Mostrando postagens com marcador Jean-Luc Godard. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jean-Luc Godard. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de julho de 2015

FILME: JE VOUS SALUE, MARIE - 1985


Direção: Jean-Luc Godard - 1985
Duração: 102 min
Roteiro: Jean-Luc Godard 
País: França - Suíça

Filme que causou tanta polêmica e escândalo e que eu não havia assistido. No entanto o que encontro neste filme é pura arte. Uma nova maneira de contar a história de Maria e José, mas dentro de um contexto moderno, mesmo que em vários momentos do filme apareça escrito Naquele tempo.. , mas o que justamente o filme nos lembra a da contemporaneidade da história que não se perdeu lá atrás e que é possível trazer este mistério para o mundo atual com um casal jovem que nunca transou e justamente por isto deixa José (Thierry Rode) incrédulo  no começo sobre Maria (Myriem Roussel) ser virgem e estar grávida. 

Paralelamente temos a história de um professor de ciência (Johan Leysen) que estuda a origem da vida e tem um caso com uma de suas alunas, Eva (Anne Gautier), não à toa chamada de Eva, e que come uma maçã. 

José trabalha como taxista e está sempre com seu cachorro e Maria estuda, joga basquete e ajuda seu pai no posto de gasolina. Vemos um avião sobrevoando para aterrissar e depois vemos Gabriel acompanhado de uma menina maliciosa. Gabriel não se pode dizer que seja um primor de delicadeza, nem um pouco angelical digamos, mas é ele, o anjo Gabriel que vem até Maria e que depois irá de maneira um tanto grosseira e bruta abrir os olhos de José para que ele acredite, para que creia, para que confie, o que no final acabará ocorrendo, mas não sem antes ele se debater muito e inclusive se aproximar de Juliette (Juliette Binoche), mas que não conseguirá conquistá-lo. 

Como estamos na modernidade o que Maria enfrentará é o ceticismo, até mesmo do médico que a viu nascer que ao constatar sua virgindade e ao mesmo tempo a gravidez, não consegue conceber que ela não tenha tido algum contato com José. Não há escândalo, há indiferença, ok!, então que assim seja. Ela também irá duvidar do amor de José ao saber de seus encontros com Juliette. 

Finalmente eles se acertam e passam a viver junto, a criança nasce. Mas Maria não é diferente das outras mulheres, ela gosta de se vestir bem, não é uma santa, e a castidade que lhe é imposta pesa, ela tem desejos e tem que lutar contra esta tentação. É um percurso espiritual, onde ela quer que a alma seja corpo. Não se trata de uma Maria passiva, ela tem que alcançar algo, se superar, estar acima dos outros, é este seu percurso e que não é fácil, ela é humana. Com isto ela se encontra na solidão, aquela de todos que são diferentes, mas a dela é maior. 

O professor de ciências não consegue afinal explicar a origem da vida, há um ponto onde ele não consegue mais e tem que admitir que há algo maior. José também quer compreender, quer saber tudo, é cego, não consegue ver além da ciência, do materialismo. Para ele é o corpo que age sobre o espírito e terá que percorrer seu caminho de crescimento também até encontrar o amor. 



No final vemos um casal banal, o filho parte, Maria sabe que tem que ser assim, mas ela volta a ser uma mulher como qualquer outra, perde sua pureza. 

Há algo na mulher que é mistério, mas na modernidade atual isto se perdeu, nem mesmo Maria o mantém, nem mesmo quando o anjo Gabriel a saúda, ele por um momento faz com que ela lembre, vem algo, mas ela retoma a vida cotidiana e banal. 


Jean-Luc Godard nasceu em 1930 em Paris, França 

sábado, 31 de janeiro de 2015

FILME - ADIEU AU LANGAGE - 2014



Direção: Jean-Luc Godard - 2014
Duração: 70 min
Título em português: Adeus à linguagem 
País: França 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014 

Me deixei levar pelo filme de acordo com o que eu fui captando. Primeiramente gostaria de dizer que apesar das sinopses em português, não há nenhum cachorro que fala, que intervem devido a falta de comunicação de um casal. Há sim, um cachorro que anda por ali, no campo, na cidade e acaba no meio deles, é Roxy, e ao qual se empresta uma voz sobre o que seriam seus pensamentos. 

Uma mulher casada encontra um homem livre, eles não conseguem se comunicar, o marido dela aparece querendo explodir tudo, matar. O que temos é o masculino e o feminino, relação impossível apesar de toda nossa insistência. Logo no início, surge a frase:

" Todos aqueles que lhes falta imaginação se refugiam na realidade. Resta saber se o não-pensar contamina o pensamento" 

O filme nos mostra o mundo atual onde cada vez mais se perde a comunicação e se prende em fatos, mídia, no dia a dia corrido e sem sentido. Mas ele também traz o recalcado da Segunda Guerra, que não acabou, uma vez que se diz no filme: a guerra só acabou para os mortos. 

Se divide em A natureza e a metáfora, enquanto as estações do ano passam. Sim, a linguagem é o que nos faz sair da natureza e entrar na civilização, é o que nos diferencia do animal, mas será? aqui o cachorro se sai melhor do que os humanos. Para falar precisamos das metáforas, e o que usamos? principalmente a natureza. 

Outra frase do filme: " ninguém poderia pensar livremente se seus olhos não pudessem deixar outros olhos que o seguiriam. Desde que os olhares se encontram, se pegam, não somos mais deles." Como se desvencilhar do Outro? estamos sempre sendo seguidos por outros olhos, não só os externos, mas principalmente os olhares internalizados. E continua com o cachorro - "Há dificuldade de ficar sozinho. Não é o animal que está cego, mas o homem cegado pela consciência é incapaz de olhar o mundo. O que está no exterior escreveu Rilke nós o sabemos através do olhar de um animal, e então uma citação de Darwin que diz que o cachorro é o único ser na terra que te ama mais do que ama a si mesmo. "

Um deles diz: o face a face inventa a linguagem. Só os seres livres podem ser estranhos um dos outros. Eles tem uma liberdade comum, partilhada, mas exatamente isto os separa. Eu falo = sujeito. Eu escuto = objeto. 
Desde o nascimento somos vistos como um outro e somos forçados a entrar em nosso personagem. Eu posso saber o que pensa outra pessoa, mas não posso saber o que eu penso. É uma sorte que posso falar. 

O filme com seus cortes, montagens, sons, imagens, é como um bricolage. Mas se atentarmos que estes cortes, desencontros, faltas ocorrem constantemente na linguagem, onde um não escuta o outro, não compreende o outro, não há nada de estranho. O que é a linguagem? como ela atua atualmente? 

Uma frase que se repete: Você está repleto do desejo de viver. Eu estou aqui para lhe dizer não! E para morrer. 

Aqui é o real na voz do feminino, o que é viver? é morrer! Ela diz não! seria um não à ilusão? Ele lhe diz que ela reclama a igualdade, e responde que ela só é possível quando se defeca, o único lugar onde todos são iguais. 

É o primeiro filme de Godard que assisto, portanto não falo sobre sua arte, não a conheço, mas sobre uma versão pessoal do que o filme me afetou. 

Cada vez mais estamos sujeitos ao outro e ao Outro, a liberdade só é possível com a consciência deste Outro que nos domina, o personagem que habita em nós e nos foi dado, seja pela família, seja pelo social, pela religião, pelo Estado, pela moral, pelos costumes. Nos iludimos no amor, queremos agradar para sermos amados e não tomamos consciência que uma relação entre um homem e uma mulher é impossível, eles não se encontram, vivem juntos, convivem, mas são diferentes, e acho que o mérito deste filme é isto, mostrar que o masculino e o feminino não se encontram, nem mesmo a linguagem o possibilita, ao contrário, ela possibilita a ilusão deste encontro, o que não ocorre no filme, uma vez que eles não se entendem, não conseguem se comunicar, o cachorro faz o elo, e mais tarde quem sabe filhos. 

Por outro lado o mundo está se estranhando. A cada dia vemos mais preconceitos, racismos, xenofobia, e a grande dificuldade de aceitar o outro, o estranho, que não fala sua linguagem, que fala diferente. E isto começa no menor núcleo, ou seja, na relação de um casal, seja ele homossexual ou heterossexual, não importa, é sempre um outro que está ali. 

Não é um filme que agrade a muitos, não é filme para entretenimento, ele não é linear, não tem uma história com começo meio e fim, são pedaços, montagens, como um blá blá blá que é o que mais ouvimos atualmente, como a fala que não se encontra, e que vai de uma coisa à outra sem criar laços. 


Jean-Luc Godard nasceu em 1930 em Paris, França