, e vai visitar sua mãe que está internada por ser esquizofrênica. Durante um tempo ele esconde de Samantha o que está acontecendo, mas é impossível que ela não o perceba, uma vez que começa a ter um comportamento estranho e decide construir um abrigo no quintal para proteger-se e à sua família da tempestade que ele tem certeza vai acontecer.

Curtis começa a ir a uma psicóloga que o escuta, porém como é de um sistema de saúde conveniado, um dia ele chega e não é mais ela, é outro. Infelizmente esta interrupção acaba rompendo o processo ao qual ele já estava engajado. Seu melhor amigo não compreende o que está acontecendo com ele, e quando Curtis tem um pesadelo com este amigo que o atraiçoa, ele tem certeza disto, e pede seu afastamento de sua equipe o que gera no amigo um ressentimento que se transforma numa vingança, levando Curtis a perder seu emprego. Justo quando ele havia hipotecado sua casa novamente para construir o abrigo e a cirurgia de sua filha estava marcada, pelo convênio da empresa. 

Samantha o ama, e procura compreender e lhe dar apoio. Seu irmão chega com ares de mais velho lhe dando uma bronca, os amigos se afastam. Curtis além das alucinações se sente perseguido o que se evidencia em seus pesadelos quando seu cachorro o morde, seu amigo o agride, sua mulher o ameaça.



Percebe-se nitidamente a falta de preparo tanto no aspecto médico e psicológico como na sociedade em lidar com pessoas assim. E o interessante é que o final nos propõe algo até mesmo desanimador, uma vez que Samantha e a filha acabam digamos "contagiadas" pelo pânico, obsessão e delírios de Curtis. Isto me lembra claramente como uma paranoia se instala numa sociedade, como contaminando a todos, com algumas exceções que lhe escapam.



A cada um sua interpretação sobre o final do filme, alguns podem optar pela premonição, o transcendental, outros pela mente doente. Mas até que ponto um psicótico não está mais próximo ao real do que os outros? 

Curtis diante de seus pesadelos e visões no fundo tem medo, medo do histórico familiar, do que aconteceu com sua mãe. Ele oscila entre avaliar sua sanidade mental e o real de seu medo, do que sonha e vê. Ele receia  sua origem, não consegue e não tem um atendimento que o leve a falar, e reconstruir esta história. 


Jeff Nichols nasceu em 1978 em Little Rock, Arkansas, EUA.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

FILME: CAMILLE CLAUDEL, 1915 - 2013


Direção: Bruno Dumont - 2013
Duração: 95 min 
Roteiro: Bruno Dumont
País: França 

Continuação da vida de Camille Claudel, porém produções separadas, diretores e atores.

O filme começa com Camille ( Juliette Binoche) já no hospício. Um detalhe interessante é o que o filme foi rodado num hospício real, onde os internos atuaram.



Ela permanece com a mania de perseguição, acredita que querem envenená-la, roubar suas obras, as que ela mesma destruiu. No mais, era calma e lúcida. O médico chega a dizer ao irmão que ela pode sair e retomar uma vida normal, mas a mãe nunca quis e nem seu irmão Paul Claudel (Jean-Luc Vincent)  que era o único a visitá-la, nem mesmo transferi-la para um local mais próximo de Paris sua mãe aceitou.






Quando ela ia para a consulta com o médico, ele a ouvia, e ela repetia sempre a mesma coisa, ela se fixou no episódio, no que houve com Rodin. Ele nunca falava com ela, só a ouvia.
Era vigiada, sempre havia uma freira que surgia em algum momento em todos os lugares. Não podia escrever cartas, exceto as autorizadas pela família. Não podia escrever a uma amiga. Uma vida de tédio, sem ninguém.



O filme retrata muito bem este tédio, o morno, parado. O dia a dia dela. Sentimos isto ao assistir ao filme.
Ela nunca saiu, morreu interna. Foram 30 anos reclusa.



Se fosse no mundo atual, Camille poderia ser uma grande escultora, reconhecida em vida, mas ainda assim resta uma questão, será que ela conseguiria, com a mãe que teve? ou também sofreria psiquicamente as consequências?

Assista ao trailer



Bruno Dumont nasceu em 1958 em Bailleul, Nord, França. Estudou e lecionou filosofia antes de fazer filmes. 

FILME: CAMILLE CLAUDEL - 1988



Direção: Bruno Nuytten - 1988 
Duração: 166 min
Roteiro: Bruno Nuytten e Marilyn Goldin 
País: França 


Baseado no livro de Reine-Marie Paris

Ganhou o César de melhor filme de 1989.

Paris - 1885

Ela tinha um dom maravilhoso, mas viveu em uma época onde as mulheres não podiam se destacar, tinham que viver à sombra dos homens no que diz respeito a ser reconhecidas publicamente. Sua mãe a invejava, tinha ciúmes por causa do pai e não aceitava sua escolha de ser uma escultora.



Camille (Isabelle Adjani) se apaixona por Rodin (Gérard Depardieu) , grande escultor. Trabalha com e para ele até que percebe que seu trabalho não aparece. Ele vive com uma mulher com quem tem filhos, mas se recusa a abandoná-la para viver com Camille apesar de estar apaixonado por ela. Ela está grávida, e diante de sua recusa não lhe conta nada e aborta, e o deixa. Começa sua decaída e cai em desgraça na sociedade parisiense, mesmo tendo amigos como Claude Debussy (Maxime Leroux).



Eles discutem, e Rodin lhe diz que ela é uma escultora de terceira, que deve tudo à ele. Que ela a fez e que lhe deve obediência. É o início da paranóia. Sente-se roubada e irá acusá-lo de um complô contra ela até o fim de sua vida.



É o preço que pagou por assumir o seu desejo e ir contra o desejo do outro, de sua mãe. Quando não optamos pela neurose estamos caminhando na beira do abismo.

Ela não suportou não conseguir ser uma escultora reconhecida, não aceitou ser a sombra de Rodin, não suportou o rompimento. Passa a pensar que ele nunca a amou e queria apenas suas obras, e se fixa nisto.

Claudel esculpia a dor, a morte, isto chocava. Não consegue expor na Exposição, não consegue seu lugar no mundo da arte. Ela destrói a maior parte de sua criação, e depois dirá que foi Rodin que a roubou. Ela caminha para a loucura. Seu irmão Paul (Laurent Grévill)  escapa do desejo da mãe pela religião, mas não perdoa Camille ter feito um aborto.

Enquanto seu pai viveu ele a protegeu e tentou defendê-la da mãe, lhe possibilitar o acesso ao desejo, mas após sua morte, a primeira coisa que sua mãe fará é internar Camille com a ajuda de Paul Claudell.



Não encontrei o trailer legendado, o que segue é em francês





Bruno Nuytten nasceu em 1945 em Melun, Île de France, França.

Trilha sonora de Gabriel Yared

Claude Debussy - Reverie

Gabriel Yared em 1949 em Beirute, Líbano. É compositor

Claude Debussy nasceu em 1862 em Saint-Germain-en-Laye, França e faleceu em 1918 em Paris. Foi um músico e compositor francês. 

FILME: MENOS QUE NADA - 2012



Direção: Carlos Gerbase - 2012
Duração: 105 min 

Baseado no conto "O diário de Redegonda" do médico e escritor austríaco Arthur Schnitzler e a leitura do ensaio de Freud "Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen" foi essencial para o final do filme. 

Dante (Felipe Kannenberg) está internado, psicótico, tem surtos e delírios. Uma psiquiatra Dra. Paula (Branca Messina) se interessa por ele e o escolhe para sua tese. Levanta sua vida, tenta descobrir o quê houve com ele.



Quando pequeno tem uma amiguinha, dá-lhe um beijo no rosto. Sua mãe viu e o faz prometer que nunca mais fará isto , que é pecado. Ele então vai falar com ela para dizer que não pode mais vê-la, mas a menina pede um último beijo em troca de seu chapéu que oferece como lembrança. Ele lhe dá um beijinho. Quando chega em casa, sua mãe está morta.
É o começo. Culpa! matou a mãe com o ato pecaminoso. O pai é distante. Ele enterra o chapéu no cemitério, onde sepultam sua mãe.
Transforma-se num adulto tímido, fechado, anti-social, mas que gosta muito de arqueologia. Acompanha um grupo que faz pesquisas e acaba reencontrando a menina do chapéu que está casada com um homem violento, e que fez uma descoberta no terreno onde estão montando uma pousada de fósseis. Ela mostra para Dante que se interessa.
Ele vai acabar se envolvendo com uma arqueóloga famosa que quer os fósseis para sua pesquisa.


Não se sabe ao certo o que ocorreu e quem fala a verdade, se ele ou a arqueóloga que era movida pela ambição.
A psiquiatra com os fatos recolhidos, depoimentos aos poucos fará com que Dante consiga melhorar, mas até certo ponto, não sendo possível fazer com que ele volte a uma vida social.
Ela irá fazer a apresentação de seu trabalho e citará Freud: o delírio é uma forma de cura!

Assista ao trailer


Carlos Gervase nasceu em 1959 em Porto Alegre 

domingo, 29 de dezembro de 2013

FILME: CISNE NEGRO - 2010



Direção: Darren Aronofsky - 2010
Duração: 108 min
Título original: Black Swan 
Roteiro: Andres Heinz - Mark Heyman - John J. McLaughlin 
País: Estados Unidos 

Ganhou o Oscar 2010 de melhor atriz, melhor diretor e melhor filme. 
Natalie Portman venceu o globo de ouro como melhor atriz.


O Filme é baseado no balé dramático O lago dos cisnes do compositor russo Tchaikovsky composto de quatro atos.

Belíssimo!

Uma mãe (Barbara Hershey) transfere para sua filha seu desejo que não se realizou, a trata como uma menina, doce e meiga e sempre repete isto: - Menina meiga! Um quarto com bichos de pelúcia, um grande coelho rosa. Só que esta menina já é praticamente uma mulher.
Nina (Natalie Portman) odeia e ama a mãe, dependência, não consegue ser ela mesma.
O amor e o ódio, o cisne branco e o negro, a ambivalência, a boazinha e a selvagem.
Ausência de pai, que imponha a separação da mãe e a lei do desejo. Ela é esquizofrênica, tem alucinações.
Uma parte dela tem que ser perfeita, doce, não relaxa, não curte a vida, não sabe seduzir, a menina meiga. Ela se mutila, se agride, autodestruição.
Não pode ter um homem, isto acabaria com o desejo da mãe, não pode ser mulher. Se masturba e vê a mãe na poltrona dormindo. Alucinação?
O outro lado deseja, quer seduzir, quer viver, mas ela o considera mau, tem que destruí-lo e voltar a ser a menina meiga.


Ela é uma bailarina, e o professor de dança Thomas Leroy (Vincent Cassel)  irá escolher quem irá interpretar o cisne negro e o branco para substituir Beth (Winona Ryder) que está se aposentado. Ela é escolhida para ser o branco, mas ela quer ser o negro também. Irá iniciar uma competição entre ela e outra bailarina Lilly (Mila Kunis), mas por mais que o professor quisesse que fosse ela, ao dançar ela não é um cisne negro, é correta e certinha demais, doce demais.



O filme mostra claramente o conflito dentro dela entre estes dois lados, que todos nós temos, mas que ela não consegue viver por que sua mãe a quer doce e meiga, e ela atende ao desejo do outro. Até que ela se transforma no mais belo cisne negro que já se viu, e dança maravilhosamente, fazendo com que sua mãe atinja seu desejo através dela, mas ela não o suporta, e terá que matar o cisne negro, seu lado negro. E também por que o que restaria dela depois de atender ao desejo do outro? nada!





Assista o trailer




Darren Aronofsky nasceu em 1969 em Nova York, EUA em uma família judia conservadora e sua irmã é bailarina. Graduou-se em Antropologia Social e Cinema em Harvard.

Música Clint Mansell 

Pyotr Ilyich Tchaikovsky - O lago dos cisnes 

sábado, 28 de dezembro de 2013

FILME: SÉRAPHINE - 2008




Direção: Martin Provost - 2008
Duração: 125 min
Roteiro: Martin Provost e Marc Abdelnour 
País: França 

O filme é uma cineobiografia de Séraphine Louis (1864-1942) mais conhecida como Séraphine de Senlis que foi descoberta pelo marchand e colecionador Wilhelm Uhde que foi um dos primeiros a ver em Picasso o grande pintor que ele foi.



Séraphine (Yolande Moreau)  é uma doméstica, uma simples mulher do povo, órfã foi criada num convento. Um dia tem uma visão, seu anjo da guarda lhe diz que tem que pintar.
Ela cria obras maravilhosas, pinta com os dedos no chão, em telas que ela mesma faz, prepara suas tintas com o material que consegue, em seu pequeno quarto que aluga na vila onde mora na França.


Ela passa a trabalhar para Uhde (Ulrich Tukur)  que vem morar na vila e ele descobre suas obras, porém com a Primeira Guerra ele tem que fugir, pois é alemão. Quando a guerra termina, ele retorna e então investe nela, vende seus quadros, lhe dá dinheiro a sustentando, compra material para ela e Séraphine passa a se dedicar a sua arte.
1929 - a quebra da bolsa nos Estados Unidos balançam o mercado das artes, Uhde já não consegue mais vender obras e não tem como mantê-la da maneira que fazia. Ela volta a ouvir vozes e segue o que lhe dizem, se veste de noiva e sai pelas ruas distribuindo objetos nas casas, a polícia é chamada e ela é levada, considerada louca é internada. Uhde irá lhe dar todo apoio material de que necessita, terá um quarto só para ela no qual a janela tem uma vista para um bela árvore, o que ela adora, mas nunca mais pintará, diz que ali não é um lugar para isto, queria voltar para casa, mas não lhe permitem. Terminará seus dias no asilo para doentes mentais.



Suas telas são vivas, quem as olha sente algo se mexendo, é forte, é sensual, é a natureza.Ela pinta de memória, não precisa de uma paisagem à sua frente. É uma pintura perturbadora onde há o inconsciente se manifestando. Uma mulher ao olhar para um dos seus quadros dirá: parece que mexem tuas flores, é como se houvessem insetos ali.




 Ela é muito sensível a qualquer coisa que o outro lhe diga. Ela não teve mãe para se espelhar e se definir, e recebe o nome de um anjo - serafim, e é um anjo que lhe fala, sua mãe? As mulheres da vila são intrigueiras, riem dela, e a invejam também. Quem será que é melhor? mais normal? E eu me pergunto, é possível pintar como ela fez sem ter um pouco de loucura? E que loucura ruim é esta que leva uma pessoa a pintar e não fazer mal a ninguém?



Yolande Moreau está deslumbrante no papel de Séraphine.




Trailer em francês com legendas em inglês




Martin Provost nasceu em 1957 em Brest, França. 



Trilha sonora de Michael Galasso 

Johann Sebastian Bach - Die Kunst der Fuge 

Michael Galasso nasceu em 1949 em Hammond, Louisiana, EUA e faleceu em 2009 em Paris. Foi um compositor

Johann Sebastian Bach nasceu em 1685 em Eisenach, Alemanha e faleceu em 1750 em Leipzig, Alemanha. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FILME: REQUIEM - 2006




Direção: Hans-Christian Schmid - 2006
Duração: 93 min 
Roteiro: Bernd Lange
País: Alemanha 

A história é baseada em fatos reais ocorridos no sul da Alemanha nos anos 70 com a jovem Anneliese Michel.

Uma mãe que impõe seu desejo, um pai que tenta proteger a filha e impor a lei paterna, libertando-a, mas não consegue, ele não aguenta a mãe também. A religião e a psicose. A filha luta, mas acaba exaurida. 

Michaela (Sandra Hüller)  quer estudar, mas sofre de crises, ouve vozes. Esquizofrenia. A mãe quer impedir que ela vá, mas neste momento o pai se impõe. A mãe é fria, dura, religiosa, não abraça, diz que as roupas que a filha gosta são horríveis e as joga no lixo. Pergunta se ela se acha bonita. 

Toda a identificação de uma filha com sua mãe para poder se tornar uma mulher não existe. Ela não tem a segurança necessária que obtemos no lar, no amor, na confiança e na crença que nossos pais são onipotentes para nos proteger. Como responder a pergunta: você se acha bonita? em tom pejorativo? 
A mãe que não suporta a filha que se distancia e não atende a seus desejos e a massacra com palavras, olhares e atos. 
Michaela vai para a Universidade e neste dia sua mãe lhe dá um terço. Suas crises que havia sumido, voltam, ela não consegue tocar a cruz, ouve vozes, até que desiste. Se deixa levar.



A questão não é que a mãe não a ame, mas é um amor onde o outro tem que atender ao desejo daquele que ama. Mesmo indo embora, ela não se liberta, o terço simboliza a mãe. Como diria Romain Gary "você luta e acaba morrendo como um cão em cima do túmulo de sua mãe." 
A mãe precisa deixar seu filho ir, ela deve estar preparada para perder o filho para a vida e tem que cuidar de seus desejos ela mesma, não passá-los ao filho para que este os realize.



O mais chocante do filme, é que ela acredita estar possuída por demônios e se submete ao exorcismo, ao invés de procurar ajuda médica. Ela sofria de epilepsia e era esquizofrênica.




O trailer está legendado em inglês





Anneliese Michel


Hans-Christian Schmid nasceu em 1965 em Altötting, Alemanha.