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sexta-feira, 26 de junho de 2015

FILME: O REI DAS MÁSCARAS - 1996



Direção: Wu Tianming - 1996
Duração: 96 min
Título Original: Bian Lian
País: Hong Kong e China

Belíssimo filme! Na China Central no começo do século XX Wang (Xu Zhu), um velho mestre de ópera escolheu viver nas ruas morando numa barca e se dedicando a uma arte de seus ancestrais, a troca de máscaras na frente dos espectadores numa rapidez impressionante que desperta a curiosidade de todos para saber qual o segredo desta arte, como ele faz. Porém, este segredo só pode ser transmitido por herança na família, e para um menino. Ocorre que ele seu único filho morreu, e sua esposa o deixou há muitos anos atrás. Ele é sozinho e não tem para quem transmitir sua arte. Vive numa sampana com um macaco - o General.

Ele decide então adotar um menino. Na China vemos muitos pais vendendo ou dando seus filhos por não terem condições de criá-los, de lhes dar o que comer, principalmente meninas. Ele acaba encontrando um menino e adota, concedendo-lhe seu nome e pedindo que o chame de avô. 


Ele se afeiçoa à criança e eles vivem na sampana. Os detalhes no barco são incríveis, móveis, vasos com flores, a louça, é encantador.


Tudo corre bem até o dia em que ele descobre que não é um menino, mas uma menina. Ele fica muito decepcionado, mas permite que ela fique, mas a partir de agora não será mais seu avô e ela terá que chamá-lo de mestre e trabalhar. Ela aprende a fazer malabarismos para ajudar nas apresentações. Mas estes dois viverão muitas aventuras durante o filme, até finalmente o velho mestre compreender que o destino lhe havia dado um herdeiro, ou melhor, uma herdeira. 

Bian Lian em chinês significa trocar de rosto e é uma arte. Provém da ópera de Sichuan e consiste em trocar muito rapidamente de máscaras, que são muito finas e colam na pele. 


Esta arte que vem do tempo do reino do imperador Qianlong, no século XVIII, e teria sua origem numa peça que contava a história de um bandido que um grande coração que roubava dos ricos para dar aos pobres, que foi capturado pela polícia do imperador e que para fugir deles trocava de rosto. 

O filme também denuncia o destino reservado às mulheres e as meninas na sociedade tradicional chinesa. Mas no filme vemos a sorte da menina se reverter.


Um outro detalhe do filme é a bela apresentação da ópera chinesa. 



Veja o trailer:



Wu Tianming nasceu em 1939 em Sanyuan County, Xianyang, na República Popular da China

terça-feira, 23 de junho de 2015

FILME: 10 CANOËS, 150 LANCES ET 3 ÉPOUSES - 2006



Direção: Rolf de Heer e Peter Djigirr - 2006
Duração: 87 min
Título em português: 10 Canoas, 150 lanças e 3 esposas
País: Austrália

Prêmio especial do júri na seleção Un certain regard de Cannes. 

Este filme aborda os aspectos da Mitologia Aborígene da Austrália. Um jovem, Dayindi (Jamie Dayindi Gulpilil Dalaithngu) está apaixonado pela terceira esposa de seu irmão mais velho. Durante uma caçada o velho Minygululu (Peter Miyngululu) aproveita para lhe contar uma história que ocorreu há um longo tempo atrás para colocá-lo de volta na linha e de acordo com as leis tribais.



O filme nos faz então navegar entre o destino (filmado em preto e branco) de Dayindi e (filmado em cores)  do guerreiro Ridjimiraril (Crusoe Kurddal) e seu irmão mais novo Yeeralparil (o mesmo ator de Dayindi) que também se apaixonou pela esposa mais jovem do irmão.



Durante uma hora e meia observamos o cotidiano dos aborígenes, seus mitos, lendas, histórias, o feiticeiro, os rituais, mas também as caçadas, a disposição da tribo que separa os solteiros, o dia a dia das mulheres. Tiramos grandes lições, como aprender a paciência, a respeitar os mais velhos, e a ver as consequências dos desejos. 



Na história contada por Minygululu aparecem todas as regras de convivência da tribo, e também o destino atuando. É muito interessante ver que quando os homens sentam para discutir algo eles imaginam a cena ocorrendo. Um dia chega um estranho no local, e o feiticeiro os adverte das possíveis consequências, e vemos eles imaginando as cenas. Quando a segunda esposa de Ridjimiraril desaparece, eles também imaginam todas as probabilidades, e o chefe chega a conclusão que ela foi sequestrada pelo estrangeiro que apareceu em suas terras. Quando reaparece outro desta tribo estranha o chefe atira sua lança contra ele, pensando ser o mesmo de antes, e o mata. Isto vai causar a necessidade de um acerto de contas entre as duas tribos.



O chefe será atingido. Sua primeira esposa tenta curá-lo com ervas, mas não consegue, o feiticeiro também tenta, mas diz que não conhece este tipo de feitiçaria.


Antes de morrer ele fará a dança de sua própria morte até cair no chão exaurido. Quando o irmão mais velho morre é o mais novo que assume seu lugar na família, inclusive as esposas. Seu irmão mais novo após passado o tempo do luto fica então feliz pois finalmente vai poder ter a mulher que ama, só que ela é a mais nova e ele terá que cumprir seus deveres primeiro com as mais velhas.




Rolf de Heer nasceu em 1951 em HeemsKerk, Países Baixos, foi para a Austrália com 08 anos. 

Peter Djigirr nasceu em 1963 na Austrália

segunda-feira, 22 de junho de 2015

DOCUMENTÁRIO: ANGANO... ANGANO... CONTOS DE MADAGASCAR - 1989


Direção: César Paes e Marie-Clémence Paes Blanc - 1989
Duração: 63 min 
Título Original: Angano... Angano...
País: Madagascar 

Recebeu o Grand Prix 30º Festival dei Popoli Florence - 1989 e o Prix des Bibliotheques - 11º Cinema du réel - Paris - 1989

Angano... significa história, contos.
Contos... Contos...
nada além de um conto
Não sou eu quem conta mentiras
mas os ancestrais
...  e é assim que eles ouviram também. 

O filme documentário mostra a cultura viva do povo Malgaxe que resistiu desde a independência formal em 1960, a regime neocolonialista, um governo autárquico de esquerda e dificuldades econômicas que se mesclam com depredação ecológica. 
A colonização francesa tentou suplantar a cultura local, mas a história oral é que é a verdadeira história deste povo, e esta resistiu e sobreviveu. 
Através de vários narradores as histórias são contadas, a tradição, os rituais, o parentesco, os rituais fúnebres, festas e a divisão social entre homens e mulheres. 


Seu principal alimento é o arroz. A Ilha sofre com a situação econômica, e com a crise ecológica provocada pela remoção de suas florestas para plantio, uma prática que se generalizou durante a ocupação francesa. 



Os contos são para educar as crianças e explicam as origens das coisas. O arroz surge devido um rapaz que pede a Deus uma companheira, como ela não gosta da terra e sente fome decide voltar para o céu levando ele junto. Deus se recusa a fornecer o arroz, eles então dão arroz para várias aves e partem com elas, matando-as para recuperar os grãos que estão nas aves e plantá-los. O conto sobre o sacrifício dos zebus é um alerta sobre a ganância e falta de reverência. A questão da divisão social é explicada por um casal que o marido dormia sempre e um dia a esposa muito zangada joga um balde de pedras em cima dele que se transforma em dinheiro. Como ambos queriam o dinheiro Deus interviu e disse que cada um poderia levar o que conseguisse carregar da forma tradicional. Ocorre que a mulher carrega tudo na cabeça, e o homem nos ombros com o auxílio de uma vara, o que resultou que o homem pode carregar o dobro da mulher. Então a divisão ficou sendo 2/3 para o homem e 1/3 para a mulher. 



Além disto os malgaxes devem ser enterrados junto aos seus ancestrais, diferente dos ocidentais que não dão importância á isto, enterrando normalmente na cidade onde a pessoa morreu. Mas o que mais me chamou a atenção é o ritual de desenterrar os mortos. Eles fazem isto na estação do frio, retiram os mortos da sepultura em esteiras, e o envolvem numa mortalha de seda. Antes passeiam com ele por entre a multidão dançando, e todos estão muito alegres. 

Um dos narradores nos diz que o homem é um estrangeiro de passagem, e que por isto pertencer a uma nação é uma ilusão. Interessante e que nos faz pensar sobre a questão atual do racismo. Somos todos estrangeiros.

Madagascar - República de Madagascar, anteriormente conhecida por República Malgaxe é um país insular no Oceano Índico que ocupa a maior ilha do continente Africano. 

Marie-Clémence Paes Blanc nasceu em Madagascar de mãe Malgaxe e pai francês e César Paes nasceu em 1955 no Rio de Janeiro, Brasil. São casados

terça-feira, 26 de maio de 2015

DOCUMENTÁRIO: CONGO RIVER - 2006


Direção: Thierry Michel - 2006
Duração: 116 min

Produção Franco-belga

Seguindo os passos do explorador Stanley o documentário segue da foz do rio à fonte. Percorrendo seus 4.371 km passando pelos lugares que são os testemunhos da história tumultuosa do país, desde a colonização belga até os dias atuais e a guerra civil com o terror dos estupros perpetuados contra as mulheres. Seguindo a margem do rio vamos encontrando este povo e sua história, suas alegrias e sofrimentos, as festas, os rituais, os dramas que fazem parte da vida dos pescadores, comerciantes, viajantes, militares, rebeldes, crianças-soldados, os mai-mai, as mulheres violentadas. Um povo que busca recomeçar e recuperar sua dignidade. 

Este rio é o principal meio de comunicação e locomoção da República Democrática do Congo uma vez que devido as guerras civis a floresta se apossou novamente das estradas e cobriu os trilhos dos trens, herança do tempo da colonização belga. A medida que avançamos pelo rio, inicialmente a bordo de uma barcaça que leva o povo, animais, carga, todos alojados em cima de um pontilhão, cada um armando uma cobertura de plástico, lona, cozinhando ali, dormindo ali, vamos também tendo uma retrospectiva do período da colonização, seja em imagens em preto e branco ou através das ruínas do que ficou ali abandonado, como uma universidade botânica, palácios, barcos. Seguimos pelo rio de Kinshasa até Mbandaka por 1700 km, depois é preciso fazer um trecho por terra pois o rio se torna rápido demais e com pedras e cachoeiras, para então chegar a Kisangani e lugares devastados pelos longos anos de guerras. 

Pessoalmente não tinha muito conhecimento sobre o país exceto pelas notícias de violência contra as mulheres e sobre a colonização belga. É interessante ver a influência da catequização cristã dos colonizadores misturado aos rituais locais, até mesmo uma missa em uma igreja rezada por um bispo onde ele invoca a todos para abandonarem seus antigos rituais, no final o que vemos é uma canção ao som de tambores e o ritmo de dança tipicamente africano. 

Sobre a guerra o herói Mai Mais encontra na bíblia as justificações para tudo que fez, e eles acreditam que estão protegidos pela água para lutar, e citam a bíblia sobre isto, mas são capazes de imensa crueldade, como violentar crianças, mulheres, não por necessidade ou prazer, mas para destruir. 

É sempre interessante e instrutivo conhecer outros povos e sua cultura. Vemos apesar de tudo pelo que este povo passou uma alegria, principalmente eles adoram dançar e cantar. Lembrei-me do livro O Sagrado e o feminino de Cathérine Clément, já postado aqui no blog, sobre a questão das cerimônias religiosas, mesmo cristãs, e que as mulheres entram em transe. No filme vemos isto. Há tristeza também, crianças pequenas trabalhando, a falta de ajuda externa que faz com que este povo ele mesmo tente recuperar seu país da forma mais arcaica, braçal, mas acreditando nisto. 

É a história de um povo e de seu país, para os quais o Rio Congo é de suma importância. 

Thierry Michel nasceu em 1952 em Charleroi, Bélgica. 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

FILME: GABBEH - 1995


Direção: Mohsen Makhmalbaf - 1995
Duração: 76 min

Que filme lindo! pura arte.

Um casal de idosos (Rogheih e Hossein Moharami) lavam seu gabbeh, um tapete tecido pelas mulheres que registra os acontecimentos de uma vida. Uma jovem surge, ela se chama Gabbeh (Shaghayeh Djodat) e os três contam a história que está escrita no gabbeh. É a história do casal de idosos e do quanto foi complicado eles poderem ficar juntos, pois sempre tinham que esperar. Primeiro pelo pai que havia viajado, depois o casamento do tio (Abbas Sayah), e mais uma vez tem que esperar pelo parto da mãe, e depois é o luto e assim vai. Gabbeh é ao mesmo tempo o espírito do tapete e a que o teceu contando nele sua vida, seus sonhos, desejos, dores e suas fantasias.



O diretor viajou até as remotas estepes do sudeste do Irã para documentar a vida de uma tribo nômade, os ghashghai. São eles que tecem este tipo de tapete que é tanto uma forma de arte como um registro autobiográfico. O diretor então quis fazer um filme sobre as tecelãs dos gabbeh. Ele além de viajar pela região também estudou vários documentos sobre o gabbeh. Os motivos e as cores destes tapetes são inspirados pelos acontecimentos. Há um momento no filme que o Tio fala para as crianças sobre as cores, e encantei-me quando ele diz: o azul do céu mais o amarelo do sol resulta no verde das plantas. E sim, misturando azul e amarelo, teremos verde. Então é assim que as tecelãs escolhem suas cores, como na hora da morte é o negro, o deserto é o amarelo, o azul para o rio.



A poesia também está presente. Quando a mãe dá a luz as pessoas cantam e gritam: Vida é cor! Amor é cor! Também na morte quando o Tio grita: Vida é cor! Morte é.. e mostram a lã negra.

É interessante porque no Irã a mulher não tem voz, mas me lembrando as Arpilleras do Chile, elas encontram uma forma de se expressar. 

Tecer é entrelaçar os fios uns nos outros, como na vida entrelaçamos as relações, o passado, o presente e o futuro. Vamos construindo nossa história. O tapete não conta apenas a história do casal de idosos, mas também a do tio, a vida da tribo, tudo isto formando a trama do tapete.


Mohsen Makhmalbaf nasceu em 1957 em Teerã, Irã

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

DOCUMENTÁRIO: O PODER DO MITO PARTE TRÊS - 1988



São dois DVDs com as entrevistas de Joseph Campbell com Bill Moyers
Duração:354 min

Joseph Campbell é um consagrado estudioso de mitos. Nestas entrevistas ele fala sobre mitos, história, religião, filosofia, psicologia, arte e cinema. As entrevistas aconteceram no Rancho Skywalker e no Brasil foram exibidas pela TV Cultura.

É notório a paixão e o prazer que Campbell sente ao falar destes assuntos, ele se encanta, ele vibra, ele nos transmite lições para a vida e sobre como viver.


PARTE 3 - OS PRIMEIROS CONTADORES DE HISTÓRIAS

Esta parte do documentário é realmente fabuloso. Fala dos mitos, dos ritos de passagem e do que isto significa em nossas vidas e modo de viver e olhar o mundo. Infelizmente atualmente os ritos estão diminuindo, ou estão perdendo seu sentido e com isto seu efeito, e com isto temos este mundo violento, onde não se respeita mais o outro, onde não se respeita a natureza e os animais.

Campbell segue o difusionismo e também Jung com o inconsciente coletivo, mas isto não entra em conflito com minha visão da psicanálise e do estruturalismo. Para Campbell temos os registros do pré-histórico no inconsciente e na mente e por isto ao vermos os traços disto o sentimos. Como quando vemos uma pintura rupestre por exemplo, ou quando vivenciamos algo que nos remete a estes tempos. Eu acredito que recebemos através da cultura, do social e da palavra todo este conhecimento e que está em nosso inconsciente.
O mitos servem como guias para a vida espiritual, para colocar a mente e o corpo em acordo. Os rituais são a representação do mito e eles nos ajudam nas passagens da vida até a morte. E talvez seja a falta deles ou a não-crença neles que transforma o mundo no que vemos hoje.

Campbell nos diz que o problema das crianças serem educadas em um mundo de disciplina, obediência e dependência de outros é que ela precisa transcender isso ao chegar a maturidade. Na Índia se muda de roupa e de nome quando se passa de um estágio para outro. Os povos ditos primitivos tem seus rituais de iniciação, quando o menino passa a ser homem. As meninas é diferente, pois seu corpo é a vida, e com a primeira menstruação ela se torna mulher. O menino precisa receber isto do social.

Quando nos aposentamos precisamos criar uma nova forma de vida, de pensar sobre a vida. Deixar para trás as realizações e entrar no mundo do prazer e da apreciação e do relaxamento por meio de tantas maravilhas. Esta visão de Campbell é perfeita, me reconheço nela neste momento da minha vida. Ele diz que o problema não é a morte, mas sim a meia idade onde se chega ao auge do corpo que então começa a decair, então é chegado o momento da consciência.

Os ritos de passagem da infância para a adolescência, depois para o adulto e então para a velhice. Eles nos estruturam.

Campbell também fala dos tempos em que matar um animal necessitava de um ritual, pois matar o animal perturbava, e era necessário agradecer, apaziguar. Fala também do totemismo. E algo que ele diz no documentário é muito importante: " Um ego que vê um "vós" não é o mesmo que vê um "isso". Na guerra transformam as pessoas em "isso" para que não sejam "vós". Infelizmente no atual os egos estão mais para o isso do que para o vós.

O ritual serve para elevar, para tirar para fora, não para aconchegá-lo de volta ao lugar onde você sempre esteve. Os mitos mudam segundo os tempos, mas a estrutura permanece a mesma.

Finalmente ele nos fala do xamã que é uma pessoa que no final da infância ou início da adolescência seja homem ou mulher, teve uma experiência psicológica fortíssima que a deixou inteiramente voltada para si mesma. Seu inconsciente se abriu por inteiro e a pessoa caiu lá dentro. A experiência do xamã é um tipo de ruptura esquizofrênica. Morte e ressureição, estar no limiar e voltar, pessoas que tem sonhos muito profundos. O sonho é uma grande fonte do espírito, encontros místicos.

Vale a pena assistir.

https://www.youtube.com/watch?v=yHF8gRsdOXc


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

FILME: A AVÓ GRILO: O MITO DA DONA DA ÁGUA - 2010


Direção: Denis Chapon -2010
Duração: 12 min - Curta
Título Original: Abuela Grillo 

Projeto um filme por país.  País: Bolívia

Um curta de animação baseado numa lenda que é contada milenarmente pelo povo Ayoreo da Bolívia.

No princípio havia uma avó que era um grilo chamada Direjná, ela era a dona da água e por onde passava cantando com amor a água brotava da terra, das nuvens, das torneiras. Uma vez ela cantou e houve uma inundação e seus netos ficaram muito bravos e a agrediram. Ela então foi embora muito triste. Ela vai para a cidade onde acaba enganada por empresários que depois a aprisionam e a fazem cantar sem parar e passam a engarrafar a água e a vendê-la. Como a avó grilo não canta mais na natureza há uma seca que tudo destrói. É então que seu neto vai para a cidade em busca de água e descobre que a vó está presa nas mãos dos empresários, de quem há havia tentado fugir mas foi pega de volta. É hora de lutar para libertá-la, pois todos estão sofrendo, o povo e a avó que está muito triste.

É uma animação em prol da natureza e contra o capitalismo que a tudo mercantiliza. Foi realizado por oito animadores bolivianos sob a direção de um francês Denis Chapon e foi feito na Dinamarca.

O mito vai além da animação e conta que quando a avó grilo retornou havia coisas que já não eram como antes, como o fogo que agora era usado para cozinhar os alimentos. Ela não se sentiu bem com este calor, e então resolveu ir visitar os oitos céus que os Ayoreo tem e escolheu morar no quarto céu que era o mais úmido, e de lá poderia continuar a enviar água para seu povo, através da chuva. Para o povo Ayoreo a palavra tem poder e portanto o mito só deve ser contado na época da seca e jamais no tempo das inundações e muitas chuvas.

O canto da avó grilo é belíssimo e é da cantora Luzmilla Carpio, indígena que trabalha com instrumentos sonoros andinos. Os Ayoreo tem forte ligação com a natureza e habitam regiões da Bolívia, Paraguai e Argentina.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=xLdf8YS0Tww




Denis Chapon 

domingo, 12 de outubro de 2014

FILME: SAMSARA - 2001


Direção: Pan Nalin - 2001 
Duração: 145 min 

Primeiro filme do meu projeto um tour pelo Mundo.
País: Índia 

Tashi (Shawn Ku) é um jovem monge tibetano que retorna ao mosteiro após passar mais de 03 anos em meditação numa gruta. No caminho de volta ele lê numa pedra: "como impedir que uma gota d'água seque ao sol?".
Tashi retoma sua vida no mosteiro onde está seu cão que o aguardou. A vida destes monges é meditativa, mas eles tem muita alegria, falam, riem, e tem seus rituais que são belíssimos. Numa destas apresentações Tashi vê o seio de uma mulher que amamenta e isto o desnorteia. O Rinpochey pede que o levem à cerimônia da colheita para que respire um pouco de ar. Muitas crianças são levadas para lá pelos pais aos cinco anos de idade para se tornarem monges, mas vê-se que comportam-se como crianças, com toda alegria.




Na cerimônia da colheita ele vê Pema (Christy Chung) por quem se apaixona. Retornando ao mosteiro ele começa a sentir o desejo, se masturba, e Apo (Sherab Sangey) lhe dirá que é preciso escolher. Tashi argumenta que ele foi uma das crianças que desde os 5 anos está na vida de monge, que ele não conhece a outra, e que Sidarta viveu uma vida mundana até os 29 anos, e que talvez ele tenha alcançado a iluminação por ter vivido esta vida antes. Ele parte.

Se casa com Pema e eles tem um filho. Tashi passa a viver como um homem comum, trabalha na colheita, mas aos poucos ele vai descobrir que o mundo tem trapaças, que os pobres são os mais fracos, que os ricos dominam e fazem o que querem, descobrirá a vingança, a violência, e que o desejo é algo que não se sacia. É um aprendizado, "tudo que você contatar é um lugar para praticar o caminho.".

Mas Tashi não vai suportar o real, e então parte de noite para voltar ao Mosteiro após receber uma carta de Apo que acaba de morrer lhe dizendo que numa próxima vida quem sabe ele poderá lhe responder se o que vale mais são mil desejos satisfeitos ou apenas um conquistado. No rio onde se banha ele olhará no espelho que está quebrado, numa alegoria de que somos cindidos, e não absolutos, há muitas opções, e ele agora experimentou a vida no mosteiro e a vida mundana, e isto não se apaga mais.

Pema irá atrás dele e lhe contará a história da esposa de Sidarta e de seu filho, porém Tashi não recua, e ela parte, mas antes lhe entrega o amuleto da boa viagem. Neste momento Tashi descobre a dor, o sentir a dor. Neste momento ele encontra a pedra que viu quando retornava ao mosteiro após sua reclusão na gruta e a virará e terá a resposta à pergunta.

Esta cena com Pema lhe falando é brilhante, ela nos fala do homem e da mulher de uma maneira que todos nós podemos compreender. A resposta da pedra, Pema a havia dado antes num ensinamento para as crianças. Um galho na água do rio onde irá parar? impossível de saber, mas há várias possibilidades, mas para alcançar o fim do rio terá que passar pelas pedras, a correnteza, o redemoinho, a cachoeira, um oceano de obstáculos e a incerteza de chegar lá.

O filme tem paisagens belíssimas e fico fascinada pela diversidade de culturas. Há passagens como o casamento tibetano, o ritual no mosteiro, as músicas, que me encantaram. Antes de abandonar a vida no mosteiro, Tashi irá até um local nas montanhas e verá desenhos eróticos, de uma estética da vida e morte que fiquei impressionada. Sim, o sexo é o antídoto da morte, é vida, dá a vida.



Samsara significa para o budismo tibetano a repetição do nascimento/morte até que se adquira a sabedoria e se torne iluminado.
Pan Nalin nasceu em Gujarate, Índia. Vive entre a França e a Índia. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

FILME: METEORA - 2012


Direção: Spiros Stathoulopoulos - 2012
Duração: 82 min
País: Grécia 

Metéora é um dos maiores complexos de mosteiros do Cristianismo Oriental. Foram construídos sobre rochas de arenito na Grécia Central. Os monges eremitas fugindo dos otomanos encontraram nas cavernas dos rochedos de Metéora um lugar ideal para se refugiarem. Foram construídos em torno de 20 mosteiros dos quais restam atualmente apenas seis, sendo que cinco são masculinos e um feminino. É neste local que o filme se passa.

Theodoros (Theo Alexander) vive em um destes mosteiros. É um monge do cristianismo ortodoxo. Em frente ao seu mosteiro, separados por um abismo e uma rocha onde há uma árvore vive Urania (Tamila Koulieva), uma freira. Os dois se apaixonam e se vêem frente uma escolha entre a fé e o desejo.



O filme é repleto de simbolismos. O que mais me tocou foi o labirinto que é representado através de desenhos animados lembrando a arte bizantina. O labirinto é extremamente simbólico, como um retorno ao centro para enfim alcançar a liberdade, e no filme quando o Theo animado entra nele levando um bola de lã, numa referência ao fio de Ariadne, alcança o centro ele encontra Cristo na Cruz, e então ele lhe prega as mãos na cruz provocando um mar de sangue que o leva de volta para onde está Urania. Para alguns pode simbolizar o inferno, mas o sangue também é a vida.

O desespero é considero o maior pecado, o único que não tem perdão. Mas também pode levar à liberdade e ao amor. No início do filme vemos um retábulo onde Theo e Urania estão separados por uma imagem dos dois mosteiros e Deus acima. Ao final do filme voltamos a este retábulo, mas já com mudanças.



Os mosteiros parecem estar no céu, muito acima do mundo, da vida que corre abaixo dele. E os dois se encontram neste plano inferior. Quando retornam tentam expiar o pecado, ele com orações e ela queimando sua mão, mas o desejo fala, e há uma bela cena de Urania tocando seu corpo se masturbando. Ela tenta não ver os sinais que Theo lhe envia usando espelhos para que o sol brilhe do outro lado, mas finalmente numa lembrança à Rapunzel ela irá estender seus cabelos que crescerão e irão até o outro lado.

O cenário é belíssimo, e podemos ver detalhes dos costumes do povo e também rituais dos monges. De minha parte apenas não gostei do abate de um cabrito para servir de almoço para Urania, feito por Theo. A cena é muito triste, o animal grita desesperado, também desesperado. O filme nos traz em muitos momentos a questão da natureza com a civilização, da razão com a fé, mas principalmente do desejo, e este, será da natureza ou da cultura? Será o urso que come o figo ou o homem? como vemos na animação?


Veja o trailer:


Spiros Stathoulopoulos  nasceu em 1978 na Grécia. Mudou-se com sua família para a Colômbia.

Assista imagens de Metéora na Grécia

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: O PODER DO MITO Joseph Campbell com Bill Moyers - 1988




São dois DVDs com as entrevistas de Joseph Campbell com Bill Moyers
Duração:354 min

Joseph Campbell é um consagrado estudioso de mitos. Nestas entrevistas ele fala sobre mitos, história, religião, filosofia, psicologia, arte e cinema. As entrevistas aconteceram no Rancho Skywalker e no Brasil foram exibidas pela TV Cultura.

É notório a paixão e o prazer que Campbell sente ao falar destes assuntos, ele se encanta, ele vibra, ele nos transmite lições para a vida e sobre como viver.

1ª  Parte - A SAGA DO HERÓI 

Nesta primeira parte Campbell nos desafia a ver uma jornada heroica em nossas vidas. Não o herói inalcançável para nós, mas o herói que todos nós somos. Ele também escreveu o livro "O herói de mil faces" sobre este tema.
Quando ele nos fala dos dragões e dos cavaleiros medievais que os matavam ele traz este dragão para um dragão interior, que são os obstáculos, nossos medos, aquilo que nos impede de fazer algo, portanto todos nós temos dragões para matar. Além disto ele diferencia o dragão ocidental da idade média do dragão oriental que tem outro significado. Nesta primeira parte ele nos mostra como os mitos e as histórias nos ensinam a enfrentar os dragões.
Ele também fala da arquitetura, e isto me chamou a atenção. Antes a catedral era o edifício mais alto de uma cidade, depois passou a ser o edifício político, como o parlamento e finalmente hoje são os prédios imensos onde estão os escritórios das grandes empresas, bancos, mostrando como a arquitetura acompanha este processo de valores numa sociedade.
Irá falar também do sagrado, do que é o sagrado independentemente de uma religião. Do quanto o mito relata as passagens na vida, iniciação, separação e retorno. Precisamos nos tornar independentes e os mitos nos ajudam nisto.

Você pode assistir a esta parte no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=C_wuZnoP6NY


2ª Parte - A MENSAGEM DO MITO 

Nesta parte ele fala do que é o Mito, para que serve, e de como todas as histórias se parecem. Ele começa com o Gênesis e depois nos relata outras que também falam da criação do mundo. O mito é utilizado quando não temos palavras para falar do mistério, do que nos transcende. E sempre levando em conta a época que o mito foi criado nos explica que a cada época precisamos de novos mitos que nos orientem e que atualmente está faltando um mito e que muitas vezes as pessoas se apegam a mitos que não lhes servem para nada.

Para Campbell não se trata do sentido da vida, mas do viver, da experiência de viver. Ele considera o eterno o aqui e agora, e não algo lá na frente. Faz algumas comparações entre as religiões ocidentais e as orientais onde não existe o pecado original e sobre a serpente assim como a mulher que simbolizam a vida e por isto são os culpados de tudo. A vida é sofrer, e há uma tendência sempre em colocar a culpa no outro.

Também disponível no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Bwm0N89EyO8


domingo, 3 de agosto de 2014

FILME: A FESTA DE BABETTE - 1987


Direção: Gabriel Axel - 1987
Duração: 102 min
Título Original: Babette's gaestebud 

Adaptação do conto de Isak Dinesen pseudônimo de  Karen Blixen do livro A festa de Babette e outras anedotas do destino. 

1871 - Em uma península da Dinamarca  vivem duas irmãs, Filippa (Bodil Kjer) e Martine (Birgitte Federspiel)  cujo pai falecido foi um rigoroso pastor luterano, aparece uma mulher chamada Babette (Stéphane Audran) , refugiada da França, cujo marido e filho foram assassinados durante e a Comuna de Paris, pedindo asilo e abrigo. Ela bate a porta das duas irmãs que após lerem uma carta que ela traz consigo a recebem em sua casa. Esta história começa muitos anos antes.



É uma comunidade luterana, e aqui vale lembrar como nos mostrou  Max Weber em seu brilhante "A ética protestante e o espírito do capitalismo" que se trata de uma religião que abole o intermediário com Deus, não há como se confessar a um padre que perdoa e lhe dá uma penitência, absolvendo-o dos seus pecados podendo reiniciar tudo, não, aqui Deus vê tudo e a melhor forma de garantir sua salvação é o trabalho e o ascetismo. Não há lugar para o prazer, para a vida mundana.



Os luteranos não se afastam totalmente da sexualidade, porém esta se limita ao casamento e á procriação. O pastor tem duas filhas jovens e muito bonitas, vários rapazes a desejam e frequentam os cultos somente para vê-las, mas não é desejo do pai vê-las casadas, são como ele diz: sua mão direita e esquerda. A vida de ambas é regida pela retidão do espírito por se separar do corpo. A comida é apenas uma forma de se manter vivo, não um prazer, é insípida, é por ser necessária.

Loewenhielm se apaixona por Martine, mas apesar dela sentir seu corpo reagindo ela o recusa. Ele é o mundo mundano, vaidoso e cheio de ilusões. É como uma interpenetração de dois mundos, que se tocam, mexem, mas recuam. Ele havia ido para a aldeia para pensar sobre si mesmo. Achille Papin um tenor chega a aldeia e se apaixona por Filippa e sua bela voz. Torna-se seu professor de canto, mas a música os aproxima demais, aproxima os corpos, e ela toma a decisão de não ter mais aulas. Ambas se sacrificam. Elas precisam manter a retidão e escapar ao pecado original, precisam de autocontrole, usam a negação de si mesmas e a austeridade para alcançar isto. Lembremos que não há confissão, não há penitência, então é o sacrifício, o controle que garante a salvação.

Babette virá com a carta de Papin, e assim ela ficará com as irmãs. Vive com elas por 14 anos até que ganha na loteira e recebe 10 mil francos. Na mesma ocasião as irmãs preparam-se para homenagear o pai que completaria 100 anos caso estivesse vivo. É então que Babette pela primeira vez pede algo às irmãs: prepara um jantar francês para este dia. No início elas relutam, mas acabam aceitando.

Neste ínterim percebemos que a comunidade começa a sofrer os conflitos dos humanos, a inveja, o ciúme, cobranças, passar a perna no outro, e tudo isto é pecado.

Quando as irmãs vêem os ingredientes para o jantar chegando elas se assustam e procuram seus irmãos de fé, estão apavoradas, com medo e culpa. Então eles fazem um pacto entre si, não falarão nada sobre a comida e a bebida durante o jantar. É uma recusa aos apelos sensuais, e a língua será usada para louvar, não para sentir os prazeres.

No dia do jantar os convidados chegam e entre eles está o general Loewenhielm que veio visitar sua tia. A mesa está posta com muito requinte e sofisticação. Babette está na cozinha, feliz, finalizando os pratos e instruindo um rapaz que serve à mesa. O cocheiro que levou o general e sua tia também está ali e poderá provar das delícias que ali estão. O jantar é servido, a francesa, um prato atrás do outro, uma bebida atrás da outra de acordo com o prato. Mas ninguém fala nada sobre tudo isto, se recusam a ver, com exceção do general que está encantado com tudo aquilo e reconhece cada bebida, cada prato, inclusive citando uma chef de cozinha num restaurante em Paris que tinha por especialidade codornas no sarcófago e que foi uma criação sua. É ignorado.



Mas aos poucos eles não resistem. Estão diante de uma arte, diante de uma revelação. Vamos notando olhos começando a brilhar, rostos ficando vermelhos, um leve sorriso, e aos poucos eles também começam a deixar de lado suas rusgas e conflitos. Estão se embriagando de corpo e alma. E é isto que o filme nos mostra, que temos apetite físico e espiritual que os dois não são excludentes, pelo contrário, se completam para tornar a vida melhor, sem que com isto estejamos pecando, para usar a linguagem da religião.

O jantar promove a união de todos, os desejos a tanto tempo reprimidos aparecem, eles perdem seu ar carrancudo e austero para sorrir, acolher um ao outro.

A comida é algo que representa a vida, é nascimento, afastando a morte. Levi-Strauss diria que ela é boa para pensar e é feita para ser compartilhada. A cozinha francesa neste filme permite despertar o lado bom, a inteligência, o amor, ao contrário da austera que bloqueia e reprime. Cozinhar é uma arte.





Por outro lado o filme também mostra a natureza na cozinha, quando vemos animais vivos e mortos, sangue, mas que após preparados se transforma em algo civilizado. A passagem da natureza para a civilização. O sonho das irmãs com o inferno e animais mortos e comida, a repressão do desejo que aparece ali.

Babette finalmente diz ás irmãs que ela era uma chef na França, no Café Anglais e que era uma artista.

Gabriel Axel nasceu em 1918 em Aarhus, Dinamarca e faleceu em 2014 em Bagsvaerd, Dinamarca

sexta-feira, 4 de julho de 2014

FILME: A ANTROPÓLOGA - 2011


Direção: Zeca Pires - 2011 
Duração: 90 min 

Na Costa da Lagoa em Florianópolis, num reduto açoriano Malu (Larissa Bracher) realiza sua pesquisa de doutorado em etnobotânica. Dona Ritinha (Sandra Ouriques), uma benzedeira local inicia Malu no aprendizado de uma cultura mística que os descendentes do açorianos mantém no local.

Ao acompanhar o tratamento de Carolina (Rafaela Rocha de Barcelos) , filha do médico local, Malu entrará em contato com o sobrenatural que desafiará suas crenças científicas. Malu se verá entre a razão e a imaginação, o efeito do simbólico, das crenças, e também da magia. Malu irá se enfrentar e tomará um caminho do qual não há retorno e que a transformará.

Um filme sobre crenças e seus efeitos.


Zeca Pires (José Henrique Nunes Pires ) nasceu em 1961 em Florianópolis- SC. Realizou vários documentários e curtas sempre sobre a cultura de Santa Catarina, focando principalmente nos habitantes da Ilha de Florianópolis.