Mostrando postagens com marcador Sociedade Atual. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sociedade Atual. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: O MAPA E O TERRITÓRIO - MICHEL HOUELLEBECQ


Houellebecq, Michel. Record, 2012
399 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: La carte et le territoire

Este é o segundo livro que leio de Houellebecq e noto que há pontos que se repetem em relação ao outro - Submissão - já postado aqui no Blog.

Primeiramente o protagonista, um homem solteiro, que mora sozinho e que tem  dificuldades de se relacionar com o outro. O distanciamento dos pais, ser inapto para o amor, a sexualidade, e um mundo moderno com suas supostas vantagens que acabam sempre não o sendo, o solitário, o isolamento. Outra característica é que o autor costuma colocar como personagens pessoas públicas e que ainda vivem, mas em forma de ficção, nem sempre correspondendo à realidade, e neste livro ele coloca a si próprio, o escritor Michel Houellebecq é um dos personagens. 

Neste livro ao invés de François, um professor, temos Jean Martin, um artista plástico, que mora sozinho em Paris e tem seu pai já com certa idade que ainda mora na antiga casa da família. Após se aposentar, era um grande arquiteto, resolveu ir morar numa casa de idosos e finalmente optou pelo suicídio assistido que é permitido na Suíça. 

Jean tem vários momentos em sua arte, a fotografia, a pintura à óleo, mas o que nunca imaginou é que um dia seria famoso e que suas telas valeriam fortunas. Tem uma relação amorosa com Olga, uma russa que está na França e que depois retorna ao seu país, ela o ama, porém ele em momento algum tem um gesto para retê-la ou pensar em ir com ela. Simplesmente deixa acabar. 

É um retrato da modernidade, do vazio, da melancolia, onde as relações perdem seu verdadeiro sentido e são apenas vividas no momento sem criar laços. O mundo da arte, as frivolidades, o dinheiro. Um dos principais pontos de Houellebecq em seus livros é o mercado de consumo e neste livro vamos encontrar várias passagens onde diante de algo vital para a existência se dilui em pensamentos fúteis, em análises sem profundidade. 

O que marca no livro é perceber que Jean se torna um artista famoso e vale muito dinheiro, porém, será arte mesmo o que ele faz? ou será o merchandising que o tornou famoso? E ele ao invés de se pavonear com isto e viver a fama se isola cada vez mais. Não posso deixar de pensar que quando um artista dá seu suor e cria uma obra ele não pode ficar indiferente, há algo de produzido neste boom pelas obras de Jean e que não foi ele quem fez isto. 

Apesar de ser este o livro que ganhou o Prêmio Goncourt, eu prefiro Submissão, que veio depois, onde a realidade do mundo moderno se apresenta com questões muito atuais, sendo que este O Mapa e o território, conta uma história que nos mostra o retrospectivo, a diferença que podemos imaginar entre o que foi e o que é. Entre o antes do mundo do consumo e o de hoje. 

Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França

sexta-feira, 10 de julho de 2015

LIVRO: TENHO ALGO A TE DIZER - HANIF KUREISHI



Kureishi, Hanif. Companhia das Letras, 2009
501 páginas
Tradução: Celso Nogueira
Título Original: Something to tell you

Jamal Khan é quem narra a história. Ele é um psicanalista londrino, filho de um paquistanês e de uma inglesa e tem uma irmã Mirian. Está divorciado e tem um filho. 

O livro aborda o mundo atual, a mistura cultural, a depressão, o desejo, o medo de terroristas, um filho na adolescência, a separação, a solidão, os desajustes. Transita em todos os níveis sociais e percebemos que em todos eles a situação humana se repete, mesmo que o cenário seja outro. 

Lembrou-me um pouco o relato de Theodore Dalrymple sobre a periferia de Londres, mas vai além. Jamal carrega uma imensa culpa e um amor frustrado na adolescência. Precisou fazer análise e depois ele mesmo vira um psicanalista. Mas o livro não foca apenas a psicanálise, vai muito além narrando a família atual e a vida de Jamal longe de seus pacientes, de seu amigo Henry, um artista frustrado que se apaixona pela irmã de Jamal, que é depressiva, faz uso de drogas, e abusa do sexo. 

Uma visão cinza do mundo ocidental e todo seu vazio existencial e das consequências disto. A tentativa de preencher este vazio e driblar suas dores através de drogas ou sexo. O submundo aparece, mas não apenas na periferia, também nas mansões luxuosas. 

O livro preferido de Jamal é o Mal Estar da Civilização de Freud, não à toa, pois o livro todo é como revisitar este texto escrito há tantos anos, mas totalmente atual. 

Hanif Kureishi nasceu em 1954 em Bromley, Reino Unido

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: SUBMISSÃO - MICHEL HOUELLEBECQ



Houellebecq, Michel. 1ª ed. Objetiva, 2015
251 páginas
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
Título Original: Soumission

É realmente um livro que nos coloca num processo reflexivo intenso. Procurei ler o livro sem me deixar levar pelos conceitos ocidentais evitando desta forma considerar a história um tanto machista, o que seria simplista demais. 

Estamos na França em 2022. François é um professor universitário, leciona na Paris III - Sorbone. Leva uma vida sem grandes acontecimentos. Solteiro, sua namorada o deixou, aliás, ele nos fala que é um ciclo repetitivo e que a cada início de ano letivo isto acontece. Não consegue manter laços afetivos, não tem contato com seus pais que são divorciados e vivem em lugares diferentes. Não consegue manter um relacionamento amoroso. Envolve-se com estudantes ou então procura por prostitutas. Nunca viaja nas férias e não tem amigos, apenas conhecidos.Às vezes pensa em suicídio. 

É época de eleições e quem vence é Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana. É conciliador porém aos poucos as mudanças vão se impondo. A educação é uma das mais atingidas, entrando a educação islâmica em vigor. As mulheres não podem mais trabalhar, tem que usar o véu, e todas as professoras, mestres da Universidade tem que se retirar. Diante de uma sociedade que é considerada amoral o que se busca é a recuperação da moralidade, da família. 

François é convidado ou a se converter e ser um professor muçulmano ou a se aposentar. Ele opta pela segunda opção. Tem dinheiro suficiente para ter uma vida boa, mas não sabe o que fazer de sua vida. Considera que sua vida intelectual terminou no dia em que apresentou sua tese. Sua vida de professor acabou, a ex-"namorada" por ser judia foi embora para Israel com sua família. 

O livro é uma crítica mordaz a atual sociedade e seus valores, mas é também um imenso alerta, uma sacudida, um impacto. 

A situação de François é bem conhecida no mundo atual, a falta de sentido, o vazio, a solidão, a falta de laços afetivos, a fuga pelo sexo, comidas, bebidas. Quando recebe uma nova proposta para retornar à faculdade ele balança e terá que tomar uma decisão entre esta vida que leva ou uma nova opção.

Mas o livro é ainda mais profundo. Apesar de ter por protagonista um homem que dentro da sociedade muçulmana pode ter algumas escolhas, o livro não deixa de fazer uma crítica também à mulher quando diz que nesta sociedade islâmica a mulher pode permanecer na infância, ao se ver duas mulheres com véu olhando revistas de moda e rindo como crianças. Também a analogia entre a mulher ocidental que se levanta de manhã, se arruma toda, se veste bem e sai para o trabalho e quando chega a noite ela retorna ao lar cansada, coloca uma roupa confortável e tem vontade de se deitar no sofá, enquanto que a muçulmana passa o dia sob um véu, mas a noite se arruma toda para seu marido. Sim, realmente é uma analogia possível, mas sinceramente, um tanto machista, uma vez que visa apenas ao prazer do homem, do nosso protagonista François. Mas a verdadeira crítica estaria na futilidade do consumo, e por outro lado na competição que existe no ocidente entre homens e mulheres, mas mais ainda, entre as mulheres.

Ao final o que se percebe é realmente a submissão, e aqui não é apenas da mulher, mas do homem também. E fica a pergunta se no fundo não desejamos isto.

O que realmente se traz a tona neste livro não é o islamismo, este conhecido por sua forma de considerar a mulher e sua moral, mas o vazio de François que é o de muitos no mundo atual e que o levaria a submissão para ter uma vida melhor por falta de desejo e falta de vontade de se mover e fazer algo. É mais fácil receber tudo.

A questão maior do livro é justamente a modernidade e a vida de François. Ele não consegue criar laços afetivos, as cenas de sexo são cruas, e sem amor, visando unicamente ao prazer dele. A visão que ele tem da mulher é mais misógina ainda, que pensa numa mulher para a cama e outra para a cozinha, na poligamia, o que resolve os problemas de satisfação dele, mas em momento algum ele se preocupa com o outro. Aliás a humanidade não lhe interessa. A crítica é ao individualismo da sociedade ocidental que leva o sujeito de desejar um objeto a se transformar em objeto pela submissão, como uma única saída para todo seu desespero e vazio existencial. E realmente estamos diante do mundo atual onde as pessoas cada vez se afastam mais das outras e pensam apenas no prazer e na felicidade, no sucesso, mas não querem ter que fazer os investimentos necessários na manutenção de laços e querem encontrar tudo isto pronto, para consumo.

Manter laços afetivos é algo que deve ser trabalhado, requer investimentos afetivos e inclui riscos, e me parece que é justamente o que François não deseja fazer, ele visa apenas o prazer próprio, sua satisfação. Desenvolver uma carreira profissional também é trabalhoso, e novamente ele não se esforça para isto. E nem mesmo a relação com seus pais lhe interessa, a ponto de ambos morrerem e ele não ter ido vê-los. E no mundo atual é visível o quanto é difícil para as pessoas manterem estes laços, preferindo o virtual onde se pode usar a tecla deletar quando algo incomoda ou exige mais. François não busca uma mulher para ser sua companheira com todos os riscos e prazeres que isto proporciona, ele prefere as relações com estudantes que terminam a cada verão ou as prostitutas.

O alerta é justamente sobre a desmoralização, a falta de laços, a falta de norteamento e de desejo que transforma a pessoa em submisso ao que lhe proporcione tudo isto sem ter que se esforçar. Algo que venha preencher o vazio existencial, mas sem esforço, e dentro da ilusão do que se considera a felicidade ou prazer. E volto a minha pergunta inicial: até que ponto desejamos isto? até que ponto a sociedade se infantilizou desejando a volta ao paraíso onde podemos receber tudo sem ter que fazer nada para isto, exceto obedecer aos pais, a Deus, ao Islã como no livro.


Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

LIVRO: A FESTA DA INSIGNIFICÂNCIA - MILAN KUNDERA



Kundera, Milan. 1ª ed. Companhia das Letras, 2014
134 páginas
Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca
Título Original: La Fête de l'insignifiance

Projeto um livro por país.
País: República Tcheca


Cinco amigos que vivem em Paris em seu cotidiano nos mostram o quanto a vida é insignificante, onde tudo se repete e não há mais individualidade. Alain chega a esta conclusão ao se dar conta que o erotismo se transferiu das coxas, bundas e seios para o umbigo que agora todas mostram, mas o que há de erótico em um umbigo? É possível distinguir uma mulher amada ou desejada pelas suas pernas, bunda ou seios, mas pelo umbigo? são todos iguais.

Charles e Calibã se divertem no trabalho organizando coquetéis onde Calibã finge ser um paquistanês. Para isto inventam uma língua, só que ninguém repara, ninguém se interessa, é um ator sem público. Ramon está interessado em uma mulher nesta festa, mas ela vai embora, e justo com quem? com o mais silencioso e apagado da festa, que parece que com seu silêncio chamou mais a atenção. Além disto ele deseja ver a exposição de Chagall, mas desiste toda vez por causa da fila. Fica irritado com isto e comenta com Alain que desde quando todos eles se interessam por Chagall? ou estariam simplesmente matando tempo devido ao tédio?

D'Ardelo acaba de receber a maravilhosa notícia de que não está com câncer, mas ao encontrar Ramon sem saber porque mente e diz que está doente. Talvez uma forma de dar alguma sentido à sua existência? Como Alain que sempre imagina como seria seus diálogos com sua mãe que o abandonou na infância e na única vez que se encontraram fixou seu olhar em seu umbigo. Um umbigo sem mãe, sem ter a quem se atar, mas que mesmo assim vai permanecer sem o corte.

Paralelamente vemos um teatro, onde Stálin se diverte apavorando seus companheiros. Ele sabe que os domina e que jamais emitiram sua própria opinião, exceto o mais tolo de todos, Kalinin que sofre de problemas de contenção de urina e precisa ir ao banheiro a todo instante,o que acaba gerando ternura em Stálin que o homenageia mudando no nome da cidade de Kant para Kaliningrado. Stálin debocha do medo  de todos que os leva a serem submissos à ele e talvez por isto goste de Kalinin que suporta até onde pode sua vontade de urinar até que molha as calças ali mesmo atendendo á sua necessidade.

Há um pequeno capítulo sobre a culpa e o eterno pedido de desculpas que vale a pena ser lido.

Um livro curto mas que diz muito. O desencanto da vida, a futilidade que reina, a insignificância de cada um de nós. O livro é um alerta. Realmente vivemos num mundo onde a futilidade, o consumismo, a mesmice é visível, porém acredito na capacidade de cada um de construir um sentido para sua vida, mesmo que seja através de um teatro, porque no fundo, a vida é um teatro, um romance de ficção que nós mesmos escrevemos.

Milan Kundera nasceu em 1929 em Brno, República Tcheca. Vive atualmente em Paris e se naturalizou francês. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

LIVRO: IDIOPATIA - SAM BYERS



Byers, Sam. 1ªed.Objetiva, 2014
287 páginas
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Título Original: Idiopathy

Idiopatia - origem fim do século XVII - do latim moderno idiopathia, do grego idiopatheia, de idios "próprio, privado" + patheia "sofrimento". Sofrimento próprio

Grande surpresa, por ser um livro de estréia, um dos melhores livros que li recentemente. É brilhante. 

Um romance sobre amor, narcisismo e animais agonizantes. 

Três pessoas, Katherine, Daniel e Nathan são os protagonistas, porém a mãe de Nathan, seu pai,  Angélica e Sebastian também tem muito a nos mostrar. 

A narrativa trata do absurdo da vida moderna, suas neuroses, solidão, narcisismo extremado, máscaras. 

Os três se utilizam de máscaras para fugir ao que realmente sentem, para defender um narcisismo exagerado, onde não se quer ficar por baixo, onde a demanda de aprovação supera tudo, onde cada um foge do que é para colocar no outro o que ele imagina que o outro vê nele. 

Katherine é a ex-namorada de Daniel que atualmente vive com Angélica. Ela é manipuladora ao extremo, sempre jogando para o outro, não escuta ninguém, quer sempre ser a vencedora em qualquer tentativa de diálogo, uma vez que com ela nunca ocorre um diálogo, é impossível, ela não permite. Adora provocar os outros, deixá-los irritados, isto lhe dá prazer e a sensação de vitória. Mas é extremamente solitária, sofre com isto, porém não consegue dar um passo para mudar isto, a resistência é total. Quando tenta é pior ainda, soa falso. Tudo que o outro lhe diz ela manipula a seu favor, e chega a ser irritante os diálogos com ela, lendo eu ficava com raiva, dava vontade de mandá-la calar a boca. Ela sempre respondia com perguntas antes mesmo que o outro terminasse de falar, ou observações irônicas e sarcásticas. 

Daniel quer ser o perfeito, amado, vender uma aparência boa. Não consegue ser autêntico, ele mesmo. Está sempre pensando antes de falar no que o outro vai pensar do que ele vai dizer. Procura achar as palavras e respostas certas, pensa em todas as alternativas de respostas possíveis que o outro vai dar para se preparar antes de falar. 

Nathan, que é o considerado doente na história, ele foi internado num hospital psiquiátrico por ter tirado a própria pele, me parece entre todos o melhor, o que está menos doente nesta sociedade neurótica e moderna. Ele foi para o ato ao invés de falar, e claro, depois de uma conversa com Katherine, quando é impossível falar. É um ex-drogado, que se apaixonou por ela quando esta ainda vivia com Daniel, que era seu amigo. Os três sempre se encontravam, mas Nathan percebeu que ele era usado pelos dois. A mãe de Nathan é castradora, e quando vê que o filho arrancou sua pele, resolve escrever um livro sobre o sofrimento de uma mãe para se livrar da culpa. Fica famosa, recebe e.mails, participa de programas na TV, causa um tremendo desconforto em Nathan. A intenção materna é criar a culpa nele para retirar dela a questão. O pai não interfere, vive sua vida cotidiana. 

Angélica é a bondosa, aquela que quer ser vista como generosa e bondosa com todos, que media todos os conflitos, que acalma. E Sebastian, apaixonado por Angélica, é um ativista que está obcecado pela questão das vacas que sofrem de uma doença chamada idiopatia e que estão sendo sacrificadas. Ele adora provocar Daniel, para desta maneira chamar a atenção de Angélica. Ele sente inveja e ciúme de Daniel por ter ficado com Angélica, e a ironia do livro é ver que ele acha que uma vaca é algo que vai diferenciá-lo de Daniel aos olhos de sua amada. 

As emoções humanas são as mesmas de sempre. O que o livro deixa claro é a forma como as pessoas lidam com isto no mundo moderno. Eles não sabem se agem com total desinteresse, descrença, afastamento, ou se vão atrás de ideias, palavras, pensamentos. 

É uma sátira do mundo moderno, mas na realidade muito do que está um pouco exagerado no livro para reforçar a história acontece todos os dias. As pessoas usam máscaras para fugir de sua solidão, desesperança, fracassos e tristezas. Não sabem mais lidar com isto. Então elas atacam os outros para com isto achar que estão prevalecendo e atingir um certo gozo, ao invés de viver com prazer e satisfatoriamente com aquilo que a vida oferece de possível. 

O fato da leitura atingir a nós mesmos, nos levando a desejar mandar calar a boca, ficando exasperados em determinados momentos, com raiva até, é algo brilhante num livro, e que também nos faz refletir sobre nossas relações e como agimos com os outros. O que todos desejamos é sermos amados, mas como lutamos contra isto. 

Recomendo!

Sam Byers nasceu em 1979. 

terça-feira, 11 de março de 2014

LIVRO: O REINO DO AMANHÃ - J.G. BALLARD



Ballard, J.G. Companhia das Letras, 2009
Tradução: José Geraldo Couto
366 páginas
Título original: Kingdom come

Richard Pearson é um publicitário que está desempregado e que acaba de perder seu pai que faleceu com uma bala perdida num tiroteio num shopping o Metro-Centre que fica na periferia de Londres, um mundo este que o próprio Richard ajudou a criar através do marketing e da publicidade gerando o anseio pelo consumismo.

Ele vai até esta cidade de subúrbio, Brooklands onde vivia seu pai para seu enterro e depois para cuidar do testamento, mas ele também começa a querer saber quem era este pai, uma vez que quase não tiveram contato devido a separação entre ele e sua mãe. Um piloto de avião aposentado que tinha em suas estantes de livros obras sobre o nazismo.

Aos poucos Richard vai se envolvendo nesta cidade periférica e percebe que tudo gira em torno do mega shopping que promove o futebol, outros esportes, e que mais se parece com um templo religioso do que com um mero centro de compras.

Além do mistério que envolve a morte de seu pai que ele tenta desvendar o que mais o instiga é a mente das pessoas que vivem ali e do que realmente acontece naquela região.

Um crítica mordaz ao consumismo, a vida que as pessoas levam atualmente onde não se cria um sentido, mas se vive no tédio, a busca de preencher estes vazios e tédio, onde um shopping e seu garoto propaganda nos lembram o fascismo, de como as pessoas se deixam levar por um líder em busca de algo que nem sabem ao certo o que é, desde que algo se modifique em suas vidas, desde que o tédio vá embora.

A agressividade latente, algo primitivo, que está por baixo de todos ali e pronto para explodir, ser canalizado por um líder carismático que saiba conduzir a turba. Eles usam camisetas com a cruz de São Jorge, focam inicialmente nos outros, os diferentes, os asiáticos, os de Kosovo, os estrangeiros e em seu comércio lateral, mas chegará o momento em que nem isto os satisfaz mais.

Um shopping, um templo, onde todos os produtos de desejo, de consumo acabam se tornando totens, e os displays santuários a serem idolatrados, como os três ursos emblemáticos que ficam no átrio do mega centro de consumo. Eles ficam tão sem sentido que passam a desejar ser aqueles objetos de adoração, introjetam o que os objetos representam como se introjeta um totem, sua força, seu significado, o sagrado.

Um livro para nos fazer pensar sobre a sociedade atual. Há talvez alguns exageros, mas nem tanto, a paranoia é algo muito fácil de surgir do nada. As pulsões coletivas que podem ser canalizadas para um foco, e com certeza já vimos isto antes. E Richard fica no meio, se por um lado ele percebe tudo isto, por outro não consegue deixar de se apoderar disto para seu ego se satisfazer profissionalmente.

Um grande alerta!

James Graham Ballard nasceu em 1930 em Xangai e faleceu em 2009 em Londres. Filho de pais ingleses foi para um campo de prisioneiros controlado pelos japoneses durante a segunda guerra mundial, o que ele conta em Império do Sol, apesar de que de forma ficticia e que foi transformado em filme por Steven Spielberg. Estudou medicina em Cambridge e foi piloto da RAF no Canadá. É um dos escritores mais perturbadores da atualidade.