Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
- Porque sou feminista - Jean-Louis Servan-Schreiber - 1975
- Simone de Beauvoir fala - Wilfrid Lemoine - 1959
Este DVD da Versátil nos traz três documentários de Simone de Beauvoir com raras entrevistas com a filosofa, escritor e ativista política francesa.
- Uma mulher atual eu já havia assistido e está postado aqui no Blog.
- Porque sou feminista (Pourquoi je suis feministe) - neste documentário Simone é entrevistada por Jean-Louis para o programa "Questionnaire". Fala sobre as mulheres, de como se deu conta da condição destas e sobre a escrita do Segundo Sexo. Lembra que mesmo os da esquerda não olham as mulheres como vulneráveis, uma vez que a luta deles é a de classes não de gênero, e a esquerda também é composta por homens. Diz que nunca se sentiu ela mesma tolhida, porém foi olhando ao seu redor que percebeu a opressão, a maneira como uma sociedade constitui o gênero.
- Simone de Beauvoir fala - Esta é uma entrevista filmada em Paris pela Radio-Canada, que censurou sua difusão por pressão do arcebispo de Montreal. Aqui ela fala sobre suas ideias, sobre o existencialismo, religião, o casamento, o amor livre.
Os três documentários nos trazem o perfil de Simone por ela mesma, sua liberdade, curiosidade, sua relação com Sartre e com os intelectuais franceses, a literatura, seus engajamentos políticos.
Jean-Louis Servan-Schreiber nasceu em 1937 em Boulogne-Billancourt, França.
Wilfrid Lemoine nasceu em 1927 em Québec, Canadá e faleceu em 2003.
Gebara, Ivone. Brasiliense, 2005 243 páginas Tradução: Jacqueline Castro Título Original: Les eaux de mon puis
Descobri Ivone Gebara em meu curso de Filosofia. Este livro é um mergulho em si mesma em busca de se conhecer e compreender, é um mergulho íntimo que ela nos relata com sinceridade, simplicidade, mostrando suas dúvidas, dificuldades, conflitos, buscas, dores e alegrias.
Desde sua adolescência ela busca a liberdade e agora faz um balanço sobre o que é a liberdade, e como atingi-la, tarefa difícil, tarefa de toda uma vida. Mas fala também de outros temas e de sua experiência junto com Dom Helder Câmara na Teologia da Libertação, de seu "exílio" em Louvain-la-Neuve na Bélgica após haver dado uma entrevista e falado sobre o aborto.
Ivone é uma freira católica, mas que enxerga o mundo como ele é, é sensível as dificuldades dos outros, às necessidades das pessoas. Vive no meio do povo mais pobre e também de sua violência.
Este livro foi escrito em francês, apesar dela ser brasileira, mas ela aceitou este desafio.
Ao se confrontar neste percurso do livro, neste mergulho em suas águas profundas ela descobre a si mesma e traça este caminho e nos doa isto, sua experiência. O livro é um mergulho na singularidade de cada um, e que pode nos iluminar e incentivar a fazer o mesmo, debruçar-se a beira de seu poço e escutar suas águas profundas. Um percurso que apesar de difícil e muitas vezes doloroso vale a pena ser feito, principalmente para o que deseja uma libertação.
No que se refere a mim, encontrei em seu relato algo que me tocou e muito. Sempre defendi o feminismo sem igualar a mulher ao homem, exceto em seus direitos como cidadã. Porém percebo que todas nós pensamos através de uma linguagem, cultura masculina, e isto é estrutural. Ivone começa este questionamento quando se dá conta do Deus masculino, patriarcal, visto pela sociedade desta forma. Então ela descobre a Teologia feminista que busca reinterpretar a Bíblia sob o viés feminino. Mas o que ela me mostrou é que realmente é difícil mudar o discurso, a linguagem, mas não é impossível. É preciso reinterpretar, reavaliar, olhar com outros olhos, e se aproximar do feminino. Tarefa longa e difícil, mas possível.
Ivone Gebara nasceu em 1944 em São Paulo. É filosofa, teóloga e freira católica. É doutora em filosofia e Ciências Religiosas.
Direção: Camille Guichard - Duração: 52 min País de Origem: França
Louise Bourgeois nasceu em Paris em 1911, mas viveu em Nova Yorque a partir de 1938. É reconhecida internacionalmente por seu trabalho de escultas nos anos 70.
Sou fã desta escultora. Sua obra traduz o feminino, a infância, a sexualidade. O documentário sob forma de entrevista com ela nos fala de seu percurso e de como cada obra se constituiu para ela, qual a essência de cada uma e é justamente nisto que vemos vir a tona o feminino.
Sua infância foi dolorosa em função de ter um pai que era infiel a sua mãe chegando a levar suas amantes a viver com a família como preceptora das crianças. Ela nos relata também de forma bem freudiana, ela leu os livros de Freud, a castração da menina no complexo de Édipo. Seu pai descascava uma laranja com as mãos e ao retirar a casca por completo e segurá-la aberta nas mãos fica um formato de corpo de uma mulher com um pênis. Bourgeois se considerada desconstruída por seu pai e sua obra o reflete. Ela nos diz que o presente destrói o passado e é muito difícil recriá-lo. Seus traumas de infância são inseparáveis de sua obra, não há como não associá-los. É através da arte que ela passa do passivo da infância como vítima para o ativo reparador, realizando um trabalho de recriação de seu passado. As ameaças que sentimos não podemos mudar, mas sempre é possível negociar com elas.
Trabalhando com vários materiais, Bourgeois faz esta reconstrução pela arte, suas figuras são deformadas ou mutiladas, as angústias viram totens, ela revive as emoções da mulher, do feminino.
Direção: Camilo Cavalcante - 2014 Duração: 120 min Roteiro: Camilo Cavalcante País: Brasil
Nosso sertão tantas vezes filmados está novamente neste filme, porém não vem para nos contar a dura vida do povo que o habita, ou falar das secas ou das injustiças, mesmo que a seca esteja presente no filme, o que este filme traz é a história de três mulheres e seus desejos.
Logo no começo do filme vemos passar um enterro naquela vastidão com uma única árvore onde se abriga um sanfoneiro cego e um menino. É o enterro de uma criança e a mãe Querência (Marcelia Cartaxo) o segue com dor, apoiada por Das Dores (Zezita Matos). Em seguida vemos Alfonsina (Débora Ingrid) ouvindo uma música num rádio a pilha e sonhando com o mar até que seu pai (Claudio Jaborandy) e irmãos chegam e ela precisa servir a janta. Ela nunca senta à mesa com o homens.Em seguida ela pede permissão para fazer o prato de seu tio Joãozinho (Ihandhir Santos) e o leva até sua casa, este irmão desprezado por seu pai por ser um artista, se dedicar à arte e representações, e por isto considerado um vagabundo que nada faz, além de louco, porque ele tem epilepsia.
Estas três mulheres que desejam, tem pulsões, amam, sonham e vivem neste pequeno vilarejo no meio do sertão limitadas pela região, pela seca, pela pobreza, pelas dificuldades e pelos homens, que são rudes, mas também doces como o sanfoneiro e Joãozinho, todos em tão pequeno espaço, mas que são como todos, como o ser humano, capazes de sonhar, de criar, de desejar, mas também de matar ao outro.
Alfonsina a mais jovem, vai completar 15 anos e seu maior desejo é ver o mar. Ela pede ao seu pai que a leve, mas ele diz que ela ficou doida, mas que vai fazer um forró e matar quatro bodes para a festança. A jovem fica triste. Seu tio então lhe diz que tem uma surpresa e que tem a ver com o mar, mas que lhe dirá o que é no seu aniversário, o que será uma das mais belas cenas do filme, quando a arte e a imaginação é capaz de vencer todos os limites e trazer o mar para o sertão. A jovem está na fase das descobertas sexuais, e quem mais do que seu tio com sua sensibilidade poderia atraí-la? Ele resiste, mas ela não desiste.
Querência logo no começo tem um homem que vai embora. O sanfoneiro esperava por isto há muito tempo, mas ela está triste, de luto. Ele então lhe diz que vai ficar ali fora tocando até ela abrir a porta e deixar seu amor entrar.
Das Dores é viúva e quem cuida da igreja, tem um oratório em casa e sempre reza. Sua filha liga e avisa que o neto está indo para lá. O jovem chega, mas ele não foi para lá para visitar sua avó, está fugindo, fez coisas ruins e está sendo procurado, querem matá-lo. Das Dores sente atração pelo garoto. Ela abre sua mochila, pega uma cueca, depois encontra uma revista pornográfica que fica olhando. Seu corpo clama, arde. Ela o observa dormir.
Joãozinho prepara uma apresentação. Coloca seu toca discos do lado de fora, ele teceu uma rede como de pescaria com vários objetos pendurados, usa como se fosse um xale e dança com a música "Fala" dos Secos e Molhados.
Neste aparentemente pequeno mundo vemos um panorama do ser humano com seus desejos e dores, e a história da eternidade que se repete, onde o trágico acompanha sempre o humano. Também fiquei pensando no nome Alfonsina que deseja ver o mar e Alfonsina del mar.
Se Guimarães Rosa dizia que o sertão é o mundo, Cavalcante faz um filme onde mostra isto.
Belíssimo filme.
Camilo Cavalcante nasceu em 1974 em Recife, Pernambuco
Direção: Jean-Luc Godard - 1985 Duração: 102 min Roteiro: Jean-Luc Godard País: França - Suíça
Filme que causou tanta polêmica e escândalo e que eu não havia assistido. No entanto o que encontro neste filme é pura arte. Uma nova maneira de contar a história de Maria e José, mas dentro de um contexto moderno, mesmo que em vários momentos do filme apareça escrito Naquele tempo.. , mas o que justamente o filme nos lembra a da contemporaneidade da história que não se perdeu lá atrás e que é possível trazer este mistério para o mundo atual com um casal jovem que nunca transou e justamente por isto deixa José (Thierry Rode) incrédulo no começo sobre Maria (Myriem Roussel) ser virgem e estar grávida.
Paralelamente temos a história de um professor de ciência (Johan Leysen) que estuda a origem da vida e tem um caso com uma de suas alunas, Eva (Anne Gautier), não à toa chamada de Eva, e que come uma maçã.
José trabalha como taxista e está sempre com seu cachorro e Maria estuda, joga basquete e ajuda seu pai no posto de gasolina. Vemos um avião sobrevoando para aterrissar e depois vemos Gabriel acompanhado de uma menina maliciosa. Gabriel não se pode dizer que seja um primor de delicadeza, nem um pouco angelical digamos, mas é ele, o anjo Gabriel que vem até Maria e que depois irá de maneira um tanto grosseira e bruta abrir os olhos de José para que ele acredite, para que creia, para que confie, o que no final acabará ocorrendo, mas não sem antes ele se debater muito e inclusive se aproximar de Juliette (Juliette Binoche), mas que não conseguirá conquistá-lo.
Como estamos na modernidade o que Maria enfrentará é o ceticismo, até mesmo do médico que a viu nascer que ao constatar sua virgindade e ao mesmo tempo a gravidez, não consegue conceber que ela não tenha tido algum contato com José. Não há escândalo, há indiferença, ok!, então que assim seja. Ela também irá duvidar do amor de José ao saber de seus encontros com Juliette.
Finalmente eles se acertam e passam a viver junto, a criança nasce. Mas Maria não é diferente das outras mulheres, ela gosta de se vestir bem, não é uma santa, e a castidade que lhe é imposta pesa, ela tem desejos e tem que lutar contra esta tentação. É um percurso espiritual, onde ela quer que a alma seja corpo. Não se trata de uma Maria passiva, ela tem que alcançar algo, se superar, estar acima dos outros, é este seu percurso e que não é fácil, ela é humana. Com isto ela se encontra na solidão, aquela de todos que são diferentes, mas a dela é maior.
O professor de ciências não consegue afinal explicar a origem da vida, há um ponto onde ele não consegue mais e tem que admitir que há algo maior. José também quer compreender, quer saber tudo, é cego, não consegue ver além da ciência, do materialismo. Para ele é o corpo que age sobre o espírito e terá que percorrer seu caminho de crescimento também até encontrar o amor.
No final vemos um casal banal, o filho parte, Maria sabe que tem que ser assim, mas ela volta a ser uma mulher como qualquer outra, perde sua pureza.
Há algo na mulher que é mistério, mas na modernidade atual isto se perdeu, nem mesmo Maria o mantém, nem mesmo quando o anjo Gabriel a saúda, ele por um momento faz com que ela lembre, vem algo, mas ela retoma a vida cotidiana e banal.
Direção: Benoît Jacquot - 2008 Duração: 90 min País: França
Adaptação do livro homônimo de Pascal Quignard (1916).
O filme nos mostra os efeitos devastadores em Ann (Isabelle Huppert) ao descobrir a infidelidade de seu companheiro de 15 anos, Thomas (Xavier Beauvois).
O filme começa com ela seguindo o carro dele e depois ela o vê entrando num jardim com rosas, uma mulher abre a porta e o beija. Ela sufoca um grito. Mesmo encontrando neste mesmo instante um amigo de infância, Georges (Jean-Huques Anglade) e ele tendo visto tudo ela não consegue falar sobre o que viu e sobre o que sente. Ao contrário, ela ao invés de falar, chorar, gritar, se volta contra si mesma num processo de autodestruição e também de destruir tudo que seja de sua vida até o presente, vendendo o apartamento, jogando fora roupas, objetos, os pianos, ela é uma pianista famosa. Queima as fotos, as partituras, escritos, composições. O que ela quer é desaparecer.
Thomas tenta lhe dizer que é ela que ele ama,mas mais nada disto tem sentido para ela. A ruptura da relação de exclusividade que ela acreditava ter com ele se desfez.
Ao perder o amor Ann se perde e o filme nos mostra através de seus atos, sua expressão, sua dor toda a subjetividade desta mulher. Ela parte apenas com uma bolsa de viagem e se desloca por várias cidades europeias. No percurso ela vai ainda se livrando das coisas, primeiro se desfaz do celular, depois joga a bolsa e compra um mochila, mais adiante também se desfaz da mochila, corta o cabelo curto e usa vários nomes. Até que ela chega a uma ilha no mar Mediterrâneo, Ischia.
Lá ela conhece uma velha senhora e deseja alugar a casa que seu pai construiu para sua Tia Amalia. As duas acabam amigas, e a partir deste momento ela se apresenta como Anna. É com este nome que ela começa a reconstruir uma identidade para ela.
Na modernidade tudo isto pode parecer um exagero, mas estamos diante da feminilidade. A falta do amor de um homem pode levar uma mulher a perder a si mesma. No mundo de hoje diante de um rompimento assim é comum o consumismo desenfreado e ter vários parceiros, ou a depressão. Anna vive sua perda, inclusive a sua própria. Ela precisa se reconstruir agora como mulher, uma outra mulher.
Direção: Alfonso Arau - 1992 Duração: 150min Baseado no romance homônino de Laura Esquivel
Um filme belíssimo e que nos traz um retrato do feminino dos mais belos e completos.
Logo no início vemos a sobrinha-neta de Tita na cozinha com o livro de receitas que foi dela, e que irá nos narrar esta história.
Tita (Lumi Cavazos) nasceu na cozinha do rancho onde vive sua família no México quando sua mãe Elena (Regina Torné) estava cortando cebolas. . Seu pai logo a seguir morre de um ataque do coração ao saber que talvez ela não seja sua filha legítima. Segundo a tradição da família a filha caçula não se casará pois deverá permanecer solteira para cuidar da mãe até sua morte. Eis o destino de Tita.
Tita é alimentada por Nacha (Ada Carrasco) na cozinha e ali ela cresce e brinca entre cheiros e temperos. Suas irmãs são totalmente diferentes, Gertrudis (Claudette Maillé) irá embora e se tornará uma revolucionária, já Rosaura (Yareli Arizmendi) se casará com o grande amor de Tita, Pedro (Marco Leonardi) por determinação de sua mãe Elena, uma vez que Tita não pode se casar. Porém Pedro só se casa com Rosaura para poder ficar perto de Tita.
Tita é uma cozinheira excelente, aprendeu com Nacha os segredos e também a sentir com seu olfato ou paladar se a comida está boa. A cozinha é um local de muito trabalho, mas também de criatividade, talento, paciência.
Mama Elena é uma representante do mundo patriarcal, assim como sua filha Rosaura, Tita, Nacha e Gertrudis nos apresentam um lado muito mais feminino, sensual, do prazer, sem tantas preocupações com a aparência, o pudor, a decência, elas vivem muito mais, apesar de confinadas à cozinha e ao rancho, Tita sente muito mais prazer na vida do que sua mãe. Ela luta para manter sua individualidade e criatividade.
O Filme vai se desenrolando por capítulos como no livro. No primeiro temos o mundo doméstico e a opressão de Mama Elena. Tita resiste tecendo uma colcha. No segundo é o casamento de Rosaura e Mama Elena ordena que Tita ajude na preparação do banquete e que não chore. Porém enquanto prepara a cobertura do bolo ela chora e suas lágrimas caem na mistura. Todos que comem do bolo começam a sentir uma profunda tristeza ao lembrar amores perdidos e tem acessos de vômito. Nacha também sente a falta de alguém e é encontrada morta com uma foto na mão. Mama Elena está convencida que foi Tita quem envenenou o bolo e a espanca.
No capítulo três Tita ganha flores de Pedro. Sua mãe a manda jogar fora, mas ela escuta a voz de Nacha dentro de si e prepara codornas com rosas. Se Rosaura não gosta e passa mal, Gertrudis sentiu um calor forte, a comida agiu como um afrodisíaco. Ela corre para tomar um banho e o banheiro se incendeia, é salva por um rebelde e foge com ele. Pedro também sentiu um imenso prazer ao comer. As rosas de um homem são transformadas no desejo. Do passivo para o ativo.
Na sequência nasce o filho de Pedro e Rosaura, mas ela não consegue amamentá-lo e será Tita quem fará isto. Mas Mama Elena mandará Pedro e Rosaura para longe, e o menino more de fome. Tita acusa sua mãe e quase enlouquece de dor refugiando-se no pombal. Será o Dr. Brown (Mario Iván Martinéz) que vai socorrê-la e a leva para sua casa. O silêncio cai sobre Tita, a comida da casa do médico não é boa, ela olhava suas mãos e não sabia o que fazer. O médico conta a Tita o que dizia sua avó. Que todos nós nascemos com uma caixa de fósforos dentro de nós, mas não podemos acendê-los sozinhos. O oxigênio que é o agente de combustão deve vir de outra pessoa, do amor que ela tem em si. Mas não devemos acender todos de uma só vez. Esta história se transforma numa metáfora para Tita e tudo que ela sente.
Ao receber a visita da índia que trabalha no rancho com seus caldos que ela traz Tita volta à vida. Mama Elena morre num ataque ao rancho e Tita retorna. Nasce Esperanza e que deve ter o mesmo destino de Tita, já que Rosaura não pode mais ter filhos. Mais uma vez Rosaura não pode amamentar e é Tita quem cuida da alimentação do bebê. É a festa de Reis, e Gertrudis volta ao lar para comemorar. Pedro cai na fogueira e tem queimaduras feias. Tita irá curá-lo com receitas caseiras. E finalmente chega o dia que Tita após enfrentar o fantasma de sua mãe enfrenta também Rosaura, e lhe diz que Esperanza não terá o mesmo destino que ela.
Rosaura morre de problemas digestivos, e finalmente após alguns anos temos o casamento de Esperanza e a união de Pedro e Tita, quando todos os fósforos que trazem dentro de si se acendem.
O filme todo nos fala da criatividade e da narrativa que as mulheres desenvolvem, mesmo confinadas a um pequeno espaço. O livro de receitas de Tita traz estes segredos e anotações a parte que conduzem uma mulher a se libertar. É na cozinha que se desenvolve a história, é ali que ocorrem as mudanças, é ali que as mulheres vencem a ideologia patriarcal que atua não somente na sociedade, mas dentro de casa, neste caso representado pela mama Elena e por Rosaura. A culinária é uma arte, o tecer também, e podem criar coisas novas e diferentes, mas também cuidam das feridas e da dor. Alimentam a alma.
Alfonso Arau nasceu em 1932 na Cidade do México. É casado com a escritora Laura Esquivel.
Direção: Vicente Alves do Ó - 2012 Duração: 119 min Roteiro: Vicente Alves do Ó País: Portugal
O filme chega apenas agora no Brasil. Um belíssimo retrato de Florbela Espanca, a poetisa portuguesa, tida como o feminino de Fernando Pessoa.
Florbela nasceu em 1894 em Vila Viçosa, Portugal. Era filha de Antónia Conceição lobo e de João Mayra Espanca, porém este era casado com Mariana do Carmo Toscano. Seu irmão Apeles também é filho de Antónia, e João tirou os filhos de sua mãe e os levou para serem criados em sua casa. A esposa era estéril e os recebe com amor, tornando-se a madrinha deles. João nunca reconheceu o filho como seu, e Florbela somente 18 anos após sua morte foi reconhecida e recebeu o sobrenome Espanca.
Florbela (Dalila Carmo) tem uma imensa sede de viver, de ir mais longe, mas seu primeiro marido Alberto não compreende isto, e ela se divorcia dele indo para Lisboa. Casa-se novamente com Antonio, mas também não dura este casamento, e então casa-se com Mario (Albano Jerónimo), um médico e vai viver em Matosinhos.
Seus primeiros poemas da época de seu primeiro casamento são publicados nos jornais, ela também edita um livro de poemas, mas depois entra num longo período em que não consegue escrever, voltando a fazê-lo somente após a morte do irmão.
O filme foca principalmente neste período de improdutividade, e em seus três casamentos, passando levemente por sua vida intensa em Lisboa, sua sexualidade, tentativas de suicídio e suas questões psíquicas. Sua relação incestuosa com o irmão Apeles (Ivo Canelas) é uma questão controversa entre seus biógrafos, mas no filme ela é visível, a ponto do irmão não suportar seu terceiro marido, a intromissão dele entre os dois.
O que se percebe pelo filme como mais forte é sua eterna insatisfação, ela diz que não sabe viver, suas buscas, a melancolia, a angústia. Florbela carrega um excesso dentro dela, e não encontra onde colocar, nem mesmo a escrita pode suprir isto. Segue somente suas regras, não leva muito em conta o que os outros sentem, deixa seus maridos apaixonados sem se preocupar com isto, o que importa é sua necessidade de algo novo, diferente, da eterna busca da vida, de viver que não se sacia.
Uma mulher que nasceu em uma época errada, que não teve o que fazer com tudo que tinha dentro de si mesma e com isto se perdeu em si mesma.
Florbela Espanca
Vicente Alves do Ó nasceu em 1972 em Sétubal, Portugal.
Direção: Herbert Ross - 1989 Duração: 104 min Título original: Steel Magnolias Roteiro: Robert Harling País: Estados Unidos
Seis mulheres que são amigas e suas dificuldades, dores, alegrias, dúvidas, se apoiam mutuamente e formam um grupo ímpar.
Shelby (Julia Roberts) vai se casar, mas ela é diabética e não pode ter filhos. Sua mãe M'Lynn (Sally Field) está atarefada com todos os preparativos e também preocupada com o fato dela não poder ter filhos reforçando isto para eles, mas Shelby acabara engravidando e levará isto adiante.
Todas acabam indo ao salão de Truvy (Dolly Parton) para se arrumarem para o casamento, mas isto já faz parte de sua rotina também, esta ida ao cabeleireiro. Para ajudá-la Truvy acaba de contratar Annelle (Daryl Hannah) que acaba de chegar ao lugar e não é conhecida de ninguém. Ouiser (Shirley MacLaine) é a mais rabugenta de todas, com seu cachorro seu maior prazer é atormentar o marido de M'Lynn, e tem também Clairee (Olympia Dukakis).
O enredo gira mais em torno de Shelby e sua dominadora mãe M'Lynn que não está acostumada a ser contrariada, mas no momento mais difícil ela será amparada por suas amigas.
Nada supera a lealdade que une estas seis mulheres seja nas alegrias ou nas piores horas. Um filme sobre a amizade, e com um elenco único trabalhando juntas.
Herbert Ross nasceu em 1927 no Brooklyn, New York e faleceu em 2001 na mesma cidade.
Direção: Lars Von Trier - 1988 Duração: 76 min Título original: Medea Roteiro: Lars von Trier - Preben Thomsen País: Dinamarca Baseado na adaptação de Medea de Carl Theodor Dreyer.
Medea (Kirsten Olesen) , sua história é conhecida, Eurípedes foi seu autor. Uma mulher traída e a que ponto chega sua vingança, seu ódio, sua dor. Ela mata os filhos por ser a única coisa que poderia atingir Jasão (Udo Kier) , lhe tirar algo também.
Lars Von Trier nos apresenta uma Medea terrível, atormentada. Quando Medea puxa a padiola com seus filhos e atravessa um túnel com seres loucos o que Von Trier nos mostra é a loucura, seu interior, toda a dor e ódio que ela carrega junto ali, e ela sofre para puxar a padiola, como pesa, avança com todo este peso da loucura.
Ela é uma mãe carinhosa, amorosa, lambe a ferida do joelho de seu filho, mas a mulher ferida e traída sobrepõe-se à mãe. Ela mata a rival, o pai dela que havia decidido pelo casamento de Jasão e pelo seu exílio com os filhos, e mata seus filhos partindo em seguida.
Terrível, mas não inacreditável. Quantas vezes vemos isto? pai ou mãe que matam seus filhos?
Assustador, mas não estranho nem impossível. No final do filme ele diz que há coisas que Deus pode fazer e são inacreditáveis, um tremendo soco no estômago.
Direção: François Truffaut - 1975 Duração: 96 min Título original: L'Histoire d'Adele H. Roteiro: François Truffaut - Jean Gruault - Suzanne Schiffman País: França Baseado no livro de Frances Vernon Guille e no diário de Adèle Hugo.
Adèle Hugo (Isabelle Adjani) é a segunda filha do famoso escritor Victor Hugo. A mais velha, Leopoldine, morreu afogada e segundo conta Adèle seu marido ao ver que não poderia salvá-la deixou-se ir também. Uma interpretação pessoal uma vez que ele provavelmente morreu afogado também por não conseguir sair. Adèle tem pesadelos, está afundando, se afogando, ficando sem ar.
Apaixonou-se pelo namorado Tenente Pinson (Bruce Robinson) que a abandona, ele parte para o Canadá e ela vai atrás dele. O filme começa quando ela chega à Halifax.
Pinson já a esqueceu e ela não aceita isto, tem um amor obsessivo que a levará ao delírio e finalmente a loucura. Ele é um sedutor, nunca se apaixonou e deixa várias mulheres sem se afetar.
Adèle mente, inventa histórias e quer destruir Pinson. Persegue-o, vai atrás onde ele for até o momento em que já nem o reconhece de tão fixada que está no que criou em sua mente. No final será internada e viverá no asilo até sua morte, ou seja, por 40 anos.
Hugo, viver a sombra de um pai imenso, ela lhe envia suas músicas, pede notícias e sempre lhe davam desculpas. As cartas que recebia do pai sempre falavam de sua mãe, como se ela estivesse muito preocupada, está doente, você precisa voltar, mas onde está esta mãe? A mãe se separou de Hugo, sempre teve uma vida libertina, com amantes. Ele viveu exilado por muitos anos devido suas posições políticas, a irmã morreu, ela era só e se fixa neste amor que lhe parece ser tudo que deseja.
Um belo filme sobre a vida de Adèle H que se tornou conhecido pois se encontraram seus diários.
Adèle Hugo e Victor Hugo
François Truffaut nasceu em 1932 em Paris e faleceu em 1984 em Neully-sur-Seine, na França. um dos maiores cineastas do século XX. Seus temas principais foram as mulheres, a infância e a paixão.
Foi criado pelos avós maternos, já que foi rejeitado pela mãe e nunca conheceu seu pai.
Direção: Woody Allen - 1988 Duração: 84 min Título Original: Another Woman País: Estados Unidos
Uma mulher, a crise dos 50 anos. Ela é casada, filosofa, escritora e muito segura de si. Para escrever precisa de silêncio e por isto aluga uma sala que tem por vizinho um psicanalista. Pelo sistema de calefação é possível ouvir tudo que se diz nesta outra sala. Uma das pacientes Hope (Mia Farrow) fala de sua vida e insatisfação com seu casamento e isto chama a atenção de Marion (Gena Rowlands).
Ao ouvir o relato de Hope, ela passa a repensar sua vida, avalia sua relação com seu marido, ambos em seu segundo casamento. Ela recorda que havia um outro homem apaixonado por ela que acabou rejeitando. Em uma festa um casal comenta que foram surpreendidos pelo zelador do prédio que tem a chave mestra fazendo amor no chão da sala. Ela pensa em sua vida sexual, questiona o marido.
Todos a admiram, sua inteligência, sua postura, mas ela descobre que não é bem assim, que muitos a odeiam e tem mágoas.
Reencontra sua amiga de infância com o marido e vão a um bar, após um tempo o papo entre ela e o marido corre solto, a amiga dá um basta e a acusa de seduzir, não conscientemente talvez, mas ela tem que seduzir e a amiga se sente um lixo, posta de lado. Seu irmão que teve que trabalhar para que ela estudasse. Sua apreciação negativa sobre o livro que ele escreveu, sempre se colocando acima e olhando os outros, avaliando e julgando.
Vai visitar o pai, sua mãe faleceu faz pouco tempo. Ele se desfaz de tudo que era da morta, não quer lembranças. A enteada de Marion pergunta se ele pensa que pode se apaixonar de novo. Ela fica chocada, diz que não foi de bom tom, imagine, na idade dele.
Finalmente resolve seguir a paciente depois que a encontra por acaso na rua, acabam almoçando juntas, conversam e depois quando retorna a sua sala para escrever ela escuta Hope a descrevendo para seu analista.
Hora de mudar tudo!
O filme revela duas coisas: as máscaras que usamos para não nos ver frente a frente com nossos medos, sentimentos, desejos e o que isto produz nos outros.
Direção: Radu Mhaileanu - 2011 Duração: 135 min Título original: La source des femmes. Roteiro: Radu Mhaileanu - Alain-Michel Blanc- Catherine Ramberg País: França - Bélgica - Itália e Marrocos Selecionado em Cannes 2011 como longa-metragem.
As mulheres de uma aldeia situada entre o Norte da África e Oriente médio se rebelam contra os maridos por terem que ir buscar água na fonte enquanto eles passam o dia jogando e bebendo. Tudo tem início quando novamente uma das mulheres grávida cai e perde seu filho ao ir buscar água na fonte. O que elas querem é que a água seja canalizada até a aldeia.
O filme começa com um parto e um aborto. Elas festejam o nascimento, cantam e desprezam a que perdeu o filho e isto revolta Leila (Leila Bekthi) que começa a instigar as mulheres a lutarem por melhores condições e sugere uma greve de sexo que é o único poder que elas tem sobre os homens.
O problema é que as tradições islâmicas são seguidas à risca, e a mulher como procriadora é regra, assim como ser de responsabilidade delas ir buscar a água.
Os homens não aceitam isto, e as mulheres também sofrem, pois por mais que haja regras que para nossa cultura são machistas, as mulheres usufruem do sexo com prazer na aldeia, são eróticas. E a tensão vai aumentar no decorrer do filme.
A mulher do Mulá é contra, quer manter a tradição e os costumes, mas o que percebo é que no fundo ela tem ciúme e raiva. As mulheres mais velhas já não sobem para buscar água e não podem aceitar que as novas escapem a este destino, que de certa maneira é a sua vingança e satisfação após anos passando pelo mesmo, por também terem caído e perdido filhos. O Mulá pergunta a sua mulher: Por que você sempre defende os homens? nem parece que você é mulher.
A sogra também é contra e ainda diz à Leila que ela lhe roubou seus homens, seu filho e até seu marido que a apoia. Seus falos. Esta sogra que não recriou-se como mulher, mas assumiu um papel social de mulher para tentar ser.
Um aldeia arcaica, elas não tem anticoncepcionais, mas tem celulares. O filho homem é o desejado, a maioria dos bebês morrem. A religião, a tradição e o moderno. Há uma cena hilária, de uma delas em cima de um asno na lida diária falando ao celular e que ao perder o sinal xinga o asno para que ele volte ao local onde tem sinal, ou então quando elas penduram o celular no varal que é o único lugar onde tem sinal.
Mas se a greve é uma forma há outra e muito mais eficaz que é fala, que não se dá pela tecnologia, celular ou TV, mas sim pelas canções que elas cantam. As letras destas canções é o mais importante neste filme, é onde cantam suas dores e alegrias e terminam cantando que a mulher não é a origem da vida, ela é o amor. A terra é fértil como a água, a mulher não é a água, é amor.
A mulher quer ser amada, precisa amar e ser amada. Só assim floresce e passa a ser respeitada deixando de ser um objeto de uso para o sexo e para o trabalho.
Segundo o diretor Radu Mhaileanu o filme foi inspirado na peça "Lisístrata" de Aristófanes. O filme foi rodado no Marrocos em uma aldeia a 50km de Marrakesh.
Radu Mhaileanu nasceu em 1958 em Bucareste, Romênia. Vive na França .
Trilha sonora de Armand Amar
Armand Amar nasceu em 1953 em Jerusalém, Israel de mãe israelense e pai judeu-marroquino com passaporte francês. Emigrou para o Marrocos.