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quarta-feira, 6 de maio de 2015

LIVRO: SUBMISSÃO - MICHEL HOUELLEBECQ



Houellebecq, Michel. 1ª ed. Objetiva, 2015
251 páginas
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
Título Original: Soumission

É realmente um livro que nos coloca num processo reflexivo intenso. Procurei ler o livro sem me deixar levar pelos conceitos ocidentais evitando desta forma considerar a história um tanto machista, o que seria simplista demais. 

Estamos na França em 2022. François é um professor universitário, leciona na Paris III - Sorbone. Leva uma vida sem grandes acontecimentos. Solteiro, sua namorada o deixou, aliás, ele nos fala que é um ciclo repetitivo e que a cada início de ano letivo isto acontece. Não consegue manter laços afetivos, não tem contato com seus pais que são divorciados e vivem em lugares diferentes. Não consegue manter um relacionamento amoroso. Envolve-se com estudantes ou então procura por prostitutas. Nunca viaja nas férias e não tem amigos, apenas conhecidos.Às vezes pensa em suicídio. 

É época de eleições e quem vence é Mohammed Ben Abbes, da Fraternidade Muçulmana. É conciliador porém aos poucos as mudanças vão se impondo. A educação é uma das mais atingidas, entrando a educação islâmica em vigor. As mulheres não podem mais trabalhar, tem que usar o véu, e todas as professoras, mestres da Universidade tem que se retirar. Diante de uma sociedade que é considerada amoral o que se busca é a recuperação da moralidade, da família. 

François é convidado ou a se converter e ser um professor muçulmano ou a se aposentar. Ele opta pela segunda opção. Tem dinheiro suficiente para ter uma vida boa, mas não sabe o que fazer de sua vida. Considera que sua vida intelectual terminou no dia em que apresentou sua tese. Sua vida de professor acabou, a ex-"namorada" por ser judia foi embora para Israel com sua família. 

O livro é uma crítica mordaz a atual sociedade e seus valores, mas é também um imenso alerta, uma sacudida, um impacto. 

A situação de François é bem conhecida no mundo atual, a falta de sentido, o vazio, a solidão, a falta de laços afetivos, a fuga pelo sexo, comidas, bebidas. Quando recebe uma nova proposta para retornar à faculdade ele balança e terá que tomar uma decisão entre esta vida que leva ou uma nova opção.

Mas o livro é ainda mais profundo. Apesar de ter por protagonista um homem que dentro da sociedade muçulmana pode ter algumas escolhas, o livro não deixa de fazer uma crítica também à mulher quando diz que nesta sociedade islâmica a mulher pode permanecer na infância, ao se ver duas mulheres com véu olhando revistas de moda e rindo como crianças. Também a analogia entre a mulher ocidental que se levanta de manhã, se arruma toda, se veste bem e sai para o trabalho e quando chega a noite ela retorna ao lar cansada, coloca uma roupa confortável e tem vontade de se deitar no sofá, enquanto que a muçulmana passa o dia sob um véu, mas a noite se arruma toda para seu marido. Sim, realmente é uma analogia possível, mas sinceramente, um tanto machista, uma vez que visa apenas ao prazer do homem, do nosso protagonista François. Mas a verdadeira crítica estaria na futilidade do consumo, e por outro lado na competição que existe no ocidente entre homens e mulheres, mas mais ainda, entre as mulheres.

Ao final o que se percebe é realmente a submissão, e aqui não é apenas da mulher, mas do homem também. E fica a pergunta se no fundo não desejamos isto.

O que realmente se traz a tona neste livro não é o islamismo, este conhecido por sua forma de considerar a mulher e sua moral, mas o vazio de François que é o de muitos no mundo atual e que o levaria a submissão para ter uma vida melhor por falta de desejo e falta de vontade de se mover e fazer algo. É mais fácil receber tudo.

A questão maior do livro é justamente a modernidade e a vida de François. Ele não consegue criar laços afetivos, as cenas de sexo são cruas, e sem amor, visando unicamente ao prazer dele. A visão que ele tem da mulher é mais misógina ainda, que pensa numa mulher para a cama e outra para a cozinha, na poligamia, o que resolve os problemas de satisfação dele, mas em momento algum ele se preocupa com o outro. Aliás a humanidade não lhe interessa. A crítica é ao individualismo da sociedade ocidental que leva o sujeito de desejar um objeto a se transformar em objeto pela submissão, como uma única saída para todo seu desespero e vazio existencial. E realmente estamos diante do mundo atual onde as pessoas cada vez se afastam mais das outras e pensam apenas no prazer e na felicidade, no sucesso, mas não querem ter que fazer os investimentos necessários na manutenção de laços e querem encontrar tudo isto pronto, para consumo.

Manter laços afetivos é algo que deve ser trabalhado, requer investimentos afetivos e inclui riscos, e me parece que é justamente o que François não deseja fazer, ele visa apenas o prazer próprio, sua satisfação. Desenvolver uma carreira profissional também é trabalhoso, e novamente ele não se esforça para isto. E nem mesmo a relação com seus pais lhe interessa, a ponto de ambos morrerem e ele não ter ido vê-los. E no mundo atual é visível o quanto é difícil para as pessoas manterem estes laços, preferindo o virtual onde se pode usar a tecla deletar quando algo incomoda ou exige mais. François não busca uma mulher para ser sua companheira com todos os riscos e prazeres que isto proporciona, ele prefere as relações com estudantes que terminam a cada verão ou as prostitutas.

O alerta é justamente sobre a desmoralização, a falta de laços, a falta de norteamento e de desejo que transforma a pessoa em submisso ao que lhe proporcione tudo isto sem ter que se esforçar. Algo que venha preencher o vazio existencial, mas sem esforço, e dentro da ilusão do que se considera a felicidade ou prazer. E volto a minha pergunta inicial: até que ponto desejamos isto? até que ponto a sociedade se infantilizou desejando a volta ao paraíso onde podemos receber tudo sem ter que fazer nada para isto, exceto obedecer aos pais, a Deus, ao Islã como no livro.


Michel Houellebecq nasceu em 1956 em Reunião, França 

domingo, 5 de janeiro de 2014

LIVRO: A ELEGÂNCIA DO OURIÇO - MURIEL BARBERY



BARBERY, Muriel. Companhia das Letras, 2008
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
352 páginas
Título original: L'élégance du hérisson 

Descobri o livro numa livraria no aeroporto enquanto aguardava meu voo, obviamente não resisti e o comprei de imediato e não me arrependi, o livro é maravilhoso.
Um prédio em Paris, número 7 da Rue de Grenelle, apartamentos de luxo onde vivem além dos proprietários a zeladora Renée, uma mulher séria, que nos parece de mal com a vida, cumpre com seus deveres e sabe seu lugar em relação aos moradores do prédio. Mas atenção, as aparências podem enganar, enquanto os moradores que são considerados distintos e cultos mas vivem na mediocridade do esnobismo, de serem algo devido sua classe social, Renée, que nos parece uma pessoa simples e ignorante pode revelar que é muito mais que isto. 
Ela vive no térreo, com seu gato, Leon, e isto já poderia ser uma pista, seria Leon Tolstoi? O que ela esconde que não conseguimos perceber? Ela é uma amante dos livros, tem uma biblioteca oculta em seu apartamento. Encontra nos livros o que a vida não lhe oferece, puro deleite e amor às artes. 
Mas neste prédio temos também Paloma, uma adolescente que vive com sua família, um pai ausente, um figurão, a mãe uma dondoca formada em Letras e a irmã que se considera uma filosofa. Ela decide que a vida não vale a pena ser vivida e que irá se suicidar no dia do seu aniversário de treze anos, a menos que descubra um sentido para a vida. Pelo menos ela tenta, escreve dois diários que denomina: Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo. Encantei-me tanto com estes diários que acabei criando os meus. 
Tanto Renée como Paloma vivem camufladas, não mostram o que são e desejam, enquanto os outros vivem com suas máscaras. Mas ambas acabam se aproximando e se descobrindo, passam a trocar reflexões, pensamentos, conversam, aqui sim, duas filosofas que duvidam e se encantam. 
Eis então que surge um novo morador, o Sr Kakuro Ozu, que é o oposto de todos ali, um oriental bem humorado, que parece ter a sabedoria da vida. Ele logo percebe que Renée e Paloma se escondem por baixo de uma capa de proteção e se aproxima, principalmente de Renée. Ele lentamente saberá como trazê-las à vida e mostrar que ela realmente vale a pena ser vivida, mesmo que nisto tenha a dor, sofrimento e muitos espinhos. Ele saberá como se aproximar dos ouriços o suficiente para lhes transmitir calor, me lembrando dos porcos espinhos de Schopenhauer

Recomendo. 

Muriel Barbery nasceu em 1969 em Casablanca, Marrocos é formada em Filosofia. Ex aluna da École Normale Supérieure, atualmente vive no Japão

domingo, 16 de setembro de 2012

LIVRO: JOSÉ E PILAR - Conversas Inéditas - MIGUEL GONÇALVES MENDES



Mendes, Miguel Gonçalves. Companhia das Letras, 2012
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
224 páginas.

Terminei a leitura do livro "José e Pilar Conversas Inéditas" e o recomendo. O livro traz conversas entre o autor e José Saramago e Pilar del Rio sobre política, amor, religião e Deus, morte. Cada um deles expõe seus pensamentos e a maneira como lida com estes assuntos. Pilar é uma mulher extraordinária, forte, decidida e muito racional, o que muitas vezes me levou a não concordar totalmente com ela, mas é de uma generosidade imensa. Saramago também é objetivo, olha a vida como ela é e ambos não tem medo de falar e expor seus pensamentos, sejam eles apreciados ou não pelos outros. Além disto há o amor entre este homem e esta mulher, que é belíssimo. Ambos são engajados nas grandes questões do mundo, o que hoje em dia nos falta e muito.

Um trecho sobre o que diz Pilar: " Os países privilegiados são países privilegiados e as pessoas que vivem nos países privilegiados não sabem o que têm e se suicidam de puro privilégio, não é? E não tenho pena dos suicidas do privilégio, porque toda a minha compaixão está esgotada com pessoas que neste momento estão cruzando o oceano tentando cavar a vida com um bebê nos braços, mortas de frio, está certo? Minha compaixão está com os que estão trabalhando de sol a sol, por um salário miserável, também em Portugal e também na Espanha, explorados por empresários que vão à missa e batem no peito. Minha compaixão está com todos esses, não com os suicidas do Primeiro Mundo nem com os empresários maravilhosos que tem desgraças pequenas, pessoais, a mulher que lhe põe chifres e todas essas coisas."

Mendes pergunta por que estes se suicidam, os do Primeiro Mundo e a resposta é " Por que não estão gerando os únicos valores que podem reconfortar e que podem satisfazer, que são os valores da solidariedade. E então vão ver os filhos crescer, os filhos se casar, tornar-se engenheiro de telecomunicações ou de não sei o quê, e estamos metidos nas pequenas vidinhas de cada um, sem percebermos que o mundo está mais longe, e no final a vida fica pequena. E há alguns que de tão pequena, se asfixiam e se suicidam. A vida é grande. Se fossêmos todos muito mais generosos, muito mais abertos, muito mais solidários, nos daríamos conta de que temos tanto trabalho pela frente que não teríamos tempo para nos suicidar. De acordo?"

E novamente Mendes lhe pergunta sobre o vazio, de não saber o que fazer... e ela " Como não saber o que fazer? Viver! Encher a terra! Cuidar dela! Deixá-la melhor! Cultivá-la! Aprender! Diferenciar Beethoven de Bach! Há um montão de coisas para fazer. Há um montão de coisas para fazer, ser solidário, adotar crianças, ir aos hospitais, cuidar dos doentes. Temos mundos de coisas. Ler, estudar! Ajudar aos que precisam. Cuidar do meio ambiente. Fazer festas! Beber vinho..

Uma bela crítica ao individualismo, ao sistema, ao higienismo, a falta de solidariedade, do dom da dádiva. Não estamos sozinhos no mundo, e o mundo não é apenas nosso quintal ou jardim.
Sobre o amor, um amor que não se espera do outro o que não tenho, mas que dá, oferece, o que cada um tem ou não tem.
Sobre a morte: faz parte da vida, é garantida, não tem por que se preocupar com ela, e sim com o viver que não é garantido. A morte já está conquistada, diz Pilar, a vida não.

José e Pilar 

Miguel Gonçalves Mendes nasceu em 1978 em Covilhã, Portugal. É um realizador, argumentista e produtos português.