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sábado, 24 de maio de 2014

LIVRO: TU CARREGAS MEU NOME - A herança dos filhos de nazistas notórios - NORBERT & STEPHAM LEBERT


Lebert, Norbert & Stephan. Record, 2004
206 páginas
Tradução: Kristina Michahelles


Um tema tabu, pouco estudado e revelado, e também pouco pensado. Costumamos pensar nas vítimas, na herança psíquica de seus descendentes, os traumas, mas não pensamos no que aconteceu com os filhos dos nazistas, principalmente dos líderes que foram julgados e condenados à morte ou a prisão perpétua ou por muitos anos. O que aconteceu com eles? quais os traumas que carregam, qual o peso deste fardo?

Norbert Lebert, pai de Stephan, um jornalista, em 1959 entrevistou filhos e filhas de nazistas como Rudolf Hess, condenado à prisão perpétua, Martin Bormann, desaparecido, Hermann Göring, condenado à morte e que se suicidou antes, Heinrich Himmler, que se suicidou quando foi capturado, Baldur von Schirach, condenado a 20 anos de prisão e Hans Frank, condenado à morte.

O que era ser portador deste sobrenome? o nome de seu pai que se tornou ou uma vergonha para alguns ou um símbolo de uma glória perdida para outros?

Quarenta anos depois, seu filho, Stephan retomou seu trabalho para saber o que havia acontecido com eles, o que haviam feito de suas vidas e como lidavam com esta herança. Quais as consequências de ser portador deste nome? como isto havia afetado a vida deles, seja para melhor ou para pior.

Não devemos ignorar que estes criminosos eram seus pais, e que se por um lado foram cruéis, sádicos, perversos, autoritários, e levaram a morte milhões de pessoas, por outro, eram bons maridos, bons pais de família, amorosos com seus filhos. Como separar este pai amoroso do pai acusado de crimes tão hediondos? O grande erro é pensar que seres assim são maus com todos, não, eles também tem um lado bom, amoroso, gentil, educado. Isto assusta, pois nos revela que qualquer um pode se transformar num monstro assassino, e realmente é assim. Quantas vezes não ouvimos relatos sobre um psicopata de como ele era um bom vizinho, não incomodava ninguém, era educado? Sim, todos nós carregamos em si mesmo o mau e o bom, depende de vários fatores, como contexto, entorno, situações que surgem para que o gatilho seja ativado ou não.

A Alemanha foi imersa numa ideologia fascista, estava traumatizada com a Primeira Guerra, derrotada, humilhada, e eis que surge um líder, um bom pai, que vem para resolver tudo isto e devolver ao país seu lugar e orgulho. Os comícios, a juventude hitlerista, a mídia, a propaganda, e a ameaça àqueles que não aderiam. Então, o que dizer dos filhos? que eram pequenos na época da guerra, alguns com 03 anos de idade, como poderiam ter consciência do que acontecia? como podem ser responsabilizados pelos atos dos pais? que culpa eles tem? Mas eles são símbolos, são o nome do pai.

Mas a questão é mais profunda. Como lidar com este pai? com este nome? como viver com isto? O filho se identifica com os pais, são seus modelos. Como fazer desaparecer um passado, a infância e a família?

O livro busca algumas respostas. Stephan volta a entrevistar alguns deles e nos traz o relato de 1959 e o atual. O que cada um deles fez.

Wolf-Rüdiger Hess, filho de Rudolf Hess; Martin Bormann filho e Martin Bormann pai, Niklas e Norman Frank, filhos de Hans Frank; Gudrun Himmler, filha de Himmler, Edda Göring, filha de Hermann Göring, os irmãos Von Schirach filhos de Baldur Von Schirach e Karl-Otto Saur filho e pai.

Vários escreveram livros sobre seus pais. Alguns tentam resgatar o nome, outro quer destruir o pai, ainda há o que procura a religião. A negação do que ocorreu, se negar a enxergar para alguns e para outros a maturidade suficiente de enfrentar a realidade. A sacralização do pai ou sua destruição. Alguns se fecham em seu mundo negando tudo, não conseguindo enxergar o que houve, outros procuram formas possíveis de viver, constroem um mundo para poder viver.

"Podemos dizer que os descendentes dos nazistas se situam numa zona fronteiriça entre criminosos e vítimas"

(...) o criminoso se realiza através do seu ato, enquanto a vítima é interrompida em tudo aquilo que ainda quer realizar."

E o que ficou no meio? no liminar? Nenhum deles é culpado ou responsável pelo o que fez seu pai, e todos amavam o pai, mas alguns admitem o horror que o pai fez, provocou, outros não conseguem ver.



Wolf-Rüdiger Hess 









 Martin Bormann filho

Gudrun Himmler

Edda Göring e o pai

karl-Otto Saur filho


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

LIVRO: PEÇAS EM FUGA - ANNE MICHAELS



Michaels, Anne. Companhia das Letras, 1997
Tradução: José Rubens Siqueira
222 páginas

O Romance nos fala de duas biografias, a de Jakob Beer e a de Ben. Ambos tiveram suas vidas modificadas devido à guerra.

"A experiência que um homem tem da guerra jamais termina com a guerra. O trabalho do homem, assim como a sua vida, jamais se completa..."

Até que ponto o tempo pode apagar dores indizíveis? ou ao contrário, ele as perpetua? A guerra terminou em 1945, mas por quanto tempo e espaços tudo que ela significou e provocou irá se perpetuar e continuar como se fossem ondas no espaço e tempo?

Jakob escapa dos nazistas com a ajuda de Athos, que o leva para a Grécia, após ter ficado enterrado para se esconder. Mas mesmo com todo o amor, o cuidado que Athos lhe oferece ele nunca mais se esquecerá de seus pais e principalmente de Bella, sua irmã. Por mais que Athos o distraia com histórias, conhecimentos, e lhe diga para escrever, ele não esquece. Não saber o que realmente aconteceu com  sua irmã, como ela morreu a transforma num fantasma que o persegue.

Ben acaba conhecendo Jakob, e irá se envolver na vida deste ao ir procurar seus cadernos na Grécia após sua morte. Ben é filho de pais que sobreviveram ao holocausto, mas um segredo que se revelará somente após a morte destes o fará compreender melhor a dor e o porque de tanto silêncio. Porém ele irá sofrer as consequências, pois sua mãe por medo terá um excesso de zelo com ele, e seu pai nunca se mostrará totalmente para ele, sendo uma pessoa distante e fechada.

Michaels trabalha com o relato, mas inclui a poesia para falar de coisas dolorosas, e coloca a ciência e o tempo em paralelo com a vida de uma forma brilhante, nos levando a pensar que estamos sempre sujeitos a catástrofes, ao imprevisto. A diferença é que temos a sensação de que as guerras poderiam ser evitadas, ao contrário de um temporal, um ciclone, um rio que transborda devido às chuvas e leva com ele tudo que tem pela frente ou uma avalanche de neve. E o maior imprevisto de todos, mas do qual ninguém escapa, a morte.

Jakob viveu tudo, assistiu ao massacre de seus pais, quando saiu de seu esconderijo sua irmã não estava ali. Fugiu, se escondeu, viveu o terror. Ben nasceu depois da guerra, mas seus pais passaram por ela e também viveram os horrores. E qual a diferença entre os dois? ambos carregam em si os efeitos, ambos sofrem com o que jamais termina com a guerra e que somente a poesia, a linguagem pode vir para reparar, reconstruir, as palavras, faladas ou escritas.

Também achei interessante saber um pouco sobre a Segunda Guerra na Grécia.

Anne Michaels nasceu em 1958 na cidade de Toronto no Canadá.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: MARCAS DE NASCENÇA - NANCY HUSTON





Huston, Nancy. L&PM Editores, 2007
Tradução: Llana Heineberg
272 páginas
Prêmio Femina

"UM ADULTO NADA MAIS É DO QUE UMA CRIANÇA QUE SOFREU"

O livro retrata 04 gerações dividido em 04 capítulos que retrocedem narrando a infância de cada um quanto tinha 06 anos, no seu contexto histórico e social. A bisavó, a avó, o filho e o neto, iniciando com Sol, o neto, em 2004 e finalizando com a bisavó no fim da Segunda guerra. Ao terminar o livro senti vontade de lê-lo ao contrário, o que também seria possível.
Eles tem uma marca de nascença, porém as marcas são muito mais profundas e além do biológico, dos laços sanguíneos, deixando claro como estas marcas, traumas, questionamentos, dúvidas, ficam no inconsciente de uma família.
Huston nos mostra a infância como realmente ela é, sem a tão propalada inocência infantil, mas ao contrário, com a crueldade infantil que marca, o édipo, o ódio ao irmão(ã), o onipotência, típicas da infância. Os medos, as dúvidas, a descoberta da sexualidade, a falta de entendimento, as suposições que marcam, a experiência escolar, as descobertas, as discussões familiares, as alegrias, os traumas. Retrata como se forma o adulto através da criança, e deixa claro que nunca saímos da infância, como diria Manoel de Barros que chama suas memórias de infância, inclusive a velhice. A força das palavras e gestos que ficam, a força da mãe, como se grava na criança, a violência psíquica.
Vê-se claramente o inconsciente atuando, regendo uma vida, intemporal, sem idade, a eterna criança que ali está no adulto e que irá se transmitir ao outro, ao filho.
Um belo livro.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.