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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

 


LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

ZIAUDDIN YOUSAFZAI E LOUISE CARPENTER

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2019

168 páginas

Muitos já leram “Eu sou Malala”, o relato da jovem paquistanesa que levou um tiro do Talibã por estudar e sobreviveu.  Menos conhecida é a versão de seu pai, Ziauddin Yousafzai, apresentada neste livro escrito em colaboração com Louise Carpenter

A obra acompanha a trajetória de Ziauddin, sua infância no Paquistão e sua formação pessoal, ao mesmo tempo em que narra sua atuação como pai de Malala e seu compromisso com a educação das meninas. Sua história é um contraponto à imagem frequentemente simplificada de sociedades marcadas por estruturas patriarcais, ao apresentar a figura de um homem que se opõe ativamente às restrições impostas às mulheres, inclusive dentro de sua própria família.

Ziauddin defende desde cedo que as meninas e sua filha devem ter os mesmos direitos à educação e às mesmas oportunidades que são oferecidos aos meninos, o que o coloca em conflito com normas sociais e políticas locais, principalmente no contexto de ascensão do Talibã no Paquistão.

A compreensão de Ziauddin sobre a igualdade de gênero foi se construindo ao longo do tempo. Ele demorou para compreender o quanto essa opressão sobre as mulheres podia ser maléfica na própria família. Em suas palavras: “Quando apliquei o princípio básico da igualdade de gêneros à minha própria família, minha vida mudou. A vida da minha esposa mudou. A vida da minha filha mudou. A vida de meus filhos mudou”.

Se Malala falou muito do pai em seu livro, aqui podemos ouvir a narrativa do próprio Ziauddin em suas palavras. A escritora e jornalista Louise Carpenter organiza esse testemunho em forma de narrativa biográfica, articulando memória pessoal e contexto histórico.  

Ao invés de cortar as asas de sua filha e esposa, este pai fez o contrário, ele permitiu que elas mantivessem suas asas e voassem, mesmo dentro de uma sociedade que tolheu as mulheres e as trata como seres inferiores.

 

Ziauddin Yousafzai nasceu em Shangla, Paquistão, em 1969. É um empresário e ativista educacional, mais conhecido como sendo o pai de Malala Yousafzai.

Louise Carpenter nasceu em Duns, Escócia, Reino Unido em 1970. É uma escritora e jornalista escocesa. 




LIVRO: ENTENDENDO O HAMAS E POR QUE ISSO É IMPORTANTE


 

ENTENDENDO O HAMAS E POR QUE ISSO É IMPORTANTE

HELENA COBBAN – RAMI G. KHOURI

AUTONOMIA LITERÁRIA – 1ª ED. – 2025

264 páginas

Uma curiosidade que muitos têm é como os palestinos de Gaza enxergam o Hamas após o que está ocorrendo. O livro procura responder a essa questão ao apresentar diversas perspectivas de pessoas que vivem, estudam ou conhecem a realidade palestina.

A obra não busca apoiar nem demonizar o Hamas, mas compreender sua origem, seus objetivos e sua atuação. Segundo os autores, há muito desconhecimento atuando no mundo e narrativas que nem sempre correspondem à realidade e sua complexidade. Para ilustrar essa questão o livro compara diferentes movimentos classificados como terroristas em distintos contextos históricos, lembrando que, durante muitos anos, o movimento de Nelson Mandela e ele próprio foram considerados terroristas pelo regime do apartheid. Também distingue organizações como o ISIS, o EL e a Al-Qaeda, argumentando que possuem origens, objetivos e formas de atuação distintas.  O livro procura mostrar as diferenças entre estes grupos.

Para os autores o que diferencia o Hamas é o fato de ser uma luta de libertação de um território ocupado. Gaza é uma prisão a céu aberto. Reconhecem que o grupo praticou atos terroristas, mas questionam se essa definição, por si só, é suficiente para compreender sua história e seu papel político. O livro convida o leitor a refletir sobre como diferentes povos reagem diante de situações de ocupação, restrições à liberdade de circulação e perda de autonomia.

Um ponto que me chamou a atenção e eu desconhecia por completo foi a abordagem sobre as mulheres. Um discurso bastante difundido no Ocidente apresenta as mulheres da região apenas como vítimas passivas e oprimidas.  O livro, entretanto, mostra um quadro mais complexo e afirma que, dentro de uma sociedade conservadora e patriarcal, o Hamas defende os direitos das mulheres, incentivando seu acesso à educação superior e sua participação na vida pública. Ainda lembram que, após a vitória eleitoral do Hamas em 2006, antes do golpe praticado para depô-los, as mulheres ocuparam cargos no governo de Gaza.

Baseado em entrevistas com pessoas da região, pesquisadores e conhecedores da realidade palestina, o livro apresenta uma perspectiva pouco difundida no Ocidente. Independentemente da posição do leitor sobre o tema, trata-se de uma leitura que amplia o debate e permite conhecer argumentos que raramente chegam ao público, possibilitando que cada um forme suas próprias conclusões.


Helena Cobban nasceu em 1952 nos Estados Unidos. É uma pesquisadora anglo-americana de relações internacionais com interesses específicos no “Oriente Médio”, no sistema internacional e na justiça transicional.


Rami G. Khouri nasceu em 1948 em Nova Iorque, EUA. É um jornalista jordaniano-americano de origem palestina. É de uma família árabe-palestina cristã. 


quarta-feira, 27 de maio de 2026

QUANDO A GUERRA ULTRAPASSA TODOS OS LIMITES


 

HIROSHIMA

JOHN HERSEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2002

176 páginas

Ao lermos o livro “Hiroshima” de John Hersey, nos compadecemos dos japoneses afetados e também ficamos horrorizados com tamanha monstruosidade perpetrada pelos Estados Unidos contra civis. De fato, aquele povo era inocente, exceto talvez pelos militares locados na cidade e em Nagazaki.

É preciso lembrar que os japoneses foram extremamente cruéis na sua expansão pela Ásia, como ocorreu no Massacre de Nanquim (1937), na China, que ficou conhecido como o Estupro de Nanquim, marcado por estupros e assassinatos em massa. Em Cingapura, em 1942, também massacram chineses no episódio conhecido como o Massacre de Sook.

No entanto, esses atos de crueldade não justificam o que ocorreu em Hiroshima e Nagazaki. Lançar bombas atômicas que em questão de segundos destruíram tudo, matando mais de cem mil pessoas imediatamente em Hiroshima.  Muitas outras morreram depois sob os efeitos da radiação, algo totalmente desconhecido pelos médicos na época.

Pessoalmente, não aceito a justificativa dos Estados Unidos de que, agindo assim, pouparam inúmeras vidas. Com certeza, pouparam vidas americanas e de militares. Acredito que foi mais um experimento para observar os efeitos e os resultados de uma bomba atômica e, diante do sucesso destrutivo, impor o medo ao mundo, já que naquele momento apenas eles possuíam tal arma.

Hersey, jornalista estadunidense, traz em seu livro o relato e o testemunho de seis sobreviventes do horror e retorna 40 anos depois para saber o que lhes aconteceu. Mesmo tendo sobrevivido, todos sofreram as consequências de terem sido expostos à explosão e à radiação, o que mudou suas vidas.

É interessante perceber que a cultura japonesa levou a grande maioria da população a aceitar o que ocorreu; em momento algum levantavam a questão ética e moral do uso de uma bomba dessa magnitude contra duas cidades. Mas precisamos, sim, pensar nessa ética, e mais do que nunca, pois estamos assistindo a outra destruição atualmente, em Gaza, com a morte de milhares de pessoas, não instantaneamente, mas dia após dia, sem falar nos traumas dos que conseguem sobreviver.

Ler Hiroshima é um alerta. Aquela primeira bomba ainda era considerada “fraca”; hoje, bombas atômicas ou de hidrogênio possuem um poder de morte e destruição infinitamente maior. 

John Hersey nasceu em Tianjin, China, em 1914 e faleceu em Key West, Flórida, EUA, em 1993. Foi um escritor e jornalista estadunidense. 



sábado, 23 de maio de 2026

A LITERATURA COMO ARQUIVO DA VIOLÊNCIA

 


UM TÚMULO PARA BÓRIS DAVIDOVITCH

DANILO KIS

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 1987

152 páginas

 

PAÍS – EX-IOGUSLÁVIA – ATUAL SÉRVIA


São contos interligados, mas o que realmente surpreende é a escrita de Danilo Kis. O autor transforma pequenas biografias oriundas de documentos em verdadeiras obras de arte da literatura. 

Para aqueles que não gostam de cenas de maus tratos a animais, o primeiro conto pode ser especialmente odioso. Ainda assim, ou pule-o ele ou enfrente-o, mas não abandone o livro, porque vale a pena continuar.

Os contos, construídos a partir dessas pequenas biografias, deixam muito claro o quanto, durante o stalinismo, ninguém estava seguro. O clima era de total desconfiança e traição, e tudo dependia do humor do “pai”, com seu sorriso sempre amigável nos retratos dispersos pelas instituições públicas, ocupando o lugar onde antes poderia haver um crucifixo ou a imagem (ícone) de uma santa ou de um santo.

Em um dia você está ali, cooperando e sendo bem visto; no seguinte, encontra-se na cadeia, sendo torturado ou enviado para um gulag. O mesmo acontece com os chamados presos políticos que, na prisão ou no gulag, têm seu destino selado pelo jogo de cartas entre os “chefes” dos criminosos.  

São, portanto, pequenas biografias romanceadas de algumas vítimas do terror stalinista, e Kis traça ainda um paralelo com a Inquisição, incluindo o capítulo “Cães e livros”. O autor cita Marco Aurélio, em Meditações: “Quem viu o presente viu tudo: o que ocorreu num passado recente e o que irá ocorrer no futuro.” Para Kis, trata-se de uma evolução cíclica dos tempos.

De fato, quando estudamos História, percebemos o quanto tudo parece sempre se repetir de alguma maneira: em outro tempo, em outro contexto, mas com o ser humano permanecendo, essencialmente, o mesmo.

Um livro duro, inquietante e profundamente atual. 

Kis Danilo nasceu em Subotica (antiga Ioguslávia), Sérvia, em 1935 e faleceu em Paris, França em 1989. 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

ENTRE A LUCIDEZ HISTÓRICA E OS LIMITES DO MARXISMO

 

ERIC HOBSBAWM: UMA VIDA NA HISTÓRIA

RICHARD J. EVANS

CRÍTICA – 1ª ED. – 2021

728 páginas


Em primeiro lugar, lamento os erros de revisão do livro: são pequenos erros de grafia e ausência de algumas palavras, que não comprometem a leitura, mas são perceptíveis. 

O livro trata da vida do historiador marxista Eric Hobsbawn, autor de várias obras conhecidas, como a trilogia das Eras e "Era dos Extremos". A narrativa percorre sua infância, adolescência, todo o período da Segunda Guerra Mundial, sua vida acadêmica e seu percurso intelectual. O que considerei mais interessante e importante nesta leitura foi:

- Informações curtas, mas relevantes, sobre o Congo Belga, a invasão de Praga e da Hungria e alguns governos do Reino Unido. Sua visão inicial sobre a América Latina mostra-se um pouco ilusória, algo que ele corrige posteriormente. Como muitos intelectuais de esquerda de sua época, também nutriu certa ilusão em relação à União Soviética, mas Eric percebeu rapidamente suas contradições. Foi sempre comunista, embora nunca ortodoxo. 

- Sobre a vida acadêmica: os preconceitos, as competições, os debates e as críticas. Eric foi durante muito tempo um outsider na academia britânica, e o reconhecimento por seu trabalho e pesquisas veio tardiamente. Nunca conseguiu ocupar uma cátedra em Cambridge ou Oxford. 

- É curioso como um homem considerado feio - algo dito inclusive por sua irmã no livro - atraia tantas mulheres. 

- Hobsbawm teve o mérito de incluir as mulheres em "A Era dos Impérios"; no entanto, mostrou-se incapaz de reconhecer plenamente a participação feminina na história. Mesmo sendo amigo de Michelle Perrot e conhecendo Joan Scott, ele afirmava que o feminismo não era compatível com o marxismo e não enxergava nas mulheres um papel relevante na história dos trabalhadores. É preciso considerar que, naquele momento, os estudos sobre mulheres ainda estavam em consolidação, e talvez hoje ele revisasse algumas dessas posições. De fato, parte do feminismo inglês de sua época possuía um viés burguês e a luta das mulheres trabalhadoras nem sempre estava contemplado nesse movimento. 

No fundo, Hobsbawm parecia um burguês em seu estilo de vida, mas dotado de uma visão histórica perspicaz. 



Richard J. Evans nasceu em Woodford, Reino Unido em 1947. É um historiador com foco na história da Alemanha. 


sexta-feira, 17 de abril de 2026

TEXACO COMO TERRITÓRIO INSURGENTE: A INVERSÃO DO “NÃO-LUGAR”

 


TEXACO

PATRICK CHAMOISEAU

PINARD – 1ª ED. – 2026

504 páginas

O romance “Texaco” constrói um retrato da Martinica a partir da voz de Marie-Sophie Laborieux, que narra sua história e a de sua família a um urbanista, oferecendo, por meio dessa interlocução, uma outra versão da história da ilha – não a oficial, mas aquela vivida pelos pobres, pelos colonizados e pelos descendentes de escravizados.

 A narrativa se inscreve, portanto, em uma perspectiva contra-hegemônica; é pelo olhar dos marginalizados que se reconstitui cerca de um século e meio de história. A escrita de Patrick Chamoiseau é ao mesmo tempo poética e visceral, recusando qualquer idealização. A miséria aparece em sua materialidade: a sujeira, a fome, as doenças, a violência; mas também em sua dimensão relacional, marcada por formas de solidariedade, especialmente entre as mulheres, que sustentam a vida cotidiana.

A história se desenvolve na contramão da narrativa colonial, evidenciando as dores, as estratégias de sobrevivência e as resistências daqueles que foram historicamente silenciados. Marie-Sophie emerge como uma figura central dessa resistência: uma mulher cuja força reside na palavra – na capacidade de narrar, de nomear e, assim, de existir. Seu “nome secreto”, que antecede a fundação de Texaco, aponta para essa dimensão simbólica da linguagem como constitutiva da identidade.

A obra também dialoga com o pensamento anticolonial. Diferentemente do que ocorre em “Pele negra, máscaras brancas”, de Frantz Fanon, onde se evidencia o desejo de assimilação e os efeitos psíquicos da colonização (o negro que deseja tornar-se branco e francês), Texaco enfatiza a persistência de uma identidade crioula. Marie-Sophie, ainda que em certos momentos se deixe seduzir pelo imaginário francês, não se deixa capturar por ele: não há, nela, vergonha de ser negra, mas afirmação.

Nesse ponto, é importante precisar que Aimé Césaire teve um papel ambíguo e decisivo: foi um dos responsáveis pela departamentalização da Martinica, integrando-a à França, mas também o principal formulador da negritude, movimento que reivindica o valor das culturas negras frente à lógica colonial. A tensão entre assimilação e afirmação identitária atravessa o romance.

A memória, em “Texaco”, constrói-se sobretudo pela tradição oral. Lendas, mitos, cantos e ditados compõem um universo simbólico que não deriva da cultura do colonizador, mas emerge como expressão própria do povo. O uso do crioulo, em coexistência com o francês, não é apenas um recurso estilístico, mas um gesto político: a língua torna-se campo de disputa entre duas visões de mundo.

Nesse sentido, o romance afirma o sujeito negro como autor de sua própria cultura, recusando a centralidade da língua e da tradição francesa. Se, em “Pele negra, máscaras brancas”, a colonização aparece como força de apagamento, capaz de produzir sujeitos desenraizados, aqui se evidencia a resistência: a identidade crioula se reinscreve pela memória, pela oralidade e pela ocupação do espaço.

Texaco, a comunidade que dá nome ao livro, não é apenas um lugar. É um território insurgente. Aquilo que poderia ser visto como um “não-lugar”, na chave de Marc Augé, revela-se o oposto: um espaço saturado de memória, vínculos e história, constantemente destruído e reconstruído por aqueles que se recusam a desaparecer.

Marie-Sophie, por fim, encarna a possibilidade de imaginar outro mundo. Sua trajetória aponta para a construção de um espaço que escapa, ainda que precariamente- à lógica colonial, racista e patriarcal: Texaco, enquanto comunidade, não é apenas um lugar físico, mas a materialização de um projeto de existência crioula.  

A Martinica permanece, até hoje, como departamento ultramarino francês – dado que reforça a atualidade das tensões apresentadas no romance.  


Patrick Chamoiseau nasceu em Fort-de-France, Martinica, em 1953. É um escritor martiniquês-francês. 


sábado, 11 de abril de 2026

PENSAR A PARTIR DA COMPLEXIDADE

 


MEUS DEMÔNIOS

EDGAR MORIN

BERTRAND BRASIL  – 5ª ED. – 1995

276 páginas


Em Meus demônios, Edgar Morin realiza um exercício raro de autobiografia intelectual que não busca a celebração de si, mas a exposição das contradições que atravessam uma vida dedicada ao pensamento. O livro não é uma confissão no sentido clássico, tampouco um memorial pacificado; trata-se de um confronto direto com as forças internas — afetivas, políticas, ideológicas e existenciais — que moldaram sua trajetória.

Morin escreve a partir da recusa da linearidade. Sua vida aparece marcada por rupturas, ambiguidades e revisões constantes: o engajamento político, a experiência da Resistência, a militância comunista e o posterior afastamento do dogmatismo ideológico compõem um percurso que jamais se resolve em certezas definitivas. Os “demônios” a que o título se refere não são apenas conflitos íntimos, mas também as tentações do pensamento simplificador, da ortodoxia e da fidelidade cega a sistemas fechados.

Ao revisitar sua história, Morin explicita a inseparabilidade entre vida e pensamento. A teoria não nasce em abstração, mas no atrito com a experiência, com o erro, com o sofrimento e com o fracasso. Nesse sentido, Meus demônios antecipa e ilumina aquilo que se tornaria central em sua obra posterior: a defesa do pensamento complexo como resistência à mutilação do real, à redução da vida a esquemas binários e à separação artificial entre razão e emoção.

O livro também é atravessado por uma reflexão profunda sobre o século XX. Guerras, totalitarismos, desencantos políticos e crises civilizatórias não aparecem como pano de fundo, mas como forças que atravessam subjetivamente o autor. Morin reconhece sua própria vulnerabilidade diante das grandes narrativas de salvação histórica, mostrando como mesmo o pensamento crítico pode ser capturado por ilusões redentoras.

Há, em Meus demônios, uma ética da lucidez que se constrói a partir da aceitação da incompletude. Morin não se apresenta como alguém que venceu seus conflitos, mas como quem aprendeu a conviver com eles sem negá-los. Pensar, aqui, é um exercício permanente de vigilância contra o fechamento, contra a tentação da pureza ideológica e contra o conforto das respostas fáceis.

O livro permanece atual justamente por essa recusa da pacificação. Em tempos de polarização, certezas identitárias rígidas e discursos totalizantes, Meus demônios lembra que a complexidade não é fraqueza, mas condição ética do pensamento. Ler Morin é aceitar que a lucidez nasce do enfrentamento dos próprios abismos — e que pensar é, sempre, arriscar-se.

Edgar Morin nasceu em Paris, em 1921. É um antropólogo, sociólogo e filósofo francês. 




quinta-feira, 2 de abril de 2026

AMOR, ESCOLHA E QUEDA COMPARTILHADA

 


PARAÍSO PERDIDO

 JOHN MILTON

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2018

513 páginas

Paraíso Perdido é um poema épico do Século XVII, publicado originalmente em 1667, no qual John Milton reconta, a partir do Gênesis, a queda de Satã, a criação do mundo e a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. A epopeia narra a luta entre Deus e Satã, que culmina com a expulsão deste e de suas hordas do Céu. Movido pela vingança, Satã decide destruir a obra recém-criada por Deus: a Terra e seus dois primeiros humanos.

Após perder o direito de permanecer no Céu, Satã e seus seguidores - todos anjos decaídos - encontram-se em um abismo profundo, árido e em chamas: o inferno, cercado por nove muralhas. O castigo não apazigua sua ira. Dominado pela cobiça, pela inveja e pelo ódio, Satã descobre que Deus criou um novo Paraíso, no qual uma nova humanidade poderia, caso permanecesse fiel, serem alçados ao céu e ocupar os lugares deixados vagos pelos anjos destituídos. É esse conhecimento que o impulsiona a agir.

Satã parte em busca do Paraíso e, para isso, alia-se à Culpa e à Morte, que lhe abrem as portas do inferno. Deus, que tudo vê e tudo sabe, acompanha seus movimentos e anuncia ao Filho que Satã alcançará seu objetivo: Adão e Eva cairão, e a culpa e a morte recairão sobre eles. O Filho, então, oferece a própria vida para redimir a humanidade, proposta aceita por Deus.  

Os anjos tentam proteger o Paraíso. O Arcanjo Rafael vai até Adão e lhe relata os acontecimentos do Céu, a guerra entre os anjos e a astúcia do inimigo que agora ronda o Éden. Adverte-o a obedecer ao único mandamento divino: não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, do contrário estariam perdidos, assim como toda a sua descendência.

Adão demonstra fé absoluta e acredita que jamais desobedecerá, assim como Eva, sua amada esposa. Satã, porém, descobre a proibição e decide agir por meio da sedução. Sabendo que Adão seria mais difícil de convencer, escolhe Eva como alvo. Disfarça-se de serpente – o animal mais astuto – e se aproxima dela enquanto ela cuida do jardim sozinha. Eva havia sugerido a separação para que o trabalho fosse feito mais rapidamente. Adão, lembrando-se dos avisos de Rafael, tenta dissuadi-la, mas acaba cedendo diante da tristeza dela, que interpreta sua preocupação como desconfiança.

Sozinha, Eva encontra a serpente, que fala com eloquência e persuasão. Assustada, ela questiona como um animal pode falar, ao que a serpente responde que foi graças ao fruto de uma árvore que adquiriu tal capacidade. Afirma ainda que o fruto, além de delicioso, concederia a Eva maior inteligência e a tornaria semelhante a uma deusa. Eva pede então que lhe mostre a árvore e, ao reconhecê-la como a árvore proibida, hesita. A serpente a tranquiliza, dizendo estar viva, feliz e saudável. Diante disso, Eva começa a duvidar da gravidade da proibição e, por fim, come o fruto.

 

Encantada com o sabor e com a sensação que experimenta, Eva retorna até Adão e lhe oferece o fruto. Adão, horrorizado ao perceber o que ocorreu, decide comer também, movido pelo amor que sente por ela e pela recusa em ter um destino diferente do de sua companheira. Com esse gesto, consuma-se a queda.

Após o ato, tudo se transforma. Surge a animosidade entre eles, o amor deixa de ser puro e a harmonia do mundo natural se rompe. Animais antes pacíficos passam a se perseguir, alguns se tornam predadores, outros presas. Criaturas que antes lhes obedeciam tornam-se ferozes. O Paraíso chega ao fim.  

Adão e Eva percebem então sua nudez, e a vergonha – inexistente até então – surge. Cobrem-se com folhas de figueira, enquanto a culpa e a morte, conforme o pacto com Satã, entram no mundo. Embora não morram imediatamente, sentem o peso da transgressão. A esperança persiste, pois Deus, apiedado pelo arrependimento humano, poupa-lhes a morte imediata graças ao acordo feito previamente com o Filho.

Ainda assim, o castigo precisa ser cumprido. Deus anuncia que Eva dará à luz com dor, que a serpente será sua inimiga até ter a cabeça esmagada por uma mulher, e que Adão deverá trabalhar e suar para obter o sustento. A serpente passa a rastejar. O Arcanjo Miguel conduz o casal para fora do Paraíso, fecha suas portas e coloca anjos como guardiões. Antes, porém, mostra a Adão, do alto de um monte, o futuro da humanidade, desde a queda até o nascimento de Jesus, fruto de uma virgem – aquela que esmagará a cabeça da serpente.

Quanto a Satã e seus companheiros, ao retornarem ao Inferno esperando glória por sua façanha, são transformados em serpentes. Algum tempo depois, retomam suas antigas formas, perpetuando o ciclo de orgulho, punição e queda.  


John Milton nasceu em Londres em 1608 e faleceu na mesma localidade em 1674. Foi um poeta, polemista, intelectual e funcionário público inglês. 


O ASSASSINATO DE MARIELLE E ANDERSON


 

MATARAM MARIELLE: COMO O ASSASSINATO DE MARIELLE FRANCO E ANDERSON GOMES ESCANCAROU O SUBMUNDO DO CRIME CARIOCA

CHICO OTAVIO – VERA ARAÚJO

INTRÍNSECA – 1ª ED. – 2020

208 páginas

O livro relata a investigação sobre a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Nesse ponto, não acrescenta muito ao que já sabemos, pois a narrativa vai apenas até o estágio em que a investigação se encontrava no momento da publicação, ainda sem revelar quem mandou matar. No entanto, mostra as dificuldades enfrentadas e os erros cometidos ao longo do processo investigativo. Por outro lado, o livro traz um panorama importante do que é o Rio de Janeiro no contexto das milícias e do domínio que essas organizações exercem sobre determinadas áreas da cidade.  

Sobre a vida de Marielle, o livro apresenta poucas informações, mas o suficiente para revelar a mulher de coragem e determinação que ela foi.

Em 2026 o STF condenou os irmãos Domingos (conselheiro do TCE-RJ) e Chiquinho Brazão (Deputado Federal) a 76 anos de prisão por serem os mandantes e planejarem o crime.


Chico Otavio nasceu em 1962. É jornalista e professor.

Vera Araújo nasceu no Rio de Janeiro em 1965. É jornalista. 


 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

A TRAVESSIA: FUGA, RESISTÊNCIA E EXÍLIO

 


FUGA DA TERRAS DAS NEVES

A fuga do jovem Dalai Lama para a liberdade

STEPHAN TALTY

EDITORA GAIA – 1ª ED. – 2012

254 páginas

 

Em Fuga da Terra das Neves, Stephan Talty constrói um relato que vai muito além da travessia dramática do líder tibetano após a invasão chinesa. O livro articula história, espiritualidade e política ao apresentar não apenas os acontecimentos que levaram ao exílio, mas também o universo simbólico e religioso do Tibete, o processo de reconhecimento da reencarnação do Dalai Lama, sua infância e formação no Palácio de Potala, em Lhasa, com seus rituais, regras rigorosas e códigos milenares.

Ao contextualizar a vida tibetana e sua religiosidade, o autor mostra o lugar singular que o Dalai Lama ocupa na sociedade: não apenas como líder espiritual, mas como eixo simbólico de identidade, coesão e continuidade cultural. Essa centralidade ajuda a compreender por que, com a chegada das tropas chinesas, sua permanência em território tibetano se torna um ponto estratégico. Para a China, mantê-los sob controle significaria uma vitória política decisiva: dobrar o Dalai Lama seria, em grande medida, dobrar o próprio Tibete.

O cerco se intensifica quando o Dalai Lama se refugia no palácio de verão. Temendo por sua vida, os tibetanos organizam resistência e cercam o local como forma de proteção. É nesse momento de tensão extrema que se decide a fuga. Com apoio de rebeldes tibetanos e também da CIA, a saída é planejada de forma discreta, atravessando montanhas e territórios hostis em uma jornada de aproximadamente duas semanas até a Índia. O livro acompanha esse percurso passo a passo, revelando o risco constante, o medo, a exaustão e a dimensão humana de um jovem líder lançado precocemente à condição de exilado.

A chegada à Índia tampouco é simples. Inicialmente relutante em conceder asilo, o governo indiano acaba cedendo diante da pressão e do pedido dos Estados Unidos, acolhendo o Dalai Lama em um gesto que teria consequências geopolíticas duradouras. A partir daí, o Tibete passa por uma transformação radical: de um território historicamente fechado a estrangeiros, converte-se em uma região controlada pela China, que reivindica seu direito histórico sobre a área. O processo de modernização imposto vem acompanhado de vigilância, medo e repressão, ainda que muitos tibetanos sigam preservando sua religiosidade e o vínculo simbólico com o Dalai Lama.  

A leitura suscita uma reflexão inevitável. Se não fosse o exílio forçado, talvez o mundo não tivesse tido acesso à voz do Dalai Lama, às suas reflexões sobre compaixão, ética, política e espiritualidade. É possível imagina que, permanecendo no Tibete, ele estivesse ainda preso a protocolos rígidos e a uma estrutura que limitava sua atuação pública. O exílio, embora profundamente doloroso e injusto, também parece ter sido um processo de amadurecimento e libertação pessoal. Ainda assim, permanece o lamento: nenhuma abertura ao mundo compensa a perda de uma terra, de um povo e de uma história interrompida pela ocupação.

 

A china invadiu o Tibete em 1950, logo após a Revolução Chinesa, com o Exército de Libertação Popular entrando em Chamdo. A alegação de que o território do Tibete pertencia à China historicamente gera controvérsias, portanto não vou abordar a questão aqui.

 


Stephan Talty nasceu em Buffalo, Nova Iorque, EUA, em 1964. É um escritor estadunidense. 


MERKEL: PODER, PRUDÊNCIA E ANTECIPAÇÃO POLÍTICA

 


ANGELA MERKEL: A CHANCELER E SEU MUNDO

STEFAN KORNELIUS

EDITORA nVERSOS – 1ª ED. 2015

288 páginas

Stefan Kornelius no traz uma biografia política de Angela Merkel. No início do livro são apresentados alguns fatos de sua infância e de sua vida durante 35 anos na RDA, a Alemanha oriental, e os efeitos que essa experiência teve sobre sua formação, principalmente no que se refere à questão da liberdade.  

Merkel era filha de um pastor protestante que, junto com sua esposa e mãe de Angela, soube preservar na intimidade de sua casa, a portas fechadas uma liberdade de pensamento. Porém, do outro lado da porta, era preciso se fazer de inocente e saber dissimular para não se tornar alvo de perseguição política.

No início de sua carreira política no Ocidente, após a queda do muro de Berlim, Angela encontra dificuldades para compreender o pensamento ocidental. Aos poucos, contudo, vai se entrosando, embora sempre guarde para si o valor máximo da liberdade.

O livro trata dos dois primeiros períodos de seu governo, tendo sido publicado antes do terceiro. Nele aparecem questões centrais da política internacional, como a guerra do Iraque, a invasão da Líbia e, sobretudo, a crise do euro. Kornelius mostra também o estilo de governo de Merkel: sempre cauteloso, passo a passo, sem lances intuitivos ou emocionais, marcado por uma postura extremamente analítica e racional.

São descritos ainda seus encontros e negociações com os governos da Rússia, da China e dos Estados Unidos, bem como sua aliança com a França durante a crise do euro, parceria que posteriormente se enfraqueceu com a mudança de presidente francês.

Somos apresentados, assim, a uma mulher que foi considerada a mais poderosa do mundo e, se não do mundo, certamente da Europa. Embora não se apoie na intuição, Merkel possui um senso de análise que a leva a antecipar crises futuras, inclusive aquelas que hoje se desenham nas tensões entre Rússia, Estados Unidos e China.


Stefan Kornelius nasceu em 1965. É um jornalista alemão. 


domingo, 29 de março de 2026

ESCREVER COMO RESISTÊNCIA

 

DIÁRIOS DE RAQQA

A história real do estudante que desafiou o Estado Islâmico, foi jurado de morte e conseguiu fugir de uma cidade sitiada

SAMER

GLOBO CLUBE - 1ª ED. – 2017

112 páginas

É um livro bem curto, mas de uma densidade imensa. Comecei a ler e não larguei até terminar.

 Um jovem de 24 anos que vive em Raqqa, na Síria, de repente vê o Daesh - mais conhecido por Estado Islâmico - invadir sua cidade. A partir desse momento, o que já não estava bom, em função da guerra civil síria contra o ditador Assad, torna-se mil vezes pior. o Daesh impõe a sharia - ou aquilo que eles consideram ser a sharia - e executam todos os que não lhes obedecem.

Além disso, exploram um povo já empobrecido ao extremo, literalmente roubando o pouco que lhes restava por meio de taxas e multas que eles próprios inventam.

Samer, pseudônimo do autor, relata o dia a dia dessa vida sob terror. Recorda também os bons momentos de antes, enquanto vive permanentemente no medo e na insegurança.

Como se não bastasse, os russos bombardeiam a cidade. É em um desses ataques que ele perde o pai, quando sua casa é atingida. A mãe passa a viver desesperada com o que possa acontecer ao filho, sobretudo porque ele, quando estudante na universidade, participou dos movimentos rebeldes.

Quando Samer descobre que foi jurado de morte pelo Estado Islâmico, finalmente reúne coragem para deixar tudo e todos para trás e consegue fugir.

Mas enquanto esteve lá, arriscou-se ao máximo. Queria que o Ocidente e outros países soubessem o que estava acontecendo em Raqqa, na esperança de uma ajuda que nunca veio. Ele conseguiu transmitir seu diário para fora do país, e o material chegou à BBC. Se fosse descoberto, teria sido imediatamente morto.

São esses relatos que compõem este livro.


Samer é um pseudônimo de um jovem que conseguiu escapar de Raqqa. Atualmente ele vive em um campo de refugiados.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O SAGRADO COMO ESPELHO DO BRASIL


 

APARECIDA

A biografia da santa que perdeu a cabeça, tornou-se negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil

RODRIGO ALVAREZ

RECORD – 1ª ED. – 2023

256 páginas


Em Aparecida, Rodrigo Alvarez constrói uma biografia que escapa ao tom devocional tradicional para narrar a história de Nossa Senhora Aparecida como fenômeno religioso, político, social e cultural. A santa não aparece apenas como objeto de fé, mas como personagem atravessada por disputas de poder, violência simbólica, racismo e projetos de nação.

O ponto de partida do livro é conhecido, mas ganha densidade narrativa: a pequena imagem de terracota encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, no século XVIII, quebrada, escurecida pelo tempo e pela água. A partir daí, Alvarez reconstrói como essa imagem frágil se transforma na padroeira do Brasil, acompanhando as metamorfoses simbólicas que a cercam.

Um dos aspectos mais instigantes da obra é a atenção dada ao corpo da santa. Uma imagem que perde a cabeça, é recomposta, escurece, é roubada, restaurada, coroada e politicamente disputada. O livro mostra como cada uma dessas etapas produz sentidos distintos: a santa negra, a santa do povo, a santa nacional, a santa apropriada por projetos de poder. Nada disso é neutro.

Alvarez articula a devoção popular com o contexto histórico brasileiro: escravidão, Império, República, ditadura e democracia. Aparecida atravessa esses períodos como símbolo maleável, capaz de acolher tanto a fé dos pobres quanto os interesses das elites políticas e eclesiásticas. Presidentes, militares e governantes tentam se aproximar da santa, buscando legitimação simbólica por meio dela.

O livro também evidencia a tensão constante entre religiosidade popular e Igreja institucional. A devoção a Aparecida nasce fora dos grandes centros de poder e resiste às tentativas de controle absoluto. Mesmo quando institucionalizada, ela carrega marcas de insubordinação: uma santa negra em um país racista, uma devoção popular em uma estrutura hierárquica masculina, uma fé que não se deixa reduzir à doutrina.

Outro mérito do livro está em tratar o roubo da imagem, e sua posterior restauração, não apenas como episódio policial, mas como acontecimento simbólico. A violência contra a santa revela o quanto ela se tornou objeto de disputa e projeção. Restaurar Aparecida não é apenas recompor um objeto quebrado, mas decidir qual imagem, qual narrativa e qual Brasil se deseja preservar.

Sem idealizar a religião, Alvarez mantém um olhar crítico e jornalístico. Ele não transforma a santa em mito intocável, mas tampouco desqualifica a fé. O livro reconhece a força da devoção como experiência coletiva, afetiva e política, especialmente em um país marcado por desigualdades profundas e exclusões históricas.

Aparecida é, assim, menos uma biografia religiosa e mais um retrato do Brasil visto a partir de sua santa mais emblemática. Ao acompanhar a trajetória de uma imagem pequena, frágil e negra, o livro revela como o sagrado, no Brasil, nunca esteve separado da política, da raça, do gênero e da disputa por sentido. Aparecida não apenas conquistou o Brasil, ela expõe suas contradições.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro


DO SUJEITO DISCIPLINAR AO SUJEITO DO DESEMPENHO

 

SOCIEDADE DO CANSAÇO

BYUNG-CHUL HAN

VOZES NOBILIS – 1ª ED. – 2024

128 páginas

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han propõe uma leitura contundente das formas contemporâneas de dominação, deslocando o foco da repressão externa para a exploração internalizada. Já não vivemos, segundo o autor, sob o paradigma da disciplina, da proibição ou da negatividade, mas sob um regime de excesso: excesso de estímulos, de desempenho, de positividade e de exigência de produtividade.

Han descreve uma sociedade que não precisa mais impor limites pela força, porque os sujeitos passaram a se autoexplorar. O imperativo do “poder tudo” substitui o “não pode”, transformando a liberdade em um dispositivo de controle. O sujeito do desempenho acredita agir por vontade própria, quando na verdade está inteiramente capturado por uma lógica que exige eficiência permanente, flexibilidade absoluta e disponibilidade contínua. O resultado não é a emancipação, mas o esgotamento.

A partir desse diagnóstico, o autor relaciona o aumento de patologias psíquicas — como depressão, burnout e transtornos de ansiedade — a esse modelo social. O cansaço que marca nossa época não é apenas físico, mas existencial. Trata-se de um cansaço que corrói o desejo, empobrece a experiência e elimina o espaço da contemplação, do ócio e da negatividade, elementos fundamentais para qualquer forma de pensamento crítico.

Um dos pontos centrais do livro é a crítica à positividade compulsória. Ao eliminar o conflito, a alteridade e o limite, a sociedade do desempenho produz sujeitos isolados, incapazes de estabelecer relações verdadeiramente políticas. Tudo se torna projeto individual, inclusive o fracasso. A responsabilidade pelo esgotamento é deslocada do sistema para o indivíduo, que passa a se perceber como insuficiente, nunca produtivo o bastante.

Embora o livro seja breve, sua força está na capacidade de nomear sensações difusas do presente. O cansaço generalizado, a sensação de inadequação permanente e a dificuldade de sustentar a atenção encontram aqui uma interpretação filosófica que revela suas raízes estruturais. Ao mesmo tempo, a leitura suscita questões importantes: até que ponto esse diagnóstico não corre o risco de universalizar uma experiência que é atravessada por desigualdades de classe, gênero e raça? Quem pode, de fato, adoecer de cansaço em uma sociedade marcada por precariedade extrema?

Sociedade do Cansaço não oferece soluções fáceis. Sua contribuição está menos em indicar saídas e mais em interromper a naturalização do esgotamento como destino individual. Ao revelar a violência silenciosa da positividade e da autoexploração, Han nos convida a repensar o valor do limite, da pausa e da recusa, gestos cada vez mais raros, mas talvez indispensáveis, em um mundo que não sabe mais descansar.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1959. É um filósofo e ensaista sul-coreano.