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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

IFEMELU: IDENTIDADE E IMIGRAÇÃO

 


AMERICANAH

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2014

520 páginas~

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um romance poderoso que explora questões de identidade, raça, imigração e pertencimento, a partir da experiência de Ifemelu, uma jovem nigeriana que se muda para os Estados Unidos em busca de educação e novas oportunidades. A obra examina de maneira sensível e crítica os desafios enfrentados por imigrantes e as nuances do racismo estrutural, das diferenças culturais e da adaptação em um país estrangeiro.

O romance também aborda a vida na Nigéria, revelando as complexidades sociais, econômicas e políticas do país, bem como as relações humanas marcadas por classe, gênero e tradição. Ao acompanhar o percurso de Ifemelu, Adichie investiga a construção da identidade, a experiência do “não-lugar” do imigrante e a importância da memória cultural para manter o vínculo com suas origens.

Além disso, o livro destaca a questão racial de forma direta, especialmente nos Estados Unidos, discutindo como a cor da pele influencia oportunidades, interações e percepção social. Americanah é, portanto, tanto uma história de amor e autodescoberta quanto uma análise crítica sobre raça, identidade e as tensões entre pertencimento e deslocamento.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, Nigéria, em 1977. É uma feminista e escritora nigeriana. 




sábado, 14 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA, SILÊNCIO E HERANÇA MORAL NO PÓS-GUERRA ALEMÃO

 


À SOMBRA DO MEU IRMÃO

As marcas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã

UWE TIMM

DUBLINENSE – 1ª ED. - 2014

160 páginas 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Uwe Timm era apenas uma criança. O irmão mais velho, ao contrário, alistou-se na SS e morreu jovem no front. No pós-guerra, esse irmão ausente transforma-se no ídolo silencioso da família — um herói congelado no tempo, protegido pela morte e pela recusa coletiva de olhar para o que o nazismo realmente foi.

Já adulto, Timm sente a necessidade de compreender. Não para absolver, mas para entender como isso foi possível. Ele parte então para uma investigação íntima: relê obsessivamente o diário do irmão, revisita cartas enviadas do front na Ucrânia, busca indícios de humanidade, dúvida, culpa. Não encontra. O que emerge é uma normalidade perturbadora, uma ausência quase total de empatia pelo sofrimento alheio.

Um dos momentos mais chocantes do livro está no contraste entre dois relatos. Em uma carta, já no final da guerra, o irmão se diz horrorizado com o bombardeio de Hamburgo pelos aliados — um crime contra civis, mulheres, crianças e idosos. Em outra passagem, descreve com orgulho a destruição dos fornos de uma aldeia ucraniana: os tijolos seriam usados para permitir a passagem dos tanques na lama. Não há qualquer reflexão sobre o que isso significaria para a população local: a perda do meio de cozinhar, de se aquecer no inverno rigoroso, a morte provável de idosos, mulheres e crianças. Para Timm, essa assimetria moral é devastadora: quando a violência atinge “os nossos”, é crime; quando atinge “os outros”, é feito de guerra.

O livro inteiro é atravessado por essa busca dolorosa de compreensão. Como pessoas comuns, capazes de afeto na vida cotidiana, podem perder completamente a capacidade de reconhecer o outro como humano? Como a guerra produz essa anestesia moral? E, talvez mais inquietante: como o pós-guerra permitiu que tantas famílias alemãs se colocassem apenas como vítimas, desviando o olhar dos crimes cometidos em seu nome?

Há também uma dimensão íntima e familiar profunda. Por que esse irmão mais velho permaneceu como ideal do pai, enquanto o caçula, que não matou ninguém, que era apenas uma criança durante o regime nazista, jamais ocupou o mesmo lugar? A pergunta atravessa o texto sem nunca se resolver plenamente, porque o que está em jogo não é apenas uma rivalidade fraterna, mas o peso simbólico do silêncio, da negação e da herança moral não elaborada.

À Sombra do Meu Irmão é um livro incômodo e necessário. Ele mostra como é fácil não querer ver, não querer saber, não reconhecer os próprios erros — e ainda transferir a culpa para os outros. Em tempos de radicalizações e revisionismos, a leitura se impõe como um alerta: a barbárie não nasce apenas de monstros, mas de pessoas comuns que aceitam calar. E esquecer que quem iniciou a guerra foi Hitler e que o esquecimento nunca é neutro.


Uwe Timm nasceu em Bad Kreuznach, Alemanha, em 1940. É um escritor alemão


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

SEXO COMO SAGRADO OU COMO PECADO


 

SEXO E RELIGIÃO: Do baile de virgens ao sexo sagrado homossexual

DAG OISTEIN ENDSJO

GERAÇÃO EDITORIAL - 2014

376 páginas 


Este livro trata de como as diversas religiões do mundo compreendem o sexo. Para algumas, ele é sagrado; para outras, o pior dos pecados. A leitura é instigante justamente por revelar essas diferenças, que nos levam a refletir sobre múltiplos aspectos das religiões e também sobre o mundo contemporâneo.

O autor não se limita ao passado: traz muitos exemplos atuais, principalmente da Noruega, país de onde é originário. A pergunta central que ele procura responder é por que o sexo é tão importante para as religiões — ao menos para a maioria delas.


Dag Oistein Endsjo é um cientista da religião norueguês. 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Entre o santo e o contrato: o destino feminino

 


A CABEÇA DO SANTO

SOCORRO ACIOLI

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2014

176 páginas 

Há livros que se deixam ler com gula. A Cabeça do Santo é um deles: desses que se devoram sem culpa, mas que, ao final, permanecem ecoando, como se a leveza da narrativa escondesse algo mais fundo.

A história começa com um gesto ancestral. A mãe de Samuel, pertencente a uma linhagem de mulheres que sabiam quando iam morrer, anuncia sua partida iminente e lhe confia seus últimos pedidos: acender uma vela aos pés da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro; outra diante de São Francisco, em Canindé; e mais uma para Santo Antônio, em Candeia. Depois disso, Samuel deveria retornar a essa cidade para encontrar o pai que nunca conheceu. Contrariado, ele promete cumprir a missão — promessa que o coloca em movimento, tanto no espaço quanto na própria vida.

A viagem até Candeia dura dezesseis dias de estrada dura: fome, cansaço, solidão. Quando finalmente chega ao endereço indicado pela mãe, é recebido pela avó, que não abre o portão. Apenas lhe diz para procurar abrigo, pois uma forte chuva se aproxima. Samuel obedece. No dia seguinte, ao despertar, escuta vozes — muitas vozes de mulheres. Descobre, então, que está abrigado dentro de uma enorme cabeça de concreto: a cabeça de Santo Antônio, esquecida no chão, separada do corpo da estátua que permanece no alto do morro.

É a partir dessa imagem insólita que Socorro Acioli constrói o coração do romance. Samuel passa a ouvir, de dentro da cabeça do santo, os pedidos das mulheres que recorrem ao santo casamenteiro. Pedidos íntimos, desesperados, às vezes cômicos, às vezes dolorosos. Incapaz de ignorá-los, ele começa a agir em favor dessas mulheres — e, nesse movimento, acaba reanimando uma cidade quase morta. A decadência de Candeia é atribuída, pelos moradores, à “desgraça” simbólica de um santo incompleto, decapitado. A intervenção de Samuel reorganiza não apenas destinos individuais, mas o próprio imaginário coletivo da cidade.

O tom do livro oscila com inteligência entre o comovente e o hilariante. Há momentos de humor afiado, mas nunca gratuito. O fantástico aqui não serve como ornamento exótico, e sim como linguagem para falar de fé, desejo, abandono e esperança — sobretudo a esperança feminina, tantas vezes silenciada.

Muito se fala da aproximação do romance com o realismo fantástico latino-americano, e é verdade que Acioli estudou com Gabriel García Márquez. Ainda assim, o mérito do livro não está em qualquer filiação estética, mas na autonomia de sua escrita. A Cabeça do Santo não imita: inventa. É fruto de uma imaginação própria, profundamente enraizada no Nordeste brasileiro, capaz de transformar religiosidade popular, oralidade e crítica social em literatura de alta qualidade.

É um livro que parece simples — e talvez por isso seja tão poderoso. Porque sob a leveza da narrativa, o que se revela é uma reflexão delicada sobre fé, escuta e reparação. E, sobretudo, sobre o que acontece quando alguém decide levar a sério as vozes que o mundo costuma ignorar.

Há ainda um aspecto decisivo do romance que merece ser destacado: o modo como A Cabeça do Santo organiza sua narrativa a partir dos desejos femininos — desejos que, não por acaso, se dirigem a Santo Antônio, o santo casamenteiro. As vozes que Samuel escuta são, majoritariamente, vozes de mulheres. E o que elas pedem não é qualquer coisa: pedem casamento, pertencimento, reconhecimento social. Pedem um destino.

O livro expõe, com delicadeza e ironia, como o casamento aparece como horizonte quase obrigatório da vida feminina, especialmente em contextos marcados pela precariedade material e simbólica. Não se trata apenas de fé, mas de sobrevivência. Casar, aqui, é promessa de proteção, de saída da invisibilidade, de algum tipo de futuro possível. Ao transformar esses pedidos em murmúrios incessantes dentro da cabeça do santo, Acioli materializa o peso desse destino imposto — um destino que ecoa, insiste, cobra resposta.

É significativo que seja um homem, Samuel, quem escuta essas vozes e age em nome delas. O romance não ignora essa assimetria; ao contrário, torna-a parte da engrenagem narrativa. As mulheres falam, mas não são ouvidas diretamente pelo mundo. Precisam atravessar o santo, o milagre, o intermediário masculino. Nesse deslocamento, o livro sugere uma crítica sutil às estruturas que condicionam o desejo feminino à mediação alheia — seja religiosa, social ou patriarcal.

Assim, A Cabeça do Santo pode ser lido como uma fábula sobre fé e comunidade, mas também como uma reflexão sobre o modo como o destino das mulheres é historicamente reduzido a um único enredo possível. Ao dar corpo e voz a esses pedidos, Acioli não os ridiculariza; ela os expõe. E, ao fazê-lo, nos convida a escutar o que essas vozes dizem — e, talvez, a perguntar por que ainda dizem sempre a mesma coisa.


Socorro Acioli nasceu em Fortaleza no Ceará em 1975. É jornalista e escritora brasileira 



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

LIVRO: PECAR E PERDOAR Deus e o homem na história - LEANDRO KARNAL



Karnal, Leandro. 1ªed. HarperCollins Brasil, 2014
208 páginas

Karnal neste livro nos fala do pecado e do perdão e para tanto se utiliza dos sete pecados capitais fazendo uma análise laica em relação a vida e aos acontecimentos que ocorrem para todos nós. É muito interessante e válido. 

Ele começa nos falando sobre o perdão, quando muitos de nós ou penso que todos nós muitas vezes achamos que é fácil, que perdoamos, que ficamos bravos no momento, mas depois passa, porém Karnal fala de si próprio, de quando realmente se confrontou com uma situação onde era difícil perdoar. 

Um dos pontos que mais me chamou a atenção é a questão do orgulho, ao qual nenhum de nós escapa e que seria o maior pecado, o que está por trás de todos os outros. Ele nos conta a história de Santo Antão que o diabo faz de tudo para fazê-lo pecar, e após muitos anos de tentativas ele finalmente desiste, e ao sair da caverna onde estava o santo este diz: Deus, consegui!, e o diabo volta com um sorriso nos lábios, ele havia vencido, pois aí está o orgulho. Outro exemplo forte que Karnal nos dá é o de uma mãe que deixa de comer para dar ao filho, o que todos nós consideramos um ato de amor, sacrifício, mas no fundo, esta mãe se alimenta do orgulho de seu ato, há algo de egoísmo nisto. 

Para quem conhece Karnal e já assistiu os vídeos com ele, sabe como ele faz uso da palavra e sua forma de falar, e que se percebe também no livro, há pausas, há lucidez, há um choque muitas vezes. 

Um livro para pensar, analisar seus próprios atos e sentimentos em várias situações da vida. 

Leandro Karnal nasceu em 1963 em São Leopoldo, RS. É historiador e professor da Unicamp

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

LIVRO: O CLAMOR DE ANTÍGONA - Parentesco entre a vida e a morte - JUDITH BUTLER



Butler, Judith. Editora da UFSC, 2014
128 páginas
Tradução: André Cechinel

Através de um diálogo com Hegel e Lacan, referências as leis do parentesco de Lévi-Strauss, Butler recupera Antígona como personagem principal ao invés de Édipo questionando as regras impostas e o desejo.
Butler questiona a estrutura do parentesco que leva a família burguesa, a normatização de que família é um homem, uma mulher e filhos. Outra questão é do quanto o incesto é realmente proibido pela lei universal.
Concordo com ela sobre a questão de que família não é este núcleo normatizante, porém discordo de que a estrutura leva a isto, uma vez que inclusive nos estudos antropológicos há povos onde é o tio materno que ocupa a posição simbólica de pai, e a mulher tem vários homens, muitas vezes nem se sabe quem é o pai da criança.

O pai simbólico da psicanálise é um lugar, não é levado em conta aqui quem é, este no caso é o pai real, o biológico. Pensando sobre isto a estrutura se mantém, mesmo em casos de homossexuais, pois mesmo que a opção seja por um parceiro do mesmo sexo, na maioria das vezes não será seu irmão, irmã, pai ou mãe.

Sobre a questão da proibição ser universal, tenho minhas reservas também, não acredito que haja algo universal. Mas o que a antropologia e a psicanálise dizem com passagem da natureza para a cultura com a proibição do incesto é uma questão também de linguagem, de troca, ou seja, se uma cultura, um povo, se fecha em si mesmo, sem haver casamentos com pessoas de outros povos, outras culturas, a linguagem acaba morrendo, não se enriquece.

Um filme excelente para se pensar sobre esta questão é A Guerra do Fogo de Jeann-Jacques Annaud onde fica bem nítido a passagem da natureza para a cultura, quando o protagonista descobre o riso, o sexo frontal, o amor.

Agora a análise sobre Antígona e Creonte é brilhante, na questão das posições de ambos, da feminilidade e da masculinidade. E considero de extrema importância o avanço, a psicanálise até o momento tem atuado com sua teoria no mundo, mas ela precisa também se rever a si mesma. Ela é um sintoma da modernidade, mas o mundo, os tipos de famílias, a feminilidade, a masculinidade, tudo isto avança, e por mais que se considere a estrutura como um lugar onde se mudam apenas os componentes, ainda assim, há coisas a serem revistas e urgentemente.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

LIVRO: A TERAPEUTA - Um romance sobre a ansiedade - GASPAR HERNÁNDEZ


Hernández, Gaspar. 1ª ed.Casa da Palavra, 2014
208 páginas
Tradução: Marcelo Barbão
Título Original: La terapeuta


O livro é uma ficção sobre a ansiedade, principalmente a que se desencadeia após um stress pós-traumático. Uma forma mais leve e compreensível de abordar uma questão importante e que atualmente vem acometendo a muitos. Através da  história de Héctor, um ator de teatro, que assistiu a um assassinato e que procura a ajuda de uma psicóloga, Eugênia, vamos vendo o desenrolar da ansiedade, seus efeitos, como atua, o que causa. O trauma na verdade é apenas o gatilho de algo mais profundo, ou seja, a pessoa já tem questões anteriores, e quando ocorre algo mais grave, que causa um choque, a ansiedade dispara e aparece com todos seus sintomas. 

A história também fala da transferência e contratransferência de uma relação terapêutica, mas é algo bem superficial, não se aprofunda nisto e nem demonstra como isto faz parte da terapia e deve ser trabalhado, mas não é este o foco da história, mas sim, através de uma ficção trazer informações sobre a ansiedade, e para um início  cumpre seu papel de uma forma mais leve do que ler um livro científico, tornando assim mais acessível o tema. Mas não se trata de um livro que vai a fundo no assunto que é muito mais sério e duradouro do que nos mostra a história. 

Além disto é escrito de uma forma que aguça a curiosidade. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: A VIAGEM VERTICAL - ENRIQUE VILA-MATAS


Vila-Matas, Enrique.Cosac Naify, 2014
252 páginas
Tradução: Laura Janina Hosiasson
Título Original: El viaje vertical

País: Espanha 

Mayol vive em Barcelona e está acomodado em sua vida, acredita que fez tudo correto, enriqueceu com sua empresa de Seguros que agora é presidida pelo seu filho, deu uma vida boa a sua família, mas não consegue se entender com o filho mais novo e está furioso com ele por ter compreendido que ele o chamou de inculto. Sem saber Julían tocou no ponto mais sensível de Mayol, sua falta de cultura. Ele foi obrigado a abandonar os estudos por causa da guerra civil na Espanha e depois nunca mais retomou. 

Tudo teria continuado desta forma se não fosse a esposa de Mayol, Julia sem mais nem menos lhe dizer que está farta, que quer que ele vá embora porque ela precisa ficar sozinha e ter tempo para si mesma e descobrir quem ela é, depois de tantos anos se dedicando e fazendo as vontades de todos. Mayol não compreende, mas Julia está de certa forma dando uma dica para Mayol, sempre é tempo de se ir em busca de seu desejo, de descobrir quem somos. Julia, como o marido, considera que cumpriu sua missão e agora quer um tempo para si mesma que nunca pode ter antes.

Mayol sem compreender nada do que sua esposa Julia deseja acaba indo embora. Começa o que ele vai chamar de viagem vertical para o sul. Primeiro Porto, depois Lisboa até que ele chega a Ilha Madeira. É uma viagem para o fundo, de descobrimento de si mesmo. É um recomeço onde ele poderá finalmente enfrentar seu trauma e buscar o que deseja. Sempre é possível, a derrota às vezes é apenas a forma de sacudir uma pessoa para que ela saia de seu conformismo e autopiedade para fazer algo por si mesma.

É como os romances de formação só que aqui o personagem já tem mais de setenta anos, mostrando que enquanto se está vivo é possível ir em busca de si mesmo e do que se deseja.


Enrique Vila-Matas nasceu em 1948 em Barcelona, Espanha

sexta-feira, 24 de abril de 2015

LIVRO: JUDAS - AMÓS OZ



Oz, Amós. 1ª ed. Companhia das Letras, 2014
362 páginas
Tradução: Paulo Geiger
Título Original: Habssorá al pi Iehudá Ish Keraiot

Shmuel Ash é um jovem israelense que vive em Jerusalém e está fazendo uma pós graduação cujo tema é Jesus na visão dos judeus e quem foi Judas. Mas de repente tudo muda, sua namorada o deixa para se casar com outro e seu pai após perder uma causa no tribunal lhe avisa que está falido e não pode mais sustentá-lo o que requer que ele vá trabalhar para pagar os estudos, a moradia e a alimentação como fez sua irmã na Itália que arrumou dois empregos para fazer o mesmo. Porém Shmuel desiste dos estudos e pensa em ir viver em outro local, mas ele vê um pequeno anúncio sobre um senhor inválido que procura alguém para conversar e oferece um modesto salário com moradia. 

Shmuel se candidata e consegue o trabalho, passa então a viver numa casa num bairro afastado numa água furtada. Na casa além do velho Gershom Wald,  vive Atalia cujo pai Shaltiel Abravanel foi um militante expulso do movimento sionista por ser contra a transformação de Israel num Estado independente e considerado um traidor por ser amigo de árabes. 

A questão que o livro nos traz entre discussões filosóficas e históricas é a do traidor, não o traidor por dinheiro, mas aquele que é considerado um traidor pelos outros por não ter sido compreendido, por ter ideias diferentes do outro, inclusive avançadas demais às vezes para uma determinada época. Judas era rico, não precisava se vender por tão pouco, então porque o teria feito? se não foi pelo dinheiro? e se realmente o vendeu porque se enforcou? e porque teria que entregar Jesus se este não se escondia?  Amós Oz levanta outra hipótese enquanto paralelamente nos conta a história de Abravanel. Ele nos mostra um Judas como o único que realmente acreditou em Jesus e o viu como o filho de Deus, e ele tinha certeza de que ele desceria da cruz mostrando a todos quem ele era de fato. Judas foi o primeiro cristão e talvez o único. É polêmico principalmente para os católicos, uma vez que a hipótese de que Judas não traiu  leva a conclusão que Jesus não era capaz de milagres e que era apenas mais um dos inúmeros profetas que vagavam pela Palestina na época. Por outro lado falar de Abravanel também é polêmico entre os israelenses. Ele queria que os judeus e os árabes convivessem em paz na mesma terra, a terra que já era e não criar um novo Estado, que era óbvio que isto só traria a guerra o que de fato ocorreu. 

Para Amós a figura de Judas é simbólica no antissemitismo contra os judeus. E tocar na questão de Abravanel é uma maneira de dizer que a questão Israel-Palestina poderia ter sido resolvida de outra forma se houvesse mais "traidores" corajosos o suficiente para fazer diferente do que todos pensam. 

Na casa, durante o inverno, cada um dos moradores, com todas as suas diferenças e mágoas, acabam se aproximando e rompem a muralha que criaram em torno de si mesmos passando a gostar um pouco do outro. Wald perdeu seu único filho na guerra pela independência, numa morte atroz. Ele era casado com Atalia que é amargurada e considera os homens idiotas por pensarem da maneira que o fazem. E Shmuel é um solitário que deseja muito um tempo para si mesmo, para escrever, mas que acaba se apaixonando por Atalia. 

O livro é uma espécie de catarse do autor devido suas posições contrárias as da maioria muitas vezes também considerado um traidor. Amós Oz deseja o Estado de Israel dividido entre judeus e árabes. Ambos são desta terra, ela é de ambos e nenhum tem outro lugar para ir. Mas a questão do traidor acompanha Amós desde a juventude quando ele também foi chamado assim por ter feito amizade com um sargento britânico. 

Um livro para refletir sobre as condições do mundo e também sobre o que é realmente um traidor. Vale a leitura. 

Amós Oz nasceu em 1939 em Jerusalém. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

LIVRO: NO CINEMA COM LACAN - o que os filmes nos ensinam sobre os conceitos e a topologia Lacaniana - STELLA JIMENEZ


Jimenez, Stella e colaboradores. 1ª ed. Ponteio, 2014
240 páginas

Um livro muito interessante para os que se interessam pela psicanálise e pelo cinema. A psicanalista Stella Jimenez com a colaboração de outros profissionais analisam vários filmes e na segunda parte do livro encontramos a fundamentação teórica. 

Os filmes analisados são:

- A pele que habito de Pedro Almodóvar. Este filme já postei aqui no blog. Um filme que tem muitas questões, mas a principal é a identidade sexual.

- Medianeras - Buenos Aires na era do amor virtual de Gustavo Taretto. Também já postei no blog. Fala do amor no mundo atual.

- Time - o amor contra a passagem do tempo de Kim Ki-Duk. Pretendo assistir. Fala sobre a mulher, o tempo e a devastação.

- A primeira coisa bela de Paolo Virzi - A questão da mãe

- Vincere de Marco Bellochio - o amor louco

- A história de Adèle H. de François Truffaut - Também postado aqui no blog. Fala da erotomania e do amor patológico.

- O homem do lado de Gastón Duprat e Mariano Cohn

- Gattaca de Andrew Niccol sobre as impossibilidades da ciência

- Drácula de Bram Stoker de Francis Ford Coppola

- A viagem do Capitão Tornado de Ettore Scola - sobre o fracasso

- Nome de família de Mira Nair sobre a nomeação

- Habemus papam? de Nanni Moretti - também já postado. Fala da derrocada do semblante da impostura à loucura

O cinema é uma das vias privilegiadas da psicanálise. É onde o diretor(a) pode projetar ou dizer algo, mas também o espectador se vê ali, sente em si mesmo a angústia, se encontra, e principalmente muitas vezes encontra as palavras que lhe faltam. É uma das vias da compreensão para o que muitas vezes não conseguimos falar. Também permite vermos e percebermos na tela situações com as quais temos dificuldades de lidar. 

Stella Jimenez é formada em Medicina pela Universidade Nacional de Buenos Aires e fez Mestrado em Psicanálise na UFRJ.

terça-feira, 14 de abril de 2015

LIVRO: DA MINHA TERRA À TERRA - SEBASTIÃO SALGADO



Salgado, Sebastião; Francq, Isabelle. 1ª. Paralela, 2014
152 páginas
Tradução: Julia da Rosa Simões
Título Original: De ma terre à la terre

Depois que vi a exposição "Genesis" no MON em Curitiba estou fascinada pelo trabalho de Sebastião Salgado. Assisti ao documentário O Sal da Terra e agora terminei de ler o livro Da minha terra à terra onde ele nos conta sua história pessoal e o que significa fotografar para ele. Vai além, fala sobre o que aprendeu com este trabalho para sua vida, para sua maneira de ver o mundo. 

Comecei a leitura ontem e não consegui largar até finalizar o livro. Fui envolvida e desejei que o livro continuasse. O que dizer de uma pessoa que percorreu mais de 120 países, viu coisas atrozes, tristes, dilacerantes a ponto de adoecer fisicamente e psiquicamente, que aprendeu a arte da paciência necessária para poder fotografar e que fotografou o que sentia mantendo sempre a dignidade do outro, mesmo nas piores situações? O que Sebastião nos transmite é uma lição de vida, de viver, sem fechar os olhos ao que pior o ser humano tem, suas misérias, sua crueldade, sua ganância, mas também nos levando aos mais belos lugares deste planeta, onde o homem ainda vive em harmonia com a natureza, com os animais. Ele nos ensina a poder viver neste lado do planeta mais bonito, sem fechar ignorar o outro lado, uma vez que somos responsáveis por tudo que ocorre neste mundo, de maneira direta ou indireta, pois quando compramos produtos fabricados por crianças, por escravos, ou produzidos através da destruição da natureza, estamos colaborando com a tristeza do mundo. 

Suas fotos são um despertar, uma conscientização, não são tiradas para produzir pena ou compaixão e com isto apaziguar a consciência de Salgado ou para dar lições. Para ele as fotos são sua vida, são subjetivas, captam o que ele está vivendo e sentindo. 

Ele constata que os migrantes, mesmo tendo que deixar suas terras por causa da pobreza, buscam algo de melhor, acreditam que irão ter uma vida melhor e por isto inventam uma nova vida longe de sua terra natal, já os refugiados não fazem isto, eles foram obrigados a deixar suas terras pelo medo, para fugir das atrocidades, da morte, e não tem o desejo de uma vida melhor, querem apenas sobreviver quando o conseguem. Os relatos de Salgado sobre os Balcãs e Ruanda são fortes, e ainda ficam muito longe do que ele viveu ali, por mais que as fotos retratem isto como um espelho. 

Há uma tendência a pensar que o Holocausto foi o maior genocídio e que isto não se repetirá, mas ou estamos cegos ou não queremos ver. O genocídio que ocorreu na África e nos Balcãs é atroz, cruel, o pior lado do ser humano. 

Lendo Salgado, vendo o documentário, olhando suas fotos o que vejo é que estou diante da humanidade com o que ela tem de pior e com o que ela tem de melhor. 

Sebastião Salgado 









segunda-feira, 6 de abril de 2015

LIVRO: O SINTOMA Variações Freudianas 1 - ANTONIO QUINET



Quinet, Antonio. Giostri, 2014
58 páginas

Quinet apresenta em forma de teatro o sintoma que se manifesta no corpo, nos atos, como uma forma de falar da verdade do sujeito. Temos a histérica interpretada por uma estudante de psicologia na época (Aline Deluna), e o homem dos ratos analisado por Freud como o sintoma obsessivo. Quinet participa ele mesmo da peça no papel tanto da peça como o é na vida real, de psicanalista

"O sintoma é uma realização de um desejo. Se ele faz sofrer é porque realiza um desejo conflituoso, do qual você não quer nem saber." O sintoma é de nossa própria autoria, e dele somos os atores, mas a pergunta é: quem é seu espectador? e para quem você fez seu sintoma? A impossibilidade da relação sexual faz do sintoma o parceiro sexual do sujeito. 

Não se deve calar o sintoma e sim fazê-lo falar para se aproximar da verdade do sujeito. Como uma crítica aos que receitam remédios para calá-lo o autor nos diz: Persistindo o médico, consulte o sintoma!

O livro é o roteiro da peça de teatro. 



Antonio Quinet é psicanalista, psiquiatra e doutor em filosofia pela Universidade de Paris VIII

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

LIVRO: A BALADA DE ADAM HENRY - IAN McEWAN


McEwan, Ian. 1ª. Companhia das Letras, 2014
196 páginas
Tradução: Jorio Dauster
Título Original: The Children Act

Ian McEwan trabalha com profundo conhecimento da alma humana naquilo que mais escondemos de nós mesmos ou não queremos ver. Este é o terceiro livro que leio dele e também assisti a dois filmes baseados em seus romances: Desejo e Reparação e Amor sem fim

Desta vez é o universo feminino e o amor. A que ponto uma mulher madura, com sessenta anos, profissional bem sucedida de repente se perde no torvelinho das emoções quando seu marido Jack lhe diz que deseja viver, e que talvez seja sua última chance, pretendendo ter um caso com uma mulher mais jovem, mas ainda assim afirmando que a amava. 

Fiona é juíza na vara de família e com isto se defronta diariamente com questões como divórcios, guarda de filhos, ou seja, tudo aquilo que um dia foi só promessas de pura felicidade e que se destrói, desmancha, transformando-se em disputas judiciais pelo dinheiro e pela guarda dos filhos, isto quando estes não são o joguete dos interesses e vinganças dos pais. 

Agora de repente ela se vê frente a uma situação de crise em seu casamento. O choque foi tal que ela não consegue pensar, acaba tendo atitudes que vê as mulheres terem e que normalmente condenaria como imaturas, mas quando a emoção está a tona somos capazes de muitos atos que jamais faríamos. 

Entrega-se totalmente ao trabalho, mas não consegue afastar de si o que se passa em sua vida pessoal. Pensa muito no fato de não ter tidos filhos. Relembra sua vida de casada, sua juventude e seus planos. No meio desta crise ela tem que julgar um caso de um rapaz prestes a completar 18 anos, testemunha de Jeová, cujos pais se recusam a dar autorização para uma transfusão de sangue o que salvaria sua vida. O rapaz, Adam, também concorda com os pais. Fiona então resolve visitar o rapaz no hospital antes de se pronunciar e tomar uma decisão. 

McEwan elabora bem o que é um jovem e como ele pensa e se sente, o que realmente busca e deseja com suas atitudes e toda a fragilidade e carência da juventude. Por outro lado Fiona se deixa levar sem um controle sobre sua posição na situação. Talvez por pensar que poderia ser seu filho, talvez por se sentir não desejada e buscar isto, por suas faltas e carências, por sua crise pessoal. 

Jack, o marido de Fiona também é surpreendente quando deseja a aprovação e conivência de Fiona para seu caso com outra mulher. Ao invés de fazer isto as escondidas ele precisa que ela saiba e o aprove, o que demonstra também uma imaturidade, um lado infantil, o homem que ainda busca sua mãe. Ao invés de enfrentar a questão de frente com sua mulher sobre sua insatisfação sexual ele opta por uma saída que às vezes parece uma ameaça, o que Fiona pressente. Ela se sente pressionada. 

A modernidade pode trazer opções variadas do viver a dois, mas por mais que se deseje uma vida livre, isto não funciona no amor, vejam os casos de Simone de Beauvoir e Sartre, Frida e Diego, resultou em dores, ciúmes, sofrimento não só para eles como para outros. 

Um livro para refletir sobre o amor, a família, filhos e também sobre os efeitos de uma religião que se fecha numa comunidade sem abrir horizontes diferentes para os jovens que vivendo no mundo atual podem acabar se perdendo dentro de tudo isto. Adam esperou o apoio de Fiona para sua decisão, ele não tinha maturidade suficiente para sustentar o que escolheu. Ela não conseguiu ocupar um lugar de mãe substituta, e nem mesmo de uma amiga mais velha que pudesse ajudar. 

No fundo o que vemos são jovens e adultos sem saber direito o que fazem, quase que perdidos e sem orientação. Adam ainda procura ajuda em Fiona,  mas ela se recusa a falar com alguém sobre a crise no seu casamento, e Jack, bom não se fala dele sobre isto, mas parece que também não o fez. Talvez por isto o título original seja mais apropriado ao livro, não apenas para pensar na lei e na justiça em relação às crianças, mas sobre nossos atos infantis onde não conseguimos nos distanciar e tomar decisões ou fazer escolhas mais elaboradas, nos deixando levar pela emoção, pelas faltas, e pela culpa. 


Ian McEwan 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

LIVRO: A FESTA DA INSIGNIFICÂNCIA - MILAN KUNDERA



Kundera, Milan. 1ª ed. Companhia das Letras, 2014
134 páginas
Tradução: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca
Título Original: La Fête de l'insignifiance

Projeto um livro por país.
País: República Tcheca


Cinco amigos que vivem em Paris em seu cotidiano nos mostram o quanto a vida é insignificante, onde tudo se repete e não há mais individualidade. Alain chega a esta conclusão ao se dar conta que o erotismo se transferiu das coxas, bundas e seios para o umbigo que agora todas mostram, mas o que há de erótico em um umbigo? É possível distinguir uma mulher amada ou desejada pelas suas pernas, bunda ou seios, mas pelo umbigo? são todos iguais.

Charles e Calibã se divertem no trabalho organizando coquetéis onde Calibã finge ser um paquistanês. Para isto inventam uma língua, só que ninguém repara, ninguém se interessa, é um ator sem público. Ramon está interessado em uma mulher nesta festa, mas ela vai embora, e justo com quem? com o mais silencioso e apagado da festa, que parece que com seu silêncio chamou mais a atenção. Além disto ele deseja ver a exposição de Chagall, mas desiste toda vez por causa da fila. Fica irritado com isto e comenta com Alain que desde quando todos eles se interessam por Chagall? ou estariam simplesmente matando tempo devido ao tédio?

D'Ardelo acaba de receber a maravilhosa notícia de que não está com câncer, mas ao encontrar Ramon sem saber porque mente e diz que está doente. Talvez uma forma de dar alguma sentido à sua existência? Como Alain que sempre imagina como seria seus diálogos com sua mãe que o abandonou na infância e na única vez que se encontraram fixou seu olhar em seu umbigo. Um umbigo sem mãe, sem ter a quem se atar, mas que mesmo assim vai permanecer sem o corte.

Paralelamente vemos um teatro, onde Stálin se diverte apavorando seus companheiros. Ele sabe que os domina e que jamais emitiram sua própria opinião, exceto o mais tolo de todos, Kalinin que sofre de problemas de contenção de urina e precisa ir ao banheiro a todo instante,o que acaba gerando ternura em Stálin que o homenageia mudando no nome da cidade de Kant para Kaliningrado. Stálin debocha do medo  de todos que os leva a serem submissos à ele e talvez por isto goste de Kalinin que suporta até onde pode sua vontade de urinar até que molha as calças ali mesmo atendendo á sua necessidade.

Há um pequeno capítulo sobre a culpa e o eterno pedido de desculpas que vale a pena ser lido.

Um livro curto mas que diz muito. O desencanto da vida, a futilidade que reina, a insignificância de cada um de nós. O livro é um alerta. Realmente vivemos num mundo onde a futilidade, o consumismo, a mesmice é visível, porém acredito na capacidade de cada um de construir um sentido para sua vida, mesmo que seja através de um teatro, porque no fundo, a vida é um teatro, um romance de ficção que nós mesmos escrevemos.

Milan Kundera nasceu em 1929 em Brno, República Tcheca. Vive atualmente em Paris e se naturalizou francês. 

domingo, 19 de outubro de 2014

LIVRO: NIETZSCHE NA ITÁLIA - A viagem que mudou os rumos da Filosofia - PAOLO D'IORIO



D'Iorio, Paolo. 1ª ed. Zahar, 2014.
214 páginas
Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo
Título Original: Le voyage de Nietzsche à Sorrente (Genèse de la philosophie de l'esprit libre)

No outono de 1876 Nietzsche parte para o Sul, na Itália, para passar um ano sabático à convite de sua amiga Malwida von Meysenburg acompanhado de seu amigo Paul Rée com quem rompera mais tarde por causa de Lou-Andreas Salomé. Outro amigo se junta a eles, Albert Brenner.

Esta viagem será o divisor de águas entre o que Nietzsche havia dito antes e o que passa então a pensar e escrever em seus livros, após o rompimento com Richard Wagner devido seu cristianismo. É o Nietzsche mais verdadeiro que aparece e o que ele realmente pensa e sente. Ele abandona a ideia wagneriana de renovar a cultura alemã que defendeu em "O nascimento da Tragédia".

Será em Sorrento que ele irá começar a escrever "Humano, demasiado humano" adotando a partir daí o aforismo como estilo de escrita. Nesta temporada também surgirá seus esboços para "Assim falava Zaratrusta" que é repleto de referências às experiências vividas e também aos lugares que mais impressionaram Nietzsche.

O livro é um relato desta viagem, mas também uma apresentação acessível da filosofia de Nietzsche e de como suas ideias amadureceram. Muitos dos que admiravam sua filosofia anterior romperam com ele, exceto sua amiga Malwida, que manteve intacta sua esperança que isto seria uma fase passageira e que ele retornaria a sua antiga filosofia, não se dando conta que foi justamente esta outra fase que foi uma passagem para a filosofia definitiva de Nietzsche.

Há passagens extremamente interessantes e explicativas, como a da Epifania que muito me interessou e também sobre os sinos.

Para quem gosta de filosofia recomendo, mas não deixa ser um relato também da visão do filósofo sobre o sul, ele que vivia no norte frio.

Paolo D'Iorio nasceu em 1963 em Seravezza, Itália. Formou-se em filosofia na Universidade de Pisa. Atualmente leciona na École Normale Supérieure de Paris e dirige o Institut des textes et manuscrits modernes em Paris. É especialista em Nietzsche

terça-feira, 14 de outubro de 2014

LIVRO: A ORIGEM DO MUNDO - JORGE EDWARDS


Edwards, Jorge. Cosac Naify, 2014
158 páginas
Tradução: José Rubens Siqueira
Título original: El origen del mundo

Primeiro livro do meu projeto livros por país

País: Chile

Gustave Courbet pintou em 1866 o quadro "A origem do mundo", uma mulher com o rosto velado, de pernas abertas com sua vulva aparecendo. O quadro foi encomendado por um bei da Turquia. Pertenceu a Jacques Lacan, o psicanalista francês, e depois foi exposto no Musée D'Orsay em Paris.

A história começa quando o médico setentão Patrício Illanes e sua mulher Silvia, ambos exilados do Chile, vão à esta exposição e diante do quadro Patrício, ou Patito, como era seu apelido chileno, pensa que o mesmo parece muito com sua mulher. Na sequência dos acontecimentos temos o suicídio de Felipe Díaz, outro exilado, mas não sem antes haver um encontro entre este e Patito num café onde Felipe lhe fala de uma mulher filósofa, mexicana-japonesa, e de que acabou trocando um garrafa por uma mulher. Felipe bebia muito. Quando Silvia vê Felipe morto tem uma reação histérica que surpreende Patito e parece lhe confirmar suas suspeitas de que ambos eram amantes. A partir daí temos o relato neurótico de Patito em busca das provas desta traição.

É um retrato belo e cru do que o ciúme é capaz de fazer. Até que ponto chega a imaginação e o que passa a acreditar alguém que está submerso no ciúme, na paixão, na dúvida. Nada fara com que ele deixe de pensar que tem razão. Vai buscar as provas de forma patética, ridícula até, perguntando a todos que conheceram Felipe e pedindo que sejam generosos e lhe contem a verdade, pois somente assim poderá se curar do que tem consciência ser uma doença. Mas de nada adianta todos dizerem que isto é um total absurdo, que nunca viram ou ouviram nada, pois na mente delirante de Patito, eles estão com pena dele, ou querem poupá-lo, ou protegem, ou acham melhor mentir para preservar o casamento dele com Silvia.

Mas esta história vai muito além do ciúme, é uma história sobre a velhice, como o personagem de Memória de minhas putas tristes de Gabriel García Marquéz, que ao completar noventa anos deseja uma virgem, pois o sexo e a paixão fazem viver.

Quando Patito vê o quadro algo deve ter despertado dentro dele sem que o mesmo tivesse consciência disto. Sua vida sexual já não era como quando era jovem, e no seu entender, por ouvir tantas histórias de Felipe sobre mulheres, talvez pensasse que este devia ter uma vida sexual gloriosa, e que justamente chegava ao fim, quando escolhe a garrafa ao invés da mulher. Mas isto não descarta que antes disto teria sido amante de Silvia. E a imaginação é cruel neste momento, fazendo-o imaginar os dois juntos, o que o exasperava mais ainda.

Ao final de sua patética busca ele se volta para Silvia e lhe pergunta. Esta é de uma sensibilidade espantosa, pois acaba por compreender o que se passa. E lhe diz que sim, que foi amante de Felipe e lhe conta detalhes, o que desperta a sexualidade de Patito levando-o a ter uma relação sexual com ela que havia muito tempo não tinham.

A fantasia inconsciente, o desejo, a paixão, o sexo e o erotismo, a fantasmagoria, tudo isto está neste livro e descrito de uma maneira esplêndida. O quadro A origem do mundo também pode ser interpretado como de onde nascemos, de onde viemos, e a velhice é o fim, e não é um retorno ao paraíso, mas é o nada, o vazio, o não conhecido que assusta. Somente com a ficção ou a fantasia, ou a imaginação, se pode lidar com a morte, e a velhice é o momento onde isto vai surgir fortemente, este medo da morte e a consciência que estamos muito longe desta origem. Patito prefere a ilusão do que a morte, prefere o amor-paixão que reaviva o desejo, e o que mais é a vida do que o desejo? ele nos movimenta. Quando o desejo cessa, estamos mortos.

Felipe Díaz não suportou e preferiu morrer, Patito optou pela vida, mesmo que sofrendo, mas quem sofre está vivo. Ambos sofreram a frustração de seus ideais políticos, ambos tiveram que sair de seu país e se exilarem, e sabiam que mesmo depois de tudo ter passado, não seria mais possível voltar ao seu país, não se identificariam mais com este lugar que ficou no passado. Se esta origem não lhes permitia viver, então porque não a origem da vida? o sexo e todo seu lado erótico.

Na velhice o erótico já não é como antes, e para não cair num sexo carne, animal, a fantasia e a ficção vem para sanar isto. Não é mais o belo corpo, mas a fantasia.

Recomendo a leitura

Jorge Edwards nasceu em 1931 em Santiago, Chile.