Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: GUERRA NA UCRÂNIA: OLHARES NÃO HEGEMÔNICOS

 

GUERRA NA UCRÂNIA: OLHARES NÃO HEGEMÔNICOS

SVETLANA RUSEISHVILI (Organizadora)

EdUFSCAR – 1ª ED. 2023

255 páginas

Este livro, organizado por Svetlana Ruseishvili, reúne diferentes artigos que analisam a Guerra da Ucrânia a partir de perspectivas variadas e, em grande parte, críticas aos olhares hegemônicos predominantes.

O que mais me chamou a atenção foi o artigo de Madina Tlostanova, “Pós-Socialista ≠ Pós-Colonial? Sobre o imaginário pós-soviético e a colonialidade global”. Eu já havia estudado teorias decoloniais, mas nunca havia encontrado uma discussão que se referisse diretamente a situação dos países que fizeram parte da União Soviética após sua dissolução.

A questão é complexa, uma vez que esses países passaram por diferentes formas de dominação ao longo do tempo, incluindo impérios como o Austro-Húngaro e, posteriormente, a própria estrutura soviética. A experiência desses países não pode ser facilmente enquadrada nas categorias tradicionais do pensamento pós-colonial.  

Tlostanova questiona, assim, até que ponto a teoria decolonial pode ser aplicada neste contexto. No caso da Ucrânia, por exemplo, há uma sobreposição linguística e cultural entre o russo e o ucraniano, além da permanência de elementos da mentalidade soviética em diferentes setores da sociedade.  

O artigo de Tlostanova me levou a pesquisar mais sobre o Leste Europeu, principalmente sobre as pessoas que ficaram nos países, mas também os da diáspora.

O livro traz diferentes abordagens sobre a guerra na Ucrânia, e justamente por isso é interessante e faz exatamente o que se propõe, ou seja, olhares diferentes sobre a guerra.

Eu pessoalmente só não concordei com um dos artigos, escrito por um autor austríaco, que traz uma visão muito eurocêntrica sobre a questão. Ainda assim, considero válido ler o que ele escreve, justamente para contrastá-la com as demais e formar uma compreensão mais ampla do debate.  

Svetlana Ruseishvili é doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo, mestre em Ciências Sociais pela École des Hautes Études em Sciences. Sociales (Paris) e graduada em Sociologia pela Universidade de Moscou Lomonossov




quarta-feira, 27 de maio de 2026

QUANDO A GUERRA ULTRAPASSA TODOS OS LIMITES


 

HIROSHIMA

JOHN HERSEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2002

176 páginas

Ao lermos o livro “Hiroshima” de John Hersey, nos compadecemos dos japoneses afetados e também ficamos horrorizados com tamanha monstruosidade perpetrada pelos Estados Unidos contra civis. De fato, aquele povo era inocente, exceto talvez pelos militares locados na cidade e em Nagazaki.

É preciso lembrar que os japoneses foram extremamente cruéis na sua expansão pela Ásia, como ocorreu no Massacre de Nanquim (1937), na China, que ficou conhecido como o Estupro de Nanquim, marcado por estupros e assassinatos em massa. Em Cingapura, em 1942, também massacram chineses no episódio conhecido como o Massacre de Sook.

No entanto, esses atos de crueldade não justificam o que ocorreu em Hiroshima e Nagazaki. Lançar bombas atômicas que em questão de segundos destruíram tudo, matando mais de cem mil pessoas imediatamente em Hiroshima.  Muitas outras morreram depois sob os efeitos da radiação, algo totalmente desconhecido pelos médicos na época.

Pessoalmente, não aceito a justificativa dos Estados Unidos de que, agindo assim, pouparam inúmeras vidas. Com certeza, pouparam vidas americanas e de militares. Acredito que foi mais um experimento para observar os efeitos e os resultados de uma bomba atômica e, diante do sucesso destrutivo, impor o medo ao mundo, já que naquele momento apenas eles possuíam tal arma.

Hersey, jornalista estadunidense, traz em seu livro o relato e o testemunho de seis sobreviventes do horror e retorna 40 anos depois para saber o que lhes aconteceu. Mesmo tendo sobrevivido, todos sofreram as consequências de terem sido expostos à explosão e à radiação, o que mudou suas vidas.

É interessante perceber que a cultura japonesa levou a grande maioria da população a aceitar o que ocorreu; em momento algum levantavam a questão ética e moral do uso de uma bomba dessa magnitude contra duas cidades. Mas precisamos, sim, pensar nessa ética, e mais do que nunca, pois estamos assistindo a outra destruição atualmente, em Gaza, com a morte de milhares de pessoas, não instantaneamente, mas dia após dia, sem falar nos traumas dos que conseguem sobreviver.

Ler Hiroshima é um alerta. Aquela primeira bomba ainda era considerada “fraca”; hoje, bombas atômicas ou de hidrogênio possuem um poder de morte e destruição infinitamente maior. 

John Hersey nasceu em Tianjin, China, em 1914 e faleceu em Key West, Flórida, EUA, em 1993. Foi um escritor e jornalista estadunidense. 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE A LUCIDEZ HISTÓRICA E OS LIMITES DO MARXISMO

 

ERIC HOBSBAWM: UMA VIDA NA HISTÓRIA

RICHARD J. EVANS

CRÍTICA – 1ª ED. – 2021

728 páginas


Em primeiro lugar, lamento os erros de revisão do livro: são pequenos erros de grafia e ausência de algumas palavras, que não comprometem a leitura, mas são perceptíveis. 

O livro trata da vida do historiador marxista Eric Hobsbawn, autor de várias obras conhecidas, como a trilogia das Eras e "Era dos Extremos". A narrativa percorre sua infância, adolescência, todo o período da Segunda Guerra Mundial, sua vida acadêmica e seu percurso intelectual. O que considerei mais interessante e importante nesta leitura foi:

- Informações curtas, mas relevantes, sobre o Congo Belga, a invasão de Praga e da Hungria e alguns governos do Reino Unido. Sua visão inicial sobre a América Latina mostra-se um pouco ilusória, algo que ele corrige posteriormente. Como muitos intelectuais de esquerda de sua época, também nutriu certa ilusão em relação à União Soviética, mas Eric percebeu rapidamente suas contradições. Foi sempre comunista, embora nunca ortodoxo. 

- Sobre a vida acadêmica: os preconceitos, as competições, os debates e as críticas. Eric foi durante muito tempo um outsider na academia britânica, e o reconhecimento por seu trabalho e pesquisas veio tardiamente. Nunca conseguiu ocupar uma cátedra em Cambridge ou Oxford. 

- É curioso como um homem considerado feio - algo dito inclusive por sua irmã no livro - atraia tantas mulheres. 

- Hobsbawm teve o mérito de incluir as mulheres em "A Era dos Impérios"; no entanto, mostrou-se incapaz de reconhecer plenamente a participação feminina na história. Mesmo sendo amigo de Michelle Perrot e conhecendo Joan Scott, ele afirmava que o feminismo não era compatível com o marxismo e não enxergava nas mulheres um papel relevante na história dos trabalhadores. É preciso considerar que, naquele momento, os estudos sobre mulheres ainda estavam em consolidação, e talvez hoje ele revisasse algumas dessas posições. De fato, parte do feminismo inglês de sua época possuía um viés burguês e a luta das mulheres trabalhadoras nem sempre estava contemplado nesse movimento. 

No fundo, Hobsbawm parecia um burguês em seu estilo de vida, mas dotado de uma visão histórica perspicaz. 



Richard J. Evans nasceu em Woodford, Reino Unido em 1947. É um historiador com foco na história da Alemanha. 


sábado, 11 de abril de 2026

MAAT NÃO JULGA: ELA EQUILIBRA O MUNDO

 


MAAT, LA PHILOSOPHIE DE LA JUSTICE DE L’ANCIENNE EGYPTE

ANNA MANCINI

BUENOS BOOKS INTERNATIONAL – 2007

152 páginas

Pesquisei muito sobre Maat e não encontrei muita coisa em português que atendesse ao que eu procurava. A pergunta inicial era: porque as mulheres egípcias tinham uma posição melhor, em relação a direitos, liberdade e autonomia, do que outras mulheres das regiões ao redor?

Maat é uma das principais divindades egípcias, ao lado de Ísis e Osíris, e rege toda a vida egípcia. Trata-se de uma divindade feminina. Em minhas pesquisas ela sempre aparecia sendo traduzida simplesmente como “justiça”. Até que encontrei este livro – mas ele está em francês.

Anna Mancini pesquisou longamente sobre Maat. Ela apresenta os principais egiptólogos que escreveram sobre o tema, mas também aponta as falhas de muitos deles ao interpretar o conceito. Neste livro, Mancini realiza uma análise profunda da famosa cena conhecida como o Julgamento de Osíris, muito difundida através do Livro dos Mortos.

Segundo a interpretação tradicional, tratar-se-ia do julgamento da alma do morto para determinar se ele poderia ou não entrar no paraíso egípcio. Nessa cena, Maat aparece simbolizada como uma pluma colocada na balança ao lado do coração do morto.

Mancini demonstra, porém, que essa leitura está equivocada. Em primeiro lugar, não se trata de um julgamento no sentido ocidental da palavra. Ninguém ali emite uma sentença. A decisão se dá pela própria balança. Nem Osíris julga, nem Maat.

Ao longo do livro, Mancini analisa ponto por ponto essa cena – aliás, o próprio nome “julgamento” foi dado pelos ocidentais.  

Maat representa o equilíbrio cósmico, a justiça no sentido de igualdade, harmonia e complementaridade. Todos devem viver segundo esse princípio, principalmente o faraó. Esse fundamento ajuda a compreender, em parte, a posição relativamente elevada que a mulher ocupava na sociedade egípcia. Evidentemente, não é apenas isso: há também outros fatores ligados à religião egípcia – que nós chamamos de mitologia -, onde Ísis desempenha um papel fundamental, assim como uma concepção de maternidade bastante diferente da nossa.

Infelizmente, não encontrei tradução deste livro para o português.


Anna Mancini é francesa de origem italiana. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

SALEM ALÉM DO MITO

 

AS BRUXAS: INTRIGA, TRAIÇÃO E HISTERIA EM SALEM

STACY SCHIFF

ZAHAR – 1ª ED. – 2019

323 páginas

Em As Bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem, Stacy Schiff revisita um dos episódios mais conhecidos, e ao mesmo tempo mais mal compreendidos, da história colonial norte-americana: os julgamentos das chamadas “bruxas” de Salem, ocorridos em 1692. Longe de uma narrativa folclórica ou sensacionalista, a autora constrói um relato minucioso, quase clínico, sobre como uma comunidade inteira foi capturada por um sistema de acusações, delações e punições legitimadas pelo discurso religioso, jurídico e moral.

O grande mérito do livro está em mostrar que Salem não foi um surto isolado de irracionalidade, mas o resultado de uma confluência de interesses políticos, rivalidades familiares, tensões econômicas, disputas territoriais e uma teologia profundamente misógina. A histeria coletiva não nasce do nada: ela é produzida, alimentada e organizada por instituições que se apresentam como guardiãs da ordem.

Schiff reconstrói o cotidiano da vila, os laços entre seus habitantes e o funcionamento do tribunal com uma precisão impressionante. O leitor percebe como boatos se transformam em provas, como o medo ganha estatuto jurídico e como a palavra de meninas adolescentes passa a valer mais do que qualquer evidência material, desde que confirme o que o poder já deseja ouvir. A acusação de bruxaria funciona, assim, como um dispositivo eficaz de eliminação social.

Embora o livro não seja explicitamente feminista, a leitura revela, de forma contundente, que a maioria das vítimas era composta por mulheres: mulheres que falavam demais, que herdavam terras, que não se encaixavam nos papéis esperados, que viviam à margem ou que simplesmente incomodavam. Salem expõe um mecanismo recorrente da história: quando a ordem patriarcal se sente ameaçada, ela transforma mulheres em perigo moral.

O termo “histeria”, presente no subtítulo, não é usado de forma leviana. Ele aponta para um processo de patologização do dissenso, no qual o sofrimento psíquico, a pobreza, o trauma e até a imaginação são convertidos em crime. A bruxa não é apenas a mulher que supostamente pactua com o demônio, mas aquela cuja existência foge ao controle.

A escrita de Stacy Schiff é elegante, rigorosa e acessível, sem abrir mão da complexidade histórica. Seu texto evita julgamentos anacrônicos, mas não abdica de uma posição ética clara diante da violência cometida. Ao final, Salem aparece menos como uma exceção e mais como um espelho perturbador de sociedades que preferem perseguir indivíduos a enfrentar suas próprias contradições.

As Bruxas é, portanto, uma leitura fundamental não apenas para compreender o passado, mas para reconhecer os ecos de Salem no presente: nos pânicos morais, nas campanhas de difamação, na criminalização do feminino, do diferente e do indomável. Um livro que nos lembra que a fogueira pode mudar de forma, mas raramente desaparece.


Stacy Schiff nasceu em Adams, Massachusetts, EUA, em 1961. É uma escritora estadunidense. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

TRABALHO, CORPO E DISCIPLINAMENTO DAS MULHERES


 

MULHERES E CAÇA ÀS BRUXAS

SILVIA FEDERICI

BOITEMPO – 1ª ED. – 2019

160 páginas


Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as transformações impostas pela Revolução Industrial.

Federici inicia sua análise pelo cercamento das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que se pretendia impor.

O livro mostra como essa autonomia feminina precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino. Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça. Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal: acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.

O mais perturbador, contudo, é perceber que esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas, muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana, existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem reflexão, denúncia e posicionamento.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


QUANDO A ACUMULAÇÃO PASSA PELO CORPO DAS MULHERES


 

CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO

SILVIA FEDERICI

ELEFANTE – 2ª ED. – 2023

480 páginas


Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici propõe uma releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres ocupavam um lugar central nela.

A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres, diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que precisava urgentemente de trabalhadores.

Na primeira fase da industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração estratégica: surge então a ideologia da mulher do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é progressivamente deslegitimado.

É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.

É nesse contexto que a figura da bruxa ganha centralidade. Não por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge, e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu trabalho.

Queimar mulheres nas fogueiras não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema produziu obediência e lucros.

Federici demonstra que o capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado, mas também sobre a desvalorização sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado, maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema garante sua própria reprodução.

Calibã e a Bruxa é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.

No entanto, faço uma crítica: o estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar nas fábricas.


Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ENTRE A ARQUEOLOGIA E O MITO: QUEM FORAM, DE FATO, OS CELTAS


 

OS CELTAS: DA IDADE DO BRONZE AOS NOSSOS DIAS

JOHN HAYWOOD

EDIÇÕES 70 – 2ª ED. - 2018

316 páginas

Fiquei muito satisfeita ao encontrar este livro, justamente por ele oferecer aquilo que eu buscava: uma contextualização histórica sólida sobre os povos celtas. Há hoje uma profusão de mitos, lendas e leituras contemporâneas que revestem os celtas de um misticismo difuso, muitas vezes associado a discursos new age. Meu interesse, no entanto, era a história e nesse ponto o livro de John Haywood atende plenamente às expectativas.

A obra percorre a trajetória dos celtas desde a Idade do Bronze, acompanhando sua expansão pela Europa muito antes, e também durante, o contato com o mundo romano. Um dos méritos centrais do livro é desfazer a ideia, ainda muito difundida, de que os celtas se restringiam à Irlanda ou à costa francesa. Haywood mostra que esses povos têm origem na região dos Alpes e se espalharam por vastas áreas do continente europeu, alcançando inclusive os territórios ibéricos.

Baseado em pesquisas arqueológicas, fontes históricas e estudos comparativos, o autor constrói um panorama amplo das diversas sociedades celtas. O livro aborda suas crenças, suas formas de organização social, suas guerras, sua visão de mundo e seus modos de vida, sem recorrer a idealizações românticas ou projeções contemporâneas.

Ao longo da leitura, torna-se claro que não existia “um” povo celta homogêneo, mas uma pluralidade de culturas relacionadas por línguas, práticas e estruturas simbólicas, que variavam conforme o tempo e o território. Essa abordagem contribui para desmontar imagens cristalizadas e essencialistas que ainda circulam com força no imaginário popular.

Os Celtas é, portanto, uma leitura fundamental para quem deseja compreender esses povos para além da fantasia e do exotismo. Ao desmistificar grande parte do discurso espiritualizado que o new age construiu sobre eles, o livro restitui aos celtas sua complexidade histórica e, com isso, nos lembra que conhecer o passado exige, antes de tudo, rigor e disposição para abandonar confortos narrativos.


John Haywood nasceu em 1956. É um historiador britânico.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

UMA REGIÃO DECISIVA E POUCO CONHECIDA


 

EUROPA CENTRAL: A HISTÓRIA FASCINANTE DE UMA REGIÃO DECISIVA

JANAINA MARTINS CORDEIRO

CONTEXTO – 1ª ED. – 2025

256 páginas

É difícil encontrar livros que tratem especificamente da Europa Central. Diante dos acontecimentos atuais, muitas vezes nos vemos sem compreender plenamente o que está em curso justamente pelo desconhecimento da história dessa região. Nesse sentido, Europa Central: A história fascinante de uma região decisiva cumpre um papel importante.

O livro não se aprofunda em análises extensas, mas oferece um panorama geral consistente da região, desde o Império Austro-Húngaro até os dias atuais. A autora constrói uma espécie de cronologia comentada, destacando os principais acontecimentos históricos, acompanhados de observações sobre a mentalidade dos povos da região, os efeitos da stalinização e as consequências deixadas após o fim da União Soviética.

Mesmo sendo um livro de caráter mais paradidático, foi uma leitura da qual aprendi muito, justamente porque essa parte da Europa costuma ser pouco abordada. Aprendemos bastante sobre a Europa Ocidental, sobre a Segunda Guerra Mundial a partir da Alemanha e dos países do norte europeu, mas a Europa Central aparece frequentemente como se estivesse à margem desses processos, como se não tivesse sido uma das regiões mais duramente atingidas pelos conflitos.

Na Primeira Guerra Mundial, por exemplo, costuma-se mencionar apenas o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro em Sarajevo, como se esse evento resumisse a participação da região no conflito. No entanto, a Europa Central sofreu profundamente com a guerra, suas rupturas políticas, deslocamentos populacionais e redefinições territoriais — aspectos que o livro ajuda a recolocar em perspectiva.

Vale a leitura, sobretudo para quem deseja compreender melhor a complexidade histórica dessa região decisiva e frequentemente esquecida.

                            Janaina Martins Cordeiro é professora de História Contemporânea



domingo, 15 de fevereiro de 2026

O PATRIARCADO COMO CONSTRUÇÃO HISTÓRICA


 

A CRIAÇÃO DO PATRIARCADO

História da opressão das mulheres pelos homens

GERDA LERNER

CULTRIX – 1ª ED. – 2020

490 páginas

A Criação do Patriarcado, de Gerda Lerner, é uma obra essencial para compreender a construção histórica da sociedade patriarcal que ainda influencia nossas vidas hoje. Lerner oferece uma análise profunda das relações de poder entre homens e mulheres, mostrando que o patriarcado não é um fenômeno natural, mas uma construção social e histórica.

A autora inicia explorando a situação das mulheres antes do surgimento do patriarcado, destacando como sociedades matriarcais ou mais igualitárias foram gradualmente substituídas por estruturas dominadas por homens. Em seguida, ela descreve o processo histórico que consolidou o patriarcado, mostrando como mudanças econômicas, políticas e religiosas criaram mecanismos de dominação que institucionalizaram a desigualdade de gênero. Lerner também examina as diferentes formas de patriarcado que emergiram em épocas e culturas diversas, evidenciando que a opressão das mulheres variou em intensidade e forma, mas esteve sempre presente como instrumento de manutenção do poder masculino.

Ao discutir as implicações do patriarcado na sociedade contemporânea, Lerner revela como a ideologia patriarcal continua a sustentar desigualdades e limitações impostas às mulheres. Uma das maiores contribuições do livro é a forma como desafia as noções tradicionais de história: a autora mostra que a história das mulheres e a história do patriarcado são inseparáveis e que compreender um implica necessariamente compreender o outro. Além disso, evidencia que o patriarcado não é inevitável, mas resultado de processos históricos específicos, reforçando a ideia de que a opressão feminina é construída e, portanto, passível de transformação.

A Criação do Patriarcado é, assim, não apenas um estudo histórico, mas também um convite à reflexão sobre as estruturas de poder que ainda moldam nossas sociedades e sobre a necessidade de questioná-las criticamente.


Gerda Lerner nasceu em Viena, na Áustria, em 1920 e faleceu em Madison, Wisconsin, EUA, em 2013. Foi uma historiadora, escritora e professora. 


SOCIEDADES DE PARCERIA E SOCIEDADES DE DOMINAÇÃO

 

O CÁLICE E A ESPADA

RIANE EISLER

PALAS ATHENA – 1ª ED. 2007

362 páginas

O Cálice e a Espada, de Riane Eisler, apresenta uma reflexão profunda sobre a história da humanidade a partir de duas lentes simbólicas: o modelo do “cálice”, representando sociedades baseadas na parceria, cooperação e respeito, e o modelo da “espada”, associado à dominação, guerra e hierarquia opressiva. Eisler analisa como a humanidade transitou entre essas formas de organização social, propondo que muitas culturas antigas, especialmente pré-patriarcais, valorizavam a complementaridade, a igualdade de gênero e a vida comunitária.

O livro explora as raízes históricas do patriarcado, demonstrando como a dominação e a violência foram naturalizadas ao longo do tempo, transformando relações sociais, econômicas e de gênero. Eisler argumenta que os valores da “cultura do cálice” – empatia, cooperação e cuidado – foram suprimidos, mas permanecem como um modelo alternativo para a construção de sociedades mais justas e igualitárias.

Combinando pesquisa histórica, antropologia e teoria social, O Cálice e a Espada nos convida a refletir sobre como a violência estrutural, a desigualdade de gênero e a dominação moldaram a civilização moderna, ao mesmo tempo em que oferece um caminho de inspiração para reimaginar a convivência humana baseada na parceria e no respeito mútuo.


Riane Eisler nasceu em Viena, Áustria, em 1937. É uma acadêmica, escritora e ativista social. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

MULHERES, TECNOLOGIA E O APAGAMENTO DA PRÉ-HISTÓRIA

 


SEXO INVISÍVEL: o verdadeiro papel da mulher na pré-história

OLGA SOFFERJ.M. ADOVASIOJAKE PAGE

RECORD – 1ª ED. - 2009

312 páginas 

Cheguei a este livro depois de já ter lido obras mais recentes sobre as mulheres no Paleolítico e no Neolítico, como O homem pré-histórico também é mulher e Lady Sapiens. Ainda assim, quando Sexo Invisível foi citado em um curso online sobre a história das mulheres, meu interesse foi imediato. Li e a leitura se mostrou relevante, apesar do tempo decorrido desde sua publicação.

É evidente que, por se tratar de um livro mais antigo, muitas descobertas arqueológicas e revisões teóricas ocorreram depois. Ainda assim, para quem se interessa pela reconstrução crítica da pré-história, a obra permanece valiosa, sobretudo por seu gesto fundador: questionar frontalmente a narrativa androcêntrica que dominou a arqueologia e a história por décadas.

Escrito por três pesquisadores, o livro trouxe para mim uma contribuição específica e decisiva: a ênfase nas pesquisas sobre fibras. O avanço tecnológico permitiu estudar vestígios de cestos, cordas e tecidos — materiais tradicionalmente desconsiderados por se deteriorarem mais rapidamente. Em determinados contextos arqueológicos, no entanto, esses objetos se preservaram parcialmente, revelando um universo técnico sofisticado, invisibilizado pela centralidade atribuída às armas e à caça.

Essa discussão imediatamente remete ao texto de A ficção como cesta: uma teoria, de Ursula Le Guin, no qual ela defende que o cesto — e não a lança — foi a grande invenção do período. Sem recipientes, não haveria como carregar, armazenar ou partilhar alimentos. Hoje, sabe-se que a base da alimentação humana na pré-história era composta majoritariamente por vegetais e pequenos animais, e não pelos grandes mamutes caçados esporadicamente, como insistiu o imaginário heroico masculino.

Foram as mulheres, segundo os autores, que desenvolveram o cesto, as cordas, os tecidos e, mais tarde, a agricultura. Tecnologias essenciais à sobrevivência, à sedentarização e à própria emergência daquilo que chamamos civilização. Ao recuperar essas práticas, Sexo Invisível devolve às mulheres um lugar central na história humana — um lugar que lhes foi sistematicamente negado.

O livro também evidencia como historiadores e arqueólogos do século XIX projetaram seus próprios valores sobre o passado, valorizando apenas aquilo que se alinhava a uma visão masculina de poder, força e conquista. O resultado foi uma narrativa profundamente distorcida, que reduziu o papel das mulheres a algo marginal ou inexistente.

Sexo Invisível não é apenas uma obra sobre a pré-história: é um exercício de crítica epistemológica. Ele nos obriga a perguntar não apenas quem fez a história, mas quem foi autorizado a ser visto como agente histórico. E essa pergunta segue sendo atual.


Olga Soffer nasceu em 1942. É antropóloga

James M. Adovasio nasceu em Youngstown, EUA, em 1944. É arqueólogo e especialista em artefatos perecíveis.

Jake Page nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1936. É um escritor. 


 




UMA LEITURA NECESSÁRIA SOBRE AS ORIGENS DO MUNDO OCIDENTAL


 

SPQR: UMA HISTÓRIA DA ROMA ANTIGA

MARY BEARD

CRÍTICA – 3ª ED. - 2023

560 páginas 

Sempre que encontro um livro de história escrito por uma mulher — seja historiadora, arqueóloga ou pesquisadora — faço questão de escolhê-lo. Há nisso um gesto consciente: ler mulheres é também uma forma de enfrentar a longa tradição de apagamento feminino na produção do conhecimento. SPQR é um desses casos. Escrito por Mary Beard, uma das maiores estudiosas da Roma Antiga e de Pompeia, o livro se mostra uma leitura sólida, instigante e esclarecedora.

Esta obra dedicada a Roma foi particularmente interessante pela forma como Beard constrói sua narrativa. Ela parte da fundação da cidade, passando pelas lendas e mitos que cercam essa origem, sem tratá-los como meras curiosidades, mas como elementos constitutivos da identidade romana.

Um dos recursos centrais do livro é o uso dos discursos e cartas de Cícero, que permitem à autora se aproximar da maneira como os próprios romanos pensavam a si mesmos. Roma não aparece apenas como um império monumental visto de fora, mas como uma sociedade atravessada por conflitos, disputas políticas, contradições internas e estratégias de poder.

Ao longo da leitura, Beard nos ajuda a reconhecer o quanto do mundo romano permanece entre nós. Elementos da política, da linguagem, do direito e até de certos gestos institucionais contemporâneos encontram ali suas raízes. O livro também cumpre um papel importante ao desmistificar ideias cristalizadas sobre Roma, desmontando imagens simplificadas ou glorificadas demais do período.

É verdade que há muito pouco espaço dedicado às mulheres, um limite que não pode ser ignorado, ainda que em parte reflita a própria escassez de fontes produzidas por elas. Ainda assim, considero a leitura fundamental para compreender a cultura romana, seu pensamento, suas estruturas de poder e o funcionamento do antigo Império.

SPQR não é apenas uma história de Roma: é um convite a olhar criticamente para as origens de muitas das instituições que ainda organizam o mundo ocidental. Ler Roma com Mary Beard é, ao mesmo tempo, compreender o passado e interrogar o presente.


Mary Beard nasceu em Much Wenlock, Reino Unido, em 1955. É uma classicista 


ENTRE CIDADES, DEUSES E MULHERES: O INÍCIO DA HISTÓRIA ESCRITA

 

BABILÔNIA

A Mesopotâmia e os nascimento da civilização

PAUL KRIWACZEK

ZAHAR – 1ª ED. - 2018

382 páginas 

O livro se inicia partindo do Iraque contemporâneo para, em seguida, mergulhar na longa duração da história mesopotâmica, desde cerca de 5.400 A.E.C. Esse movimento entre presente e passado não é apenas narrativo: ele nos lembra que a chamada “origem da civilização” não é um vestígio distante e morto, mas algo inscrito em territórios ainda hoje marcados por disputas, violência e apagamentos.

Paul Kriwaczek oferece uma grande quantidade de informações sobre a Mesopotâmia, os sumérios e, mais adiante, a Babilônia. O livro percorre o surgimento das cidades, da escrita, das leis, da administração e da religião, compondo um quadro amplo do que costumamos chamar de “nascimento da civilização”.

Um aspecto especialmente relevante, e ainda raro em muitas obras de história antiga, é a atenção dedicada às mulheres. Fiquei particularmente satisfeita ao encontrar referências consistentes a figuras femininas e à atuação das mulheres em diferentes contextos sociais e religiosos. Destaca-se a presença de Enheduana, filha de Sargão de Acádia, considerada a primeira autora conhecida da história, cuja produção literária e religiosa revela a centralidade do feminino no imaginário e na organização simbólica da época.

A deusa Inana (mais tarde Ishtar) também ocupa um lugar importante na narrativa, evidenciando a força das divindades femininas na Mesopotâmia e a complexidade de seus atributos — erotismo, guerra, fertilidade e poder. Além disso, o livro traz informações sobre mulheres assírias, ampliando o olhar para além das figuras mais conhecidas e mostrando que o feminino não estava ausente das estruturas sociais e políticas dessas civilizações.

Babilônia é, assim, uma leitura que contribui não apenas para compreender a Mesopotâmia como berço da civilização, mas também para questionar a ideia de que esse nascimento foi exclusivamente masculino. Ao incluir as mulheres — ainda que timidamente em alguns momentos, o livro aponta para uma historiografia que começa, finalmente, a reconhecer o que durante tanto tempo foi silenciado.


Paul Kriwaczek nasceu em Viena, Áustria, em 1937 e faleceu em Londres, em 2011. Foi um historiador que passou uma década trabalhando no Irã e no Afeganistão.