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sábado, 7 de fevereiro de 2026

O ESPÍRITO DA VELHICE SEM ILUSÕES


 

SEM TEMPO A PERDER: REFLEXÕES SOBRE O QUE REALMENTE IMPORTA

URSULA K. LE GUIN

GOYA – 1ª ED. 2023

272 páginas 

Nunca havia lido nada de Ursula K. Le Guin, mas este pequeno livro de ensaios — baseado no blog que ela criou, inspirado por Saramago — me deixou determinada a mergulhar em sua ficção. A obra é simplesmente genial: concisa, irônica, perspicaz e profundamente honesta.

Le Guin imprime aos textos sua veia sarcástica, um humor fino que percorre, com elegância, situações que só a velhice nos coloca diante. Ela questiona, observa e ironiza o envelhecimento com sensibilidade e lucidez. Não há pieguice nem autoindulgência; não há o clichê do “sou jovem por dentro”. Para Le Guin, a idade impõe limites — no corpo, na energia, e até no espírito — e reconhecê-los não diminui a intensidade da vida, pelo contrário, acrescenta consciência e valor ao que realmente importa.

Entre reflexões sobre a rotina, os gatos, a escrita e a passagem do tempo, a autora evidencia algo fundamental: a velhice não é perda total, mas uma etapa peculiar de aprendizado, liberdade e percepção. Saber que estamos “sem tempo a perder” nos obriga a valorizar o essencial, a enxergar prioridades e a viver com mais presença.

Sem tempo a perder é, portanto, um convite à reflexão, à honestidade com a própria vida e à celebração daquilo que permanece inestimável, mesmo quando os anos avançam. Um livro pequeno, mas intenso, que combina leveza e profundidade, humor e filosofia, e que revela o espírito de uma escritora que encara a velhice sem disfarces, mas também sem amargura.



Ursula K. Le Guin nasceu em 1929 em Berkely, Califórnia e faleceu em 2018 em Portland, Oregon, EUA. Autora de dezenas de livros de fantasia e ficção científica, é uma das principais autoras do gênero. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Amizade, finitude e o que resta viver

 


O QUE VOCÊ ESTÁ ENFRENTANDO

SIGRID NUNEZ 

Editora Instante - 1ªed. 2021

176 páginas 

Que boa surpresa este livro! Comprei porque ele foi adaptado por Pedro Almodóvar no filme Um Quarto ao Lado. Não conhecia a autora e agora já estou com mais dois livros dela na fila.

A escrita é muito gostosa. Sigrid vai relatando suas escutas, as histórias de outras pessoas, mescladas com a sua própria história. Um dos relatos de que mais gostei foi o do gato do abrigo — há algo de realismo mágico nessa parte.

Mas o eixo central do livro é a amiga da narradora, que tem um câncer terminal, e, a partir disso, o tema é a morte. Só que aqui não há chororô, nem discursos de autoajuda, nada de superação, salvação ou listas de últimos desejos. O que encontramos é a realidade de uma morte que se aproxima. Aliás, como o próprio livro lembra: o sentido da vida é a morte. Nascemos para morrer; o que nos resta é viver da melhor forma possível, colorir a vida dentro do que é possível.

E é exatamente isso que as duas personagens fazem. Elas riem muito, veem filmes, recordam muitas coisas e falam da morte. Sim, porque o comum é a negação — mas elas não negam, mesmo com o incômodo que isso causa na amiga doente. A vida não é fácil nem justa, mas é preciso viver. Por isso, mesmo falando da morte, o relato é profundamente sobre a vida.

Em determinado momento, a personagem com câncer reconhece que sempre odiou gente burra. Em uma entrevista feita com pessoas terminais, perguntam do que ela mais sentirá falta quando morrer. A resposta é direta: de nada, estarei morta. Sim, há pessoas que fazem esse tipo de pergunta.

Outra questão que permeia o livro é a do suicídio assistido. Diante de uma situação terminal, que tende a provocar cada vez mais dor, degradação física e até mental, não teríamos o direito de interromper isso antes? De poder morrer com dignidade? Por que essas pessoas precisam agir quase como criminosas?

Alguns dirão que só Deus tem esse poder. Mas então eu pergunto: qual é o direito da medicina de manter uma vida por meio de aparelhos que, ao serem desligados, levarão à morte — muitas vezes porque a família assim deseja, ao não aceitar a decisão divina? Isso também não seria interferir na decisão de Deus?

Esse questionamento atravessa o livro o tempo todo — sem religiosidade, mas a partir de um ponto de vista profundamente humano.

 



Sigrid Nunez nasceu em Nova Iorque em 1951. É escritora. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

LIVRO: REZE PELAS MULHERES ROUBADAS - JENNIFER CLEMENT


Clement, Jennifer. 1ªed. Rocco, 2015
237 páginas
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Título Original: Prayers for the stolen

O livro da jornalista Jennifer Clement é escrito em forma de ficção para dar conta de mostrar e denunciar  o que ocorre no Estado de Guerrero, ao sul do México, dominado pelo narcotráfico

O relato é poderoso e impactante, mas consegue também mostrar como estas mulheres conseguem viver neste mundo que as rodeia sem vermos um pingo de autocompaixão, mas sim de aceitação de como é suas vidas e do que devem fazer para sobreviver a isto. 

As mães rezam para que nasça um menino, mas quando é uma menina elas tratam de divulgar a todos que foi um menino e mantém a criança de cabelos curtos vestidas como meninos. Quando elas crescem é a hora de enfeia-las, cabelos curtos, sujam os dentes para que pareçam podres, jamais pintam as unhas. Um buraco cavado perto de suas casas é onde se escondem ao menor sinal de aproximação de uma SUV com os traficantes que vem roubar as meninas para vender. 

Uma vida miserável, sem nenhuma expectativa de futuro, mas ainda assim as quatro garotas da história onde a principal personagem é Ladidy, não em homenagem à princesa, mas como um ato de vingança de sua mãe às traições do marido, conseguem ir a escola (quando tem professor) e são unidas por uma forte amizade. O salão de Rute chama-se "Ilusão", um local não para o embelezamento da mulher, mas sim para a feiura. 

A montanha onde vivem já foi uma comunidade, mas hoje, após a construção da estrada que liga a Cidade do México à Acupulco é um local onde vivem poucas mulheres, pois seus homens foram embora para os Estados Unidos, a estrada dividiu a comunidade e muitos morreram. A única coisa que a mãe de Ladidy faz é assistir TV graças a antena parabólica que ganhou do marido que nunca mais voltou, e esta também é a única abertura para o mundo, uma cultura de televisão. O local é cheio de insetos, formigas e também escorpiões, a casa de Ladidy tem dois cômodos e o chão é de terra batida, o calor é insuportável.

Uma das garotas, a mais bonita, Paula, um dia foi roubada. Ela vai conseguir voltar mas nunca mais será a mesma. Ladidy terá a oportunidade de ir trabalhar em Acapulco, o que também não irá melhorar sua vida, pelo contrário, se verá envolvida num crime. Qual a única esperança destas pessoas? ir para os Estados Unidos.

A autora entrevistou por mais de dez anos mulheres nas regiões mais violentas do México. Baseada nisto ela criou este livro em forma de ficção para colocar palavras nisto que é inefável para as protagonistas e com isto fazer mais uma denúncia. Até quando?


Jennifer Clement nasceu em 1960 em Connecticut, EUA. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

LIVRO: GRANDE IRMÃO - LIONEL SHRIVER


Shriver, Lionel. 1ª ed. Intrínseca, 2013
336 páginas
Tradução: Vera Ribeiro
Título Original: Big Brother

Iniciei a leitura deste livro pensando em como age o psiquismo de alguém que começa a comer sem parar e engorda muito, o que o levaria à isto, mas acabei não atingindo esta expectativa o que não tira o mérito do livro que é brilhante, mas no sentido de nos mostrar como se sentem as pessoas que convivem com pessoas obesas e o que isto reflete nelas.

Pandora é a filha do meio, mas se considera a caçula em relação ao irmão, uma vez que sua irmã nasceu em um época diferente onde não compartilhou junto aos dois mais velhos de várias coisas da família. Então Edison e Pandora eram muito unidos.

Cada um seguiu seu rumo, Edison partiu cedo, aos 17 anos para tentar uma carreira de músico. Pandora foi para a faculdade e depois mais tarde conheceu seu marido com quem casou e recebendo junto os dois filhos do primeiro casamento dele que ela passa a considerar como seus. Fletcher o marido de Pandora em determinado momento vira um adepto de uma vida natureba, passando a proibir em sua casa comidas que ele considera maléficas, como por exemplo, pizza ou tortas com creme, mas adora dar uma garfada escondida nos quitutes que Pandora deixa propositalmente na bancada da cozinha quando ela faz algo assim. Ele também é obcecado por andar de bicicleta.

Pandora diante disto um dia faz um boneco que ao puxar o cordão recita tudo do jeito que seu marido fala, o que inicialmente o zanga, mas com as gargalhadas de todos ele acaba aceitando. E sem querer ela acaba descobrindo uma forma de ganhar muito dinheiro, pois aos poucos começam a chegar pedidos. Seu marido por sua vez é um marceneiro, mas faz móveis que acabam ficando muito caros e não tem mercado, então ele trabalha no porão da casa deles, mas não é o provedor do lar.

Tudo caminha desta forma até o dia que um amigo de Edison liga para Pandora pedindo ajuda em relação a ele, e esta imediatamente se propõe a recebe-lo em sua casa o que não irá agradar ao seu marido. No dia da chegada ela vai ao aeroporto buscá-lo e se surpreende diante de algo que jamais poderia imaginar, o gordo dos quais alguns passageiros falavam coisas horríveis é seu irmão.

A convivência com seu marido não será fácil o que levará Pandora a ter que tomar uma decisão.

Não posso falar mais sobre o livro pois isto tiraria o prazer de quem quiser lê-lo.

Pandora parece oscilar entre o desejo de cuidar de sua vida e deixar ao irmão a questão sobre sua obesidade e saúde, ou assumir esta responsabilidade e assim evitar a culpa que ela sente se lhe voltar as costas. Ela parece não saber encontrar uma alternativa entre estas duas situações. Ao mesmo tempo percebemos que ela tem dificuldades em aceitar seu sucesso com a empresa dizendo sempre que isto vai acabar, mas talvez no fundo o que sinta é um incomodo por ser a provedora da família enquanto seu marido faz seus móveis artesanais, mas não ganha dinheiro com isto. Ela então para amenizar isto age sem ocupar o lugar que é dela, e evita qualquer posicionamento onde ela teria que conduzir as coisas como deseja.

Ao mesmo tempo vemos no relato da história que seu irmão acabou engordando por ter perdido seu lugar no mundo do jazz e  ter se confrontado com o sucesso da irmã, que saiu até na capa de um importante revista. Pandora por outro lado não consegue sustentar isto, ela vive dizendo que não aguenta OUTRA sessão de fotos, só que ao dizer isto ela já revela seu sucesso que não consegue suportar.

A questão é:  Pandora é responsável pela obesidade de seu irmão? A meu ver não, por mais que ele tenha compensando suas frustrações que em parte ocorreram por ter perdido seu lugar no mundo musical e em parte ter perdido seu lugar como irmão mais velho o que indiretamente envolve Pandora, ela não é a responsável por isto. Mas ela não consegue lidar com a culpa que sente e isto faz o livro ser brilhante, pois ao criar uma ficção ela se expressa, expressa seus desejos, medos e culpas. Também faz uma revisão de toda sua história familiar, infância e a questão do pai que era um famoso astro da TV.

O final surpreende quando nos damos conta de como Pandora vai encontrar uma saída para seu dilema.

Lionel Shriver nasceu em 1957 em Gastonia, Carolina do Norte, EUA. É autora de Precisamos falar sobre o  Kevin que virou filme.

domingo, 10 de agosto de 2014

LIVRO: A VIDA DO LIVREIRO A.J.FIKRY - GABRIELLE ZEVIN


Zevin, Gabrielle. 1ª ed. Paralela, 2014
186 páginas
Tradução: Flávia Yacubian
Título Original: The storied life of A.J.Fikry

Acho que criei uma expectativa muito grande sobre o livro. É um livro gostoso de ler, que se lê em um só dia, bom para relaxar, pelo menos foi o que fiz, li o livro em um único dia. 

A história do livreiro A.J. Fikry em uma ilha, dono da única livraria local, no início rabugento, de mal com a vida após a perda de sua esposa em um acidente que recebe a visita de Amélia, representante de livros de uma editora que entra no lugar de outro que também morreu. Seu primeiro contato não é bom, mas Amélia contorna isto.

Mas a vida de A.J. Fikry irá mudar quando encontra um bebê em sua livraria com um bilhete e resolve adotá-la. Maya irá transformar a vida do livreiro e Amelia também, pois ele se apaixona por ela. Entre tudo isto temos o roubo de um livro raro que se transformaria na aposentadoria do livreiro. 

Confesso que esperava mais do livro. Gosto muito de livros que falam de livros, mas pessoalmente prefiro  O Ano do pesamento mágico ou o Clube do livro do fim da vida, onde os livros também vem em socorro de alguém  que está passando por momentos difíceis, apesar de não serem como no caso de Fikry, seu ganha pão. Por outro lado confesso que gostaria muito de ver livrarias como esta do livro em cidades pequenas, onde houvessem clubes de leitura e um livreiro que soubesse indicar os livros de acordo com o que seus clientes buscam e precisam.

O que mais me atraiu no livro foi o local, a Ilha Alice. Adoraria viver em um lugar assim, não tão alcançável, mas não tão distante. Durante o inverno a balsa não faz a travessia. E também o prazer de estar entre livros, isto eu compreendo bem, vivo rodeada deles, em todos os locais de minha casa há livros, eles andam pela casa e me aconchegam, me acolhem, me dão serenidade e companhia. 

Talvez eu seja como A.J.Fikry quando se trata de livros. 

Gabrielle Zevin nasceu em 1974 em New York

segunda-feira, 31 de março de 2014

LIVRO: OS LADRÕES DE CISNE - ELIZABETH KOSTOVA


Kostova, Elizabeth. Intrínseca, 2011
Tradução: Adalgisa Campos da Silva
536 páginas
Título original: The swan thieves

Andrew Marlow é um psiquiatra de meia idade que é reconhecido por fazer falar até mesmo as pedras, mas quando ele aceita tratar de Robert Oliver verá que nem sempre é assim.

Robert havia tentado atacar uma obra de arte - Leda, na National Gallery em Washington, mas foi impedido pelo guarda do museu sendo preso. Sua justificativa é que havia feito isto por ela.

Diante da negativa de seu paciente em falar Marlow decide investigar indo contra sua ética profissional e procura pelas pessoas com quem Robert conviveu, sua ex-mulher, sua namorada após o divórcio, na tentativa de desvendar a mente de seu paciente e descobrir porque ele fez aquilo.

Aos poucos ele irá descobrir que seu paciente sofre de uma obsessão por uma mulher que já está morta, ele a ama e passa seus dias pintando seu rosto ou a retratando em diversas situações. Ele também possui um maço de cartas antigas escritas por esta mulher que foi uma pintora no século XIX próxima dos impressionistas, Béatrice de Clerval.

Um livro que nos fala destes pintores e da arte, de artistas, mas que também busca compreender a mente do artista além da obsessão que Robert tem por esta pintora em especial.  Marlow desvendará a mente de seu paciente e o que lhe ocorreu, mas para isto terá que ir também ao México e à França, juntando aos poucos as peças deste imenso quebra-cabeça até descobrir por que Béatrice parou de pintar já que possuiu um dom maravilhoso e pintava quadros extremamente vivos e juntar tudo isto com o ato de Robert no museu.

Quem eram os ladrões de Cisne? e porque tentaram roubá-lo? Ao descobrir esta resposta ele compreende finalmente o que levou Robert a tentar destruir uma obra de arte no museu.

Um livro gostoso de ler, que abrange um mistério, mas também penetra na mente do artista, nos levando a um passeio pela arte.


Elizabeth Kostova nasceu em 1964 em New London, Connecticut. É uma romancista.Fez pós-graduação em Yale e é mestre em Belas-artes pela Universidade de Michigan, onde recebeu o prêmio Hopwood.

segunda-feira, 17 de março de 2014

LIVRO: A INTERPRETAÇÃO DO ASSASSINATO - JED RUBENFELD



Rubenfeld, Jed. Companhia das Letras, 2007
Tradução: Paulo Schiller
481 páginas
Título original: The interpretation of murder

Este livro se baseia em vários fatos verídicos e outros são fictícios, apesar de alguns serem inspirados em fatos reais.

Em 1909 Freud visitou a América à convite de uma Universidade para fazer conferências e desta forma divulgar a psicanálise. Neste momento ocorre um assassinato de uma jovem que não deixa rastros, mas em seguida uma outra jovem também sofre o mesmo atentado, porém ela sobrevive, mas está sem voz e memória. É quando entra em cena um jovem psicanalista Stratham Younger que está encarregado de recepcionar Freud e seus acompanhantes Ferenczi e Jung, que é indicado por Freud para ajudar Nora, a segunda vítima, com a psicanálise para que ela recupere a memória.

É um romance policial repleto de mistérios, muita ação, incógnitas que aos poucos vai se desvendando. Nora é imediatamente reconhecida pelos que conhecem a psicanálise como o caso Dora, que é real, apesar de algumas diferenças no enredo do romance, e que foi tratada por Freud em Viena. A psicanálise ajuda a desvendar o crime conjuntamente com a ação do detetive Jimmy Litlemore, personagem fictício também.

Ao mesmo tempo há um relato ficcional sobre a passagem de Freud pela América baseado em fatos reais, suas desavenças com Jung, suas impressões sobre a América, e a supervisão de Freud na análise que Younger faz de Nora. Outro ponto interessante é a análise de Hamlet e do Édipo.

Instigante, não se consegue largar o livro até saber o que houve, quem são os culpados e ao mesmo tempo uma pequena introdução à psicanálise atuando no campo da criminalística. Se por um lado o detetive desvenda o crime, a psicanálise o interpreta, e isto faz com que a leitura deste livro seja muito interessante devido a uma percepção maior dos porquês de um crime.

O autor desenvolveu extensa pesquisa para escrever o romance.

Jed Rubenfeld nasceu em 1959 em Washington. Graduou-se na Universidade de Princeton onde escreveu uma tese sofre Freud. Vive em New Haven e é um dos maiores especialistas em direito Constitucional dos Estados Unidos e professor na Universidade de Yale. 

segunda-feira, 3 de março de 2014

LIVRO: A MULHER TRÊMULA ou uma história dos meus nervos - SIRI HUSTVEDT



Hustvedt, Siri. Companhia das Letras, 2011
Tradução: Celso Nogueira
204 páginas
Título original: The Shaking woman - Or a history of my nerves

Dois anos e meio após a morte de seu pai a escritora Siri Hustvedt discursou em homenagem à seu pai em sua cidade natal no campus da Faculdade St. Olaf em Minnesota. Durante seu discurso ela sofreu uma crise, começou a tremer, do pescoço para baixo, mas sua fala permaneceu inalterada o que lhe permitiu terminar o pronunciamento.

Este episódio não será o único, vindo a se repetir o que fará com que Siri inicie uma busca para tentar compreender o que lhe ocorria. Compreendo-a bem, esta necessidade intelectual de entender, se não levar à cura pelo menos sei o que se passa comigo. Isto a leva a um percurso tanto em médicos, psiquiatras e psicanalistas como também uma busca intelectual através de livros e pesquisas sobre o tema.

É sobre este percurso que ela nos fala no livro e sobre tudo que aprendeu. Ela irá buscar tanto nas teorias psicanalíticas como também na neurociência uma explicação, indo além, levantando questões sobre a mente/cérebro, estudando casos de outros doentes, participando de encontros e palestras, e sendo voluntária num hospital psiquiátrico dando aulas de redação para os internados.

Ela sofria há anos de enxaqueca e apesar do receio busca uma resposta para o caso de ser epiléptica, mas também estuda a histeria. Ao final ela acabará aceitando que as enxaquecas como as tremedeiras são ela mesma, ela é a mulher trêmula, ou seja, a tremedeira não é algo externo que a acomete, como uma invasão.

Siri não se deixará convencer por apenas uma explicação como se fosse a verdade, ela sempre será crítica, avaliando e não se deixando levar por um conformismo.

O mais importante é a percepção de que não podemos separar o corpo da mente, nem nos ater apenas a uma ciência ou explicação, somos muito mais do que isto.

Siri Hustvedt nasceu em 1955 em Northfield no Minnesota, Estados Unidos. De família norueguesa, licenciou-se em História na Faculdade de Olaf e é doutora em Literatura Inglesa pela Universidade de Columbia. É casada com o também escritor Paul Auster.

sábado, 11 de janeiro de 2014

LIVRO: A HISTÓRIA DO AMOR - NICOLE KRAUSS



Krauss, Nicole. Companhia das Letras, 2006
Tradução: Paulo Schiller
315 páginas

Este livro é narrado por diversas vozes em sua alteridade e em dois tempos diferentes, um na Polônia há sessenta anos atrás, e outro no mundo contemporâneo.
Um jovem judeu e polonês apaixonou-se por Alma na Polônia, aproxima-se a Segunda Guerra,  e Alma parte para os Estados Unidos. Ele fica,  prometendo ir encontrá-la assim que tivesse dinheiro suficiente, o que não irá acontecer pois ele terá que fugir dos nazistas, escondendo-se em florestas, passando por privações, medo, fome. Mas antes disto ele escreveu um livro, A História do Amor, que fala do seu amor por Alma, mas também da vida, e o entregará a um amigo que também partiu,  para que o guarde até se reencontrarem.
Sessenta anos depois Leo Gursky é quem inicia o livro. Ele vive nos Estados Unidos, tem um amigo que se chama Bruno. Vive pensando em sua morte próxima.
Alma Singer é uma adolescente que perdeu seu pai. Ela vive com o irmão Bird e sua mãe, uma tradutora. Descobre que seu nome é uma homenagem a uma personagem de um livro que seu pai comprou e deu para sua mãe: A História do amor, escrito por Litvinoff, que morava no Chile. Um homem solicita a sua mãe que traduza este livro para ele, e Alma na tentativa de fazer sua mãe feliz quer aproximá-lo dela, e para descobri-lo começa uma investigação detetivesca, que se reverte na busca de quem era a Alma do livro de quem ela tem o nome.

Gursky traz em si as marcas da Guerra, das perdas, da dor, ele é um solitário que sempre tenta ser visto, ou seja, ao ser notado ele sente que existe.  Litvinoff também sofreu com a guerra, mas encontra Rosa que lhe trará a alegria de viver. Charlote, a mãe de Alma tenta enfrentar o luto pelo seu marido de um jeito que ela consiga sobreviver.

No fundo o livro traz a tona a tragédia de uma guerra e no que ela pode provocar no destino de cada um, alterando tudo, separando, afastando, mudanças que não erram esperadas, e que não teriam ocorrido se não houvesse ocorrido a guerra. Mas será? O Tio Julian, irmão da mãe de Alma Singer, decidiu que estava diante de sua futura esposa quando a viu de leggins no zoológico, e se não fosse por estar vestida assim ele tem certeza de que não a teria notado.

A vida surpreende sempre devido as mudanças que são capazes de ocorrer na vida de todos, hoje é assim, amanhã não é mais, e não só pela morte de alguém como foi para Charlote, ou a guerra como foi para Leo e Alma, ou para Litvinoff, mas uma peça de vestuário pode definir um destino, ou um soldado da SS que procura judeus escondidos, mas que está desconfiando de sua mulher, e ao invés de revistar o local prefere desabafar com o colega, e com isto uma vida se salva, graças a uma mulher que nunca saberá disto.

O que pode manter uma certa memória nisto tudo? uma certa ligação, um elo, associações? Somente a palavra, mas não há palavras para tudo. Mas ainda assim, um livro, A história do amor, teve este papel entre os personagens deste livro, de servir de corda, que de uma forma ou outra manteve um certo elo, mas também criou outros novos, por que a vida se renova sempre. E um livro é sempre uma obra de criação, e os que sobreviveram à guerra, os que perdem seus entes queridos, os que estão começando sua vida, precisam ou recriar ou inventar sua vida, mesmo que seja apenas através do imaginário para que possa suportar a dor.

" Cem coisas podem mudar sua vida. E por alguns dias, entre a hora que recebi a carta e a hora em que fui encontrar quem a enviara, tudo foi possível."

Viver é perigoso! mas é também a melhor coisa que pode nos acontecer.


Nicole Krauss nasceu em 1974, em Nova Youk.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: OUTRAS MULHERES - LISA ALTHER



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Alther, Lisa. Círculo do livro, 1994. 
Tradução: Léa Susseking
362 páginas.
Este livro já foi Editado pela Imago - 1984 e pela Editorial Presença - 1986. Meu exemplar é do Círculo do Livro - 1994

UM PROCESSO DE REENCONTRO.

O livro nos conta sobre uma relação terapêutica, o dia a dia de uma análise e seus efeitos, as questões que vão surgindo no decorrer do processo. Nos mostra tanto o que acontece na sessão como em suas vidas, de Carol, a paciente e de Hanna, a terapêuta e as mudanças que ocorrem para cada uma.
O que fica evidente é a resistência que criamos em saber o que somos e por que somos. Somente aos poucos, através do processo psicanalítico é que vamos notar as repetições e como nossa infância nos determina, além das experiências da vida que nos marcam, mas que também se determinam pela maneira que somos interiormente formados pelos nossos pais, pela cultura e pela linguagem.
Uma simples frase, uma simples palavra se transforma numa seta certeira que nos atinge e rege nossa vida.

Lisa Alther é uma escritora estadunidense nascida em 1944 em Kingsport - Tennessee

LIVRO: A HUMILHAÇÃO - PHILIP ROTH



Roth, Philip. Companhia das Letras, 2010
Tradução: Paulo Henriques Britto
104 páginas.

O PALCO DA VIDA

Simon Axler é um ator que não consegue mais representar. Passa por uma crise e se interna numa clínica psiquiátrica ao perceber que pensa em suicídio. Depois ele se isola em sua casa, afastado de todos, quando recebe uma visita inusitada de uma mulher quarentona que ele viu nascer.
Ambos estão em crise, ele por estar só, fora abandonado pela esposa durante sua crise, não ter mais seu trabalho, e ela, por ter sofrido uma decepção amorosa e não conseguir enfrentar isto sozinha, apesar de todos dizerem que ela é muito independente, e só faz o que quer, mas no fundo, não consegue enfrentar a vida sozinha.
Começam uma relação, que não tem nada para que seja bom, uma vez que ambos estão resolvendo suas carências, e não buscando um amor ou um companheiro. Roth explora o que realmente leva muitas vezes um ser humano buscar uma relação com o outro. Ambos não conseguem enfrentar suas questões e precisam representar para si mesmos que são fortes, livres, independentes, e claro, isto acaba virando pó.


Philip Roth nasceu em 1933 em Newark, Nova Jersey, Estados Unidos.