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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

LIVRO: O CLAMOR DE ANTÍGONA - Parentesco entre a vida e a morte - JUDITH BUTLER



Butler, Judith. Editora da UFSC, 2014
128 páginas
Tradução: André Cechinel

Através de um diálogo com Hegel e Lacan, referências as leis do parentesco de Lévi-Strauss, Butler recupera Antígona como personagem principal ao invés de Édipo questionando as regras impostas e o desejo.
Butler questiona a estrutura do parentesco que leva a família burguesa, a normatização de que família é um homem, uma mulher e filhos. Outra questão é do quanto o incesto é realmente proibido pela lei universal.
Concordo com ela sobre a questão de que família não é este núcleo normatizante, porém discordo de que a estrutura leva a isto, uma vez que inclusive nos estudos antropológicos há povos onde é o tio materno que ocupa a posição simbólica de pai, e a mulher tem vários homens, muitas vezes nem se sabe quem é o pai da criança.

O pai simbólico da psicanálise é um lugar, não é levado em conta aqui quem é, este no caso é o pai real, o biológico. Pensando sobre isto a estrutura se mantém, mesmo em casos de homossexuais, pois mesmo que a opção seja por um parceiro do mesmo sexo, na maioria das vezes não será seu irmão, irmã, pai ou mãe.

Sobre a questão da proibição ser universal, tenho minhas reservas também, não acredito que haja algo universal. Mas o que a antropologia e a psicanálise dizem com passagem da natureza para a cultura com a proibição do incesto é uma questão também de linguagem, de troca, ou seja, se uma cultura, um povo, se fecha em si mesmo, sem haver casamentos com pessoas de outros povos, outras culturas, a linguagem acaba morrendo, não se enriquece.

Um filme excelente para se pensar sobre esta questão é A Guerra do Fogo de Jeann-Jacques Annaud onde fica bem nítido a passagem da natureza para a cultura, quando o protagonista descobre o riso, o sexo frontal, o amor.

Agora a análise sobre Antígona e Creonte é brilhante, na questão das posições de ambos, da feminilidade e da masculinidade. E considero de extrema importância o avanço, a psicanálise até o momento tem atuado com sua teoria no mundo, mas ela precisa também se rever a si mesma. Ela é um sintoma da modernidade, mas o mundo, os tipos de famílias, a feminilidade, a masculinidade, tudo isto avança, e por mais que se considere a estrutura como um lugar onde se mudam apenas os componentes, ainda assim, há coisas a serem revistas e urgentemente.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

LIVRO: RELATAR A SI MESMO - Crítica da violência ética - JUDITH BUTLER



Butler, Judith. Autêntica Editora1ª ed.- 2015
198 páginas
Tradução: Rogério Bettoni
Título Original: Giving an Account of Oneself

Butler tem sido minha filósofa preferida de uns tempos para cá, principalmente porque retoma grandes filósofos, antropólogos e psicanalistas fazendo um crítica através do questionamento e não da destruição e partindo deles para criar algo além que acompanhe o mundo atual e suas questões, mas sem desconsiderar o que estes teóricos compreenderam dentro do seu contexto e momento que viviam. Pessoalmente gosto mais desta forma de pensar do que uma dialética onde se nega a tese para se criar a síntese, o novo. 

Ela acaba refletindo minha forma de pensar, ao analisar o que muitos disseram e estudaram e que ainda é paradigmático hoje, chegando muitas vezes a ser inquestionável, mas em que minha opinião precisa ir além, uma vez que o mundo tem  mudado a uma velocidade meteórica e surgem novas formas de relacionar-se, de viver a vida, além de questões como a dificuldade em aceitar as diferenças, o ódio ao outro, a forma como estamos alienados e imbuídos de um sistema que rege nosso pensamento. 

Neste livro ela pensa sobre a ética e o outro. 

A questão do livro é o fato do eu narrar a si mesmo e de como deve agir, porém ao nos darmos conta de que não conseguimos falar de si mesmo sem o outro, sem nos darmos conta que este eu surge dentro de condições sociais, ou seja, pelo outro, surge uma nova maneira de pensar a ética. 

Não há como eu se conhecer de forma completa, este eu não existe sem o outro, sem o social, uma vez que somos constituídos pelas normas sociais, pela linguagem, que nos precede. Então para que eu possa me responsabilizar por mim estou simultaneamente me responsabilizando por este outro que está em mim. 

E a crítica é que justamente vivemos num sistema que cobra o eu, temos que ser consistentes e com pleno autoconhecimento de si mesmo e passamos a nos autocensurar. Mas ao nos darmos conta que destas normas que nos constituem e ao criticá-las podemos também nos dar conta da fragilidade do outro que é constituído da mesma forma. 

Butller traz para um plano filosófico o que aprendi pela psicanálise. Nosso eu é algo frágil, constituído pelo outro, respondemos ao desejo do outro, e ao nos darmos conta disto percebemos o quanto somos limitados e pouco donos de si mesmo, ou como dizia Freud, o eu não é dono em sua casa. Mas isto também nos leva a compreender que o outro é como nós. Mas ela vai além, uma vez que traz a questão para o mundo, no contexto atual e a coloca na ética. 

Só podemos compreender o outro suspendendo nosso juízo, para poder compreender a humanidade do outro, ao invés de fazer juízos. 

Judith Butler nasceu em 1956 em Cleveland, Ohio, EUA. É uma filósofa pós-estruturalista.