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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

 


LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE

ZIAUDDIN YOUSAFZAI E LOUISE CARPENTER

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2019

168 páginas

Muitos já leram “Eu sou Malala”, o relato da jovem paquistanesa que levou um tiro do Talibã por estudar e sobreviveu.  Menos conhecida é a versão de seu pai, Ziauddin Yousafzai, apresentada neste livro escrito em colaboração com Louise Carpenter

A obra acompanha a trajetória de Ziauddin, sua infância no Paquistão e sua formação pessoal, ao mesmo tempo em que narra sua atuação como pai de Malala e seu compromisso com a educação das meninas. Sua história é um contraponto à imagem frequentemente simplificada de sociedades marcadas por estruturas patriarcais, ao apresentar a figura de um homem que se opõe ativamente às restrições impostas às mulheres, inclusive dentro de sua própria família.

Ziauddin defende desde cedo que as meninas e sua filha devem ter os mesmos direitos à educação e às mesmas oportunidades que são oferecidos aos meninos, o que o coloca em conflito com normas sociais e políticas locais, principalmente no contexto de ascensão do Talibã no Paquistão.

A compreensão de Ziauddin sobre a igualdade de gênero foi se construindo ao longo do tempo. Ele demorou para compreender o quanto essa opressão sobre as mulheres podia ser maléfica na própria família. Em suas palavras: “Quando apliquei o princípio básico da igualdade de gêneros à minha própria família, minha vida mudou. A vida da minha esposa mudou. A vida da minha filha mudou. A vida de meus filhos mudou”.

Se Malala falou muito do pai em seu livro, aqui podemos ouvir a narrativa do próprio Ziauddin em suas palavras. A escritora e jornalista Louise Carpenter organiza esse testemunho em forma de narrativa biográfica, articulando memória pessoal e contexto histórico.  

Ao invés de cortar as asas de sua filha e esposa, este pai fez o contrário, ele permitiu que elas mantivessem suas asas e voassem, mesmo dentro de uma sociedade que tolheu as mulheres e as trata como seres inferiores.

 

Ziauddin Yousafzai nasceu em Shangla, Paquistão, em 1969. É um empresário e ativista educacional, mais conhecido como sendo o pai de Malala Yousafzai.

Louise Carpenter nasceu em Duns, Escócia, Reino Unido em 1970. É uma escritora e jornalista escocesa. 




quarta-feira, 17 de junho de 2026

LIVRO: MÃE PÁTRIA

 

MÃE PÁTRIA: A desintegração de uma família na Venezuela em colapso

PAULA RAMÓN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2020

240 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – VENEZUELA

Não é fácil encontrar escritoras venezuelanas traduzidas para o português. Diante disso, para representar uma mulher por país, no caso da Venezuela vou falar do livro de Paula Ramón, que relata como sua família passou de uma situação estável e promissora para uma desintegração diante dos acontecimentos políticos e econômicos do país.

O livro é um exemplo do que pode ocorrer, em nível familiar e pessoal, em função da política. Já ouvi muitas vezes, principalmente mulheres, dizerem: “Não me interesso por política!!!”. Pois deveriam, porque um governo pode trazer sérias consequências para qualquer pessoa, desde impactos econômicos até interferências na liberdade, na educação, na saúde e na segurança.

Por outro lado, pessoalmente me abstenho que emitir opiniões sobre a Venezuela. Já vi pessoas que defendem o país e Maduro, assim como já vi muitas outras execrando o governo.  Aqui me atenho ao livro e o que relata uma venezuelana que hoje mora fora do país.

Seu pai, Jesús, era espanhol e fugiu durante a Guerra Civil Espanhola para a França. Lutou na Segunda Guerra Mundial e acabou preso em um campo de concentração alemão, sendo libertado apenas ao final da guerra. Considerado apátrida pelo governo de Franco na Espanha, instalou-se em Paris, onde casou-se com uma espanhola e teve um filho. Então ele leu sobre um lugar chamado Venezuela, que lhe pareceu promissor, e convenceu a família a se mudar para lá.

Em poucos anos, Jesús ascendeu à classe média alta, teve mais dois filhos e depois se separou da primeira esposa. Paulina, mãe de Ramón, nasceu em Capacho, um pequeno povoado nos Andes venezuelanos, próximo à fronteira com a Colômbia. Foi estudar Biologia na Universidade de Maracaibo, que era pública.

Maracaibo é o berço do petróleo na Venezuela, conhecida como a “Arábia Saudita” da venezuelana. Jesús conheceu Paulina ao lhe dar carona, juntamente com algumas amigas, e os dois se apaixonaram. Foram anos prósperos; havia empregos e eles eram bem remunerados.

No entanto, nos anos de 1970, uma guerra que não tinha nada a ver com a Venezuela mudou a sorte de todos. Foi a guerra do Yom Kippur, que provocou uma crise mundial do petróleo. Os preços aumentaram muito, e o setor foi estatizado em 1976, quando foi criada a Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA). Isso trouxe imensa riqueza ao país.

Em 1981 os preços começaram a cair. Foi o fim do boom petroleiro, e começaram os ajustes econômicos. A partir desse momento, as crises político-econômicas se sucederam. Em 4 de fevereiro de 1992, militares descontentes lançaram uma tentativa de golpe de Estado, mas ela durou pouco e o então desconhecido Hugo Chavez se rendeu.

Em 1999, Chavez chegou ao poder, e sua ascensão coincidiu com um novo boom petroleiro, que possibilitou a criação de programas sociais paralelos ao sistema público constitucional e empregou milhares de pessoas com salários acima do mínimo. Tudo melhorou, inclusive na casa de Ramón. No entanto, a situação não permaneceria assim, e viriam novas crises e conflitos políticos até chegarmos aos dias atuais.

Ramón discorre sobre todo esse processo venezuelano e sobre como ele afetou sua família e a si própria, levando-a finalmente a deixar a Venezuela e, do exterior, usar de mil maneiras para conseguir enviar ajuda para sua mãe. Também aborda as diferenças políticas que surgiram dentro da própria família, entre os que apoiavam o governo e os que não o faziam.

Em 1969, a feminista estadunidense Carol Hanisch, popularizou a frase “o pessoal é político”. Neste livro, porém, vemos que também “o político é pessoal”. 

Paula Ramón nasceu em Maracaibo, Venezuela. É uma jornalista 



quarta-feira, 27 de maio de 2026

QUANDO A GUERRA ULTRAPASSA TODOS OS LIMITES


 

HIROSHIMA

JOHN HERSEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2002

176 páginas

Ao lermos o livro “Hiroshima” de John Hersey, nos compadecemos dos japoneses afetados e também ficamos horrorizados com tamanha monstruosidade perpetrada pelos Estados Unidos contra civis. De fato, aquele povo era inocente, exceto talvez pelos militares locados na cidade e em Nagazaki.

É preciso lembrar que os japoneses foram extremamente cruéis na sua expansão pela Ásia, como ocorreu no Massacre de Nanquim (1937), na China, que ficou conhecido como o Estupro de Nanquim, marcado por estupros e assassinatos em massa. Em Cingapura, em 1942, também massacram chineses no episódio conhecido como o Massacre de Sook.

No entanto, esses atos de crueldade não justificam o que ocorreu em Hiroshima e Nagazaki. Lançar bombas atômicas que em questão de segundos destruíram tudo, matando mais de cem mil pessoas imediatamente em Hiroshima.  Muitas outras morreram depois sob os efeitos da radiação, algo totalmente desconhecido pelos médicos na época.

Pessoalmente, não aceito a justificativa dos Estados Unidos de que, agindo assim, pouparam inúmeras vidas. Com certeza, pouparam vidas americanas e de militares. Acredito que foi mais um experimento para observar os efeitos e os resultados de uma bomba atômica e, diante do sucesso destrutivo, impor o medo ao mundo, já que naquele momento apenas eles possuíam tal arma.

Hersey, jornalista estadunidense, traz em seu livro o relato e o testemunho de seis sobreviventes do horror e retorna 40 anos depois para saber o que lhes aconteceu. Mesmo tendo sobrevivido, todos sofreram as consequências de terem sido expostos à explosão e à radiação, o que mudou suas vidas.

É interessante perceber que a cultura japonesa levou a grande maioria da população a aceitar o que ocorreu; em momento algum levantavam a questão ética e moral do uso de uma bomba dessa magnitude contra duas cidades. Mas precisamos, sim, pensar nessa ética, e mais do que nunca, pois estamos assistindo a outra destruição atualmente, em Gaza, com a morte de milhares de pessoas, não instantaneamente, mas dia após dia, sem falar nos traumas dos que conseguem sobreviver.

Ler Hiroshima é um alerta. Aquela primeira bomba ainda era considerada “fraca”; hoje, bombas atômicas ou de hidrogênio possuem um poder de morte e destruição infinitamente maior. 

John Hersey nasceu em Tianjin, China, em 1914 e faleceu em Key West, Flórida, EUA, em 1993. Foi um escritor e jornalista estadunidense. 



sábado, 23 de maio de 2026

A LITERATURA COMO ARQUIVO DA VIOLÊNCIA

 


UM TÚMULO PARA BÓRIS DAVIDOVITCH

DANILO KIS

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 1987

152 páginas

 

PAÍS – EX-IOGUSLÁVIA – ATUAL SÉRVIA


São contos interligados, mas o que realmente surpreende é a escrita de Danilo Kis. O autor transforma pequenas biografias oriundas de documentos em verdadeiras obras de arte da literatura. 

Para aqueles que não gostam de cenas de maus tratos a animais, o primeiro conto pode ser especialmente odioso. Ainda assim, ou pule-o ele ou enfrente-o, mas não abandone o livro, porque vale a pena continuar.

Os contos, construídos a partir dessas pequenas biografias, deixam muito claro o quanto, durante o stalinismo, ninguém estava seguro. O clima era de total desconfiança e traição, e tudo dependia do humor do “pai”, com seu sorriso sempre amigável nos retratos dispersos pelas instituições públicas, ocupando o lugar onde antes poderia haver um crucifixo ou a imagem (ícone) de uma santa ou de um santo.

Em um dia você está ali, cooperando e sendo bem visto; no seguinte, encontra-se na cadeia, sendo torturado ou enviado para um gulag. O mesmo acontece com os chamados presos políticos que, na prisão ou no gulag, têm seu destino selado pelo jogo de cartas entre os “chefes” dos criminosos.  

São, portanto, pequenas biografias romanceadas de algumas vítimas do terror stalinista, e Kis traça ainda um paralelo com a Inquisição, incluindo o capítulo “Cães e livros”. O autor cita Marco Aurélio, em Meditações: “Quem viu o presente viu tudo: o que ocorreu num passado recente e o que irá ocorrer no futuro.” Para Kis, trata-se de uma evolução cíclica dos tempos.

De fato, quando estudamos História, percebemos o quanto tudo parece sempre se repetir de alguma maneira: em outro tempo, em outro contexto, mas com o ser humano permanecendo, essencialmente, o mesmo.

Um livro duro, inquietante e profundamente atual. 

Kis Danilo nasceu em Subotica (antiga Ioguslávia), Sérvia, em 1935 e faleceu em Paris, França em 1989. 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

ENTRE MUROS VISÍVEIS E INVISÍVEIS.

 


EU VOU, TU VAIS, ELE VAI

JENNY ERPENBECK

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2024

368 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ALEMANHA (ANTIGA ALEMANHA ORIENTAL)

 

Richard é um viúvo, professor emérito de filologia, que viveu a maior parte de sua vida na Alemanha Oriental. Com a queda do Muro de Berlim, precisou se reintegrar, na medida do possível, como um cidadão da Alemanha Ocidental.

Paralelamente, acompanhamos um grupo de homens negros refugiados, provenientes de diferentes lugares, cada um carregando sua própria história de luta, perdas e dores.

Ao longo do livro, a autora entrelaça os dilemas desses deslocados e refugiados. Não se abstém de mostrar a realidade dos refugiados nos países europeus: as dificuldades cotidianas, o desprezo das autoridades e os inúmeros obstáculos criados para impedir que essas pessoas construam uma vida minimamente digna. Querem apenas trabalhar e dar sentido às próprias vidas, mas são continuamente boqueados pela burocracia e pela falta de vontade política. Nenhum deles deseja depender do Estado, mas ainda assim são tratados como um peso social. Isso sem falar no racismo, nos preconceitos e no medo que muitos europeus projetam sobre os imigrantes.

Por outro lado, Richard também experimenta formas de exclusão. Sendo oriundo da Alemanha Oriental, não tem direito ao mesmo salário dos professores do Oeste e só é convidado a participar de congressos ou palestras quando alguém desiste.

No início do livro, ele sequer percebe os homens negros na praça que cruza, homens que reivindicam, antes de tudo, visibilidade. Após assistir a uma reportagem na televisão, interessa-se por eles inicialmente como pesquisador e decide entrevista-los. Aos poucos, porém, começa a confrontar seus próprios preconceitos.

Richard passa então a “cuidar”, na medida do possível, desses homens: escuta suas histórias, oferece pequenas ajudas e se aproxima de suas realidades. Ainda assim, a impressão que fica é a de que esse movimento também constitui uma tentativa de preencher o próprio vazio após a morte da esposa e diante da ausência de filhos ou de uma família próxima. Apesar de manter uma rotina e um círculo de amizades, há nele uma falta persistente.

 Quando comparamos as dificuldades de Richard, como alguém deslocado dentro de sua própria história nacional, com a dos refugiados, a diferença é gritante. Isso não significa minimizar sua experiência, mas reconhecer que a situação dos refugiados é incomparavelmente mais grave. Ainda assim, o racismo e a exclusão atravessam ambos os casos, seja em relação aos oriundos do Leste, seja em relação aos refugiados africanos.  

Os refugiados tinham casas, famílias, rotinas e pertencimentos; de repente, em poucas horas, às vezes perdem tudo e só lhes resta fugir para não morrer.  Embora as histórias do romance sejam ficcionais, correspondem à realidade concreta de inúmeros migrantes.

Richard, um “outro” dentro de seu próprio país, falando alemão fluentemente e tendo sido separado da Alemanha Ocidental por questões políticas e bélicas, vê-se agora diante de outro “outro”: homens igualmente deslocados, porém lançados em condições muito mais precárias, também por razões política e guerras. Não se trata de escolhas individuais, mas de condições impostas por estruturas históricas e políticas que lhes roubam não apenas bens materiais, mas também o sentido de continuidade da própria vida e da vida familiar.  

O livro é, sobretudo, uma reflexão ética sobre o encontro com o diferente, a possibilidade de convivência, o respeito humano e os dilemas da solidão, do vazio e dos limites individuais diante de situações extremamente complexas.  

Ainda assim, senti falta de uma questão fundamental: o que produziu tantas guerras civis, conflitos e bombardeios nos países africanos? A Alemanha também foi um país colonizador e participou da partilha da África na Conferência de Berlim, desconsiderando territórios, reinos e grupos étnicos. Talvez situar essa história em Berlim não seja casual: há um diálogo implícito entre dois marcos históricos de divisão – o muro e a conferência.


Jenny Erpenbeck nasceu em Berlim Leste, Alemanha, em 1967. É uma escritora e diretora de ópera alemã. 



sexta-feira, 10 de abril de 2026

CORAGEM PARA CONTAR

 


UM HINO À VIDA: A VERGONHA PRECISA MUDAR DE LADO

GISÈLE PELICOT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2026

208 páginas

A primeira coisa a dizer sobre esse livro é que admiro profundamente a coragem da autora. Gisèle Pelicot sofreu abusos e estupros contínuos promovidos pelo marido, em quem confiava totalmente. Foram mais de 50 homens que a estupraram sob as vistas de Dominique Pelicot, o pai de seus três filhos.

O choque da descoberta e a tentativa de elaborar tudo isso atravessam o livro. Há também o impacto devastador nos filhos, nos amigos e na família. Gisèle convive com o horror da revelação – um horror que ela não nega, mas que ao mesmo tempo tem enorme dificuldade de enfrentar diretamente. Ela recorre às suas lembranças, aos momentos felizes que viveu. Ao narrar o presente da descoberta, também revisita suas memórias e as de seu marido: a infância e a juventude de dois jovens da classe operária francesa, vindos do meio rural.

 Ela conta como a família Pelicot era desestruturada, autoritária e violenta – exceto, aparentemente, Dominique, o filho caçula. Gisèle também perdeu a mãe muito cedo. Seu pai se casou novamente com uma mulher rude e autoritária que tinha uma filha, e que desempenhava o típico papel de madrasta dos contos de fada:  protegia a própria filha e tratava mal a enteada. Ainda assim, o pai de Gisèle aparece como um homem amoroso, que nunca esqueceu sua primeira esposa, o grande amor de sua vida.  

A reação da filha, Caroline, chama a atenção. Ela parece não conseguir compreender a mãe: sente muita raiva, se descontrola e chega a ser bastante agressiva, exigindo que Gisèle reaja, que se vingue. Os dois filhos homens também reagem com raiva e estupefação, mas conseguem oferecer mais apoio à mãe.

No primeiro momento, os filhos assumem o controle da vida de Gisèle, como se ela estivesse incapaz de decidir sobre si mesma. Ela aceita essa dinâmica, permitindo inclusive que eles extravasem a própria revolta destruindo tudo o que havia na casa e se desfazendo de móveis e objetos. Depois disso, ela vai com eles para Paris. Inicialmente mora com a filha, mas a convivência não funciona. Caroline chega a exigir que ela se desfaça de seu cachorro, que não suporta.  Gisèle acaba se mudando para a casa do filho caçula, o que aumenta ainda mais o ressentimento da filha.

Percebemos então o peso imenso que Gisèle precisa enfrentar.  Ela é a vítima – foi estuprada repetidamente -, perde tudo o que constituía sua vida e ainda descobre que os sintomas que a faziam acreditar estar desenvolvendo um câncer no cérebro, como sua mãe, eram na verdade efeitos dos medicamentos que o marido lhe administrava para dopá-la. Mesmo assim, precisa continuar sendo mãe de filhos em choque e avó de netos também afetados por tudo isso.

Sua força vem das lembranças felizes, da constatação de que sua vida não foi apenas um fracasso ou horror. Ao contrário de muitas pessoas que encontram energia na raiva, no ódio ou na vingança, Gisèle parece encontrar a sua força no amor. É surpreendente, mas é uma maneira de lidar com o trauma.

Isso não significa negação. Ela o denuncia, exige o divórcio, responde a todas as perguntas e enfrenta tudo o que é necessário para o processo contra ele.

O que mais impressiona é a tentativa constante de compreender a cisão entre o homem que ela acreditava conhecer – pai, marido, companheiro – e o monstro que ele se revelou. Essa dificuldade de enxergar os sinais não é apenas individual: ela revela também os efeitos profundos de uma cultura patriarcal que ensina muitas mulheres a confiar, a tolerar, a justificar e, muitas vezes, a duvidar de si mesmas.  

O livro também mostra que uma violência dessa magnitude não atinge apenas a vítima direta. Ela se espalha como uma onda pela família inteira, afetando filhos, netos e relações que jamais voltarão a ser as mesmas.


Gisèle Pelicot nasceu em Villingen-Schwenningen, Alemanha, em 1952. É francesa e foi vítima do caso de estupro coletivo de Mazan. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

UMA HISTÓRIA PLURAL DO FEMINISMO


 

FEMINISMOS: UMA HISTÓRIA GLOBAL

LUCY DELAP

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2022

336 páginas

Em Feminismos: uma história global, Lucy Delap propõe um deslocamento importante na forma de narrar a história do feminismo. Em vez de uma cronologia linear centrada na experiência europeia e norte-americana, o livro constrói uma história plural, atravessada por contextos culturais, políticos e sociais diversos, revelando o feminismo como um campo múltiplo, conflitivo e profundamente situado.

A obra percorre um amplo arco temporal, do século XVIII aos dias atuais, mas evita a narrativa clássica das “ondas” como eixo organizador exclusivo. Delap prefere estruturar o livro a partir de temas — direito ao voto, trabalho, reprodução, sexualidade, raça, classe, colonialismo, violência, ativismo — mostrando como essas questões emergem, reaparecem e se transformam em diferentes lugares do mundo. Com isso, o feminismo deixa de ser apresentado como um movimento homogêneo e passa a ser compreendido como uma constelação de lutas.

Um dos grandes méritos do livro está justamente em ampliar o mapa do feminismo. Delap nos conduz por experiências pouco conhecidas na América Latina, na África, no Oriente Médio e na Ásia, revelando como mulheres enfrentaram opressões específicas, muitas vezes em diálogo tenso com o feminismo europeu, outras vezes em confronto direto com ele. A noção de um feminismo universal é colocada em xeque, dando lugar a práticas feministas enraizadas em realidades locais.

O livro também não silencia os conflitos internos do movimento. As tensões entre feminismo branco e feminismos negros, entre classe média e mulheres trabalhadoras, entre agendas liberais e projetos radicalmente transformadores aparecem de forma clara. Delap mostra que o feminismo nunca foi um espaço consensual, mas um campo de disputas políticas e simbólicas, no qual exclusões e hierarquias também foram produzidas.

Outro aspecto relevante é a articulação entre feminismo e política institucional. O livro acompanha como as lutas feministas dialogaram com Estados, partidos, organismos internacionais e legislações, ora conquistando avanços significativos, ora sendo cooptadas, esvaziadas ou instrumentalizadas. O feminismo aparece, assim, como força transformadora, mas também vulnerável às dinâmicas do poder.

Sem idealizações, Delap reconhece os limites e contradições do feminismo ao longo da história. Ao mesmo tempo, evidencia sua capacidade de reinvenção contínua. Cada geração retoma questões antigas sob novas formas, confrontando desafios que se renovam: neoliberalismo, conservadorismos, fundamentalismos religiosos, crises democráticas.

Feminismos: uma história global é um livro fundamental para quem deseja compreender o feminismo para além de slogans ou narrativas simplificadoras. Ao revelar sua diversidade, seus conflitos e sua historicidade, a obra convida a pensar o feminismo não como identidade fixa, mas como prática política em permanente construção: sempre situada, sempre inacabada.


Lucy Delap é uma historiadora britânica especializada em Grã-Bretanha moderna, história de gênero e feminismo. 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O NASCIMENTO DO #METOO COMO MOVIMENTO GLOBAL

 


ELA DISSE: Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo

JODI KANTOR – MEGAN TWOHEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2019

376 páginas 

O livro evidencia como esse silêncio era sustentado por um machismo estrutural profundamente enraizado. As mulheres abusadas tinham medo de falar porque sabiam que, ao denunciarem, seriam desacreditadas. A sociedade tende a questionar as vítimas: afirma que mentiram, que consentiram, que “permitiram”, ou que não deveriam estar naquele lugar, frequentemente uma suíte de hotel, cenário recorrente dos abusos, já que Weinstein costumava convocar as mulheres para supostas reuniões de trabalho nesses espaços.

As duas jornalistas precisaram construir um vínculo de confiança extremamente delicado com as mulheres envolvidas. Inicialmente, muitas aceitaram falar apenas sob sigilo absoluto. Aos poucos, porém, uma, depois outra, decidiu autorizar a publicação de seus relatos. Foi esse gesto de coragem que deu o impulso decisivo ao movimento #MeToo.

A partir da publicação da reportagem, mais mulheres começaram a se manifestar. Amparadas umas nas outras, romperam o silêncio e denunciaram abusos que haviam sido naturalizados, ocultados ou negados por décadas. O livro mostra com clareza não apenas a importância do jornalismo investigativo, mas também como a escuta, o cuidado e a persistência podem criar condições para que a verdade venha à tona.

Na verdade, o #MeToo foi iniciado por Tarana Burke em 2006, mas tornou-se um símbolo a partir das denúncias contra Harvey Weinstein, em 2017.


Jodi Kantor nasceu em Nova Iorque em 1975. É uma jornalista estadunidense.

Megan Twohey nasceu em Washington D.C. É uma jornalista estadunidense. 


 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

IFEMELU: IDENTIDADE E IMIGRAÇÃO

 


AMERICANAH

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2014

520 páginas~

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um romance poderoso que explora questões de identidade, raça, imigração e pertencimento, a partir da experiência de Ifemelu, uma jovem nigeriana que se muda para os Estados Unidos em busca de educação e novas oportunidades. A obra examina de maneira sensível e crítica os desafios enfrentados por imigrantes e as nuances do racismo estrutural, das diferenças culturais e da adaptação em um país estrangeiro.

O romance também aborda a vida na Nigéria, revelando as complexidades sociais, econômicas e políticas do país, bem como as relações humanas marcadas por classe, gênero e tradição. Ao acompanhar o percurso de Ifemelu, Adichie investiga a construção da identidade, a experiência do “não-lugar” do imigrante e a importância da memória cultural para manter o vínculo com suas origens.

Além disso, o livro destaca a questão racial de forma direta, especialmente nos Estados Unidos, discutindo como a cor da pele influencia oportunidades, interações e percepção social. Americanah é, portanto, tanto uma história de amor e autodescoberta quanto uma análise crítica sobre raça, identidade e as tensões entre pertencimento e deslocamento.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, Nigéria, em 1977. É uma feminista e escritora nigeriana. 




domingo, 15 de fevereiro de 2026

IDEALISMO EM CONFRONTO COM A MÁQUINA DO PODER

 

A EDUCAÇÃO DE UMA IDEALISTA: MEMÓRIAS

SAMANTHA POWER

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2021

632 páginas

As memórias de Samantha Power inspiram, não por ingenuidade, mas justamente porque revelam o idealismo colocado à prova. Sim, ela se assume idealista. Mas é uma idealista que age, que entra em territórios devastados, ocupa espaços institucionais e aceita o risco do fracasso. Erra, recua, perde batalhas e, ainda assim, não desiste.

Nascida na Irlanda, Samantha Power migra ainda jovem para os Estados Unidos com a mãe, o padrasto Eddie e o irmão. Essa experiência inicial de deslocamento já marca sua percepção do mundo: pertencimento nunca é algo garantido, é sempre construído. Mais tarde, como jornalista, viaja para a Bósnia para cobrir a guerra. Ali, diante da violência extrema, da limpeza étnica e da indiferença internacional, vive experiências que irão moldar definitivamente sua visão política e ética. A guerra deixa de ser abstração e passa a ter rostos, nomes, corpos.

De volta aos Estados Unidos, decide estudar Direito. Não como abandono do jornalismo, mas como continuidade: compreender os mecanismos formais que organizam, ou paralisam, a ação internacional. Sua trajetória a leva à política institucional, participando da campanha de Barack Obama, e posteriormente ao governo norte-americano. Nomeada por Obama como embaixadora dos EUA na Organização das Nações Unidas, passa a ocupar um dos espaços mais complexos e contraditórios da política global.

O livro não idealiza esse percurso. Pelo contrário: mostra com clareza o embate permanente entre princípios morais e interesses geopolíticos. Power narra suas tentativas de intervir ou pressionar diante de conflitos no Iraque, Sudão e Síria, sempre consciente dos limites impostos pela soberania, pelos vetos, pelos jogos de poder. Ao mesmo tempo, destaca seu compromisso contínuo com a defesa das populações civis, em especial das mulheres, quase sempre as primeiras vítimas das guerras e as últimas a serem ouvidas.

A Educação de uma Idealista não é apenas a história de uma carreira bem-sucedida. É o relato de uma formação ética em permanente tensão: como agir sem trair valores? Como aceitar compromissos sem naturalizar a violência? Como permanecer sensível ao sofrimento do outro quando se está cercada por protocolos, discursos e estratégias?

Ao final, fica claro que o idealismo de Samantha Power não é um ponto de partida confortável, mas um processo doloroso de aprendizado. Um idealismo que não se satisfaz com boas intenções, mas insiste em permanecer ativo mesmo quando o mundo oferece poucas respostas. Um livro que convida a pensar não apenas sobre política internacional, mas sobre o preço, e a necessidade, de continuar acreditando na responsabilidade diante do outro.


Samantha Power nasceu em Londres, Reino Unido, em 1970. É uma política, diplomata, escritora, jornalista e advogada. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

INTELECTUALIDADE E MILITÂNCIA COMO PRÁTICA INSEPARÁVEL


 

CONTINUO PRETA: A VIDA DE SUELI CARNEIRO

BIANCA SANTANA

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2021

296 páginas 

Neste livro, Bianca Santana presta uma homenagem sensível e politicamente necessária a Sueli Carneiro, acompanhando sua trajetória de vida e de luta. A narrativa parte da infância e da adolescência e segue até a militância, revelando o caminho percorrido por uma mulher negra que enfrentou, desde cedo, os múltiplos obstáculos impostos pelo racismo estrutural no Brasil.

Ao longo do livro, emerge a força, a coragem e a determinação de Sueli Carneiro, não como atributos abstratos, mas como respostas concretas a um contexto marcado pela exclusão, pelo silenciamento e pela negação sistemática de direitos. Bianca Santana constrói o retrato de uma intelectual e ativista cuja formação política se dá tanto na experiência cotidiana do racismo quanto na elaboração teórica e na ação coletiva.

Mais do que uma biografia no sentido tradicional, o livro funciona como um testemunho da importância de Sueli Carneiro para o pensamento feminista negro, para a luta antirracista e para a construção de uma sociedade mais justa. É uma leitura que evidencia como a trajetória individual se entrelaça com a história social e política do país, mostrando que resistir, pensar e agir são dimensões inseparáveis de uma mesma luta.


Bianca Santana nasceu em São Paulo em 1984. É jornalista, escritora e militante feminista negra brasileira. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

UM MITO FUNDADOR E SUAS LEITURAS AO LONGO DO TEMPO

 



ASCENSÃO E QUEDA DE ADÃO E EVA

STEPHEN GREENBLATT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2018

392 páginas 

Provavelmente o mito de origem mais conhecido no Ocidente é o de Adão e Eva. Em Ascensão e Queda de Adão e Eva, Stephen Greenblatt retoma esse mito fundador e o esmiúça com atenção histórica e cultural. Trata-se de um relato que atravessa séculos e permanece ativo até os dias atuais, exercendo influência profunda sobre a moral, a arte, a religião e o pensamento ocidental.

Para a história das mulheres, esse mito é fundamental. Nele se consolida a imagem de Eva como a pecadora, a sedutora, aquela que provoca a queda e inaugura o pecado original. Uma narrativa que, reiterada ao longo do tempo, sustentou justificativas teológicas, morais e sociais para a subordinação feminina.

Greenblatt percorre as múltiplas leituras feitas do mito, examinando sua presença nas artes visuais, na literatura, na psicologia, na moral cristã e até mesmo na ciência. A análise passa por autores que se debruçaram intensamente sobre o texto bíblico, como Santo Agostinho, empenhado em provar sua historicidade; Albrecht Dürer, com suas representações visuais do casal primordial; e John Milton, em seu magistral Paraíso Perdido.

O autor inicia contextualizando o período em que o mito foi escrito e amplia o horizonte ao aproximá-lo de outras narrativas cosmogônicas, como o Enuma Elish e a Epopeia de Gilgamesh. Dessa forma, o livro revela como a história de Adão e Eva foi sendo reinterpretada ao longo do tempo e como sua influência ultrapassa em muito o campo estritamente religioso, moldando visões de mundo, concepções de gênero e estruturas de poder.


Stephen Greenblatt nasceu em Boston, EUA, em 1943. É um teórico e crítico literário. 




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O CIÚME COMO INCÊNDIO LENTO E A DÚVIDA QUE NUNCA SE APAGA


 

AS BRASAS

SÁNDOR MÁRAI

COMPANHIA DAS LETRAS – 2ª ED. – 2021

176 páginas

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS


As Brasas é um romance que não se organiza pela ação, mas pela espera. Lido há muito tempo, o que permanece não são os acontecimentos em si, mas a atmosfera: o ciúme que se instala silenciosamente, a suspeita que nunca se resolve, a dúvida que atravessa uma vida inteira. É um livro sobre aquilo que não se diz — e sobre o que nunca deixa de arder.

Dois homens, ligados por uma amizade antiga, se reencontram após décadas. Entre eles, uma mulher, um amor, uma traição possível — mas nunca plenamente esclarecida. O romance inteiro se constrói em torno dessa incerteza. Não há prova definitiva, não há confissão que encerre o conflito. O que existe é a memória revisitada, o ressentimento cultivado, a necessidade quase obsessiva de entender o passado.

O ciúme, em As Brasas, não é explosivo. Ele é lento, contido, aristocrático até. Um sentimento que não se manifesta em gestos violentos imediatos, mas em silêncio, distância, afastamento. O personagem masculino que narra ou conduz o confronto carrega esse ciúme como quem carrega uma ferida nunca cicatrizada. A dúvida se torna mais importante do que a verdade.

Márai escreve sobre o tempo — o tempo que não cura tudo, como se costuma dizer, mas que às vezes apenas aprofunda a obsessão. O reencontro não é reconciliação; é tentativa tardia de dar forma a algo que nunca foi elaborado. O passado não passa. Ele se acumula.

Há também uma crítica sutil a um mundo aristocrático em decadência, onde honra, amizade e lealdade são valores proclamados, mas atravessados por silêncios estratégicos e emoções reprimidas. A contenção emocional, longe de evitar a tragédia, a prolonga. O que não é dito não desaparece — fermenta.

As Brasas é um romance sobre a impossibilidade de encerramento. Mesmo quando tudo é dito, algo permanece em suspenso. Talvez porque certas perguntas não tenham resposta. Talvez porque o ciúme, uma vez instalado, nunca se apague completamente — ele apenas se transforma em brasa, escondida sob a cinza, pronta para reacender.

Reler As Brasas hoje é perceber que o livro não fala apenas de traição ou amizade, mas da fragilidade das relações humanas quando se baseiam mais na posse e no orgulho do que na escuta. É um romance que não grita, não acusa — mas que queima lentamente.


Sándor Márai nasceu em Kosice, Eslováquia em 1900, e faleceu em San Diego, Califórnia, EUA, em 1989. Foi um escritor e jornalista de etnia húngara, nascido na Eslováquia. 



Um Certo Capitão Rodrigo — sedução, liberdade e a força de Bibiana


 

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS - 2005

192 páginas

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Um Certo Capitão Rodrigo é um daqueles livros que a gente guarda com afeto. Há nele uma vibração diferente, mais viva, mais solar, marcada pela figura carismática de Rodrigo Cambará — conquistador, andarilho, provocador das normas — e, sobretudo, pela presença firme de Bibiana, que não se deixa apagar pelo brilho masculino.

Rodrigo entra na narrativa como quem entra numa cidade: anunciando-se, ocupando espaço, desafiando regras. Seu jeito sedutor, livre, quase teatral, faz dele uma figura magnética. Mas Érico Veríssimo não constrói um herói simples. O mesmo impulso que encanta também desestabiliza; a mesma liberdade que seduz traz insegurança e conflito. Rodrigo é movimento, enquanto a vida exige permanência.

É Bibiana, porém, quem sustenta a densidade do romance. Sua força não é estridente, mas sólida. Ela ama, escolhe, enfrenta a família, aceita o risco de se unir a um homem que não se encaixa. Bibiana não é ingênua diante do temperamento de Rodrigo; ela sabe com quem está lidando e, ainda assim, decide. Há nela uma autonomia rara para personagens femininas de romances históricos: não é prêmio, não é sombra, não é apêndice.

A relação entre Bibiana e Rodrigo se constrói nesse contraste: ele, o conquistador, o que passa; ela, a que fica, a que sustenta, a que transforma a instabilidade em vida possível. Enquanto Rodrigo se move pelo mundo, Bibiana cria raízes. E é nessa diferença que se revela sua força maior.

Lido na juventude, o romance encanta pela aventura e pelo carisma do Capitão Rodrigo. Lido mais tarde, ele revela algo mais profundo: a história de uma mulher que escolhe amar sem se dissolver no outro. Bibiana não perde a si mesma na relação; ao contrário, afirma-se dentro dela.

Talvez seja por isso que Um Certo Capitão Rodrigo permaneça tão querido. Não apenas pelo charme do personagem masculino, mas porque, por trás dele, há uma mulher que sustenta a narrativa com firmeza, coragem e presença. Sem Bibiana, Rodrigo seria apenas passagem. Com ela, a história permanece.