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quarta-feira, 22 de julho de 2015

LIVRO: O FRÁGIL TOQUE DOS MUTILADOS - ALEX SENS



Sens, Alex. 1ª ed. Autêntica Editora,2015
415 páginas

Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012

É gratificante encontrar um escritor brasileiro que surpreende de várias maneiras. Primeiramente um jovem que eu diria que tem uma alma velha, tem profundidade e toca em assuntos dolorosos com sabedoria, e em segundo por sairmos da literatura regionalista que foca o Brasil entrando num mundo contemporâneo que pode estar localizado em qualquer lugar do mundo. O cenário onde se passa a história, uma pequena cidade à beira de uma praia, o mar que está constantemente presente ao longo da história e que também tem seu papel, não sabemos onde fica e somente no final somos informados que se trata do Brasil. 

Três irmãos, Magnólia, Orlando e Elisa se encontram após muitos anos para passar as férias na casa do irmão que fica de frente para o mar. Será um momento de reencontro mas que traz toda a carga de culpas, mágoas, desencontros que toda família tem e que quase sempre é varrido para baixo do tapete. Incrível a dificuldade de falar, de expor os sentimentos ao outro, mesmo sendo seu irmão ou irmã, o que acaba se traduzindo em atos ou palavras, provocações, críticas que ao invés de aliviar só pioram a situação. 

Orlando perdeu sua esposa Sara que morreu afogada ali em frente à casa, tem dois filhos - Muriel e Tomás. Após a morte da esposa passou a beber, deixou seu trabalho na rádio e tenta pintar quadros. Ele é o irmão do meio. Magnólia é a mais velha, está casada com Herbert, um apaixonado por Virginia Woolf e que tenta escrever um ensaio sobre ela e quer aproveitar as férias para isto, mas sua esposa tem um transtorno psíquico denominado Borderline, ela tem altos e baixos, se automutila se cortando, ou segurando durante um tempo uma pedra de gelo em sua mão, durante as férias abandona os remédios e passa a tomar muito vinho, aliás, os vinhos fazem parte de sua profissão. Elisa optou por uma vida zen, quer manter uma energia positiva a sua volta para não sofrer as interferências disto em seu equilíbrio, diz que todos temos escolhas, o que irrita e muito Magnólia. 

O livro começa com uma cena onde algo grave ocorreu no último dia das férias para depois entrar na história deste mês e do encontro dos irmãos. Cena esta que só iremos compreender ao final do livro, o que também nos mantém interessados e curiosos, como em um romance policial. Acompanhamos então todo este mês, dia a dia. Magnólia não se importa com o outro, quer atender a seus desejos e é tremendamente crítica e provocadora com tudo que não condiz com o que ela pensa, mas tem pavor de ser abandonada. Orlando vive colocando panos quentes em tudo, sente muita culpa e escapa pela bebida, já Elisa apesar de toda sua aparência zen também tem questões sérias. 

Gostei muito do livro, mesmo que ele não se aprofunde muito nas causas destes problemas dos três irmãos, como sua infância, dando apenas pinceladas, é extremamente válido no sentido de ver como agem e repetem em sua vida adulta questões que nunca foram resolvidas e das quais se foge ao invés de enfrentar, o que aliás, infelizmente, ocorre na maioria das famílias, até porque somos todos esfacelados, ou mutilados e nosso toque ou tentativa de tocar o outro é frágil. 

Alex Sens nasceu em 1988 em Florianópolis SC e se radicou em Minas Gerais 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

LIVRO: TENHO ALGO A TE DIZER - HANIF KUREISHI



Kureishi, Hanif. Companhia das Letras, 2009
501 páginas
Tradução: Celso Nogueira
Título Original: Something to tell you

Jamal Khan é quem narra a história. Ele é um psicanalista londrino, filho de um paquistanês e de uma inglesa e tem uma irmã Mirian. Está divorciado e tem um filho. 

O livro aborda o mundo atual, a mistura cultural, a depressão, o desejo, o medo de terroristas, um filho na adolescência, a separação, a solidão, os desajustes. Transita em todos os níveis sociais e percebemos que em todos eles a situação humana se repete, mesmo que o cenário seja outro. 

Lembrou-me um pouco o relato de Theodore Dalrymple sobre a periferia de Londres, mas vai além. Jamal carrega uma imensa culpa e um amor frustrado na adolescência. Precisou fazer análise e depois ele mesmo vira um psicanalista. Mas o livro não foca apenas a psicanálise, vai muito além narrando a família atual e a vida de Jamal longe de seus pacientes, de seu amigo Henry, um artista frustrado que se apaixona pela irmã de Jamal, que é depressiva, faz uso de drogas, e abusa do sexo. 

Uma visão cinza do mundo ocidental e todo seu vazio existencial e das consequências disto. A tentativa de preencher este vazio e driblar suas dores através de drogas ou sexo. O submundo aparece, mas não apenas na periferia, também nas mansões luxuosas. 

O livro preferido de Jamal é o Mal Estar da Civilização de Freud, não à toa, pois o livro todo é como revisitar este texto escrito há tantos anos, mas totalmente atual. 

Hanif Kureishi nasceu em 1954 em Bromley, Reino Unido

quarta-feira, 3 de junho de 2015

LIVRO - ARROZ DE PALMA - FRANCISCO AZEVEDO



Azevedo, Francisco. 12ª ed. Record, 2013
362 páginas

Família é prato difícil de preparar!

E como, e todos nós temos que prepará-lo. Um belo livro sobre a família, com tudo que ela contém, amores, apoios, desavenças, ciúmes, inveja, arrogância, humildade, acordos, desacordos, e muito mais. 

Tudo começa em Portugal no ano de 1908 numa aldeia chamada Viana do Castelo. Os pais de Antonio, José Custódio e Maria Romana, se casam e ao sair da igreja recebem a tradicional chuva de arroz. Palma, irmã de Antonio ao ver todo aquele arroz no chão resolve recolhê-lo e o oferece como presente aos noivos com os seguintes dizeres:

" Este arroz - plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido na pedra - é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha benção. Palma "

José Custódio, orgulhoso, se sente ofendido, mas Maria Romana vê nisto um belo gesto de amor e guarda o arroz, arroz este que permeará a vida desta família por muitos anos, até o aniversário de 88 anos de Antonio, ou melhor, dois infinitos

Vamos acompanhar toda a trajetória desta família. A vinda para o Brasil, o nascimento dos filhos, a partida deles para outras cidades, os casamentos, o nascimento dos netos. Mas é Antonio quem  nos conta a história, é do ponto de vista dele que acompanhamos tudo, e também a história do arroz. 

Um belíssimo livro sobre família, sem ser piegas, sem ser romântico, sem ser só desavenças, mas tendo tudo isto, porque família é assim, família é um prato difícil de preparar!

Francisco Azevedo nasceu em 1951 no Rio de Janeiro