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domingo, 26 de julho de 2015

FILME: TERRA D'ÁGUA - 1992


Direção: Stephen Gyllenhaal - 1992
Duração: 95 Min
Título Original: Waterland
Roteiro: Graham Swift 
País: Reino Unido e Irlanda do Norte

Um filme sobre as consequências de atos da juventude que acabamos carregando por toda uma vida e também de nossa história familiar e que se refletem nas escolhas que fazemos. 

O professor de História Tom Crick (Jeremy Irons) sofre críticas de seus alunos, principalmente de um deles, Price (Ethan Hawke) que questiona para que serve a História e usa o discurso do fim da História. Diante de jovens que não conseguem mais visualizar a importância desta disciplina e que influenciam inclusive as decisões da escola em Pittsburg , uma vez que se valoriza a produção e ganhar dinheiro e se esquece que é preciso também aprender a viver, o professor mostra que somos todos história, e o faz de uma forma diferente contando sua própria história que começa na Inglaterra.

É interessante a forma como foi filmado as lembranças do professor, levando a todos para a época vivida, como ocorre no filme (mini-série) O mundo de Sofia - Romance da filosofia, ou apenas como uma lembrança. A história de vida de Crick e de sua esposa Mary (Sinédia Cusack)  é revivida desde a juventude e está repleta de descobertas, amor, crueldade, incesto, sexualidade, culpa, dores que nunca foram resolvidas, mas é justamente trazendo este passado à tona e ao revive-lo de outra maneira, com outro olhar e significação, que é possível sim encerrar uma etapa da vida, mas ela continua, e é aí que está a possibilidade de uma vida ter outros finais, e não apenas uma que termina. 

Fugir não resolve, negar também não, esquecer não é possível, somente lembrando se esquece. Tom e Mary tentaram esquecer mudando-se para outro continente, mas não é a distância física que modifica algo, você se carrega junto em qualquer viagem, é preciso sim enfrentar o passado, interpretá-lo, falar sobre ele, pois somente assim os fantasmas nos deixam. 

Stephen Gyllenhaal nasceu em 1949 em Cleveland, Ohio, EUA. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

FILME: COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE - 1992


Direção: Alfonso Arau - 1992 
Duração: 150min 

Baseado no romance homônino de Laura Esquivel 

Um filme belíssimo e que nos traz um retrato do feminino dos mais belos e completos.

Logo no início vemos a sobrinha-neta de Tita na cozinha com o livro de receitas que foi dela, e que irá nos narrar esta história.

Tita (Lumi Cavazos) nasceu na cozinha do rancho onde vive sua família no México quando sua mãe Elena (Regina Torné) estava cortando cebolas. . Seu pai logo a seguir morre de um ataque do coração ao saber que talvez ela não seja sua filha legítima. Segundo a tradição da família a filha caçula não se casará pois deverá permanecer solteira para cuidar da mãe até sua morte. Eis o destino de Tita.

Tita é alimentada por Nacha (Ada Carrasco) na cozinha e ali ela cresce e brinca entre cheiros e temperos. Suas irmãs são totalmente diferentes, Gertrudis (Claudette Maillé) irá embora e se tornará uma revolucionária, já Rosaura (Yareli Arizmendi) se casará com o grande amor de Tita, Pedro (Marco Leonardi) por determinação de sua mãe Elena, uma vez que Tita não pode se casar. Porém Pedro só se casa com Rosaura para poder ficar perto de Tita.



Tita é uma cozinheira excelente, aprendeu com Nacha os segredos e também a sentir com seu olfato ou paladar se a comida está boa. A cozinha é um local de muito trabalho, mas também de criatividade, talento, paciência.



Mama Elena é uma representante do mundo patriarcal, assim como sua filha Rosaura, Tita, Nacha e Gertrudis nos apresentam um lado muito mais feminino, sensual, do prazer, sem tantas preocupações com a aparência, o pudor, a decência, elas vivem muito mais, apesar de confinadas à cozinha e ao rancho, Tita sente muito mais prazer na vida do que sua mãe. Ela luta para manter sua individualidade e criatividade.

O Filme vai se desenrolando por capítulos como no livro. No primeiro temos o mundo doméstico e a opressão de Mama Elena. Tita resiste tecendo uma colcha. No segundo é o casamento de Rosaura e Mama Elena ordena que Tita ajude na preparação do banquete e que não chore. Porém enquanto prepara a cobertura do bolo ela chora e suas lágrimas caem na mistura. Todos que comem do bolo começam a sentir uma profunda tristeza ao lembrar amores perdidos e tem acessos de vômito. Nacha também sente a falta de alguém e é encontrada morta com uma foto na mão. Mama Elena está convencida que foi Tita quem envenenou o bolo e a espanca.



No capítulo três Tita ganha flores de Pedro. Sua mãe a manda jogar fora, mas ela escuta a voz de Nacha dentro de si e prepara codornas com rosas. Se Rosaura não gosta e passa mal, Gertrudis sentiu um calor forte, a comida agiu como um afrodisíaco. Ela corre para tomar um banho e o banheiro se incendeia, é salva por um rebelde e foge com ele. Pedro também sentiu um imenso prazer ao comer. As rosas de um homem são transformadas no desejo. Do passivo para o ativo.


Na sequência nasce o filho de Pedro e Rosaura, mas ela não consegue amamentá-lo e será Tita quem fará isto. Mas Mama Elena mandará Pedro e Rosaura para longe, e o menino more de fome. Tita acusa sua mãe e quase enlouquece de dor refugiando-se no pombal. Será o Dr. Brown (Mario Iván Martinéz) que vai socorrê-la e a leva para sua casa. O silêncio cai sobre Tita, a comida da casa do médico não é boa, ela olhava suas mãos e não sabia o que fazer. O médico conta a Tita o que dizia sua avó. Que todos nós nascemos com uma caixa de fósforos dentro de nós, mas não podemos acendê-los sozinhos. O oxigênio que é o agente de combustão deve vir de outra pessoa, do amor que ela tem em si. Mas não devemos acender todos de uma só vez. Esta história se transforma numa metáfora para Tita e tudo que ela sente.

Ao receber a visita da índia que trabalha no rancho com seus caldos que ela traz Tita volta à vida. Mama Elena morre num ataque ao rancho e Tita retorna. Nasce Esperanza e que deve ter o mesmo destino de Tita, já que Rosaura não pode mais ter filhos. Mais uma vez Rosaura não pode amamentar e é Tita quem cuida da alimentação do bebê. É a festa de Reis, e Gertrudis volta ao lar para comemorar. Pedro cai na fogueira e tem queimaduras feias. Tita irá curá-lo com receitas caseiras. E finalmente chega o dia que Tita após enfrentar o fantasma de sua mãe enfrenta também Rosaura, e lhe diz que Esperanza não terá o mesmo destino que ela.

Rosaura morre de problemas digestivos, e finalmente após alguns anos temos o casamento de Esperanza e a união de Pedro e Tita, quando todos os fósforos que trazem dentro de si se acendem.

O filme todo nos fala da criatividade e da narrativa que as mulheres desenvolvem, mesmo confinadas a um pequeno espaço. O livro de receitas de Tita traz estes segredos e anotações a parte que conduzem uma mulher a se libertar. É na cozinha que se desenvolve a história, é ali que ocorrem as mudanças, é ali que as mulheres vencem a ideologia patriarcal que atua não somente na sociedade, mas dentro de casa, neste caso representado pela mama Elena e por Rosaura. A culinária é uma arte, o tecer também, e podem criar coisas novas e diferentes, mas também cuidam das feridas e da dor. Alimentam a alma.

Alfonso Arau nasceu em 1932 na Cidade do México. É casado com a escritora Laura Esquivel. 


Trilha sonora de Leo Brouwer 

Leo Brouwer nasceu em 1959 em Havana, Cuba 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

FILME: LÉOLO - PORQUE EU SONHO - 1992


Direção: Jean-Claude Lauzón - 1992 
Duração: 107 min 
Título Original: Léolo 

Leo Lauzon ou Léolo (Maxime Collin)  como ele gostava de ser chamado vive em um cortiço em Montreal em meio a sua família um tanto excêntrica, para se dizer o mínimo . Suas duas irmãs vivem mais em hospitais psiquiátricos do que em casa, seu pai tem fixação anal controlando toda a família através de seu cocô. A mãe (Ginette Reno) é uma mulher obesa e carinhosa apesar de às vezes ter atos surpreendentes como queimar vivas com água fervendo a coleção de mariposas do menino, e o irmão Fernand vive seu trauma de infância.O avô é quem é responsabilizado por tudo isto por ser portador de uma loucura hereditária.  É o próprio Leo adulto (Gilbert Sicotte) quem narra o filme lendo o que escreveu.

Para escapar de toda esta miséria Leo começa imaginando que sua mãe engravidou não de seu pai, mas sim de um tomate italiano, e por isto decide que se chama Léolo Lozone, no que não é levado a sério por ninguém.

O pai toda semana dava laxantes a todos na família e controlava o resultado esperando na porta do banheiro e depois indo conferir. Dizia que o cocô era sinal de saúde. Leo é o único que tenta escapar disto, enganando o pai escondendo o laxante e depois colocando no lugar as fezes de animais.

Seu irmão Fernand (Yves Montmarquette) levou uma surra no início de sua adolescência de um marmanjo do bairro que queria dominar a área de entrega de papéis e o medo se torna sua razão de ser. Passará o tempo se preparando, ficando forte, levantando pesos e fazendo exercícios de forma obsessiva. Porém, quando maior e já bem forte se vê novamente diante do mesmo agressor não consegue se defender e apanha e chora como uma criança, não superando o trauma, onde nada faria diferença diante do medo.

Leo cresce amando sua mãe, negando o pai, que era o tomate, odiando seu avô que tentou afogá-lo numa piscina de crianças, e gostando muito de seus irmãos. Ele se refugiava lendo o único livro que havia na casa " L'avalée des avalés" de Réjean Ducharme e escrevia sem parar. Ele criou um mundo para ele, imaginário, onde havia Bianca uma descendente de italianos que nunca esteve na Itália e vivia no cortiço cantando enquanto pendurava as roupas para secar. Ele a via cantando para ele, e ela se torna seu único amor.

Ele irá passar por toda descoberta da sexualidade de forma precária, sem informações, diz que tinha um rabo mas que não sabia como se chamava e que ninguém o dizia, desconfiava que ninguém tinha nome para isto. Como todo garoto ele irá espiar e será Bianca até descobrir que seu avô tem algo com ela e isto o levará a tentar matá-lo. Ele se masturba usando carnes que sua mãe comprava e depois terá sua primeira experiência com uma prostituta.

Ele sempre lia a frase do livro : Porque eu sonho, eu não sou. E um dia dirá: porque tive medo de amar, não sonho mais. Tem um surto e irá para o Hospital sendo tratado com remédios e banhos gelados.

O filme não trabalha apenas com este lado da insanidade e problemas mentais, mas ele também reflete muito da pobreza local. A todo instante vemos ratos, casas feias e podres, o cobertor furado, os meninos pegam papel para vender, Leo vasculha o fundo do rio imundo onde há até cachorros mortos, para conseguir algo para vender e conseguir comprar uma bicicleta. Quando ele sonha ele se afasta desta dura realidade, o que vemos são belos campos verdes e floridos, imagens da Itália, um lugar bonito. Ele usa sua imaginação para lidar com este real, para de alguma forma construir algo mais belo. Ele não é quando sonha, ele está em outro mundo, e no dia que ele deixa de sonhar ele cai em sua realidade que não é a Itália, nem sua Bianca, mas esta família e a pobreza. Como seria possível sonhar neste mundo em que ele vivia?

Na escola ninguém está preocupado em formar futuros, mas apenas em sobreviver ali, como diz o professor, minha especialidade não é o francês, é o judô. Ele dá aulas para futuros operários, que nunca passarão disto.

Como viver uma infância num contexto destes? mesmo os adultos? Cada um lida com isto como pode. A irmã diz que lhe roubaram seu bebê, mas o que será que ela teve de realmente roubado dela? a outra se veste de rainha num mundo de insetos, como se quisesse se diferenciar de tudo aquilo, o irmão com seu trauma, o pai e sua obsessão, e Leo vive em outro mundo o que lhe permite sobreviver a tudo isto.


Jean-Claude Lauzon nasceu em 1953 em Quebec, Canadá e faleceu em 1997 em um acidente de avião. Léolo foi seu último filme. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FILME: UM SKINHEAD NO DIVÃ - 1992



Direção: Suzanne Osten e Niklas Radström - 1992 
Duração: 83 min
Título original: Tala! Det är sa mörkt // Speak up! it's so dark 
País: Suécia 


O filme é uma reflexão sobre a onda neonazista que assola a Europa nos anos 90.


Jacob (Etienne Glaser) é um psicanalista judeu cuja família morreu em Auchswitz, sendo que ele e a mãe conseguiram sobreviver por fugirem para a Suécia. Sören (Simon Norrthon) é um jovem skinhead que Jacob socorre após uma manifestação. Ele resolve então oferecer sua escuta ao jovem.

As sessões entre os dois se transforma numa reflexão sobre os aspectos políticos e psicológicos do racismo. Aos poucos vai se delineando os aspectos do indivíduo que adere aos grupos, e este aspecto ao meu ver é o brilhante do filme, pois em grupo somos capazes de fazer coisas que jamais faríamos sozinhos, e analisar o grupo é diferente das motivações pessoais.

Vamos descobrindo como era o pai e mãe deste jovem que sente tanto ódio. A mãe é super protetora e se nega a enxergar o óbvio, diz que os cartazes nazistas no quarto do filho são apenas decoração. O pai é ausente e violento, e dentro de seu individualismo diz que os problemas do filho são dele, mas durante a infância deste sempre abusou de sua força com o garoto. O grupo ao qual ele pertence que são mostrados entre as sessões, são todos bêbados, violentos, sem nenhuma razão de ser. Sörer admira o nazismo, afirma que Auschwitz é uma invenção dos judeus e a compara com Hollywood. Ao invés de namorar, ele direciona seu desejo sexual para o ódio e a violência. Sua mãe em nada ajuda para que ele se interesse por mulheres, pois prefere ter o filho com ela, ou deseja que volte a ser assim.

O psicanalista também se confronta com suas questões, ele é um imigrante, que fez da Suécia seu lar, mas é judeu e apesar de possuir a cidadania, não nasceu ali. Ele também sentiu muito medo quando criança, é um sobrevivente. Mas ele não teme o confronto com o jovem, e se propõe a compreender a alguém que age como os que mataram sua família. Para isto além das sessões ele irá também adentrando o universo de Sören.

Jacob diz que por baixo do ódio está a dor, e embaixo desta o medo.

Há um medo que se generaliza, de um lado eles tem medo dos emigrantes, que se apossem de seu país, os consideram culpados por todos os problemas que ocorrem, e estes temem os ataques dos Skinheads. E ao invés de considerá-los uns loucos que precisam ser combatidos o que Jacob se propõe é a compreender o porque disto, e para isto apesar do medo não irá demonstrá-lo e não se deixará intimidar mesmo diante das ameaças do outro. E este ponto é importante, pois como dirá Sören no filme, eles precisam do medo do outro para serem fortes e poderem agir.



Niklas Radstrom nasceu em 1953 em Estocolmo, Suécia. 

Suzanne Osten nasceu em 1944 em Estocolmo, Suécia.