Mostrando postagens com marcador 2007. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2007. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de maio de 2016

DOCUMENTÁRIO: SIMONE DE BEAUVOIR E O FEMINISMO - 1959/2007



- Uma mulher atual - Dominique Gros - 2007
- Porque sou feminista - Jean-Louis Servan-Schreiber - 1975
- Simone de Beauvoir fala - Wilfrid Lemoine - 1959 

Este DVD da Versátil nos traz três documentários de Simone de Beauvoir com raras entrevistas com a filosofa, escritor e ativista política francesa.

- Uma mulher atual eu já havia assistido e está postado aqui no Blog. 

- Porque sou feminista (Pourquoi je suis feministe)  - neste documentário Simone é entrevistada por Jean-Louis para o programa "Questionnaire". Fala sobre as mulheres, de como se deu conta da condição destas e sobre a escrita do Segundo Sexo. Lembra que mesmo os da esquerda não olham as mulheres como vulneráveis, uma vez que a luta deles é a de classes não de gênero, e a esquerda também é composta por homens. Diz que nunca se sentiu ela mesma tolhida, porém foi olhando ao seu redor que percebeu a opressão, a maneira como uma sociedade constitui o gênero. 

- Simone de Beauvoir fala - Esta é uma entrevista filmada em Paris pela Radio-Canada, que censurou sua difusão por pressão do arcebispo de Montreal. Aqui ela fala sobre suas ideias, sobre o existencialismo, religião, o casamento, o amor livre. 


Os três documentários nos trazem o perfil de Simone por ela mesma, sua liberdade, curiosidade, sua relação com Sartre e com os intelectuais franceses, a literatura, seus engajamentos políticos. 

Jean-Louis Servan-Schreiber nasceu em 1937 em Boulogne-Billancourt, França.

Wilfrid Lemoine nasceu em 1927 em Québec, Canadá e faleceu em 2003. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

FILME: XXY - 2007


Direção: Lucia Puenzo - 2007
Duração: 90 min
País de Origem: Argentina - Espanha - França

Um belo filme que nos fala da transexualidade que serve para que as pessoas possam compreender melhor do que se trata e de como uma pessoa que nasce com as duas características sexuais se sente e o preconceito que existe. 

Alex (Inés Efron) filha de Kraken (Ricardo Darin) e de Suli (Valeria Bertuccelli) nasceu com ambas as características sexuais. Seus pais para se afastar dos preconceitos e dos que acreditam que é necessário corrigir a ambiguidade sexual da criança se mudam para um vilarejo no Uruguai onde kraken trabalha como biólogo. 

Alex toma hormônios para se tornar uma menina, mas começa a resistir a isto e para de tomá-los. Nesta época recebem a visita de um casal de amigos com um filho adolescente, Alvaro (Martin Piroyansky), cujo pai é um médico que faz as cirurgias de correção. A mãe de Alex deseja esta cirurgia, porém seu pai não acredita que isto seja a solução, considerando que seria uma violência ao corpo de Alex.

Alex e Alvaro se sentem atraídos, até que tem um encontro sexual revelador para ambos. Os garotos do vilarejo desconfiam que há algo de errado e acabam cercando Alex numa praia e descobrem que ela é uma menina com órgãos genitais duplos. 

O filme é uma lição, pois o pai de Alex compreende o drama de Alex, e a apoia em suas decisões quando opta por não fazer uma cirurgia e ser como é, escolha difícil diante de uma sociedade que não aceita isto. 

O filme é sensível, e vem ao encontro dos preconceitos, da dificuldade que as pessoas tem em aceitar tudo que não seja o considerado normal. Mas o importante é que mostra que sexo biológico, gênero e opção sexual são coisas diferentes, e isto ainda é muito pouco compreendido. 

Lucia Puenzo nasceu em 1976 em Buenos Aires, Argentina

quinta-feira, 12 de maio de 2016

FILME: A GAROTA IDEAL - 2007


Direção: Craig Gillespie - 2007
Duração: 91 min
Título Original: Lars and the real girl
País de Origem: Estados Unidos e Canadá

Lars Lindstrom (Ryan Gosling) vive na garagem de seu irmão mais velho, Gus (Paul Schneider) e sua cunhada Karin (Emily Mortimer). Ele é introvertido, tenta escapar de todos os convites insistentes de sua cunhada para tomar café ou jantar com eles. Tem um emprego, frequenta a igreja, mas é distante apesar de educado e simpático com todos. 

Através da internet ele encontra Bianca. O problema é que Bianca é uma boneca inflável erótica, mas Lars a recebe como uma mulher de verdade, e diz a todos que ela é uma missionária religiosa. Quando ela chega fala com sua cunhada inclusive para que ela possa ficar na casa deles, uma vez que não é bem visto uma mulher solteira ficar junto de um homem sozinho em sua casa. Karin fica feliz com esta novidade até... descobrir que Bianca é uma réplica de uma mulher mas feita de silicone. 

Karin e Gus procuram ajuda com uma psicóloga Dra Dagmar (Patricia Clarkson)  que lhes diz que ela é real. Esta ali na sala de espera com Lars, e para ele se trata de alguém. 

O filme é muito interessante, uma vez que vemos que questões psíquicas que normalmente seriam tratadas através de medicação, internação aqui tomam outro rumo, com a sociedade local que é pequena fazendo parte da encenação de que ela existe e é real. Falam com ela, a levam passear, lhe arrumam até um emprego de manequim numa vitrine.  

Desta forma surge a possibilidade para que Lars consiga expressar o que sente, e principalmente o que lhe faltou em sua infância, com a morte de sua mãe por ocasião de seu nascimento. Aos poucos Lars irá passando de apaixonado por Bianca ao afastamento, como no Édipo, e começará a se interessar por outras pessoas. Em seus encontros com a Dra. Dagmar sob o pretexto de tratar de Bianca, ele irá se abrindo e falando. Mas somente ele mesmo poderá encontrar uma saída para isto, e ao final poder afastar Bianca de sua vida da forma que lhe é possível e inclusive necessário para que possa se libertar de suas angústias e dores da infância. 

O filme é de extrema sensibilidade e respeito ao ser humano em suas dores de viver. E nos mostra que nem sempre tudo é patológico como a psiquiatria e a sociedade considera, levando a um tratamento através de medicação e que não iria resolver a questão de Lars. 

Craig Gillespie nasceu em 1967 em Sidney, Austrália

segunda-feira, 6 de julho de 2015

FILME: STARTING OUT IN THE EVENING - 2007


Direção: Andrew Wagner - 2007
Duração: 111 min
País: Estados Unidos

Adaptação do livro homônimo de Brian Morton

Leonard Schiller (Frank Langella) é um velho escritor que tenta escrever um último romance. Ele já fez muito sucesso, mas foi esquecido. Uma jovem acadêmica, Heather (Lauren Ambrose), deseja escrever uma tese sobre ele e o procura. Inicialmente ele resiste pois não tem muito tempo e quer continuar escrevendo, mas ela é insistente e ele acaba aceitando responder suas perguntas. 



Heather lhe diz que deseja reintroduzi-lo no mundo literário e para isto sua tese é importante, mas precisa poder adentrar em seus pensamentos e na maneira como ele escreve seus romances o que leva Leonard a recordar seu passado, mas há coisas que ele prefere não falar e a implacável jovem não se intimida, seu único objetivo é sua tese e para isto usa de formas abusadas, chegando mesmo a tentar seduzi-lo, o que obviamente mexe com este homem, que apesar de idoso, está vivo. Ela irá descobrir coisas de sua vida e lhe dirá cruamente. Ela leva em conta apenas seus primeiros romances que a agradaram porque a ajudaram em um momento de sua vida, e quer compreender porque ele mudou seu estilo, o que ela não aceita, e em sua soberba juvenil não percebe que as coisas mudam e que estes outros romances podem agradar a outras pessoas, como de fato agradam. 

Ariel (Lili Taylor) é a filha de Leonard que mora sozinha e que ligeiramente desconfia desta jovem impetuosa, mas ela está envolvida também em suas questões amorosas e no desejo de ser mãe e ter uma família. Ela termina seu romance com Vitor quando ele decide pedi-la em casamento, pois o que deseja é ter um filho sozinha e não se casar com ele, mas é justamente neste momento que retorna a cidade após 05 anos seu antigo namorado Casey Davis (Adrian Lester) por quem ela ainda é apaixonada. 

Aos poucos todos eles irão se confrontar com suas questões e ter que tomar decisões sobre ceder ou não às demandas do outro, ao desejo do outro ao invés de ao seu próprio. 

Será após sofrer um AVC que Leonard irá repensar sua vida e ter uma atitude para com Heather que aplaudi. 

O filme faz um retrato também do que é ser um escritor independente, que não se dobra à mídia ou ao que as editoras compram, como vemos num momento do filme em que um amigo de Leonard lhe diz que o respeita muito para enganá-lo, que sua editora só se interessa por livros de auto-ajuda e outros assim. Infelizmente percebemos no mundo atual o desaparecimento de grandes escritores que não são mais editados, que encontramos apenas nos sebos, mas alguns novos ainda conseguem se manter sem cair neste mercado de consumo. 

Heather no fundo não está interessada no sucesso de Leonard, ela quer se projetar como crítica, mas sem levar nada em consideração, nem o ser humano que está diante dela, e nem mesmo o gosto dos outros, pois quer moldar a escrita dele de acordo com o que ela deseja ler e lhe agrada, e no fundo me pergunto se muitos críticos não fazem isto, desapreciando excelentes livros porque não lhes interessam. A questão é que cada leitor tem um mundo próprio e costuma se projetar no livro. Independente das normas técnicas, para mim a grande literatura é aquele que consegue ser um espelho do mundo, refletir o que se passa na alma do ser humano, e não posso desconsiderar neste caso livros que refletem vidas que eu não gostaria de ter ou não conheço. 

Heather quer saborear o sucesso de relançar um escritor de acordo com o que ela acha que ele deve escrever, e para isto não se abstém de feri-lo, magoá-lo, cutucá-lo, acreditando que com isto ele voltaria a ser o escritor que foi quando jovem, aquele que ela quer. 


Andrew Wagner é um diretor de cinema americano

segunda-feira, 29 de junho de 2015

FILME: UMA BARRAGEM CONTRA O PACÍFICO - 2007


Direção: Rithy Panh - 2007
Duração: 111 min
Título Original: Un barrage contre le Pacifique
País: Camboja - França - Bélgica

Adaptação do romance homônimo de Marguerite Duras.

O romance de Duras é uma ficção, porém autobiográfico. Duras escreve sempre sobre sua vida de forma ficcional. 

Indochina 1931 - Região do Sudoeste Asiático que inclui o Camboja, Laos e Vietnã. Em 1931 estava sob a colonização francesa. No Golfo do Siam na beira do Oceano Pacífico, Madame Dufresne (Isabelle Huppert) sobrevive com seus dois filhos, Joseph (Gaspard Ulliel) e Suzanne (Àstrid Bergès-Frisbey). A mãe, uma professora, investiu todas suas economias numa concessão de terras, mas será surpreendida com o alagamento pelo mar de sua plantação de arroz, causando a destruição da mesma. Lutando contra os banqueiros corruptos e contra a administração colonial sob a ameaça de expulsão ela passa a lutar contra estas marés como um último recurso de se recuperar. Para contê-las ela resolve construir uma barragem com a ajuda da população local. Obcecada e arruinada financeiramente ela vive momentos amargos. 


Então surge o Senhor Jo (Randal Douc), um chines, filho de um homem muito rico que se encanta com Suzanne.  Cai por terra todos os preconceitos raciais que tinham e a família vai empurrar a jovem em direção a este milionário, pensando desta forma salvar a situação e sem pensar na jovem que não se sente atraída por ele. 

O filme é uma crítica à colonização francesa da Indochina, mostrando a forma como a população local era tratada, a revolta deles, e todo o sistema de interesses e corrupção que imperava. A mãe tinha um zelo imenso pelo filho, quase incestuoso, e indiferença pela filha, se voltando para ela apenas quando surge o Senhor Jo. Ao final ela se exaure nesta luta contra as marés. 

Em 2009 Marie-Pierre Fernandes descobriu que o sonho da mãe de Marguerite Duras, Marie Donnadieu, se realizou. A Agência Francesa de Desenvolvimento construiu as barragens que possibilitaram a plantação de arroz em Prey Nop - Camboja onde ela possuía sua concessão. Marguerite Duras passou sua infância e adolescência no Camboja.

Rithy Panh nasceu em 1954 em Phnom Penh, Camboja. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

FILME: MANGE, CECI EST MON CORPS - 2007



Direção: Michelange Quay - 2007
Duração: 99 min

País de origem: Haïti 

Um filme diferente que irá agradar a poucos. É um filme que representa um transe, fora da compreensão e do racional. É uma experiência cinematográfica, que nos leva ao mais profundo do sofrimento espiritual e material do Haïti. 

Vou falar sobre o que senti. Logo no início do filme vemos uma senhora branca num leito (Catherine Samie) que fala palavras ditas por Jesus, mas ela completa dizendo que ela é a abundância incompreendida por eles (haitianos) que cospem nela em sua ignorância. Ela alimenta este mundo canibal, coma, este é meu corpo. Ela diz perdoe-os, eles não sabem o que fazem. Mas ela mesma se alimenta deles, ao ponto de se ver neles e diz que eles pegam, mas não retribuem. 

Alguns meninos se dirigem em fila para a casa colonial. São lavados, vestidos de terno, sapatos, para o ritual da refeição. Uma mesa posta, tigelas e colheres. Surge Madame (Sylvie Testud), ela se senta com os meninos à mesa, mas não há comida, o que não desobriga o obrigado!, repetido à exaustão. Ela sugere que eles devem fechar os olhos e imaginar que estão comendo. Mas quando eles finalmente tem um bolo para dividir, eles se empanturram, e fazem guerra com o bolo. 

O filme retrata o branco comendo o negro. É um jogo de espelhos, o negro se olha no espelho, ele espia a mulher branca. Uma busca de identidade. A mulher branca acaba tomando consciência do outro, mas para isto sua mãe tem que morrer. 

É como um mergulho no inconsciente, poucas palavras, imagens, vemos as duas senhoras brancas, que representam a colonização. Vemos os negros habitantes e originários dali. Um se olha no outro, e por mais que o branco tente se manter afastado ele acaba assimilando também. Então já temos dois lados diferentes. Além disto há uma crítica a colonização, a situação da casa colonial diante do restante do povo. O branco acredita que ele está levando algo de bom para eles e os haitianos não agradecem, e porque teriam que agradecer? Eles é quem estão sendo explorados pelo branco. Então ao contrário do que diz a senhora no começo do filme, é ela quem se alimenta deles e não o contrário. 

Um filme que possibilita muitas interpretações. 

O filme foi realizado antes do terremoto de 2010 que arrasou o país que até hoje não se recuperou. 





Michelange Quay é haitiano

domingo, 11 de janeiro de 2015

FILME: E BUDA DESABOU DE VERGONHA - 2007



Direção: Hana Makhmalbaf - 2007
Duração: 76 min
Título Original: Buda as sharm foru rikht

País: Afeganistão - Neste caso coloco o filme para este país apesar da diretora ser Iraniana porque o filme se passa se neste país e trata da cultura deste povo. 

Um filme que me tocou muito, não sei nem dizer tudo a que este filme me remete. O filme se passa no vale de Bamyan no Afeganistão, exatamente onde o Taliban destruiu as imensas estátuas de Buda em 2001, e vemos então os nichos onde eles ficavam. É a este fato que o título do filme se remete, que eles não teriam sido destruídos, mas que desabaram de vergonha.



Apesar das dificuldades e da miséria, assim mesmo vemos um povo pacífico, que luta para viver. Bakhtai é uma menina de 06 anos da etnia hazara, ela vive nas cavernas como a maioria da população. Seu vizinho, um menino Abbas, lê em voz alta e isto lhe chama a atenção, ela não sabe ler e como ele a desafia a ler e ela não sabe, apesar de tentar fingir que sabe, decide então que deseja ir para a escola para aprender a ler, mas mais que isto, como Abbas lê um trecho para ela de seu caderno, ela quer ir a escola aprender histórias divertidas. O problema é que ela não tem um caderno nem um lápis. E eis que começa a odisseia de Bakhtai para conseguir estes dois objetos tão desejados e finalmente poder ir a escola, porque ela não tem dinheiro e não consegue encontrar sua mãe para pedir. 

Abbas sugere que ela venda ovos no mercado, e lá vai ela com seus quatro ovos. Finalmente ela consegue pelo menos o caderno, mas não o lápis, então ela pega o batom de sua mãe para escrever e vai para a escola.



Até aqui vemos toda inocência de uma criança, seu olhar meigo, seu desejo, suas peripécias para conseguir o que quer. Porém ela vive num país marcado por anos de opressão do Taliban, machista, que segrega as mulheres dos homens, ela mesma com 06 anos já cobre a cabeça, e no caminho para a escola ela encontra um grupo de meninos que brincam de guerra, os talibans contra os americanos, eles a prendem porque batom é algo que não pode, eles dizem que vão apedrejá-la, rasgam seu tão precioso caderno para fazer aviões de papel, colocam um saco de papel em sua cabeça deixando apenas buracos para os olhos, nariz e boca e a levam até uma caverna onde estão outras meninas pequenas.

Me comove ver esta pequena menina não ter medo. Para ela que ainda não tem consciência do que se passou em seu país, os meninos estão apenas brincando. Ela vai embora da caverna, enquanto as outras com medo lhe pedem para buscar a polícia. Os meninos refletem a história de seu país, mas ao mesmo tempo eu não pude deixar de pensar que as crianças ocidentais também faziam isto brincando de Forte Apache combatendo os índios. Estes mesmos meninos depois irão reaparecer, desta vez no papel de americanos prendendo os do Taliban.


Bakhtai após conseguir sair da caverna continua sua caminhada para a escola. Finalmente ela vai encontrar um lugar onde meninas estudam. Ali ao descobrirem o batom as meninas começam a  brincar, se pintar, como toda criança faz, mas quando a professora vê isto, ela é expulsa dali.

Voltando para casa é que reencontra os meninos, e Abbas também, que na brincadeira se finge de morto, ela não, ela corre e eles atrás dela. Abbas grita: morre! morre que você se liberta! Ela ainda resiste. Só a morte liberta grita seu amigo, e ela finalmente se joga no chão fingindo de morta.


Através de brincadeiras de crianças o filme nos mostra uma sociedade que limita a liberdade da mulher, o que Bakhtai ainda vai descobrir, mas no filme esta pequena menina simboliza a resistência, ela não tem medo, como as outras, e isto me comoveu e me remete ao fato de que o medo gera violência, é o medo que leva as pessoas a desejarem o poder. Os meninos reproduzem sua cultura e sua história, porém, diferente do Forte Apache, que aqui no Ocidente foi mudando a situação e apesar de ainda não se respeitar o índio, pelos menos já temos quem os defendam e livremente, sem falar que eles mesmos o fazem, no Afeganistão esta pequena menina terá que se render à sua cultura que continua se propagando já nas brincadeiras infantis, ela terá que se jogar ao chão, e isto tudo difere muito do budismo.
  
Hana Makhmalbaf nasceu em 1988 em Teerã, Irã 

sábado, 27 de dezembro de 2014

FILME: O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA - 2007



Direção: Mike Newell - 2007
Duração: 138 min
Título Original: Love in the time of cholera 

Baseado no livro homônimo de Gabriel García Márquez 

Estou lendo o livro, mas quando encontrei o filme acabei assistindo antes de finalizar a leitura.

O filme inicia já na velhice quando o Dr. Juvenal Urbino (Benjamin Bratt) morre e Florentino Arizo que esperou por este dia por mais de 50 anos procura a viúva Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno) para lhe dizer que por todo este tempo esperou por este dia. A partir daí o filme retrocede no tempo para contar a história dos três. 

Florentino conheceu Fermina quando era muito jovem e se apaixonou perdidamente por ela que se encantou com ele, e passaram a trocar cartas até o dia que o pai dela descobre tudo e ao perceber que não iria conseguir separá-los envia a filha para o interior da Colômbia. Alguns anos se passam e ela retorna à Cartagena, mas quando Florentino a procura ela lhe diz que foi tudo uma ilusão. Pouco depois ela adoece e chamam o Dr. Juvenal Urbino que passa a cortejá-la e acabam se casando. Florentino não aceita isto, não aceita que foi tudo uma ilusão, e por mais que sua mãe Tránsito (Fernanda Montenegro) tente ajudá-lo, ele irá nutrir este amor pelo resto de sua vida e será incapaz de amar outra mulher.




Mais de 50 anos se passarão, Florentino continuará amando Fermina, mas manterá relações rápidas com outras mulheres, fazendo um caderno numerando-as, chegando a 622 mulheres em determinado momento do filme. Por seu lado Fermina vivera um casamento com tudo que ele possui, e que muitas vezes é feito muito mais de problemas, atritos do que de momentos de felicidade e encanto, como dirá o Dr. Urbino a sua esposa, que a estabilidade de um casamento é muito mais importante do que o amor e a felicidade, ao que responde Fermina perguntando: o amor é mais difícil?

O amor é como o cólera, se apodera da pessoa e pode destruir, é uma doença, mas também é possível a cura. Logo após Fermina dizer a Florentino que descobriu naquele instante que tudo não passou de ilusão, ele passará muito mal, suará, sentirá dores. Sua mãe acredita que ele está com cólera.



Tránsito foi abandonada pelo pai de Florentino cujo irmão a ajuda com dinheiro. Ela se apega ao filho, um excesso de preocupação e zelo, e isto interfere na maneira como ele vive o amor. Viverá ao lado da mãe até sua morte. Fermina representa o além de sua mãe, ela despertou algo nele de que não conseguirá se desapegar tornando este amor obsessivo. Florentino fica paralisado neste sentimento, idealiza a amada, e viverá para estar perto deste objeto de amor e acredita que um dia ficarão juntos, ele anseia por isto. Ela é algo inalcançável, proibida agora que é casada, mas diferente do amor burguês, ele espera que o marido morra e teme que ela morra antes dele.

Fermina diante da situação de impossibilidade colocada por seu pai reage de outra forma. Ela vai reprimir seu amor, se convencer de que foi uma ilusão. Só após a morte do marido ela vai se sentir livre, poderá refletir sobre tudo isto e fazer escolhas por si mesma.

Florentino não consegue fazer o luto da separação, ele se torna melancólico, já Fermina consegue, e com isto abre a possibilidade de sua vida ao lado de Urbino.

Será então na velhice que este amor poderá ser vivido na realidade, deixar de ser um fantasma que esteve presente na vida de ambos. Fermina diz que Florentino parece uma sombra. As cenas do reencontro, ou novo encontro, pois ambos haviam mudado, vivido anos sem se falarem, são belas, a delicadeza, a sensibilidade de Florentino com ela, o cuidado que ele tem. O reconhecimento que está velha em Fermina, que coloca sua feminilidade em um momento frágil é superado pelo amor dele.



Um filme belíssimo sobre o amor.

Mike Newell nasceu em 1942 em St Albans, Reino Unido. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

FILME: O CLUBE DE LEITURA DE JANE AUSTEN - 2007


Direção: Robin Swicord - 2007
Duração: 106 min
Título Original: The Jane Austen Book Club

Adaptação do romance homônimo de Karen Joy Fowler

Um filme para relaxar. Cinco mulheres e um homem se encontram para falar sobre os livros de Jane Austen. Cada um deles tem suas questões pessoais e se utilizam da leitura para tentar encontrar respostas ou soluções para seus problemas. Bernadete (Kathy Baker)  é quem funda o clube de leitura após conhecer Prudie (Emily Blunt), uma professora de francês que se decepciona quando o marido Dean (Marc Blucas) lhe avisa que não irão mais a Paris, mas que ele ficará fora alguns dias devido um jogo. 
Jocelyn (Maria Bello)  é uma criadora de cachorros e acaba de perder seu fiel companheiro, o cachorro, para o qual faz um enterro. Sylvia (Amy Brenneman) fica com ela neste momento delicado, e seu marido Daniel (Jimmy Smits) vai embora. Eles tem uma filha, Allegra (Maggie Grace) que é homossexual. Passado uns dias Daniel avisa à Sylvia que quer se separar porque se apaixonou por outra mulher. Allegra retorna para casa. 
Jocelyn conhece Grigg (Hugh Dancy) e o convida para o clube da leitura pensando que ele pode se interessar por Sylvia, mas ele se apaixona por ela. 

Aos poucos, a cada livro lido, a cada encontro vamos vendo as coisas se acertarem, e cada um encontrar uma forma de ser feliz. 

Filme fraco, as passagens sobre os livros são rápidas, mescladas pelas questões pessoais, que também são pouco desenvolvidas, mas serve como introdução a escritora Jane Austen e não deixa de ser uma ideia boa, esta de forma um clube de leitura para discutir além dos livros as questões pessoais baseado no que se leu no livro. 
Robin Swicord nasceu em 1952 em Columbia, Carolina do Sul, EUA. 

domingo, 19 de outubro de 2014

FILME: QUANDO NIETZSCHE CHOROU - 2007



Direção: Pinchas Perry - 2007
Duração: 105 min
Título original: When Nietzsche wept


Baseado no livro homônimo de Irvin D.Yalon. 


Como terminei de ler Nietzsche na Itália de Paolo D'Iorio, já postado, resolvi rever este filme que havia assistido já faz alguns anos, e também já li o livro no qual o filme é baseado.

É uma ficção, apesar de trazer alguns fatos reais, ele se baseia num encontro que nunca ocorreu entre o filósofo Nietzsche (Armand Assante) e o Dr. Joseph Breuer (Ben Cross) a pedido de Lou-Andreas Salomé (Katheryn Winnick).

Lou procura Breuer para ajudar Nietzsche pois este se encontra desesperado por ela não haver aceito seu pedido de casamento. Ouviu falar sobre a cura pela palavra no caso Anna O. ou Bertha (Michal Yannai). De início Breuer se recusa, mas acaba aceitando o desafio.

Breuer é casado com Mathilde (Joanna Pacula) e amigo do jovem Sigmund Freud (Jamie Elman) que acompanhou o caso de Bertha.

É um filme que vale a pena ser visto pois se desenvolverá uma relação terapêutica entre Breuer e Nietzsche, mas neste caso será o filósofo quem atuará como um psicanalista sobre a obsessão de Breuer por Bertha.  O plano inicial era que desta forma Nietzsche confiaria em Breuer e lentamente começaria a falar de si mesmo e de sua paixão por Salomé, mas no filme o que ocorre é o contrário, e quem acaba livre da obsessão é Breuer. Há passagens ótimas sobre a filosofia de Nietzsche que ele utiliza em suas sessões com Breuer. Freud um jovem aprendiz ainda acompanha tudo e acabará hipnotizando Breuer o que o fará ver a realidade.

Nietzsche exporá no filme o eterno retorno perguntando a Breuer se caso houvesse um demônio que fizesse com que tudo que nos acontece, sentimos, falamos, sempre se repetisse sem parar por toda eternidade, ou seja, voltaríamos sempre para reviver exatamente as mesmas coisas, o que ele pensava? seria bom reviver sua vida? E também falará que amamos muito mais o ato de desejar do que o objeto do desejo.

A filosofia e o embrião da psicanálise é real, e Yalon faz uma junção muito boa da filosofia de Nietzsche e da psicanálise, apesar de Freud sempre ter dito que não leu as obras do filósofo, há muitas coisas que são as mesmas, apenas faladas em linguagens diferentes.

Nietzsche realmente se apaixonou por Salomé que acabou ficando com seu amigo Paul Rée, e sofria de enxaquecas terríveis. Breuer protegia e ajudava Freud naquela época, e realmente estudaram juntos o caso de Ana O. e a histeria, que depois Freud irá publicar em um dos seus livros. Salomé sob a supervisão de Freud se tornará uma psicanalista.
Quando Mathilde descobriu que Anna O. dizia estar grávida de Breuer exigiu que ele encerasse o tratamento, o que ele fez, e partiram ambos em um segunda lua de mel da qual nasceu uma filha, que anos depois iria morrer assassinada pelos nazistas. Bertha se tornou uma assistente social reconhecida.

Pinchas Perry 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

FILME: VIAGEM A DARJEELING - 2007


Direção: Wes Anderson - 2007 
Duração: 91 min
Titulo Original: The Darjeeling Limited 

Três irmãos se encontram após um ano sem se falarem,desde a morte do pai, para fazer uma viagem a Darjeeling juntos numa tentativa de se reaproximarem, mas também de encontrarem a mãe.

Francis (Owen Wilson) é quem toma as rédeas do encontro que considera como uma jornada espiritual, ele também é controlador e sente ciúmes de seu irmão Peter(Adrien Brody)  por estar com as coisas do pai. Este por sua vez enfrenta uma situação complicada, pois Alice sua mulher está grávida e ele não deseja ser pai. Jack (Jason Schwartzman) tem problemas com sua namorada e controla seus recados na secretária eletrônica.

Francis está machucado no rosto, ele sofreu um acidente com sua moto. Os três desconfiam um do outro, mas o desejo de se aproximarem é latente, para isto ficam contando segredos um ao outro, mas pedindo que não conte para o que não ouviu,o que obviamente acaba acontecendo.



Durante a viagem surgirão situações inusitadas,como Peter comprando uma serpente extremamente venenosa que escapa no trem, uma briga de Francis e Peter com Jack usando spray de pimenta para separá-los acaba resultando na expulsão do trio do trem. É neste momento que talvez o que Francis chamou de jornada espiritual ou de autoconhecimento tem um início, ou pelo menos resulta em algo para eles.



Em sua caminhada eles vêem três garotos em apuros num rio e pulam na água para salvá-los, porém Peter não consegue salvar o seu. Este episódio irá aproximar os irmãos e também será uma experiência para Peter que não estava aceitando ser pai ver outro pai chorar seu filho morto, e ao mesmo tempo pegar nos braços um bebê. Durante o enterro os três se lembram do enterro do pai e de que a mãe não foi.

Então partem em busca da mãe (Anjelica Huston), mesmo tendo sido avisados de que não era para ir, pois ela estava muito ocupada e havia a ameaça de um tigre nas redondezas do mosteiro onde ela se encontra. São três garotos neste momento querendo sua mãe, mas terão que enfrentar a realidade, que cresceram e ela também tem seus desejos.
Wes Anderson nasceu em 1969 em Houston, Texas, EUA

segunda-feira, 28 de abril de 2014

FILME: CONVERSAS COM MEU JARDINEIRO - 2007


Direção: Jean Becker - 2007
Duração: 109 min 
Título Original: Dialogues avec mon jardinier 
Roteiro: Jean Becker - Jean Cosmos - Jacques Monnet 
País: França 

Roteiro baseado no livro de memórias do pintor Henri Cueco. 

Um pintor (Daniel Auteuil) que vivia em Paris e está se separando de sua mulher Hélene (Fanny Conttençon). Resolve então retornar ao vilarejo onde nasceu há 50 anos e morar na casa da infância que se encontra um tanto abandonada. Ele contrata então um jardineiro (Jean-Pierre Darroussin) para cuidar do jardim.



O jardineiro é um velho amigo de infância, estudaram juntos e logo se estabelecerá uma sólida amizade entre os dois que partilharão as experiências de suas vidas, que neste caso, é a vida em Paris e a vida no campo, deixando a mostra as diferenças entre a dita "civilização" e o dito "primitivo".

Ficam evidentes as diferenças entre os dois e justamente aí está a beleza do filme, que demonstra que a amizade não é feita de iguais, mas que saber lidar com a diferença leva a uma relação muito mais enriquecedora e forte. Eles se nomeia de Dupincel - o pintor e Dujardin - o jardineiro. Muito mais do que uma divisão social, uma visão econômica o filme trabalha com o simbólico e o subjetivo, o que a nomeação dos dois já demonstra, para trabalhar com as diferenças das classes sociais, entre a burguesia e o operário e o abismo que normalmente há entre os dois.



É na voz do jardineiro que teremos uma crítica social, para ele a escola existe até quando não temos que trabalhar, depois é ganhar a vida. Ele fará várias observações sobre a atual situação social da França, mas que também encontramos em vários outros lugares. O pintor que sempre teve uma vida boa, sem preocupações financeiras, mas que não enxerga as questões sociais, aos poucos irá abrindo seus olhos para tudo isto, e verá que seu amigo, que tem um passado comum, ou pelo menos próximo, não teve e não tem as mesmas chances e condições que ele, inclusive médicas.

O filme consegue abordar uma situação que geralmente resulta em debates calorosos, críticas ácidas, protestos e revolta de uma forma mais humana, através do diálogo, da troca e do que cada um pode ensinar ao outro.


Jean Becker 

segunda-feira, 10 de março de 2014

FILME: AMOR E INOCÊNCIA - 2007



Direção: Julian Jarrold - 2007
Duração: 120 min 
Título original: Becoming Jane 
Roteiro: Kevin Hood e Sarah Williams 
País: Reino Unido 

Uma cinebiografia da escritora Jane Austen.

Em 1795 Jane Austen (Anne Hathaway) então com 20 anos começa sua vida de escritora. Seus pais  (Julie Walters e James Cromwell) desejam que se case com um homem rico, mas ela se apaixona por Tom Lefroy (James McAvoy). O candidato que seus pais desejam é o Sr. Wisley (Laurence Fox), neto de Lady Gresham (Maggie Smith) e não se conformam, principalmente Lady Gresham com sua recusa. Tom é um malandro que acabará se casando com outra mulher. Jane nunca se casará e viverá sua vida como escritora.

Com a desaprovação familiar Jane e Tom fogem, mas no meio do caminho ela irá se arrepender e retornará para sua casa. A era vitoriana, os casamentos  por interesse, Jane sonhava com um casamento por amor. O Tio de Tom também não aprovava o casamento, e deserdará o sobrinho caso ele insista nisto.

Seus livros se baseiam muito em sua experiência de vida, a ponto de me levarem a pensar qual é a realidade e qual é a ficção quando analiso os filmes baseados em seus livros, principalmente Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade.




Julian Jarrold nasceu em 1960 em  Norwich, Norfolk, Reino Unido.

Trilha Sonora - Adrian Johnston

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

FILME: DESEJO E REPARAÇÃO - 2007


Direção: Joe Wright - 2007
Duração: 123 min. 
Título original: Atonement 
Roteiro: Christopher Hampton
País: Reino Unido

Venceu o Oscar de melhor trilha sonora e Ganhou o Globo de Ouro de melhor filme dramático e de melhor trilha sonora. 

Baseado no livro Reparação de Ian McEwan 

Briony Talles (Romola Garai) tinha 13 anos quando viu algo que não compreendeu da forma correta e isto irá desencadear mudanças radicais na vida de várias pessoas, e principalmente de sua irmã mais velha Cecilia (Keira Knightley) e de seu amante Robbie Turner (James McAvoy). Ela acusará Robbie de um crime que ele não cometeu.

Robbie era filho do caseiro onde moravam as irmãs e tinha muito carinho por Briony que era uma criança solitária, imaginativa e que escrevia. Ao ver de sua janela uma cena na fonte com sua irmã e Robbie ela vai interpretá-la como uma violência, mas também veremos a cena pelo olhar dos dois onde há um flerte, um jogo de sedução. Para a criança, pois nos anos 40 ter 13 anos é ainda ser bem infantil, a sexualidade lhe surge aos olhos como uma agressão, ao contrário do que ocorre com sua irmã.

Podemos deduzir que Briony tem uma paixão infantil por Robbie ou até mesmo ciúmes de sua irmã ou dele. Ela também os surpreendera em uma relação sexual o que a chocará profundamente, além de uma carta infeliz com palavras mais vulgares que Robbie escreve sobre o que sente por Cecilia. Tudo isto se somará para ter o desfecho que teve quando uma das convidadas da casa é estuprada e não quer dizer quem foi. Talvez Briony deseje realmente defender sua irmã, mas pode ser também sua vingança, e ela contará para sua mãe tudo o que imagina ter visto o que resultara na prisão de Robbie acusado de estupro.

Inicia-se a Segunda Guerra mundial, Robbie terá que lutar e morrerá e sua irmã após deixar a casa dos pais busca refúgio em um túnel para se esconder das bombas e também morrerá ali. Mas também veremos o casal Robbie e Cecília vivendo juntos e quando Briony já adulta, uma enfermeira vai visitá-los terá que enfrentar o ódio dele e será expulsa dali.

Muitos anos depois Briony é uma mulher idosa (Vanessa Redgrave) , escritora, e esta segunda versão faz parte de um livro que ela escreveu onde procura reparar o mal que causou fazendo com que os dois vivam juntos e ela seja tratada como pensa merecer devido sua culpa. Na realidade os dois morreram.

Não foi Robbie que estuprou a convidada e ele pagou por isto por causa do que Briony contou à sua mãe, assim como sua irmã.

Claro que escrever uma nova versão para os dois não os traz de volta nem muda o que lhes aconteceu, mas para ela é uma forma de lidar com isto. Ela cometeu um erro, enxergou algo de acordo com o que lhe era possível ou desejado ver naquele momento, e quantas vezes não fazemos isto? eu diria que quase diariamente vemos cenas na rua, em casa, no trabalho e pensamos algo a respeito que nada garante ser a realidade que está ocorrendo ali. O erro foi falar sobre isto causando com isto a prisão de alguém. Mas como julgar uma menina de 13 anos que se vê no meio de um tumulto, com policiais, diante de uma violência, de um suposto crime de estupro? E se ela não falasse e ele realmente fosse tudo aquilo que ela pensou dele? Mas, quando fazemos uma escolha temos que assumir a responsabilidade por ela.

A escrita é uma forma que temos de lidar com os fantasmas e também de se redimir de algo, reparar algo, de dizer que não havíamos feito antes. Quantos relatos temos de sobreviventes, de traumatizados? que justamente buscam desta forma dar um destino e um lugar para o que carregam dentro de si? E esta foi a forma que Briony encontrou de reparar o que ocorreu antes antes e de amenizar a culpa que carregou por toda sua vida. Porém, há um detalhe, quem poderia ter evitado tudo isto, a suposta vítima de estupro, se calou.

Joe Wright nasceu em 1972 em Londres, Inglaterra.

Trilha Sonora de Dario Marianelli 

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

FILME: NA NATUREZA SELVAGEM - 2007



Direção: Sean Penn - 2007 
Duração: 148 min
Título original: Into the wild 

Adaptação do livro de não ficção de Jon Krakauer sobre a vida de Christopher McCandless. 


Assisti a este filme já faz um tempo, mas ainda não havia colocado aqui no Blog, mas na esteira do livro A Onda, não podia deixar de falar deste filme.

Christopher (Emile Hirsch) é um jovem revoltado com a sociedade que considera hipócrita, consumista e doente. Além disto ele vive em confronto com seus pais, o que seria normal se não fosse que além desta rebeldia da adolescência  houvesse também um segredo que envolve seu nascimento.

Os pais são formados e modelados pela sociedade na qual vivem de acordo com os valores vigentes, ou seja, status, sucesso, dinheiro, estudos e o comportamento que deve sempre ser o de acordo com o lugar e momento. Até se formar Chris atendeu a estes desejos, mas depois disto ele resolve seguir sua vida, indo viajar sem dar notícias. Sua revolta com o sistema é tanta que ele chega a queimar dinheiro, não o quer.

Seu objetivo: o Alaska. A primeira coisa que faz é trocar de nome: Alex Supertramp. Acredita que com isto pode renegar sua origem. Ele anda pelos Estados Unidos, conhece pessoas, aprende muito até que chega ao Alaska após dois anos na estrada.



Os filhos gostam de julgar os pais, mas não admitem ser julgados por eles. Ele não aceita o fato de ter nascido fora do casamento enquanto seu pai era casado com outra mulher, e seus pais também consideram isto vergonhoso e escondem este fato. Ele renega sua família mas está constantemente se encaixando em algum lugar de filho durante sua jornada que depois abandona novamente. Não percebe isto, como ele busca um pai e uma mãe, ainda quer ser o filho de alguém. Ao mesmo tempo apesar de sua jovem idade ele se afasta do sexo, ele não quer.

No filme ele vai passando pelas fases: infância, adolescência e assim vai até chegar ao Alaska e seu ônibus mágico, que ao meu ver também é uma metáfora de um útero.

Mas o Alaska é um local selvagem, distante da civilização, ao atravessar o rio congelado e deixar ali uma touca como uma marca, como João e Maria, ele entra na natureza. Tudo irá correr bem até ele achar que é o momento de voltar e se deparar com o rio descongelado.



A segurança e a auto-confiança que despreza imprevistos e contingências, que não olha corretamente a diferença entre a natureza e a cultura. Talvez ele devesse ter enfrentado o deserto antes de ir para o Alaska, mas ali ele teve um "pai" que o protegeu, que sabia dos perigos. Ao longo de sua caminhada houve vários sinais que ele desprezou, o carro que foi abandonado devido a inundação que ocorreu no local pois ele ignorou as placas de avisos sobre enchentes. Ele queria viver sem regras, mas isto não é possível. Ele desafia a lei quando desce as corredeiras do rio adquirindo uma confiança perigosa. Há coisas que podemos transgredir, mas outras não, pelo menos não sem o devido preparo e consciente que sempre há um preço a pagar.

Vai para o Alaska no final do inverno. Solidão, silêncio, ninguém para falar, não há outros humanos ali, somente a natureza. A cena do alce, quando ele percebe pela primeira vez que não pode fazer tudo sozinho. Percebe sua solidão e decide partir, mas o cenário mudou. O rio agora é uma corrente forte, e ele age como sempre fez, andando como se o buraco devesse sair de sua frente, ele entra no rio, mas desta vez percebe que não será tão fácil, consegue se salvar e retorna ao ônibus.



A falta de preparo, de conhecimentos, de experiência. Ele esqueceu que os rios descongelam, e quando procura pelos animais para caçar, esqueceu ou ignorava que os animais migram, se acasalam, e que os ursos hibernam e acordam. E quando as coisas não são mais como ele queria ele se entrega. Por que não tentou descer o rio pela margem para ver se havia outro local onde seria possível atravessar? Por não querer se afastar da touca referência? Só neste momento ele vai ler o livro sobre plantas comestíveis. Começa a sentir fome, e lendo o livro ele percebe que é preciso nomear as coisas, com seus verdadeiros nomes.  Então renasce o Chris e para morrer.

A câmara nos mostra o rio, um pouco além, está calmo. Ele não conseguiu pensar além e não havia outro para fazê-lo ou pensar junto.

Precisamos romper com os pais em algum momento, adentrar nossa vida adulta, fazer escolhas, atender ao seu desejo, mas isto requer responsabilidade e humildade. Ele queria a liberdade, mas não tinha maturidade para isto e quando as consequências surgiram ele se perdeu. Ele não era o Alex imaginário, era o Chris e era com este que ele tinha que se haver. A iluminação final que sente, é quase o desamparo. Precisa se agarrar a algo. Ele aprende tarde demais que a liberdade não é externa, é interna.

Por outro lado também aprendemos e muito com ele. Como engessamos nossas vidas, como é bom poder nadar no rio, acampar a céu aberto, rir, cantar, andar por aí, falar com pessoas, ter empregos temporários, que é possível viver fora do sistema, mas nunca isolados.Ele também modificou as vidas das pessoas com quem conviveu dando um novo alento às suas vidas.

Me entristece ver os sonhos dele, seu desejo de liberdade, acabarem assim, mas talvez a morte seja a grande liberdade e por isto ele sorriu ao morrer.

Ele foi encontrado duas semanas após sua morte.

Christopher McCandless 

Sean Penn nasceu em 1960 em Santa Mônica, EUA.

Trilha Sonora
Canções Originais: Rise, Guaranteed
Música composta por Kaki King, Michael Brook, Eddie Vedder