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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A HERANÇA DE BEAUVOIR REVISITADA POR JULIA KRISTEVA

 


BEAUVOIR PRESENTE

JULIA KRISTEVA

EDIÇÕES SESC – 1ª ED. 2019

128 páginas 


Em Beauvoir Presente, Julia Kristeva nos oferece uma reflexão apaixonada sobre a obra, a vida e a presença intelectual de Simone de Beauvoir, atravessando literatura, filosofia e feminismo. O livro não é apenas uma homenagem, mas uma tentativa de pensar Beauvoir como força viva, cujo pensamento continua a interrogar nossa relação com o corpo, a linguagem e a política de gênero.

Kristeva destaca a singularidade de Beauvoir: sua capacidade de articular experiência pessoal e análise teórica, transformando vivências femininas em conceitos universais sobre liberdade, opressão e alteridade. Ao revisitar O Segundo Sexo e outros textos, Kristeva ressalta a atenção de Beauvoir às tensões entre biologia, cultura e existência, mostrando que a filosofia feminista não pode ser dissociada da vida concreta das mulheres.

O livro também dialoga com a própria trajetória de Kristeva, apontando como Beauvoir permanece um ponto de referência para pensar o sujeito feminino, a escrita e a criação. A autora propõe que a obra de Beauvoir continua presente não apenas em debates acadêmicos, mas na maneira como as mulheres contemporâneas se reconhecem e se afirmam, desafiando normas patriarcais e construindo identidades complexas.

Um dos méritos de Beauvoir Presente é explorar a atualidade do pensamento de Beauvoir, mostrando que os dilemas da emancipação feminina — autonomia, sexualidade, ética e responsabilidade social — permanecem urgentes. Kristeva evidencia que a filosofia de Beauvoir não se limita ao contexto histórico do século XX, mas se estende ao nosso tempo, inspirando reflexão crítica sobre gênero, poder e criatividade.

A escrita é densa, mas poética, e reflete o diálogo entre duas grandes pensadoras: uma revisita a obra da outra, e ambas nos lembram que a filosofia se faz também na experiência vivida, na atenção às relações humanas e na coragem de enfrentar estruturas de opressão. Beauvoir Presente é, assim, leitura essencial para quem deseja compreender a continuidade do feminismo intelectual e a relevância da obra de Beauvoir no mundo contemporâneo.


Julia Kristeva nasceu em Sliven, Bulgária, em 1941 e possui cidadania francesa. É uma filósofa, linguista, crítica literária e psicanalista. 


segunda-feira, 16 de maio de 2016

LIVRO: NO PRINCÍPIO ERA O AMOR: PSICANÁLISE E FÉ - JULIA KRISTEVA



Kristeva, Julia. Verus, 2010
83 páginas
Título Original: Au commencement était l'amour: psychanalyse et foi
Tradução: Leda Tenorio da Motta


"Para que a fé seja possível, é preciso sem dúvida que esse salto "semiótico" para o Outro, essa identificação primária com os polos parentais arcaicos, próximos do continente materno, não seja recoberto pelo recalque nem deslocado para a construção de um saber que, conhecendo-lhe o mecanismo, o haveria de sepultar. O recalque pode ser ateu, o ateísmo é recalcador, ao passo que a experiência analítica pode levar, por sua vez, a um abandono da fé em conhecimento de causa". (pg.39). 

Freud nos lembra que o homem é um ser religioso, precisa crer em algo. A religião dá sustentação ao ser humano, ele crê em algo, acredita que irá receber algo, será protegido. Kristeva lembra que Santo Agostinho chega a comparar a fé do cristão em seu Deus às relações do bebê com o seio da mãe.

Kristeva nos lembra que é preciso crer para chegar ao saber, como um bebê precisa confiar e crer em sua mãe, sem isto não haveria como ele sobreviver. E isto não é infantil, é um fundamento do ser humano diante da vida, uma maneira de lidar com o caos, o incompreensível, o inaceitável. Sim, o saber pode sublimar a fé, mas este saber não é possível sem a princípio termos fé em algo.  

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária, nacionalizou-se francesa, é uma filosofa, escritora, psicanalista e crítica literária. 


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

LIVRO: O FEMININO E O SAGRADO - CATHERINE CLÉMENT e JULIA KRISTEVA



Clément, Catherine; Kristeva, Julia. Rocco, 2001
220 páginas
Tradução: Rachel Gutiérrez

Um livro escrito a duas mãos, duas vozes. Catherine Clément e Julia Kristeva através de cartas falam sobre o feminino e o sagrado.

O que é o sagrado para o feminino?

Não é fácil escrever sobre este livro que acabo de reler. Os temas são variados dentro do que ambas consideram como sagrado e nem sempre vai de encontro ao que eu mesma penso sobre isto, mas é muito interessante e enriquecedor. 

Kristeva fala do lado Ocidental, com sua formação psicanalítica e linguística, nasceu na Bulgária e vive na França, já Clément é  francesa, judia e viveu por muitos anos na Índia e África, romancista, estudou filosofia, professora e jornalista, tem uma visão mais antropológica. Elas concordam e discordam, há um momento no livro que se sente um pouco a tensão entre as duas que defendem seus pontos de vista, uma certa agressividade até, para depois se recomporem e continuar. Não há nada de conclusivo e nem era esta a intenção, o que elas fazem é levantar questões e falar sobre elas cada uma de seu ponto de vista e compreensão. 

Kristeva fala da Virgem Maria, das místicas ocidentais, de suas analisandas, da anorexia; Clément das africanas e do transe, sobre as tradições Indus, sobre o pudor e a sujeira. Pessoalmente me sinto mais atraída pela visão de Clément que está falando do que viu, viveu, do que acontece de fato na realidade que ela vive. Kristeva em um dado momento chama de sedução de terceiro mundismo, não gostei desta posição dela. Penso que para falar do sagrado a antropologia está mais habilitada do que a filosofia ou a psicanálise. Mas isto é uma opinião pessoal que não significa que Kristeva também não agrega pontos muito interessantes, principalmente sobre as místicas, as santas, sobre Catarina de Siena. Será ela que depois vai escrever um belíssimo livro sobre Teresa D'Ávila. Mas Clément escreveu a Louca e o Santo junto com um psicanalista hindu. 

Num ponto elas concordam, o sagrado é uma separação, ele separa, classifica, é uma maneira de se sair do profano, do mundano, do cotidiano, e viver algo diferente, recuperar-se, e voltar. O sagrado não é divino, há uma diferença, e por isto mesmo nem sempre está ligado à religião. É uma experiência privada, e o risco de se tornar coletiva é o fundamentalismo, a violência, pelo menos no mundo atual, uma vez que entre os povos ditos "primitivos" os rituais eram coletivos e cumpriam seu papel. As aldeias tinham seu espaço sagrado e era respeitado. No mundo atual para se encontrar um espaço sagrado realmente precisamos da privacidade e penso que se trata de uma experiência pessoal para cada um. O sagrado pode estar numa música, num lugar, na dança. Eu mesma considero minha casa um espaço sagrado e a rua o profano, mas também busco na natureza e na terra esta experiência. 

Catherine Clément 

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária