Mostrando postagens com marcador Objetiva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Objetiva. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de fevereiro de 2026

APRENDER A VER O AFEGANISTÃO PARA ALÉM DA GUERRA

 


A FILHA FAVORITA

FAWZIA KOOFI – NADENE GHOURI

OBJETIVA – 1ª – 2013

280 páginas

Este livro me levou a olhar para o Afeganistão de outra maneira. A imagem que se cristalizou no Ocidente — sobretudo após o 11 de Setembro — associa o país quase exclusivamente ao Talibã, à guerra e ao terror. A Filha Favorita, no entanto, desloca esse olhar. Mostra um território de história milenar, atravessado por sucessivas turbulências políticas: da invasão soviética à tomada do poder pelos mujahidin, do regime talibã a uma frágil tentativa de democracia, e com a retirada das tropas norte-americanas a volta do Talibã.

Mas o centro do livro não é apenas o país: é a vida de uma mulher excepcional. Fawzia Koofi, ao nascer, foi deixada ao sol para morrer — prática brutal que marca o destino de muitas meninas. Sobreviveu. E não apenas isso: tornou-se uma das figuras mais importantes da política afegã, chegando à vice-presidência do parlamento. Sua trajetória pessoal é, ao mesmo tempo, singular e coletiva, porque carrega as marcas de milhões de mulheres invisibilizadas.

Para compreender as mulheres retratadas neste livro, é preciso suspender, ao menos por um instante, nossos conceitos ocidentais. O que emerge dessas páginas não é submissão passiva, mas coragem, força, dignidade e persistência. Há também uma profunda sororidade feminina: mulheres que se protegem, se orientam e se fortalecem mutuamente em contextos de extrema violência.

O livro percorre a vida nas aldeias, nas pequenas cidades e na capital, Cabul. Mostra o desejo intenso de estudar, de participar da vida pública, de lutar por um país menos violento. Revela também a complexidade das estruturas familiares, incluindo o amor entre irmãos e irmãs filhos de mães diferentes, já que a poligamia é permitida. Longe de idealizar, a narrativa humaniza essas relações e expõe suas contradições.

A Filha Favorita é escrito como uma espécie de testamento às filhas de Fawzia Koofi, porque sua vida é permanentemente ameaçada. Essa condição de risco constante atravessa todo o texto e dá a ele uma urgência particular: escrever é também resistir, deixar registro, afirmar que essas vidas importam.

Ler este livro é um exercício de alteridade. Conhecer outras culturas amplia horizontes, desmonta estereótipos e nos obriga a pensar para além de nossas próprias referências. Ao final, fica claro que compreender o Afeganistão e, sobretudo, suas mulheres, não é um gesto de curiosidade distante, mas um compromisso ético com a complexidade do mundo e com as muitas formas possíveis de coragem.


Fawzia Koofi nasceu em Badaquexão, em 1975. É uma política e feminista afegã. Ocupou o cargo de vice-presidente do Parlamento do Afeganistão. 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A FILOSOFIA COMO RESPOSTA AO MUNDO


 

NO CAFÉ EXISTENCIALISTA

SARAH BAKEWELL

OBJETIVA – 1ª ED. 2017

416 páginas 


Em No Café Existencialista, Sarah Bakewell apresenta a história do existencialismo a partir das vidas de alguns de seus principais pensadores, como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Martin Heidegger, entre outros. O livro se constrói no cruzamento entre biografia e pensamento, mostrando como as ideias existencialistas não surgem no abstrato, mas se formam no contato direto com a experiência, as escolhas e os impasses de uma época.

Ao longo da narrativa, Bakewell explora temas centrais do existencialismo — liberdade, responsabilidade individual, engajamento, angústia e a busca por sentido — sempre ancorando esses conceitos em situações concretas. O existencialismo aparece menos como um sistema fechado e mais como uma resposta viva às circunstâncias históricas e pessoais enfrentadas por seus autores.

Uma das abordagens mais interessantes do livro é a forma como a autora entrelaça o desenvolvimento do existencialismo com a cultura e o clima intelectual do século XX. O movimento é contextualizado na Europa do pós-guerra, marcada pela experiência da guerra total, pelo genocídio e por uma profunda crise de valores e identidade. Nesse cenário, pensar torna-se uma urgência ética, e não apenas um exercício teórico.

Bakewell mostra ainda como o existencialismo ultrapassou os limites da filosofia acadêmica e influenciou a literatura, as artes e a cultura em geral. O movimento tornou-se um fenômeno cultural, presente em romances, peças de teatro, filmes e debates públicos, moldando uma sensibilidade que ainda hoje nos interpela.

No Café Existencialista é uma leitura envolvente e esclarecedora, ideal tanto para quem deseja uma introdução ao existencialismo quanto para quem busca compreender como filosofia, vida e história se entrelaçam de forma indissociável.


Sarah Bakewell nasceu em Bournemouth, Inglaterra, em 1963. É uma autora e professora britânica. 


terça-feira, 24 de maio de 2016

LIVRO: A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO - Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura - MARIO VARGA LLOSA



Llosa, Mario Vargas. 1ªed. Objetiva, 2013
208 Páginas
Tradução: Ivone Benedetti
Título Original: La civilización del espectáculo

Um livro atual e ao mesmo tempo já sentimos falta de eventos ocorridos no mundo, uma vez que tudo é tão acelerado e o mundo muda a cada dia. 

Llosa faz uma crítica a falta de cultura no mundo atual e refere-se ao que se chama de cultura como entretenimento com intuito de fugir da realidade, de não ter que confrontar nem a si mesmo e menos ainda se engajar em ações em prol do mundo e do outro. É como um narcótico que faz com que as pessoas se desliguem, ao invés de agir, levando ao que toda ditadura sonha, um povo entorpecido e que não reage mais e se torna obediente cuidando de sua família e trabalho sem questionar nada. 

Discordo do conceito de cultura que Llosa utiliza ao se referir criticamente ao que a Antropologia considera cultura dizendo que devido a este relativismo foi possível chegar a situação atual. A Antropologia realmente tem um conceito de cultura que não diferencia o dito "primitivo" de uma cultura civilizada ou superior, considera a todas com real valor e importantes, sendo que nenhuma delas pode ser considerada inferior. Mas Llosa nos fala principalmente da literatura, do cinema, das artes, e neste caso acredito que nos falta então uma palavra, sim tudo isto é cultura, porém para a Antropologia são itens que estão na cultura, que abrange mais do que isto. Aqui eu pensei em erudição, mas ainda não é isto. 

Llosa separa o que ele considera uma cultura das elites de uma cultura mais popular considerando a primeira como a fonte de aprendizado, estudos, conhecimentos e que proporciona a possibilidade de compreender a si mesmo e ao mundo, sem escapar das misérias, da dor, da morte, e que nos ensina a não nos deixar enganar pelas ilusões e engôdos. Somente esta "alta" cultura é capaz de proporcionar isto e não leva ao entorpecimento. 

Realmente, às vezes sinto falta de grandes teóricos, de grandes escritores, de grandes artistas no mundo atual. Recentemente visitei uma exposição de arte moderna e saí dela me perguntando se aquilo era realmente arte, ou o que era aquilo. Quando vejo um pedaço de pedra coberto por massinha de modelar num grande museu eu estranho isto e não consigo compreender e aceitar isto como arte. Parecia que eu estava vendo o resultado da aula de arte ou de lazer de um jardim de infância. 

Mas o livro é extremamente interessante e oportuno para lidar com o que vemos hoje no mundo chamado de cultural. Porém, por sorte, ainda temos muitas produções de alto nível, nem tudo está focado no entretenimento e para escapar da realidade. Apesar de que também considero isto importante, desde que não seja a única opção. Precisamos sim, de vez em quando, escapar de tudo isto e entrar num mundo ilusório.

A crítica que o autor faz a política é importante, e realmente penso que ele tem razão quando diz que hoje homens éticos, interessados no outro, já não se interessam pela política, uma vez que esta mesma está desacreditada e fornece uma visão de algo corrupto, interesseiro, e de muitas mentiras. Principalmente nós que vivemos este momento atual no Brasil, onde se vê claramente um estado de exceção, onde uns são condenados e outros que cometeram o mesmo crime não. Não estou aqui sendo nem de esquerda, nem de direita, mas ética. 

A civilização do espetáculo é real, realmente temos muitos livros, artes e filmes que se enquadram nisto, e a grande maioria da população prefere isto do que ler um grande clássico, ou um filme de arte ou alternativo. Ninguém quer pensar muito, se foge do esforço necessário, da reflexão necessária diante de uma obra de arte. Visita-se os museus para dizer que esteve lá, que viu a exposição tal, e claro, tirar selfs para postar no facebook. Quem atualmente fica horas dentro de um museu admirando cada obra, deixando os efeitos desta surtirem em si mesmo, procurando conhecer o artista e o que ele realmente quis dizer ali e o que nós sentimos? Quem lê atualmente Ulissses de James Joyce, A montanha mágica de Thomas Mann, o Dom Quixote de Cervantes, a Divina Comédia de Dante? Quem assiste a filmes produzidos por cineastas que não pertencem nem a Hollywood e nem ao cinema europeu? Os asiáticos, os africanos? Fiquei impressionada com o filme Timbuktu de Abderrahmane Sissako, mas não encontrei ninguém com quem falar sobre este filme. Ou Winter Sleep de Nuri Bilge Ceylan que ganhou o Palma de Ouro? Sim, este filme é longo, com muitos diálogos, sem ação, sem entretenimento, é feito para refletir sobre a vida, mas belíssimo. Para ver e rever. Mas estes filmes só chegam ao público através de pouquíssimos cinemas, que sempre estão nas capitais e voltados para um público seleto. Inclusive por causa de suas salas vips. 

Por outro lado, sou a favor que todos tenham acesso à cultura, possam ler os grandes clássicos, os bons livros, assistir aos bons filmes, Possibilitar o acesso de todos a isto. Não concordo que tenha que permanecer como algo seleto, da uma minoria, porém, o grande público não se interessa por isto, talvez por já estar domesticado, imbuído da necessidade de prazer, felicidade e sucesso, que nos impõe a ideologia atual. Não se deve sofrer ou ter que enfrentar as questões, tome um anti-depressivo e seja feliz. Mas isto é saudável? ou é uma grande fuga? Esta divisão que Llosa faz com a cultura das elites e a do povo é um tanto divisória, como esquerda e direita, como pobres e ricos, como norte e sul. E não gosto disto, gera discursos de ódio. 

O livro é um grande alerta ao que ocorre atualmente. Não foi dado o acesso a todos à cultura, pelo contrário, foi dado acesso ao mundo da ilusão, de uma arte, literatura, cinema controlado, comercial, que serve para domesticar a todos, levar a inércia diante dos fatos da vida e da fuga a eles. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

LIVRO: ROSA CANDIDA - AUDUR AVA ÓLAFSDÓTTIR



Ólafsdóttir, Audur Ava. 1ª ed. Objetiva, 2015
299 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: Afleggjarinn 

País: Islândia. 

Penso que criei uma expectativa sobre o livro que acabou não condizendo com que li. Não é fácil então falar do livro quando isto acontece e receio ser injusta. 

Esperava algo mais profundo de um romance de iniciação de um jovem, e também mais detalhes sobre o jardim e as rosas. 

O jovem Lobbi mora com seu pai na Islândia e cuida das plantas em uma estufa que era de sua mãe que faleceu em um acidente de carro. Ele tem um irmão gêmeo que é autista e vive num Centro Especial, vindo para casa nos fins de semana. Em um encontro de uma única vez com Anna ela engravida. Diante de tudo isto e suas interrogações sobre o que fazer com sua vida ele aceita ir cuidar de um famoso porém, abandonado, jardim de rosas que fica num mosteiro e com isto ter tempo para si mesmo. 

Lá ele conhece Frei Tomáz, um cinéfilo que acaba lhe indicando vários filmes para ver diante das questões que lhe surgem, porém não teremos acesso a análise que ele faz destes filmes, o que ele aprende com eles, o que é uma pena. O jardim também logo fica de lado uma vez que Anna o procura e pede que cuide da filha para ela poder estudar para seu mestrado. 

Ao final realmente ocorre uma modificação em Lobbi que cresce diante da vida e das circunstâncias, mas seria mais interessante se durante a leitura pudéssemos ter acesso as suas reflexões, o que acaba empobrecendo a leitura. Há muitas informações sobre suas compras, e tentativas de cozinhar, mas poucas sobre o que realmente ele sente. Percebemos seus medos e receios, suas dúvidas, seus desejos, mas fica o vazio do crescimento que temos que tentar preencher para acompanhá-lo. O livro acaba focando mais o externo que o interno, como se o que ocorre fora é o que pudesse mudar o interior, e não o contrário, apesar de que não posso discordar que experiências e vivências nos amadurecem, porém é preciso sentir e refletir. 

Como eu disse no começo, talvez minha expectativa tenha sido alta, mas o livro não deixa de ser interessante e gostoso de ler. 

Audur Ava Ólafsdóttir nasceu em 1958 em Reykjavík, Islândia

quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: SUBMISSÃO - MICHEL HOUELLEBECQ



Houellebecq, Michel. 1ª ed. Objetiva, 2015
251 páginas
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
Título Original: Soumission

É realmente um livro que nos coloca num processo reflexivo intenso. Procurei ler o livro sem me deixar levar pelos conceitos ocidentais evitando desta forma considerar a história um tanto machista, o que seria simplista demais. 

Estamos na França em 2022. François é um professor universitário, leciona na Paris III - Sorbone. Leva uma vida sem grandes acontecimentos. Solteiro, sua namorada o deixou, aliás, ele nos fala que é um ciclo repetitivo e que a cada início de ano letivo isto acontece. Não consegue manter laços afetivos, não tem contato com seus pais que são divorciados e vivem em lugares diferentes. Não consegue manter um relacionamento amoroso. Envolve-se com estudantes ou então procura por prostitutas. Nunca viaja nas férias e não tem amigos, apenas conhecidos.Às vezes pensa em suicídio. 

É época de eleições e quem vence é Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana. É conciliador porém aos poucos as mudanças vão se impondo. A educação é uma das mais atingidas, entrando a educação islâmica em vigor. As mulheres não podem mais trabalhar, tem que usar o véu, e todas as professoras, mestres da Universidade tem que se retirar. Diante de uma sociedade que é considerada amoral o que se busca é a recuperação da moralidade, da família. 

François é convidado ou a se converter e ser um professor muçulmano ou a se aposentar. Ele opta pela segunda opção. Tem dinheiro suficiente para ter uma vida boa, mas não sabe o que fazer de sua vida. Considera que sua vida intelectual terminou no dia em que apresentou sua tese. Sua vida de professor acabou, a ex-"namorada" por ser judia foi embora para Israel com sua família. 

O livro é uma crítica mordaz a atual sociedade e seus valores, mas é também um imenso alerta, uma sacudida, um impacto. 

A situação de François é bem conhecida no mundo atual, a falta de sentido, o vazio, a solidão, a falta de laços afetivos, a fuga pelo sexo, comidas, bebidas. Quando recebe uma nova proposta para retornar à faculdade ele balança e terá que tomar uma decisão entre esta vida que leva ou uma nova opção.

Mas o livro é ainda mais profundo. Apesar de ter por protagonista um homem que dentro da sociedade muçulmana pode ter algumas escolhas, o livro não deixa de fazer uma crítica também à mulher quando diz que nesta sociedade islâmica a mulher pode permanecer na infância, ao se ver duas mulheres com véu olhando revistas de moda e rindo como crianças. Também a analogia entre a mulher ocidental que se levanta de manhã, se arruma toda, se veste bem e sai para o trabalho e quando chega a noite ela retorna ao lar cansada, coloca uma roupa confortável e tem vontade de se deitar no sofá, enquanto que a muçulmana passa o dia sob um véu, mas a noite se arruma toda para seu marido. Sim, realmente é uma analogia possível, mas sinceramente, um tanto machista, uma vez que visa apenas ao prazer do homem, do nosso protagonista François. Mas a verdadeira crítica estaria na futilidade do consumo, e por outro lado na competição que existe no ocidente entre homens e mulheres, mas mais ainda, entre as mulheres.

Ao final o que se percebe é realmente a submissão, e aqui não é apenas da mulher, mas do homem também. E fica a pergunta se no fundo não desejamos isto.

O que realmente se traz a tona neste livro não é o islamismo, este conhecido por sua forma de considerar a mulher e sua moral, mas o vazio de François que é o de muitos no mundo atual e que o levaria a submissão para ter uma vida melhor por falta de desejo e falta de vontade de se mover e fazer algo. É mais fácil receber tudo.

A questão maior do livro é justamente a modernidade e a vida de François. Ele não consegue criar laços afetivos, as cenas de sexo são cruas, e sem amor, visando unicamente ao prazer dele. A visão que ele tem da mulher é mais misógina ainda, que pensa numa mulher para a cama e outra para a cozinha, na poligamia, o que resolve os problemas de satisfação dele, mas em momento algum ele se preocupa com o outro. Aliás a humanidade não lhe interessa. A crítica é ao individualismo da sociedade ocidental que leva o sujeito de desejar um objeto a se transformar em objeto pela submissão, como uma única saída para todo seu desespero e vazio existencial. E realmente estamos diante do mundo atual onde as pessoas cada vez se afastam mais das outras e pensam apenas no prazer e na felicidade, no sucesso, mas não querem ter que fazer os investimentos necessários na manutenção de laços e querem encontrar tudo isto pronto, para consumo.

Manter laços afetivos é algo que deve ser trabalhado, requer investimentos afetivos e inclui riscos, e me parece que é justamente o que François não deseja fazer, ele visa apenas o prazer próprio, sua satisfação. Desenvolver uma carreira profissional também é trabalhoso, e novamente ele não se esforça para isto. E nem mesmo a relação com seus pais lhe interessa, a ponto de ambos morrerem e ele não ter ido vê-los. E no mundo atual é visível o quanto é difícil para as pessoas manterem estes laços, preferindo o virtual onde se pode usar a tecla deletar quando algo incomoda ou exige mais. François não busca uma mulher para ser sua companheira com todos os riscos e prazeres que isto proporciona, ele prefere as relações com estudantes que terminam a cada verão ou as prostitutas.

O alerta é justamente sobre a desmoralização, a falta de laços, a falta de norteamento e de desejo que transforma a pessoa em submisso ao que lhe proporcione tudo isto sem ter que se esforçar. Algo que venha preencher o vazio existencial, mas sem esforço, e dentro da ilusão do que se considera a felicidade ou prazer. E volto a minha pergunta inicial: até que ponto desejamos isto? até que ponto a sociedade se infantilizou desejando a volta ao paraíso onde podemos receber tudo sem ter que fazer nada para isto, exceto obedecer aos pais, a Deus, ao Islã como no livro.


Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

LIVRO: LIVRE - A jornada de uma mulher em busca do recomeço - CHERYL STRAYED



Strayed, Cheryl. Objetiva, 2013
375 páginas
Tradução: Débora Chaves
Título Original: Wild 

Assisti ao filme recentemente e já postei no Blog. Ontem terminei a leitura do livro. 

O filme condensa todo o percurso de Cheryl pela PCT - Pacific Crest Trail, por 1770 quilômetros partindo do deserto de Mojave no sul da Califórnia até a Ponte dos Deuses no Estado de Washington, mas no livro podemos acompanhá-la mais vagarosamente em suas dificuldades, obstáculos, momentos especiais, alegrias, conquistas, e toda a transformação que se processa nela mesma. 

Após a morte de sua mãe aos 45 anos de idade de um câncer Cheryl não se recupera e cada vez se perde mais de si mesma até o dia que ao descobrir que está grávida, sem ao menos saber quem seria o pai, ela faz um aborto e reconhece que virou algo horrível, que não é mais possível continuar assim. Ela se divorcia do marido, e começa os preparativos para sua caminhada sozinha pela PCT.

O livro relata esta jornada, e apesar de termos a impressão de que nada ocorre internamente, uma vez que ela está focada no externo, na atenção que tem que ter na trilha devido cascavéis, animais, buracos, obstáculos, o cansaço físico, a constatação de seu despreparo para fazer isto, o tamanho de sua mochila que ela apelida de "a monstra", o descuido de que poderia haver vários imprevistos o que a coloca em situações difíceis como a falta de água, ter que fazer um desvio devido a neve excepcional naquele ano que a tira de sua rota e acaba deixando-a sem dinheiro em alguns momentos, aos poucos algo dentro dela vai se transformando, como se tudo o que ocorre no externo seja apenas uma metáfora de sua transformação interna, até o momento em que ela dá o salto psíquico.

Era o dia que sua mãe deveria completar 50 anos, e neste dia Cheryl consegue gritar e colocar em palavras tudo que sente, é o momento de sua libertação interna que irá possibilitar um renascimento. Lamento que o filme não tenha colocado este momento por completo como está no livro. Ao assistir senti falta deste momento, onde ocorreu a cura? a ultrapassagem? o momento decisivo para toda sua mudança? e o encontrei no livro.

Confesso que adoraria ter a coragem dela, é uma caminhada de crescimento, de percepção de si mesma, de enfrentamento, de superação. Eu prefiro fazer isto no divã de um analista. O processo interno ocorre da mesma forma, mas leva mais tempo. Eu não superaria o medo da noite, o medo do outro, de sofrer algum tipo de agressão, nunca faria isto sozinha como ela fez, mas adoraria fazê-lo.


Com sua família que constituiu após a trilha

Cheryl na trilha 

Mapa da PCT

PCT
PCT
PCT

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

LIVRO: O INCOLOR TSUKURU TAZAKI e seus anos de peregrinação - HARUKI MURAKAMI


Murakami, Haruki. 1ªed. Obejtiva, 2014
326 págs.
Tradução: Eunice Suenaga
Título Original: Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi

País: Japão 

Tsukuru morava em Nagoia e fazia parte de uma comunidade de cinco amigos contando com ele. Os outros tinham em seus nomes uma cor, então havia Azul, Vermelho, Branca e Preta. 
Ele eram um jovem tímido, meio bobo, e estes amigos tinham uma importância imensa para ele. Havia um trato tácito entre eles de que não haveria namoros ou interesses sexuais para que desta forma não se formassem casais e com isto afetasse o grupo. Quando terminam o ensino médio todos ficam em Universidades em Nagoia, exceto Tsukuru que desde pequeno sonhava em construir estações de trem, o que aliás já trazia em seu nome Tsukuru quer dizer construir coisas, e então ele segue para Tóquio para cursar engenharia, mas todas as férias ele retorna até que no segundo ano de faculdade ao retornar nenhum de seus amigos quer falar com ele e o excluem do grupo sem dizer nada, sem explicar nada. 

Esta rejeição e exclusão será um choque e traumático para Tsukuru que durante 06 meses passará por uma crise que o modificará, mas ele consegue sobreviver, apesar que sempre carregará este peso em si mesmo, tornando-se uma pessoa que praticamente não terá amigos, e que terá namoros sempre passageiros, até o dia em que conhece Sara que irá fazer com que ele volte a Nagoia em busca de uma explicação. 

O livro nos fala de amizades e de desencontros, mas vai muito além pois nos mostrará que as coisas nem sempre são como pensamos e que vivemos sempre diante da incerteza, pois a vida muda, coisas acontecem, não podemos controlar.

Nesta volta ao passado Tsukuru passará por modificações, irá construir sua identidade fora do grupo e aprenderá a aceitar o desconhecido. Nem sempre temos as respostas para o que nos ocorre. Ele que carregava uma dor no peito aprenderá a ir desmanchando este nódulo e se abrir para a vida e para os outros, mesmo correndo o risco deste outro de repente desaparecer sem dar explicações ou não querer mais saber dele e não dizer porque.

O que Tsukuru aprende é que ele não pode mudar o outro ou fazer com que o outro lhe responda ou atenda ao seu desejo, mas que ele pode sim mudar ele mesmo, e que ao mudar ele muda o entorno, mudando a si mesmo ele pode mudar o outro em relação à ele.

Haruki Murakami nasceu em 1949 em Fushimi, Quioto, Japão. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

LIVRO: IDIOPATIA - SAM BYERS



Byers, Sam. 1ªed.Objetiva, 2014
287 páginas
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Título Original: Idiopathy

Idiopatia - origem fim do século XVII - do latim moderno idiopathia, do grego idiopatheia, de idios "próprio, privado" + patheia "sofrimento". Sofrimento próprio

Grande surpresa, por ser um livro de estréia, um dos melhores livros que li recentemente. É brilhante. 

Um romance sobre amor, narcisismo e animais agonizantes. 

Três pessoas, Katherine, Daniel e Nathan são os protagonistas, porém a mãe de Nathan, seu pai,  Angélica e Sebastian também tem muito a nos mostrar. 

A narrativa trata do absurdo da vida moderna, suas neuroses, solidão, narcisismo extremado, máscaras. 

Os três se utilizam de máscaras para fugir ao que realmente sentem, para defender um narcisismo exagerado, onde não se quer ficar por baixo, onde a demanda de aprovação supera tudo, onde cada um foge do que é para colocar no outro o que ele imagina que o outro vê nele. 

Katherine é a ex-namorada de Daniel que atualmente vive com Angélica. Ela é manipuladora ao extremo, sempre jogando para o outro, não escuta ninguém, quer sempre ser a vencedora em qualquer tentativa de diálogo, uma vez que com ela nunca ocorre um diálogo, é impossível, ela não permite. Adora provocar os outros, deixá-los irritados, isto lhe dá prazer e a sensação de vitória. Mas é extremamente solitária, sofre com isto, porém não consegue dar um passo para mudar isto, a resistência é total. Quando tenta é pior ainda, soa falso. Tudo que o outro lhe diz ela manipula a seu favor, e chega a ser irritante os diálogos com ela, lendo eu ficava com raiva, dava vontade de mandá-la calar a boca. Ela sempre respondia com perguntas antes mesmo que o outro terminasse de falar, ou observações irônicas e sarcásticas. 

Daniel quer ser o perfeito, amado, vender uma aparência boa. Não consegue ser autêntico, ele mesmo. Está sempre pensando antes de falar no que o outro vai pensar do que ele vai dizer. Procura achar as palavras e respostas certas, pensa em todas as alternativas de respostas possíveis que o outro vai dar para se preparar antes de falar. 

Nathan, que é o considerado doente na história, ele foi internado num hospital psiquiátrico por ter tirado a própria pele, me parece entre todos o melhor, o que está menos doente nesta sociedade neurótica e moderna. Ele foi para o ato ao invés de falar, e claro, depois de uma conversa com Katherine, quando é impossível falar. É um ex-drogado, que se apaixonou por ela quando esta ainda vivia com Daniel, que era seu amigo. Os três sempre se encontravam, mas Nathan percebeu que ele era usado pelos dois. A mãe de Nathan é castradora, e quando vê que o filho arrancou sua pele, resolve escrever um livro sobre o sofrimento de uma mãe para se livrar da culpa. Fica famosa, recebe e.mails, participa de programas na TV, causa um tremendo desconforto em Nathan. A intenção materna é criar a culpa nele para retirar dela a questão. O pai não interfere, vive sua vida cotidiana. 

Angélica é a bondosa, aquela que quer ser vista como generosa e bondosa com todos, que media todos os conflitos, que acalma. E Sebastian, apaixonado por Angélica, é um ativista que está obcecado pela questão das vacas que sofrem de uma doença chamada idiopatia e que estão sendo sacrificadas. Ele adora provocar Daniel, para desta maneira chamar a atenção de Angélica. Ele sente inveja e ciúme de Daniel por ter ficado com Angélica, e a ironia do livro é ver que ele acha que uma vaca é algo que vai diferenciá-lo de Daniel aos olhos de sua amada. 

As emoções humanas são as mesmas de sempre. O que o livro deixa claro é a forma como as pessoas lidam com isto no mundo moderno. Eles não sabem se agem com total desinteresse, descrença, afastamento, ou se vão atrás de ideias, palavras, pensamentos. 

É uma sátira do mundo moderno, mas na realidade muito do que está um pouco exagerado no livro para reforçar a história acontece todos os dias. As pessoas usam máscaras para fugir de sua solidão, desesperança, fracassos e tristezas. Não sabem mais lidar com isto. Então elas atacam os outros para com isto achar que estão prevalecendo e atingir um certo gozo, ao invés de viver com prazer e satisfatoriamente com aquilo que a vida oferece de possível. 

O fato da leitura atingir a nós mesmos, nos levando a desejar mandar calar a boca, ficando exasperados em determinados momentos, com raiva até, é algo brilhante num livro, e que também nos faz refletir sobre nossas relações e como agimos com os outros. O que todos desejamos é sermos amados, mas como lutamos contra isto. 

Recomendo!

Sam Byers nasceu em 1979. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

LIVRO: INVERNO DE PRAGA - Uma história pessoal de recordação e guerra, 1937 - 1948 - MADELEINE ALBRIGHT



Albright, Madeleine. 1ª ed. Objetiva, 2014
479 páginas
Tradução: Ivo Korytowski
Título original: Prague Winter: a personal Story of remembrance and war, 1937-1948

"ÀQUELES QUE NÃO SOBREVIVERAM, MAS NOS ENSINARAM COMO VIVER E POR QUÊ."

Madeleine Albright foi Secretária de Estado dos EUA e neste livro ela nos relata a história de sua família durante a Segunda Guerra Mundial, mas muito mais, ela nos conta a história da Tchecoslováquia e do Leste Europeu durante a guerra e também sobre o que ocorreu na Europa.

Albright era uma criança quando a guerra começou e somente muitos anos depois, quando seus pais já não viviam, ela tomou conhecimento do seu lado judaico e do destino de muitos de seus familiares. O livro é um relato sobre a guerra baseado numa extensa pesquisa, mas é também o relato pessoal de Madeleine e de sua família.

Achei interessantíssimo, pois temos muitas informações sobre os países da Europa Ocidental, mas pouco sobre o que ocorreu no Leste Europeu em países como Hungria, Romênia, República Tcheca, Eslováquia, a antiga Ioguslávia entre outros.

O livro inicia com um relato sobre a história da Tchecoslováquia, de sua formação inicial, Boemia, Morávia, Eslavos, ainda sob o Império Austro-Húngaro. Conta as lendas e costumes, os principais heróis. Algo que eu pessoalmente desconhecia e me enriqueceu muito, me levando a assistir o filme "A Avó" que já postei aqui no Blog. São muitas informações interessantes e que enriquecem.

O relato inclui toda a diplomacia que não surtiu nenhum efeito sobre Hitler, nos ensina a ser mais perceptivos, a ter mais cuidado. Tanto Hitler como Stálin mentiam, enganavam, não cumpriam com sua palavra, mas os outros países também visavam seus interesses e neste jogo não perceberam diante do que estavam e o que poderia vir a ocorrer.

A família de Madeleine consegue se exilar na Inglaterra, mas muitos de seus familiares ficaram e depois morreram de fome, doenças ou nas câmaras de gás. Ela relata o bombardeio de Londres, e a luta para voltar à democracia e liberdade. Acompanha principalmente Benes no exílio e suas tentativas para manter a Tchecoslováquia como um país e livre após a guerra, o que infelizmente não ocorreu. Este país que havia atingido sua independência e se formado logo após o fim da Primeira Guerra teve curta duração.

Após o fim da Segunda Guerra o Leste Europeu passou a ser um satélite da Rússia, estavam atrás da Cortina de Ferro, e apesar de toda a luta a Tchecoslováquia também ficou ali. Neste momento a família de Madeleine que havia retornado à Praga e depois ido para Belgrado, numa Iugoslávia já sob a ditadura de Tito, acabou pedindo exílio aos Estados Unidos.

Um livro que trata da história, mas também de pessoas, de todas que arriscaram suas vidas, das que morreram, das que sobreviveram, que nos traz as decisões terríveis que tiveram que tomar, onde o contexto não permite decisões morais, e sim de sobrevivência. Não há como julgar, pois somos incapazes de responder o que faríamos na mesma situação. A guerra trouxe a tona o que há de pior no ser humano, mas também o que há de melhor.

Recomendo a leitura, um livro belíssimo, sobre uma vida , sobre várias vidas e sobre um momento trágico da história do mundo.

Madeleine Albright nasceu em 1937 em Smíchov, República Tcheca foi a 64ª Secretária de Estado dos Estados Unidos, tendo sido a primeira mulher no cargo. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

LIVRO: TODAS AS CORES DO MUNDO - GIOVANNI MONTANARO


Montanaro, Giovanni. 1ª ed. Objetiva, 2014
142 páginas
Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo
Título Original: Tutti i colori del mondo.

Gheel é uma pequena cidade no Norte da Bélgica que tem uma característica que a diferencia de todas as outras, ela acolhe em suas casas os loucos que levam uma vida muito diferente do que se fossem internados em manicômios ou hospícios. Esta história se passa no século XIX em 1881, é uma ficção, apesar de que os trechos das Cartas de Vincent Van Gogh estão em seu livro de Cartas para Théo e ele realmente cita a cidade.

Montanaro então imagina um período da vida de Van Gogh que o teria levado a se tornar um pintor, o que ele não foi logo de início, só passando a pintar mais tarde em sua vida. Como o pintor também era uma pessoa difícil, nunca constituiu uma família, tinha muitas dificuldades em relacionamentos humanos, vivia buscando algo que não encontrava e acabou se suicidando, nada como a passagem por Gheel, esta cidade que costuma acolher os loucos, como o ponto de início para sua arte.

Lá vive Teresa Sem Sonhos, este é seu nome, ela nasceu de uma mãe louca que ali vivia, não sabiam quem era seu pai, e ela foi acolhida por duas famílias, sendo que a segunda a declarou como louca para poder receber a ajuda do Estado que era concedido a cada família que abrigava um doente. Porém, Teresa não era louca. Sonhava em se casar com Icarus, que estudava os mineiros para escrever um livro, até a chegada de um estranho à vila, alguém chamado Vincent.

Teresa irá se apaixonar por Van Gogh e os poucos dias que passará ao lado dele modificará para sempre sua vida, mas também mostrará a ele o mundo das cores. Anos depois, Teresa irá escrever ao Senhor Van Gogh numa tentativa de colocar ordem no caos onde vive.

Um belo livro sobre almas aprisionadas, seja a de Vincent ou a de Teresa, ou de muitos que buscam algo e não encontram, ou como diz Vincent, são sem pátria, não sabem onde viver para estar bem. De pessoas que não seguem as normas sociais, que almejam mais para suas vidas, mas se defrontarão com o preconceito, com aqueles que querem colocar as coisas nos seus lugares, mas de acordo com o que eles acreditam, tolhendo a liberdade do outro e demonstrando a intolerância com tudo e todos que se diferenciem do que eles consideram ser o normal.

Giovanni Montanaro nasceu em 1983 em Veneza, Itália. 



Gheel se tornou uma vila que acolhia aos loucos devido uma lenda sobre Santa Dimphna. Uma filha de um rei irlandês que precisou fugir de seu pai após a morte de sua mãe. O rei era muito apaixonado pela esposa, e viu na filha a mulher que perdeu, quis casar com ela, mesmo sendo incesto, mas Dimphna não quis e fugiu, foi se esconder em Gheel onde o rei a encontrou. Ela preferiu a morte ao incesto. Como ela enfrentou seu pai e o seu desejo diabólico passou a ser uma Santa que protegia os loucos. A loucura era considerada uma possessão e o rei foi considerado como possuído pelo diabo.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

LIVRO: A HISTÓRIA DE UMA VIÚVA - JOYCE CAROL OATES



Oates, Joyce Carol. Objetiva, 2013 - Selo Alfaguara
Tradução: Débora Landsberg
453 páginas
Título original: A Widow's Story

Joyce Smith, esposa de Raymond Smith, casados por 47 anos, uma vida, e de repente, ela está viúva, sem esperar por isto apesar de ter havido o que ela supos serem sinais que isto iria ocorrer, mas não era previsível. Ela retorna de uma viagem e Ray está com uma gripe forte, ela o leva para o Hospital de Princeton que é o mais perto, pneumonia, ele fica internado, mas melhora, e já há a previsão para a alta quando ele sucumbe a uma infecção secundária e vem a falecer.

Choque, culpa, vazio, raiva, solidão, perder o sentido de viver, os sintomas do luto, tudo que vivemos nestes momentos de perda Oates irá nos relatar com franqueza neste livro. Toda sua dor, sua desorientação, as noites insones, a falta de energia, os amigos, as burocracias necessárias neste momento. Ela está exaurida, sofrendo, mas tem que continuar a vida.

Para quem passa uma vida ao lado de outra se ver de repente só é algo que desorienta totalmente ao que fica, ele não compreende, não sabe o que fazer, e irá a todo momento pensar: Ray faria isto, Ray faria aquilo, ele diria isto ou aquilo, o fantasma ronda, fica ali. O desejo de morrer junto, do suicídio, que Oates nos relata sob a forma de um basilisco que a persegue, aquele espécie de lagarto que zomba dela. Todo lugar onde se vai há dor e culpa: na última vez que estive aqui Ray estava junto, é estranho estar ali sem ele, ou, nunca estive aqui sem Ray, é horrível pensar que ele nunca conhecerá aquele lugar, pior ainda se ele desejava conhecer e agora não pode mais.

Ouvir condolências, ouvir as pessoas falando dele, dizendo que sentem muito, é horrível, mas se não ouvir também será horrível. Ficar em casa é ruim, mas não estar em casa também. Tudo na casa o recorda, onde compraram um quadro, a música que costumavam ouvir, ele estaria sentado ali, mas não está mais.

Sua culpa, ela se acusa de não ter feito mais, de não ter levado Ray para outro hospital, e pior, de ter sido ela a levá-lo àquele, e vê sua culpa projetada nos gatos que a estranham e se afastam como se eles soubessem que foi por culpa dela que Ray não está mais ali.

Um relato pungente sobre como realmente se sente uma pessoa de luto, o processo de separação daquele que perdemos, a parte que ele leva com ele e que não recuperamos mais, e teremos que construir algo novo no lugar. Até chegar um tempo em que as coisas se ajeitam, a separação ocorre, e a pessoa que perdemos poderá morrer, mas será sempre lembrada e amada.

Me chamou a atenção as questões culturais também, de como nos Estados Unidos após o falecimento de uma pessoa ela recebeu inúmeras cartas de condolências e presentes como flores, cestas de comida, de sucos, e como se desesperava com tudo isto. E depois ter que responder a todas estas cartas. E no caso de Oates a dificuldade que ela tinha de ouvir as pessoas falarem do marido, perguntarem dele ou falarem de sua perda, sendo que muitas vezes as pessoas anseiam por isto, por serem acolhidas, o que mostra que cada um tem sua forma de viver o luto.

Uma bela homenagem ao seu marido e a si mesma, assumindo sua dor e todas as dificuldades e desorientações, culpas e raivas que se sente no hora da perda de alguém que amamos muito, e de como aos poucos ela irá voltar a vida. Sofra por Ray, ele merece. Não só ele merece, ela também, pois é necessário viver o luto, chorar, sofrer, passar por ele para poder continuar depois.

Joyce e Raymond

Joyce Carol nasceu em 1938 em Lockport, New Your, EUA

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

LIVRO: DEZ MULHERES - MARCELA SERRANO



SERRANO, Marcela. Alfaguara/ Editora Objetiva - 2012
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
267 páginas
Título Original: Diez Mujeres

Primeiro livro da escritora chilena Marcela Serrano que leio, e gostei muito. Natasha, uma terapeuta reúne por um dia nove de suas pacientes para que falem, contem suas histórias. Idades diferentes, classes sociais diferentes, origens diferentes e cada uma com seu drama pessoal, mas que ao ler a sensação que temos é que poderia ser uma história só.
Vamos nos identificando com um aspecto de uma, depois de outra, e ao final não fui capaz de dizer com qual eu me identifico mais, pois em cada uma das histórias encontrei algo que se parece com a minha.
Francisca que fala de sua mãe, Mané sobre a velhice, Juana sobre a dor e o viver para o outro, Simona sobre o prazer da solitude, do viver para si, Layla sobre a violência, o estupro que sofreu e que irá afetar sua vida sem que ela se dê conta, Luisa que nos fala sobre os desaparecidos, Guadalupe nos conta o como é descobrir sua homossexualidade e enfrentar os preconceitos, Andrea que tenta se encontrar no deserto, dar um sentido a sua vida, Ana Rosa que nos fala da morte e da culpa, e do incesto e suas consequências e a história de Natascha contada por uma amiga e colaboradora. Por mais que cada uma foque em algo, na soma de sua história ela nos falou muito mais.

Fiquei imaginando a cena inicial, estas nove mulheres se olhando sem saber o que aconteceu à outra, sem saber as dores, as dificuldades, as alegrias, qual desejo tem cada uma para quando chegam ao final do dia terem descoberto que todas, inclusive aquelas que umas invejam por terem tudo e imaginam que com isto não podem se deprimir, e nem passam por dificuldades, também tem dores e sofrimentos.

Mas, Serrano consegue nos falar de tudo isto de uma forma que me lembram as histórias contadas pelos antigos para ensinar sobre a vida, os contos que ainda não haviam sofrido a manipulação para se tornarem os "felizes para sempre" que tanto nos iludem, por que a vida não é assim, ela é feita de momentos, e entre estes momentos temos o trágico, mas também temos a alegria e o prazer. A cada relato nos refletimos, pensamos, aprendemos e descobrimos que não somos a única a passar por coisas difíceis, e que cada uma tenta a seu modo viver a vida que tem com tudo que isto significa.

No final do livro temos uma frase: " É que a literatura, como a psicanálise, luta com a complexa relação entre o saber e o não saber."

Quando contamos uma história, e principalmente se é a nossa história, nos ouvimos contar, mas também somos escutados por outros, e é nesta interação que surge o que não sabemos e não falamos, mas que o outro ouviu dentro de si. Sempre haverá mais palavras a serem ditas e ouvidas.

O livro é uma colcha de retalhos, retalhos que se costuram para nos aquecer.

Marcela Serrano nasceu em Santiago, no Chile, em 1951. Após o golpe militar de 11 de Setembro de 1973 exilou-se na Itália até 1977. Formou-se em Belas Artes.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: HANNA E SUAS FILHAS - MARIANNE FREDRIKSSON




Objetiva, 1998
Tradução: Myriam Campello
312 páginas



O livro fala sobre três gerações fictícias de mulheres que viveram na Suécia entre o final do Séc.XIX até o final do Séc. XX. São elas: Hanna, a avó, Johanna, a mãe e Anna, a filha e que é quem nos conta a história.

A mãe de Anna está com Alzheimer, e ela encontra na casa dos pais uma foto de sua avó Hanna, vindo a se interessar pela história desta mulher, quem foi ela?

O livro nos mostra a história destas três mulheres, em suas épocas, e como se parecem com as nossas, no mundo de hoje. Os amores, filhos, o trabalho, a luta, a profissão, a família. Levanta a questão de ser mulher e de como isto muitas vezes pode ser difícil, doloroso, mas também prazeroso. Fala das relações entre as mulheres - avó, mãe, filha, neta, mas também mostra a força que é esta teia de ancestrais.

Ao mesmo tempo relata os acontecimentos de cada época, a política, a vida, os costumes, nos mostrando também o caminho percorrido pela mulher em sua busca por liberdade e poder viver de acordo com o que deseja.

Marianne Fredriksson é uma escritora sueca nascida em 1927 em Gotemburgo e que faleceu em 2007 na cidade de Estocolmo. Foi jornalista e somente em 1980 devido uma crise pessoal iniciou sua bem sucedida carreira de escritora. 

LIVRO: O CLUBE DO LIVRO DO FIM DA VIDA: uma história real sobre perda, celebração e o poder da leitura - WILL SCHWALBE



Schwalbe, Will. Objetiva - 1ª Edição - 2013
Tradução: Rafael Mantovani
292 páginas
Título original: The end of your life book club

PALAVRAS QUE CONFORTAM

O que você está lendo?

Quantas vezes ouvimos esta pergunta hoje quando nos encontramos com amigos?

Quando sua mãe teve diagnosticado um câncer, ela e Will passam a falar de leituras em seus momentos de espera na quimioterapia ou aguardando as consultas, e com isto criam um clube do livro com duas pessoas. Trocam e leem os mesmos livros para depois comentá-los. São livros que são voltados ou para o mundo e o que acontece, ou sobre pessoas que enfrentaram momentos difíceis, além de vários de suspense, gênero que sua mãe gostava muito. Mas, o importante é que estes livros além de aproximá-los, permitem falar sobre coisas que são difíceis de dizer e também trazem um alento para um momento tão difícil onde sua mãe está morrendo, mas ainda está viva.
Uma bela homenagem a sua mãe, ao que ela realizou em sua vida e sobre seus valores, mas também uma homenagem ao poder da palavra, dos livros e do que eles podem ensinar seja para viver ou seja para morrer.


Will Schwalbe nasceu em Nova York. É o fundador e CEO da cookstr.com, um site de receitas, foi vice-presidente sênior e editor chefe da Hyperion Books. Mary Anne foi diretora fundadora da Comissão da Mulher que se ocupava dos refugiados. Ela visitou refugiados no Afeganistão, Libéria, Sudão e Tailândia.