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terça-feira, 14 de abril de 2015

LIVRO: DA MINHA TERRA À TERRA - SEBASTIÃO SALGADO



Salgado, Sebastião; Francq, Isabelle. 1ª. Paralela, 2014
152 páginas
Tradução: Julia da Rosa Simões
Título Original: De ma terre à la terre

Depois que vi a exposição "Genesis" no MON em Curitiba estou fascinada pelo trabalho de Sebastião Salgado. Assisti ao documentário O Sal da Terra e agora terminei de ler o livro Da minha terra à terra onde ele nos conta sua história pessoal e o que significa fotografar para ele. Vai além, fala sobre o que aprendeu com este trabalho para sua vida, para sua maneira de ver o mundo. 

Comecei a leitura ontem e não consegui largar até finalizar o livro. Fui envolvida e desejei que o livro continuasse. O que dizer de uma pessoa que percorreu mais de 120 países, viu coisas atrozes, tristes, dilacerantes a ponto de adoecer fisicamente e psiquicamente, que aprendeu a arte da paciência necessária para poder fotografar e que fotografou o que sentia mantendo sempre a dignidade do outro, mesmo nas piores situações? O que Sebastião nos transmite é uma lição de vida, de viver, sem fechar os olhos ao que pior o ser humano tem, suas misérias, sua crueldade, sua ganância, mas também nos levando aos mais belos lugares deste planeta, onde o homem ainda vive em harmonia com a natureza, com os animais. Ele nos ensina a poder viver neste lado do planeta mais bonito, sem fechar ignorar o outro lado, uma vez que somos responsáveis por tudo que ocorre neste mundo, de maneira direta ou indireta, pois quando compramos produtos fabricados por crianças, por escravos, ou produzidos através da destruição da natureza, estamos colaborando com a tristeza do mundo. 

Suas fotos são um despertar, uma conscientização, não são tiradas para produzir pena ou compaixão e com isto apaziguar a consciência de Salgado ou para dar lições. Para ele as fotos são sua vida, são subjetivas, captam o que ele está vivendo e sentindo. 

Ele constata que os migrantes, mesmo tendo que deixar suas terras por causa da pobreza, buscam algo de melhor, acreditam que irão ter uma vida melhor e por isto inventam uma nova vida longe de sua terra natal, já os refugiados não fazem isto, eles foram obrigados a deixar suas terras pelo medo, para fugir das atrocidades, da morte, e não tem o desejo de uma vida melhor, querem apenas sobreviver quando o conseguem. Os relatos de Salgado sobre os Balcãs e Ruanda são fortes, e ainda ficam muito longe do que ele viveu ali, por mais que as fotos retratem isto como um espelho. 

Há uma tendência a pensar que o Holocausto foi o maior genocídio e que isto não se repetirá, mas ou estamos cegos ou não queremos ver. O genocídio que ocorreu na África e nos Balcãs é atroz, cruel, o pior lado do ser humano. 

Lendo Salgado, vendo o documentário, olhando suas fotos o que vejo é que estou diante da humanidade com o que ela tem de pior e com o que ela tem de melhor. 

Sebastião Salgado 









domingo, 10 de agosto de 2014

LIVRO: A VIDA DO LIVREIRO A.J.FIKRY - GABRIELLE ZEVIN


Zevin, Gabrielle. 1ª ed. Paralela, 2014
186 páginas
Tradução: Flávia Yacubian
Título Original: The storied life of A.J.Fikry

Acho que criei uma expectativa muito grande sobre o livro. É um livro gostoso de ler, que se lê em um só dia, bom para relaxar, pelo menos foi o que fiz, li o livro em um único dia. 

A história do livreiro A.J. Fikry em uma ilha, dono da única livraria local, no início rabugento, de mal com a vida após a perda de sua esposa em um acidente que recebe a visita de Amélia, representante de livros de uma editora que entra no lugar de outro que também morreu. Seu primeiro contato não é bom, mas Amélia contorna isto.

Mas a vida de A.J. Fikry irá mudar quando encontra um bebê em sua livraria com um bilhete e resolve adotá-la. Maya irá transformar a vida do livreiro e Amelia também, pois ele se apaixona por ela. Entre tudo isto temos o roubo de um livro raro que se transformaria na aposentadoria do livreiro. 

Confesso que esperava mais do livro. Gosto muito de livros que falam de livros, mas pessoalmente prefiro  O Ano do pesamento mágico ou o Clube do livro do fim da vida, onde os livros também vem em socorro de alguém  que está passando por momentos difíceis, apesar de não serem como no caso de Fikry, seu ganha pão. Por outro lado confesso que gostaria muito de ver livrarias como esta do livro em cidades pequenas, onde houvessem clubes de leitura e um livreiro que soubesse indicar os livros de acordo com o que seus clientes buscam e precisam.

O que mais me atraiu no livro foi o local, a Ilha Alice. Adoraria viver em um lugar assim, não tão alcançável, mas não tão distante. Durante o inverno a balsa não faz a travessia. E também o prazer de estar entre livros, isto eu compreendo bem, vivo rodeada deles, em todos os locais de minha casa há livros, eles andam pela casa e me aconchegam, me acolhem, me dão serenidade e companhia. 

Talvez eu seja como A.J.Fikry quando se trata de livros. 

Gabrielle Zevin nasceu em 1974 em New York

segunda-feira, 24 de março de 2014

LIVRO: SEM MEDO DE FALAR - Relato de uma vítima de pedofilia - MARCELO RIBEIRO



Ribeiro, Marcelo. Paralela, 2014 - 1ª edição
197 páginas

Um relato corajoso e franco sobre o que é ser uma vítima de abuso sexual infantil e de como o pedófilo costuma assediar, aliciar, seduzir sua vítima passando despercebido de todos. Todos os pais deveriam ler este livro, todos nós devemos ler este livro.

Marcelo relata a dor, o trauma que sofreu, trauma este que não é apenas a sua integridade física que foi abusada, mas também moral e psicológico. Os efeitos que atuam e que não são percebidos, o que é passado ao outro sem que a vítima tenha percepção, desencadeando uma cadeia muito maior de afetados. Ele também demonstra como um pedófilo, termo psicológico, e que trata de uma pessoa que está doente, que tem sérios problemas e distúrbios também, de comportamento moral, sexual, e afetivo.

É de extrema importância que livros assim sejam escritos, divulgados, pois se trata de um crime que se repete, mais comum que a maioria das pessoas imagina ou supõe, e que infelizmente prescreve, o que não deveria acontecer, uma vez que uma vítima de trauma de abuso sexual na infância levará anos para conseguir falar, se falar, enquanto que seu agressor continua com seus abusos com novas vítimas.

Por que a criança não fala? ele tenta responder a questão que é extremamente difícil, pois nem o abusado sabe direito, mas o mais evidente é o medo, a vergonha, e o fato de que de alguma forma sabe que aquilo não é certo, mas ainda não tem conhecimento sobre o sexual. Marcelo vai além, ele fala sobre a questão da repulsa/atração, não como duas coisas opostas, mas que ocorrem simultaneamente, e isto é de difícil compreensão uma vez que vivemos numa sociedade que aprende a falar e pensar através dos opostos, dos contrários e que divide as coisas, como o bem e o mal, o amor e o ódio, a atração e a repulsa, o fascínio e o nojo. Acontece que estes pares são muito mais que o verso da mesma moeda, eles podem ocorrer juntos, ao mesmo tempo, e isto reflete no corpo, na mente, sem obter resposta, criando angústia.

A resposta da sociedade e dos outros, quando a vítima fala, geralmente não acreditam, ou acham que é um desabafo, ou pior, a mulher é acusada e o homem é tratado como maricas. E eis aí mais um motivo de vergonha para a vítima e uma forma de isentar o culpado que se sente poderoso e seguro.

Muitos pensam que é um trauma que após falar, desabafar passa, tem que tocar a vida, mas nada mais longe da realidade da vítima, é todo um processo, quando é possível atingir uma cura. A vítima precisa de muito amor, confiança, acolhimento, para poder transformar isto. E mais ainda para poder compreender o agressor, o que não significa que o isenta, ao contrário, é o momento que o responsabiliza. Como isto geralmente ocorre muitos anos depois do abuso, a lei não permite que seja denunciado, e mais, a lei exige o flagrante, e isto é impossível em quase todos os casos.

Os pais devem ler, estar atentos, perceber, a criança apresenta mudanças de comportamento, se afasta dos outros, está aterrorizada com o fato de alguém descobrir, assustada, e o agressor geralmente está muito perto, faz parte da família, da escola, da vizinhança. Geralmente alguém que a criança respeita, admira, sente afeto por ela.

Marcelo foi vítima do abuso por um maestro ,  o abusador geralmente é alguém respeitado na sociedade, e justamente por isto, isento de críticas, e caso a criança consiga falar será desacreditada, e será a palavra dela e a de alguém que é querido por todos.

Recomendo a leitura.