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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: MINHA MÃE - 2015



Direção: Nanni Moretti - 2015
Duração: 107 min
Título Original: Mia Madre
País: Itália - França

Um filme sensível sobre uma mulher, Margherita (Margherita Buy) diante de todos os desafios que uma vida impõe. Diretora de cinema está iniciando as filmagens de um filme que tem como protagonista um astro americano, Barry Hughins (John Turturro). Por outro lado sua vida pessoal não está fácil. Acaba de se separar de seu companheiro, tem uma filha adolescente, e sua mãe (Giulia Lazzarini) está internada no hospital. O contrapeso é seu irmão Giovanni (Nanni Moretti) que está ao seu lado diante de todas estas situações difíceis, principalmente a questão da mãe.

Margherita me parece viver em conflito com o que deseja e o que faz, tem dificuldades em se relacionar com os outros afastando-os, mas ao mesmo tempo se sente só. Ela está tão focada em si mesma que nem toma conhecimento que sua filha esteve perdidamente apaixonada e que sofreu muito com isto, o que acabou interferindo em seus estudos. Quando fica sabendo disto através de sua mãe, ela reage mais preocupada com o fato dela não ter se apercebido do que com o sofrimento que a filha enfrentou. 

Sua mãe é uma doente terminal, ela está morrendo. Margherita não consegue lidar com isto. Através de suas lembranças ela vai se culpando ao mesmo tempo que não consegue aceitar a velhice e a doença de sua mãe. Isto fica nítido na cena onde sua mãe que quer ir ao banheiro e deseja fazê-lo sem a ajuda de enfermeiras ou o uso da cadeira de rodas não ultrapassa os três primeiros passos e é vencida pelo cansaço. Margherita não consegue aceitar isto. O ambíguo é a recordação de uma cena onde sua mãe insiste em dirigir seu carro e ao estacionar acaba esbarrando no da frente levando Margherita a ter uma atitude autoritária, rasgando a carteira de habilitação da mãe, com isto considerando-a inapta para continuar a dirigir. Não lhe passa pela cabeça que sua mãe é um sujeito e que pode arcar com este pequeno incidente. Para encerrar de vez com isto Margherita simplesmente destrói o carro jogando-o várias vezes contra a parede.

O filme é sobre o crescimento desta mulher que confrontada com várias questões difíceis ao mesmo tempo, seja no trabalho onde ela deve lidar com um ator que não se deixa dominar por ela, como sua equipe que acaba sempre abaixando a cabeça, seja com a doença da mãe, seja com seus relacionamentos amorosos, seja com uma filha adolescente. 

Giovanni está ali para que tudo não fique trágico demais, apesar de que ele também sofre com a questão de sua mãe, e tem que fazer escolhas em sua vida, mas ele as faz. Ada,a mãe, é justamente o oposto da filha, sempre soube estar próximas as pessoas e ser amada por elas. Parece-me que a identificação da filha com a mãe é pelo seu oposto, como se ela tentasse ser diferente, mas ao final ela irá perceber o quanto as lições de sua mãe foram fundamentais para que ela possa viver melhor, sem precisar ser igual a sua mãe. 



Nanni Moretti nasceu em 1953 em Brunico, Itália 

FILME: NOSTALGHIA - 1983



Direção: Andrei Tarkovski - 1983
Duração: 120 min
País: Rússia - Itália

Ganhador de três prêmios no Festival de Cannes de 1983 - Melhor diretor, Prêmio do juri ecumênico e Prêmio FIPRESCI. Foi indicado ao Palma de Ouro.

Tarkovski dedicou este filme à sua mãe. É seu primeiro filme fora da Rússia durante seu exílio na Itália. Ele mesmo não voltaria à Rússia e o filme fala também de como ele mesmo se sente.

O poeta russo Andrei Gorchakov (Oleg Yankovsky) encontra-se na Itália. Ele empreende uma jornada íntima e busca de si mesmo e de uma nova maneira de viver. Viaja pelo país em companhia de Eugenia (Domiziana Giordano) e chega a um vilarejo no norte da Itália, uma estação termal. Andrei está ali para pesquisar sobre a vida de um compositor russo, Beryózovsky (1745-1777) que viveu na Itália por vários anos até ser tomado por uma nostalgia de sua terra natal retornando. Porém, pouco tempo depois de retornar enforcou-se.



O filme fala sobre a nostalgia que acomete aos que estão longe de sua terra natal, da família, dos costumes, das tradições, da língua materna. Gorchakov encontra-se nesta mesma situação e o filme retrata seu estado mental, como se sente. 

Andrei vive uma situação difícil. Ele fica desorientado com o que vê, com a vida na Itália, principalmente com Eugenia, e não consegue incorporar estes novos momentos, estas situações ao seu passado, à sua história, e também não se liberta do passado, esta preso ali. Ele não consegue falar disto, não partilha seus sentimentos. O diretor Tarkovski chega a se referir ao que chama de "Apego fatal" dos russos à sua terra e origem. Isto me remeteu ao banzo, do povo Banto em relação à sua terra na África. 

O filme é dedicado à mãe de Tarkovski, à sua língua materna a qual ele está preso. É esta língua com todos seus laços afetivos que prende Gorchakov à sua terra. Somente nesta língua ele consegue constituir sua história, e ela está repleta da cultura, do cheiro, das paisagens, dos laços, colocando o exilado numa solidão imensa.



Andrei não responde ao interesse de Eugenia, o que ela não compreende e parte. Somente ao encontrar Domenico (Erland Josephson), considerado o louco da vila por ter mantido sua família durante sete anos presa em casa, ele começa a compreender o que sente. Num momento vemos no local onde mora Domenico - 1+1= 1. Sim, ambos fazem um. Estão presos, não estão ali e nem em outro lugar, onde estão? Andrei anseia pela totalidade da existência, mas não é capaz de encontrá-la, se é que ela existe. 

Já para Slavoj Zizek em seu livro "Lacrimae Rerum" nostalgia é um filme sobre a questão da mulher-mãe. Ele foca sua análise em Eugênia, histérica que tenta seduzir Andrei para satisfazer-se sexualmente e a imagem da esposa-mãe (Patrizia Terreno). Andrei rejeita a mulher histérica, tida como falsa e se apega a figura materna. 

De qualquer maneira em ambas as situações temos uma espécie de inércia, ou seja, ele não se move, quer de alguma maneira ficar no paraíso, retornar às origens, e portanto morre ao final. A última cena filmada na abadia de San Galgano em ruínas onde aparece a casa de sua mãe, a datcha e seu cachorro da infância, representa seu desamparo e solidão na Itália, a abadia que o envolve e seu desejo de retorno às origens, ao seu fantasma.




Andrei Tarkovski  nasceu em 1932 em Zavrazhye, na então União Soviética, hoje Rússia e faleceu em 1986 na França. 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

FILME: THE SEARCH - 2014


Direção: Michel Hazanavicius - 2014
Duração: 134 min
País: França e Georgia

Indicado ao Festival de Cannes 2014 como longa-metragem

Um filme que nos toca profundamente. 

A Segunda Guerra da Chechênia começou em 1999 após vários ataques terroristas dos rebeldes chechênios à Rússia. A questão é que o novo primeiro-ministro Vladimir Putin que liderou a ofensiva apresentou esta guerra ao mundo como uma represália contra terroristas, mas o que realmente ocorreu foi um massacre da população civil. 

O filme nos mostra por um lado este massacre, a fuga da população, as mortes, destruição de suas casas, o desespero e de outro como a Rússia instigava o ódio em seus jovens soldados para que acabassem se tornando máquinas mortíferas contra o ser humano. Ao final do filme tudo se cruza. 

Iniciamos com alguém filmando uma cidade que havia acabado de ser massacrada. Os soldados russos estão provocando um casal alegando que são terroristas, e acabam matando-os sorrindo para a câmera dizendo que foi uma operação anti-terrorista bem sucedida. A filha mais velha sobrevive, e dentro da casa está Hadji (Abdul-Khalim Mamatsuevi) um garoto de 09 anos que tem nos braços seu irmãozinho, um bebê. O soldado russo ouve o choro e caminha para lá. Inicia-se o filme com ele entrando na casa, mas o garoto se escondeu e ele não matou o bebê. O menino viu pela janela quando seus pais foram mortos. Ao ficar sozinho na casa e na cidade ele pega o bebê e parte. No caminho ele deixará o bebê na frente de uma casa e se esconderá até que ele seja recolhido. Ele não tinha como alimentar ou cuidar de seu irmão. Mais a frente ele será recolhido por um caminhão que leva refugiados e desta forma chegará a uma cidade na fronteira. 



Em outro local bem longe dali um jovem (Maxim Emelianov) com um violão nas costas aguarda seu amigo que está comprando uma coca-cola. A polícia chega, o jovem joga seu baseado no chão, mas eles viram e acabam encontrando fumo em seu bolso. É preso e o delegado prefere enviá-lo para o exército ao invés da cadeia. Começa a odisseia do ódio deste jovem. 


Carole (Bérénice Bejo) trabalha para  a União Europeia para os direitos humanos e está no local para fazer um relatório. Helen (Annette Bening) trabalha no centro de refugiados atendendo principalmente as crianças que perderam sua família e pais. É para onde levam Hadji, mas ao ver os guardas armados ele se apavora e foge. Carol irá encontrá-lo mais tarde e lhe oferecerá algo para comer, ele irá aceitar ir com ela. A criança está traumatizada, não fala. O seu olhar é de uma dor profunda.Aos poucos Carol conseguirá vencer um pouco esta barreira até o dia em que ele contará para ela o que aconteceu. Enquanto isso Raissa, a irmã de Hadji os procura desesperadamente. Ela irá encontrar primeiramente o bebê e depois irá trabalhar com Helen, mas ela não sabe que Hadji está com Carol. 

A tristeza da guerra vista pelo lado da população civil com todas as atrocidades que se comete, e no caso do lado Russo também visto o que fizeram com o jovem preso, de como um jovem que tocava violão acaba se transformando naqueles que cometem as atrocidades contra a população com crueldade e prazer. O interessante do filme é que justamente se mostra os dois lados, de como as coisas acontecem e quais suas consequências. 


Michel Hazanavinicius nasceu em 1967 em Paris, França 

domingo, 24 de maio de 2015

FILME: UM HOMEM QUE GRITA - 2010


Direção: Mahamat-Saleh Haroun - 2010
Duração: 90 min
Título Original: Un Homme qui crie

País de origem: Chade

Ganhou o Prêmio do Jurí em Cannes. 

Adam (Youssouf Djaoro) é um ex-campeão de natação e há 30 anos trabalha na piscina de um hotel de luxo na capital do Chade - Djamena, na África. O hotel acaba de ser comprado por chineses e a administração começa a agir de uma maneira diferente, onde antes contava os laços, o tempo, a dedicação, agora é uma questão prática. Primeiro é o cozinheiro que é demitido, ele que sempre cozinhou com amor, e não seguindo cardápios ou receitas sofisticadas. E Adam tem que ceder o lugar ao seu filho Abdel (Diouc Koma) e assumir o lugar de porteiro, uma situação que o fere e incomoda, pois ele considera um declínio social, ele que acreditava que seu lugar de guardião da piscina era um direito divino, principalmente por merecimento pois ele foi campeão de natação e é chamado por todos de campeão. 

O país está passando por uma guerra civil, com rebeldes ameaçando o governo, e a população precisa ajudar o governo, com dinheiro ou enviando seus filhos para lutar pelo país. Adam não tem o dinheiro e passa a viver o dilema de enviar seu filho para a guerra, sendo que é pressionado pelo líder do bairro que acaba lhe dando três dias para decidir. 

Um paralelo entre a vida de Adam e do país, que vai aos poucos perdendo toda sua beleza, tudo aquilo em que se acredita, seus rituais, suas tradições. Adam acaba entregando o filho e passa a sofrer com sua consciência, mas não conta a ninguém o que fez. Ele reassume o lugar na piscina até o dia em que a guerra chega mais perto e todos começam a fugir. A namorada de Abdel havia procurado a família, está grávida. E somente à ela Adam acaba contando o que fez. Ele então parte para buscar o filho. 

Os conflitos de Adam começam no dia que é "expulso" da piscina, seu paraíso. Até ali ele está indiferente à guerra, aos aviões que lhe passam por cima da cabeça. Ao falar com o cozinheiro demitido eles reconhecem que "nosso problema é que colocamos nosso destino na mão de Deus". Começa o desabrochar político de Adam. 

O filme é africano, e portanto não tem um enfoque ocidental. Apesar da questão do destino nas mãos de Deus ser uma referência à catequização imposta, eles não jogam a culpa sobre os colonizadores franceses. Para eles é o homem quem é o responsável por sua vida. 

O Chade vive em guerras civis e pobreza perene, mas segundo o diretor Haroum seu povo sabe que a guerra não é um ato de cima, mas uma criação dos homens.


Mahamat-Saleh Haroun nasceu em Abéché, Chade. Vive na França desde 1982.

terça-feira, 14 de abril de 2015

FILME: TIMBUKTU - 2014




Direção: Abderrahmane Sissako - 2014 
Duração: 95 min

País de Origem: Mauritânia 

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem


Baseado no caso real ocorrido em Aguelhok no Mali em 2012 - Um casal com dois filhos foi apedrejado até a morte por serem casados no papel. O ambiente ficou turbulento, os tuaregues fizeram uma rebelião e declararam independência da parte norte do país, os militares deram um golpe de Estado, e os grupos islâmicos tomaram o controle de partes do território com o objetivo de implantar a sharia. Em 2013 tropas francesas interferiram e recuperaram algumas áreas. Sissako não faz uma adaptação literal do fato.


Nunca um filme me provocou tamanha angústia. Sissako é brilhante!

Estamos em 2012 em uma pequena aldeia ao norte de Mali. Os extremistas religiosos estão no controle do lugar. Nada de cigarros, nada de música, nada de futebol, tudo é proibido. As mulheres tem que cobrir não só o corpo e os cabelos, mas também os pés e as mãos com meias e luvas. 

O que antes era uma aldeia alegre, cheia de vida, colorida, passa a ser seco e árido como o deserto, as pessoas se retraem, outras fugiram. Kidane (Ibrahim Ahmed dit Pino) vive com sua mulher Satima (Toulou Kiki) e sua filha em uma tenda afastado da aldeia. Todos foram embora, só eles ficaram. Ali eles conseguem ainda viver como antes até o dia que um pescador mata uma de suas vacas e ao tirar satisfações com ele a arma que Kidame levava dispara acidentalmente e mata o pescador. Então Kadime se vê nas mãos deste grupo de fundamentalistas.


O filme tem cenas fortes mas mostradas com cortes, e também nos traz Zabou (Kettly Noël) que aparentemente seria meio doida o que a coloca fora das interdições, sendo a única a manter a cor, a alegria no local. Seria necessário ser louco para ser livre numa situação assim? Até as mulas que andam pela aldeia tem mais liberdade. O futebol que é proibido, a bola descendo as escadas e a prisão do jogador. Em seguida vemos uma cena antológica de um grupo de rapazes e homens jogando futebol, mas detalhe, não há bola, mas o jogo acontece.



Uma mulher canta e é presa, julgada é condenada a chibatadas. Durante o castigo ela canta em lágrimas. Duas pessoas estão enterradas na areia e são apedrejadas. Uma jovem é dada em casamento a um dos extremistas sem o consentimento de sua família. Ela chora.




Onde está Deus nisto tudo? Não há piedade, nem misericórdia, há apenas o desejo do grupo que quer ser o Outro das pessoas que ali vivem. 

Um grupo fundamentalista que se apodera do lugar de Deus, do lugar da cultura e passa a ditar as regras e normas, mas as transgride, pois vemos um dos líderes (Abel Jadri) assediando a mulher de Kidane e este mesmo se esconde no deserto para fumar. 

O que sentimos surge das imagens do filme, da nossa percepção e do que nos toca como seres humanos, e no meu caso, como mulher diante de uma situação onde a mulher é um objeto e não um sujeito. Mas elas lindamente resistem, como a mulher que canta enquanto recebe chibatadas, como Zabou que penso se finge de louca, como Satima que dribla o que o líder esperava com a morte de seu marido, indo até ele e morrendo junto.



O que Sissako consegue é através da beleza e arte criar um impacto que é muito maior do que se ele filmasse apenas o horror, a violência de forma explicíta. Ele o faz, mas com cortes entremeados de cenas ontológicas. 

Abderrahmane Sissako nasceu em 1961 em Kiffa, Mauritânia

domingo, 12 de abril de 2015

FILME: MOMMY - 2014




Direção: Xavier Dolan - 2014
Duração: 139 min
País: Canadá 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014

O filme se passa no Canadá. Diane Després (Anne Dorval) está indo buscar seu filho Steve (Antoine-Olivier Pilon) em uma instituição para jovens problemáticos de onde foi expulso por haver ateado fogo na cafeteria local e com isto um garoto sofreu queimaduras de terceiro grau. Diane acredita que é capaz de cuidar dele sozinha.

Steve é hiperativo e muitas vezes se torna agressivo. Em uma das cenas por haver sido contrariado em seu desejo de ofertar um presente à mãe que sabe que se trata de um objeto furtado ele a agride e ela tem que se refugiar em outro cômodo. É quando a vizinha da frente se aproxima e irá tentar ajudar Diane.

Um filme que é tocante e terno por um lado e que nos angustia por outro. Uma relação limite entre mãe e filho. Steve em certos momentos é terno e doce como um bebê, mas em outros agressivo e hiperativo. A presença de Kyla (Suzanne Clément), a vizinha, traz alguns momentos de alegria, e um fará bem ao outro, mas quando se vive em situações limites alguém terá que fazer uma escolha e tentar que ela seja a melhor, acreditar e ter esperança.


O que notamos é que após a morte do pai o filho se agarra à mãe, há algo até mesmo de incestuoso na relação dos dois, fusional, sem espaço para que um terceiro entre. Steve tem ciúmes de sua mãe e se torna agressivo. Por outro lado a mãe o superprotege dos outros. Não admite que ninguém fale algo dele, ou queira colocá-lo em seu lugar. Ela tenta ser rigorosa com ele, mas acaba não conseguindo, seja porque ele a cativa e seduz, ou porque ele se torna agressivo e neste momento ela não dá conta.



Para Steve talvez seja muito difícil ter uma mãe bonita e sexy, uma mãe sexuada, e na falta do pai para ser o objeto de desejo dela, ele não aceita que outro venha ocupar este lugar, então ele tenta suprir a falta da mãe de todas as maneiras. Kyla por um momento é uma interrupção disto, um terceiro que entra para afastar um pouco esta fusão. 


Xavier Dolan nasceu em 1989 em Montreal, Canadá 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

DOCUMENTÁRIO: O SAL DA TERRA - 2014


Direção: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado
Duração: 110 mim
Título Original: Le sel de la terre
País: Brasil - França - Itália 

Indicado ao Festival de Cannes 2014 como Un certain regard

Estou encantada com o trabalho de Sebastião Salgado, é muito especial.

O Documentário realizado por Wim Wenders e pelo filho de Sebastião, Juliano Ribeiro Salgado nos mostra muito mais do que as fotos que ele tirou, nos fala de sua vida e do que o levou a tirar as fotos, mas além disto também o que este trabalho trouxe para ele mesmo, o que modificou nele mesmo na sua maneira de ver o mundo. 

Há fotos impactantes, duras, difíceis de olhar, feitas justamente para chocar e sacudir as pessoas que estão acomodadas em sua vida de conforto longe das tragédias e misérias do mundo, mas o que mais elas fazem é nos lembrar que se hoje estamos no conforto nada nos garante que amanhã seja assim. Isto fica evidente quando após mostrar uma série de fotos da África e suas guerras civis e deslocamentos de população e sobre a América Latina ele nos lembra que é bom não pensar exatamente isto: isto é na África, é na América Latina, porque em seguida ele retorna à Europa e uma Europa já atual, pós segunda guerra mundial para fotografar a Bósnia, a Croácia, a ex-Iugoslávia e tudo o que aconteceu por lá. 

Sebastião viveu exilado por muitos anos até que pode finalmente retornar ao Brasil com a anistia para os refugiados políticos. Pode rever sua família, seus pais, o lugar onde nasceu. Neste momento ele faz uma viagem pelo Brasil que retrata, principalmente a seca do sertão, a morte. 

Finalmente, já próximo dos 70 anos em 2004 ele inicia um novo projeto e se lança numa viagem por mais de 30 países em busca do belo, do que não foi destruído, do que ainda está intocado pela dita modernidade, pelo suposto progresso, ou seja, onde a crueldade do homem ainda não chegou. E o resultado é Genesis que vi no MON em Curitiba e postei aqui no Blog. 

Vale a pena assistir!

Wim Wenders
Juliano Ribeiro Salgado
Sebastião Salgado

segunda-feira, 9 de março de 2015

FILME: FORÇA MAIOR - 2014


Direção: Ruben Östlund - 2014
Duração: 119 min
Título Original: Force Majeure
País: Suécia 

Venceu o prêmio de melhor filme da mostra Un certain regard do Festival de Cannes de 2014

Um casal Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli) e seus dois filhos vão passar 05 dias numa estação de esqui para que ele possa descansar, uma vez que segundo sua esposa ele trabalha muito. Logo no início do filme temos a tradicional foto da família na neve em roupas de esqui. Uma família aparentemente feliz. 

O que ninguém pode prever são as contingências que as vezes revelam facetas nossas que não conhecíamos e não poderíamos prever. No segundo dia eles almoçam num restaurante com uma vista para as montanhas de neve. Desde que chegaram Tomas havia tranquilizado Ebba que se incomodava com os estouros que ouvia, que seriam as equipes do lugar que sob controle fazem a neve descer a montanha justamente para manter a segurança dos esquiadores. Durante o almoço de repente vemos uma avalanche vindo em direção ao restaurante. Tomas diz que ele está sob controle e que não há risco nenhum, mas de repente ela se aproxima demais, e todos começam a gritar e a correr. Ebba segura seus filhos e grita por Tomas para ajudá-la, mas eis que Tomas saiu correndo e deixou sua família para trás.


A avalanche não atinge o restaurante, ela para antes, mas há uma névoa forte causada pela neve em movimento que por um momento deixa tudo envolto no branco. Em seguida o céu fica azul novamente e Tomas está de volta, senta e recomeça o almoço como se nada tivesse acontecido, porém esta família não será mais a mesma. 

Tomas teve uma reação de sobrevivência e tentou se salvar e com isto deixou sua família para trás, mas ele não toca no assunto. Ebba fica com isto engasgado, mas também não fala nada para ele, pelo contrário, vai contar aos outros colocando Tomas numa situação constrangedora e ele acaba negando que tenha feito isto. Eis então que se revela também a questão de um casamento que já não andava muito bem. As crianças ao perceberem que algo vai mal começam a ter crises de choro e a se tornarem mal criadas como forma de chamar a atenção, até que o menor deles diz que não quer que eles se divorciem. 

É impossível não nos colocar a questão. O que será que faríamos no lugar deles? Dizer que uma mãe nunca abandona seus filhos, mas que o homem pensa somente em se salvar? Mas, quantos relatos já vimos de pais que também arriscam tudo para salvar um filho? Não, não acredito que seja por aí a resposta. A questão é que todos nós temos um sentido de sobrevivência, há uma pulsão de vida em nós e a prova disto é que qualquer motorista sempre tenta tirar seu lado num acidente e o faz automaticamente e sem consciência. Tomas foi surpreendido por esta reação que ele teve, mas depois se viu cobrado pelo o que se espera dele, o que a sociedade espera, a mulher, os outros esperam de um homem, de um pai, de um marido. 

Um casal de amigos que ouve a história ao estarem sós depois a mulher também lhe diz que ele poderia agir assim e isto o deixa também mexido. O que a cultura impõe ao homem, a mulher, ao ser humano. 

Tomas se sente cobrado por todos, mas como responder a isto? dizer que sentiu medo, pavor e correu? Sua esposa o despreza cada vez mais, ele não corresponde as suas expectativas como homem, como pai. Até o dia que o diálogo acontece e Tomás confessa todos seus erros inclusive ter sido infiel, e que não quer ser esta pessoa. Ebba vai exigir dele uma prova que não é covarde e que pode agir para protegê-la e a seus filhos o que fará no dia seguinte na pista de esqui. 

Não leia abaixo caso não queira saber o final do filme. 


No caminho de volta, no ônibus que desce a montanha por uma estrada na beira dos penhascos, o motorista começa a demonstrar que não sabe bem dirigir o ônibus e começa a se criar uma situação tensa. Novamente é Ebba quem toma a frente e o manda abrir a porta, neste momento o amigo do casal diz: sem pânico, primeiro as mulheres e crianças. Todos descem e o motorista vai embora com o ônibus os deixando ali. É um final um tanto estranho, mas pode se refletir a respeito, pois todos ali estavam com medo e cada um teve uma reação o que mostra claramente que o ser humano é complexo e pode reagir a situações drásticas de formas diferentes. Inclusive neste momento é Ebba a primeira a descer deixando os filhos no ônibus. Todos nós temos um ponto onde reagimos de uma maneira a nos salvar sem pensar em mais nada. Entre o medo de ser soterrado por uma avalanche e o medo de cair no vazio de um penhasco, qual medo é o mais forte? depende da pessoa.


Ruben Östlund nasceu em 1974 em Styrsö, Gotemburgo, Suécia. 

FILME: WINTER SLEEP - 2014


Direção: Nuri Bilge Ceylan - 2014
Duração: 196 min
Título em português: Sono de Inverno
Título original: Kis Uykusu
País:Turquia

Ganhou o Palma de Ouro do Festival de Cannes 2014 

Inspirado em novelas de Anton Tchekhov

O filme é longo, tem 3hs de duração, mas valeu todo seu tempo. Não serão todos que apreciarão, é um filme lento, com muitos diálogos, mas densos e que nos fazem pensar muito e mostram as diferenças entre as pessoas e o que elas sentem em relação ao mesmo tema. Um filme para rever muitas vezes. 

Aydin (Haluk Bilginer) é um ator de comédias aposentado que tem um pequeno hotel na região da Capadócia na Turquia e escreve artigos para um pequeno jornal local e também se dedica a escrever um livro sobre o teatro turco. Ele vive com sua esposa Nihal (Melisa Sözen) que é bem mais jovem do que ele e se dedica a obras de ajuda para as escolas da região e sua irmã Necla (Demet Akbag) que se divorciou recentemente.



O filme também foca nas diferenças religiosas pois a região é habitada por muçulmanos e um deles mora numa das casas que pertencem a Aydin e são locatários desde a época do pai dele, mas estão passando por momentos difíceis e não conseguem pagar o aluguel. O belo do filme é que ele nos mostra não uma guerra religiosa, mas como os comportamentos morais são diferentes, e uma das cenas fala da culpa e do perdão, sendo que para eles é importante ver e sentir que foi perdoado e beijar a mão daquele a quem se pede perdão e que se o outro negar isto relegará o que pede perdão a se sentir culpado para sempre, o que coloca Aydin numa situação difícil a qual ele adere para não deixar o outro com esta culpa, porém é visível que ele não está perdoando ninguém, até porque para ele a situação é risível e não séria como o é considerado pelo outro. 

Há um diálogo fantástico sobre o amor e a resistência à violência onde Necla defende que se não resistirmos ao agressor ele acabará percebendo que está fazendo mal ao outro e sentindo remorso pelo o que fez, ela se questiona se agiu corretamente ao resistir ao marido e fica pensando se não poderia ter sido diferente, já Aydin e Nihal colocam uma opinião contrária a esta postura. Necla chega a dizer que a beleza do gesto é por ela não ter feito nada para ele a agredir. Muito se pode refletir e pensar a respeito desta questão.

Aydin é o centro do filme. Ele mantém um domínio sobre as pessoas ao seu redor tanto financeiro como intelectual, a falta de diálogos anteriores culmina no que vemos no filme onde ressentimentos, fragilidades, desejos acabam vindo a tona nos diálogos do filme que nos mostram a complexidade do ser humano, daquilo que ele aparente ser e o que é, inclusive simbolizado no filme num momento onde Aydin aparece usando uma máscara de teatro. A vida é um palco onde as pessoas atuam, mas nem sempre somos espectadores dos que nos são mais próximos, não vemos e não conseguimos captar o que realmente os move, e muitas vezes nem eles mesmos sabem. E é através dos diálogos entre os personagens do filme que ele nos toca a cada um de nós, são diálogos com vários argumentos e por sinal muito bons, que nos faz refletir, nos levando a dialogar com o filme e eles com nós. 



As relações se constroem muitas vezes sobre enganos, não apenas em relação aos outros, mas no nosso auto-engano, nos recusamos a ver muitas vezes e nos recusamos a ouvir também. Não que seja intencional, pelo contrário, muitas vezes não conseguimos ver nem ouvir. Mas há cenas no filme que coloca cada um diante de si mesmo também, e uma das mais bonitas já no final do filme é quando Nihal decide ajudar com dinheiro a família que mora no imóvel e não consegue pagar o aluguel. O que se passa ali choca, desloca, provoca, muda algo. 

Altamente recomendado! 
Nuri Bilge Ceylan nasceu em 1959 em Istambul, Turquia 

quarta-feira, 4 de março de 2015

FILME - SILS MARIA - ACIMA DAS NUVENS - 2014


Direção: Olivier Assayas - 2014
Duração: 124 min
Título Original: Clouds of Sils Maria
País: Estados Unidos - França 

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem

Para os que não assistiram ainda recomendo não ler, pois pode ser considerado spoiler. 

O filme trata de uma atriz que está no auge de sua carreira, Maria Enders (Juliette Binoche) que iniciou sua carreira representando Sigrid, uma jovem que leva ao suicídio sua chefe Helena. Agora ela é convidada a fazer o papel inverso. Após relutar ela acaba aceitando, irá contracenar com Joan (Chloë Moretz) que fará Sigrid, e isto a deixa perturbada. Maria vai para Sils Maria com sua assistente Valentine (Kristen Stewart) para ensaiar o papel o que a leva a confrontar seu passado. O filme tem uma reviravolta no final que surpreende, mas não tenho como falar do que senti e percebi sem tocar neste ponto. 

Durante os ensaios nos Alpes em determinados momentos já não sabemos se elas estão ensaiando ou se são Maria e Valentine. Um outro ponto é que vemos no início do filme uma Maria muito feminina que aos poucos parece ir se masculinizando, em seus gestos, no corte de cabelo, nas roupas que passa a usar, no tom de voz, na expressão. É sutil o processo.

A história de Sigrid é que ela é contratada como assistente de Helena, uma empresária, que acaba se apaixonando por ela o que a leva ao suicídio. Valentine também é a assistente de Maria, e é uma mulher forte, determinada e que tem seus próprios pontos de vista, que diferem de Maria sobre a história de Sigrid e Helena. 

Maria vê Sigrid como ela mesma era quando jovem e a revê no espelho de Valentina, uma projeção de si mesma jovem, mas agora ela não é mais esta jovem, amadureceu, é famosa, ou seja, está no lugar de Helena em sua vida também e tem que enfrentar que ela também se encanta com Sigrid, seja como Joan ou Valentine. 

A passagem de Sigrid para Helena é para Maria o que lhe ocorre em sua vida e ela precisa se confrontar com isto. Precisa se confrontar com seus fantasmas e desejos. O final surpreendente é justamente quando ela fica acima das nuvens. Em Sils Maria há um fenômeno climático chamado de Serpente de Maloja. Nuvens entram no vale cedo de manhã serpenteando causando um belo efeito e cobrindo o vale, porém abaixo delas o tempo fica ruim com chuvas e intempéries, como a própria vida de Maria. É no momento que ela está acima da Serpente, que ela faz a passagem e ultrapassa seus fantasmas e pode se assumir e ser a Helena. 

Vejo duas questões, a primeira é a dificuldade de aceitar que se cresceu, amadureceu e que lhe cabe agora interpretar a mulher mais velha e abrir mão do papel que lhe deu o estrelato, mas a outra na minha opinião é a mais importante, é o desprezo que Maria sente por Helena e isto é uma projeção que ela tem que enfrentar. Sempre odiamos no outro o que trazemos em nós mesmos e nos desagrada, não aceitamos ou não sabemos como lidar com isto. É disto que se trata, lidar com este outro lado do espelho. Ao longo do filme Valentine mostrará outra faceta de Helena, outra possibilidade para esta mulher. É Maria quem encarna ela mesma, Sigrid e Helena, as três são ela mesma, até o momento onde se faz a passagem e ela consegue lidar com estas três facetas de si mesma. 

É a jornada do crescimento e amadurecimento de Maria, da aceitação que a vida anda, se movimenta e muda, mas sempre trazendo os traços de antes. 

Olivier Assayas nasceu em 1955 em Paris, França

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

FILME: RELATOS SELVAGENS - 2014


Direção: Damián Szifron - 2014
Duração: 122 min
Título Original: Relatos Salvajes
Produzido por Pedro Almodóvar
País: Argentina - Espanha

Indicado para o Festival de Cannes 2014 como longa-metragem 

Impactante! São seis pequenas histórias curtas sobre um momento que devido a alguma ocorrência seja cotidiana ou de surpresa acaba em descontrole das pessoas. É apenas o momento que o filme retrata, diferente do filme Um dia de fúria. 
O que vem a tona é o que muitas vezes desejamos fazer, é o desejo de vingança, a pulsão agressiva que sai do controle e atua ao invés de falar ou se voltar contra nós mesmos em muitos casos, ou se transformar em algo mais criativo. 

A primeira história se passa num avião onde de repente todos descobrem que conhecem Pasternak, que sem eles saberem reuniu naquele avião todos seus desafetos, todos aqueles que um dia o traíram, não lhe atenderam ao desejo e pior, o disseram e ainda zombaram dele como sua ex-namorada que o traiu com seu amigo e Salgado (Dario Grandinetti), um crítico musical, que lhe disse o que pensava de sua música. É o dia da vingança. 

A segunda - Las Ratas, se passa num restaurante a beira da estrada num dia chuvoso. Um homem entra no local, Moza (Julieta Zylberberg) o reconhece de imediato, é um agiota que emprestou dinheiro a seu pai que não conseguiu pagar e que por isto se suicidou, em seguida o agiota flerta com sua mãe e agora para o cúmulo ele é candidato a um cargo no governo. A cozinheira Cocinera (Rita Cortese) sugere colocar veneno de ratos em sua comida. 

A terceira tem inicio numa estrada vazia com um belo carro, Diego (Leonardo Sbaraglia) o dirige, ouve música. Em seu caminho surge um carro velho, o motorista parece bêbado ou está provocando, pois dança na pista de um lado para outro impedindo a ultrapassagem. Quando Diego consegue ele abre o vidro e o xinga. Mais adiante o pneu do carro de Diego fura e ele será alcançado pelo outro. 

A quarta - La Bombita - traz Simon (Ricardo Darín), um engenheiro especialista em explosivos, que tem seu carro guinchado por supostamente ter estacionado em local errado. Ele está atrasado para o aniversário de sua filha, mas vai retirar o carro, tenta alegar que não havia nenhuma faixa pintada no local, mas é ignorado. Sua esposa se cansa do que ela diz ser seu pouco interesse pela família e se separa dele, no tribunal ele está perdendo a possibilidade de ver a filha, perde o emprego. O dia de um azarão. Mas vemos que ele tem razão, e percebemos a corrupção do sistema de trânsito, o pouco caso. No dia em que ele vai se candidatar a um novo emprego é tratado como se fosse um idiota, e quanto retorna seu carro foi novamente guinchado. Esta armado o cenário para sua total perda de controle, mas ele o fará com calma e estratégia. 

A quinta história - La propuesta nos mostra uma família rica tentando proteger um filho de responder pelo seu crime, seu pai Mauricio (Oscar Martinez) irá tentar comprar a liberdade do filho, e com isto irá despertar a ganância em seu jardineiro, seu advogado e o inspetor da polícia. 

E por fim a sexta história - Hasta que la muerte nos separe - é sobre uma festa de casamento onde a noiva   Romina (Erica Rivas) descobre que seu noivo convidou uma amante que está ali. É o estopim para uma crise onde ela não sabe o que fazer, o desejo de se vingar que a leva a assumir sua raiva e loucura do momento. 

Muito bom! Um humor negro que nos mostra a faceta das pulsões agressivas e vingativas, mas também deixa claro que em duas histórias temos realmente um bom motivo para estar com raiva e desejar fazer algo, e nas outras quatro há um lado infantil que atua. Seja a moça que culpa o agiota pela morte de seu pai e por terem que se mudar, mas se esquece que foi seu pai quem procurou um agiota e não conseguiu pagar. O belo homem rico que debocha do pobre e o xinga o que não justifica a ação do ofendido que também o havia provocado antes. Pasternak que não aceita que lhe digam Não e um pai e mãe que retiram do filho a responsabilidade por seus atos o protegendo, mesmo que ele queira assumir o que fez, e com sua proposta despertando a ganância de todos o que não terá um bom final. 
No caso de Simon é revoltante ver a corrupção e o roubo, e fica visível que não há o que fazer, uma vez que ele tenta, procura os responsáveis, quer fazer uma queixa, quer provar que está certo. Lembrou muito o Brasil também. E a noiva, bom, qualquer um que descubra que foi traído está sujeito a ter reações inesperadas. 

Estamos diante do Humano, demasiadamente humano, como diria Nietzsche. Aqui não há redenção, provações, aprendizado interior. Aqui temos o dia a dia onde algo vem a ocorrer e eis que de dentro de nós mesmos surge este personagem que muitas vezes nem conhecíamos, o vingador! o que deseja descontar no outro o que sofreu, muitas vezes devido suas próprias fraquezas e erros. 

Damián Szifron nasceu em 1975 em Ramos Mejía, Argentina 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

FILME: JIMMY'S HALL - 2014





Direção: Ken Loach - 2014
Duração: 109 min
País: Irlanda - Reino Unido - França 

Indicado para Festival de Cannes 2014 para longa-metragem 

Uma cinebiografia de Jimmy Gralton (Barry Ward), um irlandês que desafiou a igreja católica e os latifundiários desafiando a censura e liberdade de expressão. 

Jimmy retorna à Irlanda após ter passado 10 anos nos Estados Unidos. De 1919 a 1921 a Irlanda lutou pela sua independência do Império Britânico. Em 1922 houve uma guerra civil entre os que aceitaram o tratado com os ingleses e os que não aceitaram. Os britânicos apoiaram os primeiros que venceram provocando uma grande amargura em todo país. Jimmy foi embora nesta época e agora retorna em 1932. Sua mãe está sozinha, seu irmão faleceu e seu grande amor Oonagh (Simone Kirby) está casada com outro e tem filhos. 


Os jovens da cidade o procuram e lhe pedem para reabrir seu salão. Jimmy e seus amigos acabam concordando e reabrem o salão que é um local onde se pode falar, trocar idéias, aprender com as aulas ofertadas e principalmente dançar. Jimmy irá ensinar a dançar o jazz, ele trouxe um gramofone e discos dos Estados Unidos. Nada de mais aparentemente, mas o padre católico não gosta nada disto e diz que somente a Igreja tem permissão para o ensino, e que o salão paroquial é suficiente para o entretenimento e para dançar.






A situação na Irlanda não está boa, os latifundiários dominam e expulsam os pobres de suas casas por não conseguirem pagar o aluguel. É o começo do IRA e eles procuram a ajuda do grupo de Jimmy pedindo a ele que discurse para o povo, que somente à ele irão ouvir e confiar. Os sacerdotes se colocam contra Jimmy e pregam contra ele na igreja além de ameaçar e subornar os fiéis para que se afastem dele. Oonagh sugere que ele tente trazer o padre para o salão o que ele tenta fazer, mas a condição do padre é a escritura do terreno e do salão em nome da igreja. Jimmy se retira dizendo que ele só escuta aos que estão de joelhos.



Após a retomada de posse de uma casa da qual um latifundiário havia expulsado uma mulher com seus filhos, haverá tiros contra o salão e na sequência o mesmo será queimado. A polícia prende Jimmy e ele é deportado, nunca mais podendo retornar à sua terra natal, morreu em Nova York em 1945. 

A intolerância, a ganância, o poder, o velho refrão que se repete sempre. Jimmy era considerado comunista porque lutava pelos pobres e pela liberdade, para que todos pudessem ter uma vida digna, alimentos e moradia, enquanto os latifundiários viviam na opulência e massacravam os trabalhadores. A igreja intolerante, querendo deter também o poder se coloca ao lado destes latifundiários e oprime qualquer tentativa do povo de se emancipar, estudar ou até mesmo de ter um simples prazer como dançar. 

Jimmy Gralton 

Ken Loach nasceu em 1936 em Nuneaton, Reino Unido 

sábado, 31 de janeiro de 2015

FILME - ADIEU AU LANGAGE - 2014



Direção: Jean-Luc Godard - 2014
Duração: 70 min
Título em português: Adeus à linguagem 
País: França 

Ganhou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2014 

Me deixei levar pelo filme de acordo com o que eu fui captando. Primeiramente gostaria de dizer que apesar das sinopses em português, não há nenhum cachorro que fala, que intervem devido a falta de comunicação de um casal. Há sim, um cachorro que anda por ali, no campo, na cidade e acaba no meio deles, é Roxy, e ao qual se empresta uma voz sobre o que seriam seus pensamentos. 

Uma mulher casada encontra um homem livre, eles não conseguem se comunicar, o marido dela aparece querendo explodir tudo, matar. O que temos é o masculino e o feminino, relação impossível apesar de toda nossa insistência. Logo no início, surge a frase:

" Todos aqueles que lhes falta imaginação se refugiam na realidade. Resta saber se o não-pensar contamina o pensamento" 

O filme nos mostra o mundo atual onde cada vez mais se perde a comunicação e se prende em fatos, mídia, no dia a dia corrido e sem sentido. Mas ele também traz o recalcado da Segunda Guerra, que não acabou, uma vez que se diz no filme: a guerra só acabou para os mortos. 

Se divide em A natureza e a metáfora, enquanto as estações do ano passam. Sim, a linguagem é o que nos faz sair da natureza e entrar na civilização, é o que nos diferencia do animal, mas será? aqui o cachorro se sai melhor do que os humanos. Para falar precisamos das metáforas, e o que usamos? principalmente a natureza. 

Outra frase do filme: " ninguém poderia pensar livremente se seus olhos não pudessem deixar outros olhos que o seguiriam. Desde que os olhares se encontram, se pegam, não somos mais deles." Como se desvencilhar do Outro? estamos sempre sendo seguidos por outros olhos, não só os externos, mas principalmente os olhares internalizados. E continua com o cachorro - "Há dificuldade de ficar sozinho. Não é o animal que está cego, mas o homem cegado pela consciência é incapaz de olhar o mundo. O que está no exterior escreveu Rilke nós o sabemos através do olhar de um animal, e então uma citação de Darwin que diz que o cachorro é o único ser na terra que te ama mais do que ama a si mesmo. "

Um deles diz: o face a face inventa a linguagem. Só os seres livres podem ser estranhos um dos outros. Eles tem uma liberdade comum, partilhada, mas exatamente isto os separa. Eu falo = sujeito. Eu escuto = objeto. 
Desde o nascimento somos vistos como um outro e somos forçados a entrar em nosso personagem. Eu posso saber o que pensa outra pessoa, mas não posso saber o que eu penso. É uma sorte que posso falar. 

O filme com seus cortes, montagens, sons, imagens, é como um bricolage. Mas se atentarmos que estes cortes, desencontros, faltas ocorrem constantemente na linguagem, onde um não escuta o outro, não compreende o outro, não há nada de estranho. O que é a linguagem? como ela atua atualmente? 

Uma frase que se repete: Você está repleto do desejo de viver. Eu estou aqui para lhe dizer não! E para morrer. 

Aqui é o real na voz do feminino, o que é viver? é morrer! Ela diz não! seria um não à ilusão? Ele lhe diz que ela reclama a igualdade, e responde que ela só é possível quando se defeca, o único lugar onde todos são iguais. 

É o primeiro filme de Godard que assisto, portanto não falo sobre sua arte, não a conheço, mas sobre uma versão pessoal do que o filme me afetou. 

Cada vez mais estamos sujeitos ao outro e ao Outro, a liberdade só é possível com a consciência deste Outro que nos domina, o personagem que habita em nós e nos foi dado, seja pela família, seja pelo social, pela religião, pelo Estado, pela moral, pelos costumes. Nos iludimos no amor, queremos agradar para sermos amados e não tomamos consciência que uma relação entre um homem e uma mulher é impossível, eles não se encontram, vivem juntos, convivem, mas são diferentes, e acho que o mérito deste filme é isto, mostrar que o masculino e o feminino não se encontram, nem mesmo a linguagem o possibilita, ao contrário, ela possibilita a ilusão deste encontro, o que não ocorre no filme, uma vez que eles não se entendem, não conseguem se comunicar, o cachorro faz o elo, e mais tarde quem sabe filhos. 

Por outro lado o mundo está se estranhando. A cada dia vemos mais preconceitos, racismos, xenofobia, e a grande dificuldade de aceitar o outro, o estranho, que não fala sua linguagem, que fala diferente. E isto começa no menor núcleo, ou seja, na relação de um casal, seja ele homossexual ou heterossexual, não importa, é sempre um outro que está ali. 

Não é um filme que agrade a muitos, não é filme para entretenimento, ele não é linear, não tem uma história com começo meio e fim, são pedaços, montagens, como um blá blá blá que é o que mais ouvimos atualmente, como a fala que não se encontra, e que vai de uma coisa à outra sem criar laços. 


Jean-Luc Godard nasceu em 1930 em Paris, França 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

FILME: UM CASTELO NA ITÁLIA - 2013


Direção:  Valeria Bruna Tedeschi - 2013 
Duração: 99 min
Título Original: Un Château en Italie 
País: França 

Indicado no Festival de Cannes 2013 para longa-metragem 

Uma família burguesa italiana que possui um castelo na Itália que apesar de precisarem vender não o fazem porque o filho não quer vender.

Louise (Valeria Bruna Tedeschi) é irmã de Ludovic (Filippo Timi), eles tem uma relação bem próxima, e precisam decidir junto com a mãe Marisa (Marisa Borini) se vendem ou não o Castelo, ou o alugam para a Prefeitura, porém Ludovic não permite que se façam visitas ao interior do Castelo.

Louise é uma atriz que abandonou a carreira, mas ela conhece Nathan (Louis Garrel) um jovem ator com quem inicia uma relação um tanto tumultuada. Seu irmão tem uma namorada e está doente, ele tem AIDS. Ela quer viver, ter sua família, ter filhos, mas está sempre envolvida na família e suas questões e mal consegue olhar para o outro. Ela terá que crescer.

O que vemos principalmente é que se trata de pessoas que sempre tiveram tudo mas não são felizes. Porém há um outro lado neste filme, pois trata-se de uma lavagem de alma da diretora em relação a sua vida e família.

Ao final o passado se encerra e há a possibilidade de uma nova vida para Louise.

Valeria é irmã da ex-primeira dama francesa Carla Bruni e ela mesma interpreta Louise no filme, assim como sua mãe faz também o papel de mãe, inclusive com o mesmo nome, Marisa, e Louis Garrel é o companheiro de Valeria.


Valeria Bruna Tedeschi nasceu em 1964 em Turim, Itália.