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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

RACISMO COMO SISTEMA DE CASTAS


 

CASTA: AS ORIGENS DE NOSSO MAL-ESTAR

ISABEL WILKERSON

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

464 páginas

Casta, de Isabel Wilkerson, oferece uma análise profunda do racismo nos Estados Unidos, mostrando que ele funciona na realidade como um sistema de castas. Nesse sistema, existe uma casta privilegiada e outras subalternas, estruturando relações sociais de forma feroz e cruel, colocando seres humanos em posição de servidão quase permanente, com poucas possibilidades de ascensão, seja profissional ou intelectual, exceto com enorme esforço, determinação e superação de enormes obstáculos. Embora costumemos pensar que esse sistema pertence ao passado, Wilkerson mostra que ele permanece presente no cotidiano, e mesmo aqueles que conseguem ascender socialmente continuam a enfrentar discriminação racial.

A autora estabelece paralelos com as castas da Índia e com o nazismo, que, em parte, se inspirou nas leis raciais dos EUA, demonstrando como a doutrinação social leva à internalização do racismo. Essa análise revela o funcionamento do racismo estrutural, que permanece no inconsciente das pessoas, incluindo aquelas que se consideram não racistas.

Embora o foco do livro seja os afro-americanos, sua leitura é igualmente relevante para compreender o racismo brasileiro, que, embora historicamente negado, permanece evidente e atua de forma internalizada mesmo quando não explícita. Wilkerson amplia ainda a reflexão para todos os grupos marginalizados, colocados à margem da sociedade e tratados como inferiores. Sua crítica à supremacia branca destaca a ilusão de superioridade que sustenta tragédias históricas e sociais, mostrando que tais crenças não possuem fundamento racional, mas são construídas por aqueles que se veem como superiores.

Casta é, portanto, uma leitura essencial para compreender como estruturas históricas, sociais e psicológicas moldam a discriminação e perpetuam desigualdades, convidando à reflexão crítica sobre o racismo em qualquer sociedade.


Isabel Wilkerson nasceu em Washington D.C. em 1961. É uma jornalista estadunidense. 


SALEM ALÉM DO MITO

 

AS BRUXAS: INTRIGA, TRAIÇÃO E HISTERIA EM SALEM

STACY SCHIFF

ZAHAR – 1ª ED. – 2019

323 páginas

Em As Bruxas: Intriga, Traição e Histeria em Salem, Stacy Schiff revisita um dos episódios mais conhecidos, e ao mesmo tempo mais mal compreendidos, da história colonial norte-americana: os julgamentos das chamadas “bruxas” de Salem, ocorridos em 1692. Longe de uma narrativa folclórica ou sensacionalista, a autora constrói um relato minucioso, quase clínico, sobre como uma comunidade inteira foi capturada por um sistema de acusações, delações e punições legitimadas pelo discurso religioso, jurídico e moral.

O grande mérito do livro está em mostrar que Salem não foi um surto isolado de irracionalidade, mas o resultado de uma confluência de interesses políticos, rivalidades familiares, tensões econômicas, disputas territoriais e uma teologia profundamente misógina. A histeria coletiva não nasce do nada: ela é produzida, alimentada e organizada por instituições que se apresentam como guardiãs da ordem.

Schiff reconstrói o cotidiano da vila, os laços entre seus habitantes e o funcionamento do tribunal com uma precisão impressionante. O leitor percebe como boatos se transformam em provas, como o medo ganha estatuto jurídico e como a palavra de meninas adolescentes passa a valer mais do que qualquer evidência material, desde que confirme o que o poder já deseja ouvir. A acusação de bruxaria funciona, assim, como um dispositivo eficaz de eliminação social.

Embora o livro não seja explicitamente feminista, a leitura revela, de forma contundente, que a maioria das vítimas era composta por mulheres: mulheres que falavam demais, que herdavam terras, que não se encaixavam nos papéis esperados, que viviam à margem ou que simplesmente incomodavam. Salem expõe um mecanismo recorrente da história: quando a ordem patriarcal se sente ameaçada, ela transforma mulheres em perigo moral.

O termo “histeria”, presente no subtítulo, não é usado de forma leviana. Ele aponta para um processo de patologização do dissenso, no qual o sofrimento psíquico, a pobreza, o trauma e até a imaginação são convertidos em crime. A bruxa não é apenas a mulher que supostamente pactua com o demônio, mas aquela cuja existência foge ao controle.

A escrita de Stacy Schiff é elegante, rigorosa e acessível, sem abrir mão da complexidade histórica. Seu texto evita julgamentos anacrônicos, mas não abdica de uma posição ética clara diante da violência cometida. Ao final, Salem aparece menos como uma exceção e mais como um espelho perturbador de sociedades que preferem perseguir indivíduos a enfrentar suas próprias contradições.

As Bruxas é, portanto, uma leitura fundamental não apenas para compreender o passado, mas para reconhecer os ecos de Salem no presente: nos pânicos morais, nas campanhas de difamação, na criminalização do feminino, do diferente e do indomável. Um livro que nos lembra que a fogueira pode mudar de forma, mas raramente desaparece.


Stacy Schiff nasceu em Adams, Massachusetts, EUA, em 1961. É uma escritora estadunidense. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

DA PROSTITUTA AO ÍCONE: CONSTRUÇÕES PATRIARCAIS

 

MARIA MADALENA

DA BÍBLIA AO CÓDIGO DA VINCI: COMPANHEIRA DE JESUS, DEUSA, PROSTITUTA E ÍCONE FEMINISTA

MICHAEL HAAG

ZAHAR – 1ª ED. 2018

344 páginas

Maria Madalena, de Michael Haag, é um estudo histórico e cultural sobre a figura que atravessa a tradição bíblica, a arte, a literatura e a imaginação popular. O autor examina como Maria Madalena foi retratada ao longo dos séculos: ora como seguidora devota de Jesus, ora como prostituta, ora transformada em ícone feminista moderno, e até mesmo reinterpretada em narrativas contemporâneas como O Código Da Vinci.

Haag analisa textos históricos, apócrifos e interpretações teológicas, mostrando como a imagem de Maria Madalena foi moldada por visões patriarcais que buscaram minimizar sua importância como discípula e testemunha central da vida de Jesus. Ao mesmo tempo, o livro explora como movimentos modernos e obras culturais ressignificaram sua figura, transformando-a em símbolo de resistência, espiritualidade feminina e poder feminino na tradição religiosa.

O livro convida à reflexão sobre a construção da memória histórica, o papel das mulheres na tradição religiosa e os processos de distorção e ressignificação de figuras femininas ao longo do tempo. Haag demonstra que Maria Madalena não é apenas um personagem histórico, mas um espelho das tensões culturais, religiosas e de gênero que atravessam a história ocidental.


Michael Haag nasceu em 1943. É historiador e escritor 


ÉTICA, MORAL E RESPONSABILIDADE DO CRIADOR


 

FRANKENSTEIN: OU O PROMETEU MODERNO

MARY SHELLEY

ZAHAR - 2020

312 páginas

Fiquei profundamente impressionada com a história desse ser criado por um humano que se arroga o lugar de criador da vida. No entanto, não desejo abordar o livro por um viés religioso.

A obra nos conduz a uma questão antiga e sempre atual: a fronteira entre o bem e o mal. Ao mesmo tempo, permite uma leitura surpreendentemente contemporânea, sobretudo quando pensamos nas dinâmicas do mundo atual e nas redes sociais.

Victor Frankenstein deseja vencer a morte, mas também busca a glória pessoal, a perpetuação de seu nome por meio de uma criação inédita. Para isso, cria um ser humano e lhe dá vida. No instante em que sua obra se concretiza, ele foge, apavorado com o que fez, abandonando a criatura à própria sorte. Lançado ao mundo sem amparo, o ser criado precisa aprender sozinho a sobreviver.

Inicialmente, a criatura é boa e generosa. Ela deseja companhia, afeto, reconhecimento. No entanto, encontra apenas rejeição, medo e violência. Mesmo após salvar uma criança de um afogamento, é atacada e expulsa. A sucessão de recusas e agressões transforma sua dor em ressentimento e, depois, em desejo de vingança contra aquele que lhe deu a vida e se recusou a assumir qualquer responsabilidade por ela.

Enquanto isso, Victor retoma sua vida como se nada tivesse ocorrido. Para atingi-lo, a criatura passa a cometer crimes, e são inocentes que pagam o preço. A questão central do livro é, portanto, ética e moral: qual é a responsabilidade de quem cria? Até que ponto o criador pode se eximir das consequências de sua obra?

Mary Shelley constrói uma relação de dependência e escravidão entre criador e criatura. Ao trazer essa reflexão para o presente, é inevitável pensar na nossa própria escravidão às tecnologias e às redes sociais — criações humanas que escaparam ao controle e passaram a moldar comportamentos, afetos e violências. Frankenstein continua atual justamente porque nos obriga a perguntar não apenas o que criamos, mas o que fazemos com aquilo que criamos.


Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797 e faleceu na mesma localidade em 1851. Foi uma escritora britânica. 


ENTRE MUROS E PONTES: ALTERNATIVAS PARA O FUTURO


 

A ERA DOS MUROS: POR QUE VIVEMOS EM UM MUNDO DIVIDIDO

TIM MARSHALL

ZAHAR – 1ª ED. – 2021

352 páginas


A Era dos Muros, de Tim Marshall, é um livro impactante que revela a extensão da presença de barreiras físicas ao redor do mundo. Eu não tinha conhecimento de quantos muros existem atualmente e o livro detalha tanto os motivos alegados para sua construção quanto as críticas a essas estruturas. Marshall aborda muros na América, Europa, Ásia e África, descrevendo desde barreiras de concreto até cercas simples e até mesmo construções feitas de areia.

O que torna a leitura particularmente perturbadora é perceber como, diante de conflitos, crises humanitárias, refugiados e desafios climáticos, a solução adotada muitas vezes é erguer muros. Embora em alguns casos haja resultados positivos, como a redução de atentados terroristas, a sensação de isolamento e separação é inevitável. Como o autor ressalta, na Idade Média, as cidades muradas eram locais de proteção, para onde as pessoas corriam em busca de segurança; hoje, no entanto, os muros separam, afastam e simbolizam divisão.

Marshall convida o leitor a refletir sobre o impacto social e psicológico dessas barreiras, mostrando que, em vez de pontes e conexões, muitas sociedades optam por cercas e fronteiras, perpetuando divisões que poderiam ser superadas por diálogo e cooperação.


Tim Marshall nasceu na Inglaterra em 1959. É um jornalista e escritor britânico. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

DEMOCRACIA: FRÁGIL, IMPERFEITA, NECESSÁRIA

 


COMO AS DEMOCRACIAS MORREM

STEVEN LEVITSKYDANIEL ZIBLATT

ZAHAR – 1ª ED. - 2018

272 páginas 

Gostaria de recomendar este livro. Diante do que vemos acontecer no mundo, com a ascensão, em diversos países, tanto da extrema direita quanto da extrema esquerda, trata-se de uma leitura fundamental para compreendermos que as democracias já não terminam, necessariamente, por meio de golpes militares ou invasões externas. Hoje, muitas vezes, elas se desfazem a partir de dentro, utilizando o próprio processo democrático como instrumento de sua corrosão.

Os autores analisam a eleição de Donald Trump, cujo desfecho, felizmente, ocorreu dentro dos marcos democráticos, mas também examinam outros contextos contemporâneos, como Hungria, Turquia e Venezuela. Além disso, recorrem a exemplos históricos mais explícitos de ruptura institucional, como as ditaduras de Augusto Pinochet, no Chile, e de Alberto Fujimori, no Peru, mostrando diferentes caminhos que conduzem ao autoritarismo.

O ponto central do livro é revelar como líderes eleitos legitimamente passam a enfraquecer gradualmente as instituições, minar a confiança nas regras do jogo democrático e normalizar práticas autoritárias, até que a democracia permaneça apenas como forma, esvaziada de conteúdo. Não se trata de um colapso súbito, mas de um processo lento, muitas vezes aceito ou naturalizado pela sociedade.

Como dizia Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais. Ainda não conhecemos um sistema melhor e, justamente por isso, vale a pena defendê-la. Em tempos como os atuais, este livro se mostra não apenas relevante, mas necessário, pois nos ajuda a reconhecer os sinais do enfraquecimento democrático antes que seja tarde demais.


Steven Levitsky nasceu em Ithaca, Nova Iorque, em 1968. É um cientista político estadunidense.

Daniel Ziblatt nasceu em 1972. É um cientista político estadunidense. 


 


ENTRE CIDADES, DEUSES E MULHERES: O INÍCIO DA HISTÓRIA ESCRITA

 

BABILÔNIA

A Mesopotâmia e os nascimento da civilização

PAUL KRIWACZEK

ZAHAR – 1ª ED. - 2018

382 páginas 

O livro se inicia partindo do Iraque contemporâneo para, em seguida, mergulhar na longa duração da história mesopotâmica, desde cerca de 5.400 A.E.C. Esse movimento entre presente e passado não é apenas narrativo: ele nos lembra que a chamada “origem da civilização” não é um vestígio distante e morto, mas algo inscrito em territórios ainda hoje marcados por disputas, violência e apagamentos.

Paul Kriwaczek oferece uma grande quantidade de informações sobre a Mesopotâmia, os sumérios e, mais adiante, a Babilônia. O livro percorre o surgimento das cidades, da escrita, das leis, da administração e da religião, compondo um quadro amplo do que costumamos chamar de “nascimento da civilização”.

Um aspecto especialmente relevante, e ainda raro em muitas obras de história antiga, é a atenção dedicada às mulheres. Fiquei particularmente satisfeita ao encontrar referências consistentes a figuras femininas e à atuação das mulheres em diferentes contextos sociais e religiosos. Destaca-se a presença de Enheduana, filha de Sargão de Acádia, considerada a primeira autora conhecida da história, cuja produção literária e religiosa revela a centralidade do feminino no imaginário e na organização simbólica da época.

A deusa Inana (mais tarde Ishtar) também ocupa um lugar importante na narrativa, evidenciando a força das divindades femininas na Mesopotâmia e a complexidade de seus atributos — erotismo, guerra, fertilidade e poder. Além disso, o livro traz informações sobre mulheres assírias, ampliando o olhar para além das figuras mais conhecidas e mostrando que o feminino não estava ausente das estruturas sociais e políticas dessas civilizações.

Babilônia é, assim, uma leitura que contribui não apenas para compreender a Mesopotâmia como berço da civilização, mas também para questionar a ideia de que esse nascimento foi exclusivamente masculino. Ao incluir as mulheres — ainda que timidamente em alguns momentos, o livro aponta para uma historiografia que começa, finalmente, a reconhecer o que durante tanto tempo foi silenciado.


Paul Kriwaczek nasceu em Viena, Áustria, em 1937 e faleceu em Londres, em 2011. Foi um historiador que passou uma década trabalhando no Irã e no Afeganistão. 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

PARA ALÉM DOS HERÓIS: AS MULHERES NOS MITOS GREGOS

 


MITOS GREGOS: Nas tramas das deusas

CHARLOTTE HIGGINS

ZAHAR – 1ª ED. – 2022

424 páginas 

Já há uma vasta bibliografia sobre mitologia grega, mas Nas tramas das deusas se destaca por um deslocamento fundamental: aqui, são as mulheres que contam — ou, mais precisamente, tecem — os mitos. Charlotte Higgins se apropria do tear, uma das principais atribuições femininas na Grécia antiga, para estruturar a narrativa e conduzir o leitor por mitos amplamente conhecidos e também por outros menos recorrentes.

Em cada etapa, em cada capítulo, há uma mulher tecendo. E, com ela, emerge uma perspectiva distinta, uma nova inflexão interpretativa que se afasta da versão heroica tradicional. Não se trata de negar os mitos, mas de mudar o ponto de vista: ao invés dos grandes heróis masculinos, o foco recai sobre as experiências femininas, marcadas por violência, engano, silenciamento  e, em alguns casos, por reação e resistência.

Essa mudança de olhar revela o quanto as mulheres sofrem nos mitos: são frequentemente estupradas, traídas, instrumentalizadas pelos deuses e pelos homens. Ao trazer essas experiências para o centro da narrativa, Higgins nos permite perceber dimensões que costumam ser naturalizadas ou apagadas nas leituras clássicas.

O mérito do livro está justamente em oferecer interpretações que soam diferentes sem trair o material mitológico. Quando os mitos parecem não corresponder à versão mais conhecida, isso se deve ao uso de fontes distintas da tradição grega, todas cuidadosamente indicadas ao final do livro, para quem deseja aprofundar a pesquisa. Nos poucos momentos em que a autora se permite maior liberdade interpretativa, isso também é explicitado com transparência.

Nas tramas das deusas é uma leitura instigante, que não reescreve os mitos, mas os reinscreve a partir de um outro lugar: o das mulheres que, mesmo confinadas ao tear, sempre estiveram produzindo sentido, memória e narrativa.


Charlotte Higgins nasceu em Stoke-on-Trent, Reino Unido, em 1972. É uma escritora e jornalista britânica. 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

COMO A HISTÓRIA MOLDOU O PENSAMENTO DE ZYGMUNT BAUMAN


 

BAUMAN: UMA BIOGRAFIA

IZABELA WAGNER

ZAHAR – 1ª ED. 2020

648 páginas 


Ler a biografia de Zygmunt Bauman representou um duplo percurso: por um lado, o conhecimento da vida desse eminente sociólogo; por outro, um mergulho na história do Leste Europeu, especialmente da Polônia, do período da Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Ao longo do livro, é possível acompanhar tanto o desenvolvimento intelectual de Bauman quanto a formação de sua visão de mundo, profundamente marcada pelos acontecimentos históricos que atravessaram sua vida.

Um dos aspectos que mais me interessou foi conhecer melhor Janina Bauman. Mais do que companheira, ela foi a principal interlocutora do sociólogo e também uma escritora relevante. Um de seus livros, Inverno da manhã, está traduzido no Brasil e relata sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial. A leitura desse livro por Bauman foi decisiva para a escrita de Modernidade e Holocausto, considerada uma de suas obras-primas.

Bauman nasceu na Polônia e sempre se considerou polonês, mesmo após sua expulsão do país em 1968, quando foi forçado a renunciar à cidadania e se tornou apátrida. Judeu, ele foi atingido por um antissemitismo ainda fortemente presente no país, que, segundo a autora, tinha um caráter religioso mais do que ideológico.

Com a invasão nazista da Polônia, Bauman e seus pais fogem para a União Soviética. É lá que ele ingressa no Exército Vermelho e adere ao comunismo, acreditando que esse projeto político poderia garantir liberdade e pôr fim aos preconceitos contra os judeus. Isso, no entanto, não se concretiza. A repressão à liberdade de expressão, o controle sobre a vida das pessoas e a persistência do preconceito marcam profundamente essa experiência.

Ao final da guerra, Bauman retorna a Varsóvia, ingressa na universidade, estuda sociologia e constrói sua carreira acadêmica até o doutorado, tornando-se professor. Em 1968, porém, é novamente expulso do país, acusado injustamente de incitar revoltas estudantis — mais um episódio de perseguição antissemita.

Ele segue então com a esposa e as filhas para Israel, onde vive por três anos, e depois para a Inglaterra, país em que passará o resto da vida. É interessante notar que sua produção intelectual mais conhecida, assim como o célebre conceito de “modernidade líquida”, surge apenas após sua aposentadoria da Universidade de Leeds.

Trata-se de uma vida intensamente vivida, atravessada por exílios, rupturas e reinvenções, que resultou em uma obra vasta e em reflexões que permanecem extremamente atuais. Recomendo.


                            Izabela Wagner nasceu em Wolów, Polônia, em 1964. É socióloga.


domingo, 19 de outubro de 2014

LIVRO: NIETZSCHE NA ITÁLIA - A viagem que mudou os rumos da Filosofia - PAOLO D'IORIO



D'Iorio, Paolo. 1ª ed. Zahar, 2014.
214 páginas
Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo
Título Original: Le voyage de Nietzsche à Sorrente (Genèse de la philosophie de l'esprit libre)

No outono de 1876 Nietzsche parte para o Sul, na Itália, para passar um ano sabático à convite de sua amiga Malwida von Meysenburg acompanhado de seu amigo Paul Rée com quem rompera mais tarde por causa de Lou-Andreas Salomé. Outro amigo se junta a eles, Albert Brenner.

Esta viagem será o divisor de águas entre o que Nietzsche havia dito antes e o que passa então a pensar e escrever em seus livros, após o rompimento com Richard Wagner devido seu cristianismo. É o Nietzsche mais verdadeiro que aparece e o que ele realmente pensa e sente. Ele abandona a ideia wagneriana de renovar a cultura alemã que defendeu em "O nascimento da Tragédia".

Será em Sorrento que ele irá começar a escrever "Humano, demasiado humano" adotando a partir daí o aforismo como estilo de escrita. Nesta temporada também surgirá seus esboços para "Assim falava Zaratrusta" que é repleto de referências às experiências vividas e também aos lugares que mais impressionaram Nietzsche.

O livro é um relato desta viagem, mas também uma apresentação acessível da filosofia de Nietzsche e de como suas ideias amadureceram. Muitos dos que admiravam sua filosofia anterior romperam com ele, exceto sua amiga Malwida, que manteve intacta sua esperança que isto seria uma fase passageira e que ele retornaria a sua antiga filosofia, não se dando conta que foi justamente esta outra fase que foi uma passagem para a filosofia definitiva de Nietzsche.

Há passagens extremamente interessantes e explicativas, como a da Epifania que muito me interessou e também sobre os sinos.

Para quem gosta de filosofia recomendo, mas não deixa ser um relato também da visão do filósofo sobre o sul, ele que vivia no norte frio.

Paolo D'Iorio nasceu em 1963 em Seravezza, Itália. Formou-se em filosofia na Universidade de Pisa. Atualmente leciona na École Normale Supérieure de Paris e dirige o Institut des textes et manuscrits modernes em Paris. É especialista em Nietzsche

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

LIVRO: A ONDA - SUSAN CASEY



Casey, Susan. Zahar, 2010
Tradução: Ivo Korytowski
314 páginas

Você sabia que a cada semana se perdem dois navios no mar? Impressionante! As notícias sobre navios que afundam em tempestades, desaparecem em questão de minutos com toda sua tripulação são raras, ao contrário de um avião que se sofre um acidente enche as manchetes de jornais.

Justo num momento em que percebemos as mudanças climáticas que vem ocorrendo, no Brasil a onda de calor, na América do Norte o inverno extremamente rigoroso e na Europa as inundações e ouvimos os meteorologistas dizerem que não sabem prever quando irá terminar, chover, melhorar este livro se torna de leitura imprescindível.

Fui atraída para ele por causa da Onda. Sempre fui fascinada por ondas gigantes, um misto de terror e fascínio, mas ler este livro é descobrir muito mais do que sobre ondas, é ler sobre nosso planeta, sobre a natureza e sobre os oceanos e suas ondas inimagináveis e que pensávamos serem lendas, ou algo que só poderia ocorrer muito muito raramente. Mas a verdade é que estas ondas de 20 metros no mínimo ocorrem diariamente e a cada dia mais e mais vezes, destruindo navios imensos em questão de minutos, e elas em geral não são previsíveis, fogem ao padrão linear dos modelos dos quais se utiliza a ciência, é algo para os físicos e o padrão de ondas, ou seja, a física quântica. As ondas são ondas mas são também partículas.

Susan Casey, uma jornalista premiada, parte em busca de compreender estas ondas. Ela irá buscar informações com aqueles que lidam com elas, que trabalham com elas e com aqueles que as enfrentam. Inicia seu percurso com aqueles que obviamente todos nós sabemos serem literalmente apaixonados por elas e estão sempre atrás delas, os surfistas de ondas gigantes, mas também falará com cientistas e capitães de navios.

O livro é gostoso de ler, não é um livro científico, apesar de estar repleto de informações científicas, mas ele nos ensina a respeitar a natureza, e a compreender que nunca a dominaremos e que o melhor a se fazer é respeitá-la e acima de tudo ter muita humildade diante dela, e principalmente diante de uma onda gigante.

Um dos relatos mais impressionantes é sobre a Baía de Lituya no Alaska onde ocorreu uma onda de 530 metros em 09 de julho de 1958 e houve sobreviventes, caso contrário, talvez até hoje os cientistas estariam tentando compreender o que ocorreu ali que foi capaz de arrancar o solo e deixar a rocha nua e destruir toda a orla de árvores.

Nunca foi tão importante ler um livro como este e compreender que a natureza tem vida própria e não há nada que o homem possa fazer para controlá-la, é impossível deter um tsunami, uma onda gigante, um terremoto, mesmo que tenhamos sorte de prevê-lo.




Susan Casey nasceu em Toronto, Canadá, em 1962. É uma escritora canadense.