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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DESEJO, INCONFORMISMO E O CASTIGO DA TRANSGRESSÃO

 


MADAME BOVARY

GUSTAVE FLAUBERT

NOVA ALEXANDRIA – 3ª ED. - 2007

432 páginas 

Madame Bovary é um romance que provoca leituras contraditórias — e talvez por isso continue tão atual. O que mais me chamou a atenção foi a figura de uma mulher que não se conforma com a vida que lhe foi destinada. Emma Bovary recusa a mediocridade do casamento, a monotonia do cotidiano, o horizonte estreito da pequena cidade. Ela quer mais — e quer intensamente.

Emma não é uma mulher acomodada. Ao contrário: ela age, deseja, se arrisca. Busca no amor, no consumo, na fantasia romântica e nas relações extraconjugais uma saída para uma existência que lhe parece sufocante. Sua insatisfação não é passiva; ela tenta, erra, insiste. Nesse sentido, Emma é profundamente moderna: uma mulher que se recusa a aceitar o destino como algo natural.

Mas Flaubert não permite que essa recusa permaneça sem punição. O romance inteiro parece caminhar para o castigo da personagem — um castigo moral, social e físico. Emma paga caro por desejar demais, por sair do lugar, por não aceitar o papel que lhe foi reservado. A narrativa, fria e precisa, observa sua queda quase como um experimento: o que acontece quando uma mulher quer mais do que lhe é permitido?

Essa ambiguidade é central. Emma é ao mesmo tempo vítima e agente. Ela sofre sob as restrições impostas às mulheres de seu tempo, mas também se ilude, se engana, consome sem medida, projeta na fantasia literária uma saída que a realidade não oferece. Flaubert parece oscilar entre a crítica à sociedade provinciana e a necessidade de punir sua personagem por transgredir suas normas.

Talvez seja justamente aí que Madame Bovary se torne tão potente. O romance não oferece conforto. Ele expõe o impasse feminino do século XIX: entre a submissão silenciosa e a transgressão castigada. Emma escolhe transgredir, e por isso paga com a própria vida.

Reler Madame Bovary hoje é perceber que a pergunta que o livro deixa em aberto permanece atual: Até que ponto o desejo feminino pode existir sem ser patologizado, ridicularizado ou punido? Emma incomoda porque ela não se arrepende de desejar. E talvez esse seja seu maior crime.

Gustave Flaubert nasceu em Rouen, França, em 1821 e faleceu na mesma cidade em 1880. Foi um escritor francês. 




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Entre o corpo ferido e a imaginação como refúgio

 


A DISSOCIAÇÃO

NADIA YALA KISUKIDI

Bazar do Tempo – 1ª ed. 2024.

288 páginas 

Nadia Yala Kisukidi é a autora deste livro, A dissociação. Trata-se de uma obra instigante, que propõe um deslocamento em relação às formas mais habituais de abordar temas como racismo, pobreza, marginalização, periferias urbanas, preconceito, mas também sonhos e desejos.

A narrativa acompanha uma jovem negra, pobre e anã — cujo nome nunca sabemos — que vive com a avó na periferia da cidade industrial de Villeneuve d’Ascq, no norte da França. Quando atinge os dez anos de idade, seu corpo para de crescer, levando a avó a tentar de tudo para que ela volte a crescer. Em vão.

Podemos imaginar, mesmo antes da leitura, as violências que essa jovem sofre em uma sociedade europeia marcada pelo racismo e pelo preconceito. Para suportar a dor, ela desenvolve a capacidade de dissociar a mente do corpo. Essa dissociação lhe confere poder: permite que viaje por diferentes lugares, encontre outras pessoas que, como ela, também sofrem, e parta em busca de um lugar seguro. Ao mesmo tempo, ela escreve essa diáspora — suas experiências, seus encontros — no que chama de O Manual.

O corpo sofre a violência da xenofobia europeia, mas a mente se expande. Ela se dissocia por meio de mitos africanos — herança de um pai que nunca conheceu —, de fábulas e de um realismo mágico que atravessa toda a narrativa.

Filosofia da transcendência da matéria, crítica social e imaginação compõem o livro. E, mesmo em meio a tantas dores, encontramos a utopia: a busca por um lugar no mundo, o reconhecimento e o pertencimento.

Acompanhei o trajeto dessa aventura e, pouco a pouco, percebi onde o livro terminaria. E foi exatamente ali que ele chegou.


Nadia Yala Kisukidi nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1978. É filósofa, escritora e acadêmica na França. 


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: O MAPA E O TERRITÓRIO - MICHEL HOUELLEBECQ


Houellebecq, Michel. Record, 2012
399 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: La carte et le territoire

Este é o segundo livro que leio de Houellebecq e noto que há pontos que se repetem em relação ao outro - Submissão - já postado aqui no Blog.

Primeiramente o protagonista, um homem solteiro, que mora sozinho e que tem  dificuldades de se relacionar com o outro. O distanciamento dos pais, ser inapto para o amor, a sexualidade, e um mundo moderno com suas supostas vantagens que acabam sempre não o sendo, o solitário, o isolamento. Outra característica é que o autor costuma colocar como personagens pessoas públicas e que ainda vivem, mas em forma de ficção, nem sempre correspondendo à realidade, e neste livro ele coloca a si próprio, o escritor Michel Houellebecq é um dos personagens. 

Neste livro ao invés de François, um professor, temos Jean Martin, um artista plástico, que mora sozinho em Paris e tem seu pai já com certa idade que ainda mora na antiga casa da família. Após se aposentar, era um grande arquiteto, resolveu ir morar numa casa de idosos e finalmente optou pelo suicídio assistido que é permitido na Suíça. 

Jean tem vários momentos em sua arte, a fotografia, a pintura à óleo, mas o que nunca imaginou é que um dia seria famoso e que suas telas valeriam fortunas. Tem uma relação amorosa com Olga, uma russa que está na França e que depois retorna ao seu país, ela o ama, porém ele em momento algum tem um gesto para retê-la ou pensar em ir com ela. Simplesmente deixa acabar. 

É um retrato da modernidade, do vazio, da melancolia, onde as relações perdem seu verdadeiro sentido e são apenas vividas no momento sem criar laços. O mundo da arte, as frivolidades, o dinheiro. Um dos principais pontos de Houellebecq em seus livros é o mercado de consumo e neste livro vamos encontrar várias passagens onde diante de algo vital para a existência se dilui em pensamentos fúteis, em análises sem profundidade. 

O que marca no livro é perceber que Jean se torna um artista famoso e vale muito dinheiro, porém, será arte mesmo o que ele faz? ou será o merchandising que o tornou famoso? E ele ao invés de se pavonear com isto e viver a fama se isola cada vez mais. Não posso deixar de pensar que quando um artista dá seu suor e cria uma obra ele não pode ficar indiferente, há algo de produzido neste boom pelas obras de Jean e que não foi ele quem fez isto. 

Apesar de ser este o livro que ganhou o Prêmio Goncourt, eu prefiro Submissão, que veio depois, onde a realidade do mundo moderno se apresenta com questões muito atuais, sendo que este O Mapa e o território, conta uma história que nos mostra o retrospectivo, a diferença que podemos imaginar entre o que foi e o que é. Entre o antes do mundo do consumo e o de hoje. 

Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: SUBMISSÃO - MICHEL HOUELLEBECQ



Houellebecq, Michel. 1ª ed. Objetiva, 2015
251 páginas
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
Título Original: Soumission

É realmente um livro que nos coloca num processo reflexivo intenso. Procurei ler o livro sem me deixar levar pelos conceitos ocidentais evitando desta forma considerar a história um tanto machista, o que seria simplista demais. 

Estamos na França em 2022. François é um professor universitário, leciona na Paris III - Sorbone. Leva uma vida sem grandes acontecimentos. Solteiro, sua namorada o deixou, aliás, ele nos fala que é um ciclo repetitivo e que a cada início de ano letivo isto acontece. Não consegue manter laços afetivos, não tem contato com seus pais que são divorciados e vivem em lugares diferentes. Não consegue manter um relacionamento amoroso. Envolve-se com estudantes ou então procura por prostitutas. Nunca viaja nas férias e não tem amigos, apenas conhecidos.Às vezes pensa em suicídio. 

É época de eleições e quem vence é Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana. É conciliador porém aos poucos as mudanças vão se impondo. A educação é uma das mais atingidas, entrando a educação islâmica em vigor. As mulheres não podem mais trabalhar, tem que usar o véu, e todas as professoras, mestres da Universidade tem que se retirar. Diante de uma sociedade que é considerada amoral o que se busca é a recuperação da moralidade, da família. 

François é convidado ou a se converter e ser um professor muçulmano ou a se aposentar. Ele opta pela segunda opção. Tem dinheiro suficiente para ter uma vida boa, mas não sabe o que fazer de sua vida. Considera que sua vida intelectual terminou no dia em que apresentou sua tese. Sua vida de professor acabou, a ex-"namorada" por ser judia foi embora para Israel com sua família. 

O livro é uma crítica mordaz a atual sociedade e seus valores, mas é também um imenso alerta, uma sacudida, um impacto. 

A situação de François é bem conhecida no mundo atual, a falta de sentido, o vazio, a solidão, a falta de laços afetivos, a fuga pelo sexo, comidas, bebidas. Quando recebe uma nova proposta para retornar à faculdade ele balança e terá que tomar uma decisão entre esta vida que leva ou uma nova opção.

Mas o livro é ainda mais profundo. Apesar de ter por protagonista um homem que dentro da sociedade muçulmana pode ter algumas escolhas, o livro não deixa de fazer uma crítica também à mulher quando diz que nesta sociedade islâmica a mulher pode permanecer na infância, ao se ver duas mulheres com véu olhando revistas de moda e rindo como crianças. Também a analogia entre a mulher ocidental que se levanta de manhã, se arruma toda, se veste bem e sai para o trabalho e quando chega a noite ela retorna ao lar cansada, coloca uma roupa confortável e tem vontade de se deitar no sofá, enquanto que a muçulmana passa o dia sob um véu, mas a noite se arruma toda para seu marido. Sim, realmente é uma analogia possível, mas sinceramente, um tanto machista, uma vez que visa apenas ao prazer do homem, do nosso protagonista François. Mas a verdadeira crítica estaria na futilidade do consumo, e por outro lado na competição que existe no ocidente entre homens e mulheres, mas mais ainda, entre as mulheres.

Ao final o que se percebe é realmente a submissão, e aqui não é apenas da mulher, mas do homem também. E fica a pergunta se no fundo não desejamos isto.

O que realmente se traz a tona neste livro não é o islamismo, este conhecido por sua forma de considerar a mulher e sua moral, mas o vazio de François que é o de muitos no mundo atual e que o levaria a submissão para ter uma vida melhor por falta de desejo e falta de vontade de se mover e fazer algo. É mais fácil receber tudo.

A questão maior do livro é justamente a modernidade e a vida de François. Ele não consegue criar laços afetivos, as cenas de sexo são cruas, e sem amor, visando unicamente ao prazer dele. A visão que ele tem da mulher é mais misógina ainda, que pensa numa mulher para a cama e outra para a cozinha, na poligamia, o que resolve os problemas de satisfação dele, mas em momento algum ele se preocupa com o outro. Aliás a humanidade não lhe interessa. A crítica é ao individualismo da sociedade ocidental que leva o sujeito de desejar um objeto a se transformar em objeto pela submissão, como uma única saída para todo seu desespero e vazio existencial. E realmente estamos diante do mundo atual onde as pessoas cada vez se afastam mais das outras e pensam apenas no prazer e na felicidade, no sucesso, mas não querem ter que fazer os investimentos necessários na manutenção de laços e querem encontrar tudo isto pronto, para consumo.

Manter laços afetivos é algo que deve ser trabalhado, requer investimentos afetivos e inclui riscos, e me parece que é justamente o que François não deseja fazer, ele visa apenas o prazer próprio, sua satisfação. Desenvolver uma carreira profissional também é trabalhoso, e novamente ele não se esforça para isto. E nem mesmo a relação com seus pais lhe interessa, a ponto de ambos morrerem e ele não ter ido vê-los. E no mundo atual é visível o quanto é difícil para as pessoas manterem estes laços, preferindo o virtual onde se pode usar a tecla deletar quando algo incomoda ou exige mais. François não busca uma mulher para ser sua companheira com todos os riscos e prazeres que isto proporciona, ele prefere as relações com estudantes que terminam a cada verão ou as prostitutas.

O alerta é justamente sobre a desmoralização, a falta de laços, a falta de norteamento e de desejo que transforma a pessoa em submisso ao que lhe proporcione tudo isto sem ter que se esforçar. Algo que venha preencher o vazio existencial, mas sem esforço, e dentro da ilusão do que se considera a felicidade ou prazer. E volto a minha pergunta inicial: até que ponto desejamos isto? até que ponto a sociedade se infantilizou desejando a volta ao paraíso onde podemos receber tudo sem ter que fazer nada para isto, exceto obedecer aos pais, a Deus, ao Islã como no livro.


Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

LIVRO: A VIAGEM DE THÉO - Romance das Religiões - Catherine Clément


Clément, Catherine. Companhia das Letras, 1998
625 páginas
Tradução: Eduardo Brandão
Título Original: Le voyage de Théo

Théo sofre de uma doença grave e sua tia Marthe se propõe a levá-lo em uma viagem que pode se transformar em sua cura. Esta viagem será pelos locais sagrados de todas as religiões e seus rituais, além de Théo ter que descobrir sempre qual será a nova etapa da viagem através de pistas, como num jogo.

Marthe e Théo viajarão pelo mundo passando pelos locais sagrados do catolicismo, hinduísmo, judaísmo, protestantismo, budismo, islamismo entre outras. Ele sempre gostou muito de livros e lia muito sobre religião, se perguntava como os homens criaram deuses e como estes podem influenciar na história dos homens. Então, é a oportunidade de ir aos locais que ele só conhecia pelos livros e vivenciar o sagrado.

Um romance sobre as religiões, sua história, fundamentos, crenças, rituais.

Catherine Clément nasceu em 1939 em Boulogne-Billancourt, França. É autora de obras de filosofia, psicanálise e antropologia. Amiga de Claude-Levi Strauss que sempre lia seus romances antes que ela os publicasse. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

LIVRO: MADAME FREUD - Um retrato íntimo e revelador do pai da psicanálise pelo olhar de sua esposa - NICOLLE ROSEN


Rosen, Nicolle. Verus Editora , 2008
210 páginas
Tradução: Marisa Rossetto
Título original: Martha F.

Nicolle Rosen, uma psicanalista, interessa-se por Martha Freud. Afinal quem seria esta mulher que viveu ao lado de Sigmund Freud e que parece não existir, exceto pelo fato de elogios sobre a vida doméstica, assegurando à Freud o sossego necessário para criar sua grande obra.

Rosen então resolve dar a palavra à Martha, e para que ela fale precisa de um interlocutor e assim surge Mary que ela conhece no dia do sepultamento de Freud e com quem irá manter uma correspondência assídua falando sobre sua vida e o que pensava.

É um romance porém está baseado em relatos, cartas, biografias, fotos, vários livros sobre a história da psicanálise, mas obviamente que os vazios serão preenchidos por palavras que poderiam ter sido de Martha.

Penso que se trate de um livro que deveria ser lido para se compreender o que é viver à sombra de alguém com tanto reconhecimento e que estava sempre rodeado de admiradores, discípulos e ocupava o lugar do pai, mestre, e também o de homem através de todas as transferências amorosas que suscitou. E Martha? o que ela fez de sua vida? de seu desejo?

Há passagens no livro que nos faz refletir sobre esta questão de amar e se sacrificar ao objeto amado, abrindo mão daquilo que somos e desejamos. Martha era judia e seguia a tradição e rituais em sua família, mas teve que abrir mão de tudo isto porque Freud não queria isto. Nunca era consultada para as grandes decisões e sofreu com a rivalidade com sua irmã Minna e com sua filha Anna Freud. Além de ter que lidar com a mãe autoritária de Freud a quem este era totalmente dedicado.

Freud cresceu sendo o preferido, adorado, com tudo correndo conforme sua vontade e assim permaneceu tendo grande dificuldade de lidar com aqueles que não aceitavam se submeter, como foi o caso de Jung. Até mesmo suas irmãs tinham que abrir mão de seus desejos por ele,como Anna que teve que desistir de seu piano pois o incomodava.

Ele era excessivamente ciumento e possessivo, afastou de Martha todos aqueles que ele considerava como rivais, seu irmão Eli, sua mãe, seus amigos. Mas por que ela aceitou isto? O amor? para agradá-lo? para ser amada por ele?

Mas a questão é Martha, na verdade nunca saberemos o que realmente ia em seu íntimo, mas será que foi feliz? Uma mulher que aos 35 anos tem que enfrentar a decisão de abstinência sexual por parte de seu marido, uma mulher que não participava de nada de sua vida profissional onde tantas outras mulheres estavam, que não acompanhava Freud em suas viagens, que não podia emitir nenhuma opinião.

Mas por que ela aceitou tudo isto? por que não se impôs, não lutou por seu desejo? É este o questionamento no livro quando ela está sozinha após a morte de Freud aos 85 anos. Pode uma mulher ser feliz apenas por ser casada com um homem notável?

A questão é até que ponto Martha sentiu o que a maioria das mulheres sentiria hoje, ou isto não foi uma questão no tempo em que ela viveu. Mas é válido tentar dar voz a esta mulher, uma vez que ela nunca pode falar enquanto esteve viva, tentar pelo menos dar a ela um reconhecimento após ter permanecido na obscuridade por toda sua vida.

Há passagens no livro onde é perceptível a interpretação dos fatos por Nicolle Rosen, uma visão sua sobre determinado assunto ou fato, mas que também são válidos para que se processe uma reflexão.


Nicolle Rosen é psicanalista e vive em Paris. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

LIVRO: MEMÓRIAS DE UMA MOÇA BEM COMPORTADA - SIMONE DE BEAUVOIR



BEAUVOIR, Simone. Círculo do livro 
Tradução: Sérgio Milliet
335 paginas 

Já li e reli este livro várias vezes, em idades diferentes e a cada vez ele me causa uma nova impressão. Quando eu era jovem ela foi meu modelo, um espelho, meu desejo de estudar Filosofia nasceu devido à ela. Hoje leio suas memórias como um painel da vida intelectual francesa, mas também da guerra, da vida parisiense, e acima de tudo, a vejo como uma mulher, não mais a intelectual. 

Este é o primeiro livro de suas memórias. Trata de sua infância e juventude burguesa em Paris, de todos seus dilemas, conflitos, de como foi se rebelando. Ela tinha uma irmã, mas sempre se sentiu privilegiada, e às vezes eu penso no que esta irmã deve ter sentido ou sofrido à sombra de Simone, apesar de sua passividade diante da irmã quando criança. Elas eram diferentes, e desde cedo Simone se sente diferente dos outros, apaixona-se pela leitura e isto lhe dá um pensamento diferenciado dos demais. Rebela-se contra a fé católica questionando-se e finalmente chegando a conclusão que não acredita em Deus. É um trecho bonito, onde ela se debate entre a crença e sua consciência. 

"Mas exercitava-me o dia inteiro a refletir, a compreender, a criticar, a interrogar-me; procurava a verdade com precisão: esse crepúsculo tornava-me inapta às conversações mundanas." 

Sua melhor amiga, Zaza, irá se distanciar dela justamente por causa da religião, irão tomar caminhos diferentes, mas um final triste aguarda sua amiga. E isto tocará profundamente Simone. 

Seu primeiro amor foi um primo, Jacques. Ele lhe passou muitas leituras que não conhecia, mas foi um amor que não deu certo, ao fim Jacques não era tão diferente de todos. 

Estas memórias irão até ela entrar para a Universidade para estudar Filosofia onde encontrará Sartre

"Sartre correspondia exatamente aos meus sonhos de quinze anos: era o duplo, em quem eu encontrava, elevadas ao extremo, todas as minhas manias. Com ele, poderia sempre tudo partilhar. Quando o deixei, no princípio de agosto, sabia que nunca mais sairia de minha vida."

E assim foi! 


Simone de Beauvoir nasceu em 1908 em Paris, França e faleceu em 1986 na mesma cidade. Foi uma filosofa existencialista, escritora e feminista. Uma mulher que lutou pelo direito de pensar e que não recuou diante das polêmicas que causaram a publicação de O Segundo Sexo

LIVRO: A ELEGÂNCIA DO OURIÇO - MURIEL BARBERY



BARBERY, Muriel. Companhia das Letras, 2008
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
352 páginas
Título original: L'élégance du hérisson 

Descobri o livro numa livraria no aeroporto enquanto aguardava meu voo, obviamente não resisti e o comprei de imediato e não me arrependi, o livro é maravilhoso.
Um prédio em Paris, número 7 da Rue de Grenelle, apartamentos de luxo onde vivem além dos proprietários a zeladora Renée, uma mulher séria, que nos parece de mal com a vida, cumpre com seus deveres e sabe seu lugar em relação aos moradores do prédio. Mas atenção, as aparências podem enganar, enquanto os moradores que são considerados distintos e cultos mas vivem na mediocridade do esnobismo, de serem algo devido sua classe social, Renée, que nos parece uma pessoa simples e ignorante pode revelar que é muito mais que isto. 
Ela vive no térreo, com seu gato, Leon, e isto já poderia ser uma pista, seria Leon Tolstoi? O que ela esconde que não conseguimos perceber? Ela é uma amante dos livros, tem uma biblioteca oculta em seu apartamento. Encontra nos livros o que a vida não lhe oferece, puro deleite e amor às artes. 
Mas neste prédio temos também Paloma, uma adolescente que vive com sua família, um pai ausente, um figurão, a mãe uma dondoca formada em Letras e a irmã que se considera uma filosofa. Ela decide que a vida não vale a pena ser vivida e que irá se suicidar no dia do seu aniversário de treze anos, a menos que descubra um sentido para a vida. Pelo menos ela tenta, escreve dois diários que denomina: Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo. Encantei-me tanto com estes diários que acabei criando os meus. 
Tanto Renée como Paloma vivem camufladas, não mostram o que são e desejam, enquanto os outros vivem com suas máscaras. Mas ambas acabam se aproximando e se descobrindo, passam a trocar reflexões, pensamentos, conversam, aqui sim, duas filosofas que duvidam e se encantam. 
Eis então que surge um novo morador, o Sr Kakuro Ozu, que é o oposto de todos ali, um oriental bem humorado, que parece ter a sabedoria da vida. Ele logo percebe que Renée e Paloma se escondem por baixo de uma capa de proteção e se aproxima, principalmente de Renée. Ele lentamente saberá como trazê-las à vida e mostrar que ela realmente vale a pena ser vivida, mesmo que nisto tenha a dor, sofrimento e muitos espinhos. Ele saberá como se aproximar dos ouriços o suficiente para lhes transmitir calor, me lembrando dos porcos espinhos de Schopenhauer

Recomendo. 

Muriel Barbery nasceu em 1969 em Casablanca, Marrocos é formada em Filosofia. Ex aluna da École Normale Supérieure, atualmente vive no Japão

sábado, 4 de janeiro de 2014

LIVRO: W OU A MEMÓRIA DA INFÂNCIA - GEORGES PEREC


PEREC, George. Companhia das Letras, 1995
Tradução: Paulo Neves
196 paginas
Título original: W, ou , le souvenir d'enfance 

Um livro de memórias, mas memórias que não existem, que precisam ser resgatadas, recuperadas, e que se apresentam sempre misturadas a outros eventos, imaginárias, sem muita confirmação. Perec era criança quando a Segunda Guerra começou, ficou órfão. 
Ele começa nos dizendo que não tem nenhuma memória de infância, e se lança na escrita na tentativa de recuperá-las. Nem sempre é possível ou fácil colocar em palavras o que se viveu, e paralelamente ele escreve uma história, a história de W, uma narrativa fantasiada pelo autor aos doze anos. Mas qual será a mais verdadeira? 
Nossa memória sempre reconstitui um romance, pega pedaços do que vivemos e condensa, formando uma história coesa, mas quando não se tem esta possibilidade de coesão e se está no caos, pode-se também inventar, imaginar, criar uma história. 
Ele irá alternar pedaços de sua vida, do que consegue se lembrar ou pensa ter sido assim, com a história de W. 
W, a terra do esporte, um Estado-máquina. Ao ler estes trechos me vieram duas versões. A primeira seria a maneira de poder falar, contar e ser ouvido sobre o Holocausto, sobre os campos de concentração, pois temos um retrato deles de forma fantasiada, e a outra seria como as pessoas passam a acreditar numa ideologia, mesmo que maléfica, como  seguem as regras e não se rebelam contra. 
Talvez por que no real da guerra haviam inimigos, mas entre eles também havia seres humanos. Ao vencedor cabe os privilégios, e ao perdedor os castigos, a derrota, a humilhação, mas o vencedor de hoje é o perdedor de amanhã. E no dia a dia sempre há os que protegem os mais fracos e mais novos, mesmo entre os que são os vencedores, talvez principalmente entre eles, para que possamos sobreviver. 

Perec escreve, escreve para poder viver. Para lembrar e esquecer, ou esquecer para lembrar. E sua fábula da Terra de W nos serve para compreendermos todos os totalitarismos e por ironia ou uma coincidência que ninguém pode compreender, esta terra está na América Latina, onde tantas ditaduras viraram a Terra de W. 

George Perec nasceu em 1936 em Bordeaux, França e morreu em Paris em 1982. 

sábado, 28 de dezembro de 2013

LIVRO: O SERMÃO SOBRE A QUEDA DE ROMA - JÉRÔME FERRARI



Ferrari, Jérôme. Editora 34, 2013 - 1ª Edição
Tradução: Samuel Titan Jr.
208 páginas

Prêmio Goncourt 2012

POR ONDE ANDA NOSSO DESEJO?

Belo livro sobre quando o destino altera o desejo, não o permite e quando nós mesmos abrimos mão dele.
Por um lado a Guerra. Contingência? Imposição do destino? Escolha de poucos! A guerra, este grande Outro
O livro trata do avô e do neto. O avô que luta pelos seus desejos e a vida os destrói. O neto perde os seus, se instala calmamente num mundo pequeno, restrito, que ele constrói e de onde ele não quer mais sair. Não aceita que nada interfira ou mude isto. Mesmo com as piores ocorrências, seu pai morrendo, seu melhor amigo assassinando outro, ele não se move. 
Descrição belíssima do que acomete o ser humano no seu egoísmo, quando outros o chateiam, odiar ter seu dia, sua agenda alterada por que outro adoeceu, sofreu um acidente, morreu! 
A ausência! não só do outro, a ausência da vida, do realizar, do criar. 
A mediocridade da vida, nascer, viver, morrer. E quantas vezes ter sua vida alterada por outro? Até mesmo um funcionário da aduana que para gozar do poder de autoridade destrói os sonhos de outro. 
Estamos sempre sujeitos ao gozo do Outro? e ao desejo do Outro?

Jérôme Ferrari nasceu em Paris, França,  em 1968. Formado em Filosofia pela Universidade de Paris atualmente é professor em de filosofia em Abu Dabi. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: GENITRIX - FRANÇOIS MAURIAC



Mauriac, François. Editora Globo, 1987
Tradução: Célia Gambini
94 páginas

MÃE

O eterno conflito mãe-filho-filha. Quando uma mãe se apossa do desejo do filho e lhe impõe o que deve ser sua vida, o que vemos do outro lado é uma vida destruída, sem rumo, sem vigor, sem desejo.Mas o que pode doer mais do que ter um vislumbre do que poderia ter sido a vida se não fosse assim?


François Mauriac nasceu em 1885 na cidade de Bordeaux, França e faleceu em 1970 em Paris. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1952. É o maior representante do romance psicológico na França. 



LIVRO: A PESTE - ALBERT CAMUS



Camus, Albert. Record, 2009 - 18ª Edição
Título Original: La Peste
Tradução: Valerie Rumjanek Chaves
218 páginas.

A PESTE - UMA DOENÇA OU UM SISTEMA DE VIDA?

A peste no livro é uma doença, mas também uma metáfora do que é a vida quando nos sentimos ou estamos inconscientemente presos a um sistema, a um espaço, temos medo mas desejamos a liberdade, queremos fugir, ir embora, mas não conseguimos.

O livro tem como epígrafe uma frase de Daniel Defoe: " É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro quanto representar qualquer coisa que existe realmente por alguma coisa que não existe."

Nunca aceitamos uma calamidade, algo que interrompa o cotidiano, nossos hábitos, que interfira no nosso dia a dia. Queremos fugir, não ver. Recusamos, queremos o bom, ou pelo menos o cotidiano, que não se altere. Mas o ruim também existe, não há como escapar.

Diante da tragédia, da calamidade, do exílio, que pode ocorrer mesmo sem ter a cidade fechada uma vez que nos exilamos na dor, nos afastamos dos outros. Vem a nostalgia, o passado, mas que dói, por tudo que houve e que não houve e não conseguimos imaginar o futuro, pois não sabemos quanto tempo vai durar a peste.

Uma alegoria à Segunda Guerra Mundial, mas também uma forma de falar de si mesmo diante das tragédias e contingências da vida.

Camus nasceu em 1913 em Mondovi (atualmente Dréan) Argélia e faleceu em 1960 em Villeblevin vítima de um acidente de carro. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Além de um grande escritor  foi também jornalista e esteve engajado na Resistência Francesa.


LIVRO: OS AMANHÃS - HAFID AGGOUNE



Aggoune, Hafid. Rocco, 2005
Tradução: Maria Angela Villela
123 pagínas


AS RAÍZES DO PASSADO ESTÃO NO AMANHÃ

1942, Pierre vê seu primeiro amor ser levada pelos nazistas e ela não voltará. Sua última visão e de seu calcanhar no estribo do carro. Ele deixa de existir. Durante 59 anos permanecerá calado, sem conseguir gritar sua dor, sua raiva, seu medo, sem conseguir dizer sobre isto. Viverá na esperança da volta de Margot.
2001 - 11 de Setembro, com a morte de outro interno no asilo onde se encontra, ele volta, retorna à vida, e perceberá que é a morte que nos faz viver.

Um belíssimo relato, de um renascer, um retorno à vida, da tentativa de escrever sobre o que viveu naquele dia longínquo, e que ficou inesquecível, mas também inefável, uma tentativa de gritar pela escrita.

"É por causa da morte, é sempre por causa da morte, que em todo lugar, em todas as épocas, para cada um de nós, acontece e não acontece, porque não há nada a que se apegar, não há nada, e o vazio ronda o vazio e nessa vida é preciso aprender a viver com esse vazio, aprender a preenchê-lo com a vida, aprender a ver por trás das imagens, aprender a não perder o prazer, mesmo sob as bombas, os escarros, as injurias, as traições, os exílios, as deportações, os silêncios, os gritos e todas as faltas, aprender a dançar nos braços sem corpo do nada, aprender a ter orgulho de si, a amar a si mesmo, a amar o outro porque cada qual é um estranho, porque ninguém se parece com ninguém, aprender a amar esta vida, e este mundo que recomeça todos os dias, porque nós somos frágeis."

Lindo! a dor do existir em palavras.

RECOMENDO.


Hafid Aggoune nasceu em 1973 em Saint-Étienne, França. Estudou letras e História da arte em Lyon

LIVRO: O CORONEL CHABERT - HONORÉ DE BALZAC



Balzac, Honoré de.Companhia das Letras, 2013
Tradução: Eduardo Brandão
88 Páginas

Este livro acompanha Os Enamoramentos de Javier Marías.

MORTOS QUE REVIVEM

Li o livro como complemento ao livro de Javier Marías "Os Enamoramentos", mas vale ser lido por ele mesmo. É uma brilhante percepção do medo que temos que os mortos revivam, voltem e nos atormentem, só que no livro, o morto não estava morto, foi considerado morto e com isto a vida de todos que faziam parte do mundo do morto se altera após a passagem do luto, seguindo seu curso, o que normalmente acontece com todos que perdem alguém.
Mas, o coronel retorna e está vivo, só que retorna para um mundo onde ele não existe mais, está morto para os outros e para a lei. Aí começa seu drama, a tentativa de voltar à vida, e tudo que terá que enfrentar para isto. Por outro lado, há o choque nos que o consideravam morto, que ao se deparar com o "fantasma" que retorna, não gostam disto.
É uma situação que pode ser real como a descrita no livro, mas também pode ser lida como uma metáfora sobre o medo que temos dos mortos que podem voltar e atrapalhar nossa vida, interferir, e mudar o que já está novamente ordenado, e justamente por isto, cumprimos os rituais para deixá-los onde estão e em paz, e como no livro, tudo se fará para mantê-los em seu lugar, o sepulcro.

Honoré de Balzac nasceu em 1799 em Tours, França e faleceu em 1850 em Paris. Um dos maiores escritores da literatura, tem uma aguda percepção psicológica. Escreveu a Comédia Humana que consiste em 95 romances. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

LIVRO - DIÁRIO DE LUTO - ROLAND BARTHES



Barthes, Roland. 1ª ed. Editora WMF Martins Fontes, 2011
Tradução: Leyla Perrone-Moisés
264 páginas


Por ocasião da morte de sua mãe Barthes iniciou um diário onde coloca dia a dia suas impressões e o que sentia de 26 de outubro de 1977, dia seguinte a morte de sua mãe até 15 de Setembro de 1979. Ele escrevia em fichas que depois formaram este livro. Como perdi minha mãe recentemente a leitura deste livro mostrou-me que muitos dos meus sentimentos foram vividos por ele também. Muitas vezes sentimo-nos sufocados e pressionados pela cultura que ele chama de futuromania, ou seja, que devemos ir em frente, continuar a vida, trabalhar, sair. Porém o luto requer um certo distanciamento e tem que ser vivido, do contrário ele se torna patológico. Barthes diz que justamente o luto foi algo que ele viveu sem neuroses e sem histeria.
Outro ponto que ele toca é sobre a questão da oscilação dos sentimentos. Um dia estamos bem e no outro péssimos, num momento queremos viver, no outro não. Ele diz: "momentos em que estou distraído (falo e se necessário, gracejo) - como que seco - aos quais sucedem bruscamente emoções atrozes, até as lágrimas."
E no meu caso, foi muito importante a leitura deste livro, pois Barthes também viveu sua vida juntamente com sua mãe, e isto é algo que traz algumas diferenças no luto, pois muitos dizem que é a hora da liberdade, mas alguém já tentou fruir uma liberdade em meio a dor? onde a fruição se deve à uma perda que causa dor?
Sobre a solidão, em um momento ele usa a expressão apartamento insonoro, e isto resume o que se sente, é justamente isto, a falta de sons, da presença, é a presença da ausência, do ter alguém ali, que provoca sons, respira, fala, se move.
Um outro ponto que merece uma reflexão, sobre o fato do filho ou filha cuidar da mãe, que acaba desta forma tomando o lugar do filho e este o lugar da mãe. Então a perda da mãe neste caso é como a perda de um filho, e existe dor maior do que esta?
Barthes sente o luto como algo que não se desgasta com o tempo, que não se submete ao tempo, " o tempo não faz passar nada, só faz passar a emotividade do luto".
A morte é sempre um assunto do qual fugimos, apesar de ser algo certo e garantido, tanto a nossa, como a dos entes queridos, e por isto a leitura deste livro é um aprendizado de algo que se não nos atingiu com certeza irá nos atingir. Barthes algum tempo depois da morte de sua mãe sofreu um acidente, foi atropelado, não morreu ali, foi hospitalizado, mas não tinha vontade de viver, ele foi ao encontro de sua mãe. Muitos comentavam que era quase um suicídio, ele desistiu de viver.

Roland Barthes nasceu em 1915 em Cherbourg, França e faleceu em 1980 em Paris. Foi escritor, filósofo, sociólogo, semiólogo, crítico literário. Formou-se em Letras Clássicas em 1939 e em Gramática e Filosofia em 1943 pela Universidade de Paris. Fez parte da Escola Estruturalista.