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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

FILME: VINCERE - 2009



Direção: Marco Bellocchio - 2009
Duração: 118 min
País de Origem: França - Itália

O filme relata a relação de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) com Benito Mussolini (Filippo Timi) quando este era um jovem militante socialista radical. Ida apaixona-se perdidamente por ele, absolutamente fascinada por este homem, ela se desfaz de tudo que possui para ajudá-lo a fundar o jornal Il Poppolo d'Italia, o início do Partido Fascista. Ela engravida e nasce um menino. 

Durante a 1ª Guerra Mundial, Benito se alista no exército e fica um tempo sem dar notícias. Ela irá reencontrá-lo num hospital onde também encontrará a nova esposa dele, Rachele (Michela Cescon). 

Trata-se de uma história real pouco conhecida. Ida morreu em 1937 num manicômio psiquiátrico, sozinha, devastada, após sua imensa luta para ser reconhecida como esposa  do Duce, antes do casamento com Rachele que permaneceu sua esposa oficial até o fim de sua vida, e ter seu filho reconhecido como primogênito. Ao longo do filme vemos flashes de mulheres internadas em hospícios e trechos de documentários sobre a época e a ascensão de Mussolini ao poder. 

Logo no início do filme, estamos em 1910 e Benito desafia os cristãos dizendo que irá provar a inexistência de Deus: " se Deus não me fulminar em 05 minutos será demonstrado que ele não existe." Ida está fascinada por este homem, como em breve estará o povo italiano, que será, como Ida, traído e subjugado. 

Ida após ter sido abandonada por Benito não consegue ultrapassar isto, irá destruir sua vida na tentativa de ser reconhecida. Era uma mulher independente, bonita, inteligente, com posses, dona de uma casa de moda feminina em Milão. Abre mão de sua vida por ele. As cenas de amor dos dois no começo do filme mostram seu olhar vidrado nele, e o dele distante, em outro lugar. Há uma falta de limites dela em relação à ele, lhe entrega tudo, corpo, alma, posses. Apesar de dar tudo como ela mesma diz com alegria, como se isto fosse uma felicidade para ela de poder ajudar, no fundo o que ela deseja é ser única para ele, é ser A mulher. 

Ela se fixará nisto por toda sua vida, neste lugar que deseja acima de tudo, sendo incapaz de aceitar o fato que ele a deixou e trocou por outra mulher. Abrirá mão de qualquer possibilidade de reinício de uma vida com seu filho (Filippo Timi), com isto levando a ambos para o trágico. Lembra Antígona, uma vez que também vai contra o Estado e sua lei. Sua obstinação em afirmar que era a esposa e que o filho foi reconhecido, o que nunca foi comprovado oficialmente. 

Ida não é louca, ela sabe onde está, quem é, mas se fixa na loucura deste amor, me lembrando Camille Claudel com Rodin, que também se fixa nele. Acaba sendo internada após gritar para todos ouvirem que já escreveu ao papa, ao primeiro-ministro, ao presidente do tribunal de Milão para que ele vá preso. Depois vai viver com sua irmã e seu cunhado tem a guarda de seu filho. O indício da erotomania, ela diz que só ela o compreende e que está convencida que ele também a ama. É um certeza delirante e que a impede de fazer algo diferente com sua vida. Acabara sendo subjugada pela polícia fascista, seu filho será afastado dela e entregue para outra pessoa criá-lo o que trará um grande sofrimento para ele. E ela dirá que ele está fazendo isto para testá-la, que quer ter certeza de que pode sacrificar tudo por ele, e que quando ele tiver esta certeza irá buscá-la e a apresentará à Itália como sua legítima esposa. 

Ela não pode dar uma outra vida a seu filho, uma nova família. Ele acabou internado em um manicômio e morreu aos 26 anos abandonado. 

Marco Bellocchio nasceu em 1939 em Bobbio, Itália.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

FILME: CAROL - 2015


Direção: Todd Haynes - 2015
Duração: 118 min
País de Origem: Reino Unido - Estados Unidos


Este filme é de uma delicadeza ímpar, e a parte o amor homossexual, o que mais me chamou a atenção foi o enfoque no amor feminino. Therese Belivet (Rooney Mara) trabalha numa loja de departamentos na sessão de brinquedos infantis, vive sozinha e tem um namorado. É época de natal, e Carol (Cate Blanchett), uma mulher elegante e refinada vai até a loja em busca de uma boneca para sua filha e é atendida por Therese. 

Carol é casada com Harge (Kyle Chandler) de quem está se divorciando. Há uma troca de olhares entre ela e Therese logo no início do filme, mas a aproximação das duas se dará pela solidão de ambas, pela insatisfação com suas vidas, pelas restrições que a sociedade impõe e pelo que espera da mulher, o que nem sempre está de acordo com ela deseja. 

Quando o marido de Carol a impede de passar o natal com sua filha, exigindo que ela vá junto passar com sua aristocrática família que condena o comportamento de Carol e sua amizade com Abby, madrinha da menina, ela se revolta e decide convidar Therese para fazer uma viagem com ela.

Carol está passando pelo processo de divórcio e a questão da guarda da filha, sendo que foi acusada de comportamento imoral devido sua relação com Abby. Esta viagem aproximará de vez ela com Therese, mas elas não sabem que estão sendo seguidas. 

O que toca é o singelo, a delicadeza, a busca de ser feliz, de poder viver sua vida. O que enfrentam, principalmente Carol, numa época onde o homossexualismo era condenado pela sociedade, o que talvez não difira muito de hoje no sentido do moralismo, uma vez que ainda é tabu. Sem apelos ao erótico, apesar de sua presença sutil, sem apelos ao vulgar, o filme nos traz duas mulheres apaixonadas que encontram uma na outra um sentido para suas vidas tão vazias até aquele encontro. O quanto esta relação transforma as duas. 


Todd Haynes nasceu em 1961 em Encino, Los Angeles, Califórnia, EUA. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

FILME: 45 ANOS - 2015



Direção: Andrew Haigh - 2015
Duração: 95 min
Título Original: 45 Years
País de Origem: Reino Unido

O que faríamos se ao completar 45 anos de casados nos víssemos frente a um fantasma da juventude e nos confrontando com o real de qualquer relacionamento, por mais antigo que seja, de que nunca conhecemos ao outro. Kate (Charlotte Rampling) está diante desta situação quando seu marido Geoff (Tom Courtenay) recebe uma carta informando que o corpo de sua namorada e primeiro amor foi encontrado congelado nos Alpes Suíços reavivando algo nunca morreu de fato. 

Geoff era apaixonado por Katya e ela morreu ao cair numa fissura nos Alpes num momento onde Geoff se deparava com uma crise de ciúmes em relação ao guia. A carta mexe com Geoff que passa a se comportar de uma forma diferente enquanto Kate se dá conta de apesar de saber da história há muito que não lhe foi contado. 

O filme é belíssimo. Nos mostra o cotidiano deste casal que mora no campo, que estão casados há muitos anos e tem sua rotina estabelecida. Estão prontos para comemorar com uma festa seus 45 anos de casados. Mas esta carta mexe com toda esta estrutura de vida em comum. Kate se dá conta que Katya é um morto insepulto, que durante todos estes anos esteve presente não só na mente e coração de Geoff como em sua casa através de coisas guardadas no sótão ou de um perfume que ele gosta de usar. Ao decidir enfrentar Kate acaba descobrindo muito mais do que sabia e se no início consegue ouvir Geoff falar dela chega um momento em que não pode mais. 

Geoff enfrenta seu luto, sua perda, sua dor. Kate precisa encarar que este fantasma esteve sempre ali e obviamente as dúvidas surgem: quem ele ama? ele ainda a ama? ele me amou? 

Por mais que se fale há coisas que não se explicam, ou não convencem quando uma dúvida surge. A confiança de anos, a certeza de que sabemos tudo do outro, o que é ilusório, mas acreditamos nisto, que conhecemos nosso companheiro, e de repente não é nada disto. As certezas desmoronam, e estamos diante da falta de controle que gostamos de ter, ou imaginamos ter. Afinal, quem é este com quem estou casada há 45 anos? 

Geoff está diante de uma revivência? ou realmente passou todos estes anos se enganando? ou silenciado? A impressão que passa é que cristalizou o momento, o luto não foi feito, não havia corpo para sepultar. Então isto não havia se encerrado, ficou latente. Uma contingência que afeta toda sua vida. E é preciso continuar, fazer outras escolhas. Geoff escolheu Kate, Kate escolheu Geoff. Este é o momento deles, mas o que cada um traz em si permanece, algumas vezes elaborado, outras não. 

Há uma inversão no final do filme, quando talvez Geoff finalmente encerra este momento do passado e assume sua escolha, e Kate talvez passe a viver a dúvida do que tinha como certo. A cada um sua interpretação do final. 

Andrew Haigh nasceu em 1973 em Harrogate, Reino Unido.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

FILME: A PELE DE VÊNUS - 2013



Direção: Roman Polanski - 2013
Duração: 96 min
Título Original: La Vênus a la fourrure
Roteiro: Roman Polanski e David Ives
País: França - Polônia


Baseado no romance do século XIX do austríaco Leopold Sacher-Masoch publicado em 1870 que acabou originando o termo masoquismo, baseado em seu nome.

"E o todo poderoso o golpeia e o coloca nas mãos de uma mulher."

"Amar e ser amado é como ser encantado. Entretanto, mais forte e mais lindo. E esse tormento que me consome. A cópula com essa mulher para a qual sou um brinquedo, um escravo miserável, servil, o chão onde ela pisa, minha deusa, minha ditadura, minha vênus coberta por peles."

Thomas ( Mathieu Amalric) é um dramaturgo que pretende encenar no teatro uma livre adaptação do livro de Sacher-Masoch. Ele está a procura de uma atriz e tem dificuldades em encontrá-la. Mas eis que surge Vanda ( Emmanuelle Seigner), atrasada, toda atrapalhada, quase que implorando uma chance para fazer o teste do papel de Vanda, pois o personagem tem o mesmo nome.



Se no início Vanda parece despreparada além de criticar a peça aos poucos ela adentra o personagem de forma impressionante e conduz Thomas a desempenhar o papel de Severin. De repente já não sabemos o que é encenação e o que é realidade, os papéis se invertem, há momentos que Vanda o chama de Thomas e outros de Severin, levando-o a confessar que há muito de sua vida pessoal na peça.

Quando Vanda lhe passa (à Severin) a sua "pele" (no filme um cachecol de lã), suas mãos tremem. Vanda lhe pergunta o porque e indaga se em sua infância não houve algo ao que Severin responde: " nós todos somos explicáveis e permanecemos inextricáveis. A vida nos faz ser o que somos num instante, imprevisível." É quando ele lhe conta sobre sua tia que usava uma pele. Ele foi uma criança terrível que perturbava a vida dos criados e do gato, e também não se portava bem com sua tia, até o dia que ela resolve se vingar e lhe dar uma lição. Ela entra em seu quarto junto com duas criadas munida de uma vara, ele tenta fugir, mas as criadas o seguram, é jogado sobre a pele, e elas cavalgam sobre ele enquanto de calças arriadas a tia lhe dá uma surra, o chamam de menina. A tia ainda o obriga a agradecer de joelhos e a beijar seu pé. A partir deste dia uma pele nunca mais foi uma simples pele e uma vara uma simples vara. "Em um instante ela fez de mim este que sou agora."

Até os dias atuais ela retorna em seus sonhos, e Severin diz à Vanda que ela lhe ensinou a coisa mais preciosa do mundo, que nada é mais sensual que a dor, nem nada mais excitante que a degradação. Ela se tornou meu ideal diz ele. Desde então eu procuro sua réplica e quando encontrar essa mulher me casarei com ela.

Há muito de psicanálise nisto. Quando nos apaixonamos geralmente o fazemos por nós mesmos,ou seja, vemos no outro nosso ideal. Aqui no filme talvez Séverin diz meu ideal como o ideal de mulher para ele, ou seja, alguém que o faça sofrer. Mas ao nos apaixonarmos também vemos um traço, que geralmente é de nossos amores objetais primários, ou seja, normalmente a nossa mãe. Porém em casos de abusos na infância, de algo que marca muito forte, que causa um trauma, esta marca pode mudar e permanecer se não for analisada e desvendada, para poder ser superada. Há a introjeção do agressor ou a posição de objeto deste agressor. De cruel ele passa a ser o objeto da crueldade de outro, de um sádico. Por que sua tia bem o é, uma vez que não seria necessário isto para educar o garoto.

O filme pode ser visto também sob o viés da questão do poder. No amor como na política, só um pode ter o poder, diz Severin. Vênus só pode reinar em um mundo de escravos. No início Vanda parece frágil, está à mercê do poder do diretor da peça do teatro, mas aos poucos isto muda, e na medida em que ambos vão ensaiando a peça, eles encarnam seus personagens, trocam de lugar, e ao final temos Vanda no lugar do mais forte, do que subjuga o outro.



Mas se pensarmos no que aconteceu na infância de Severin, e o diretor Thomas não nega que há muito de sua vida e de si mesmo na peça, vamos ver alguém que tem o desejo da dor como prazer, e que irá em busca de alguém que seja o sádico. Porém Vanda questiona isto, não aceita o desejo de dominar pois compreende que ele ao lhe pedir que o domine a está submetendo ao desejo dele e com isto a domina. É aqui o ponto da liberdade de Vanda que não entra neste "jogo" nem de poder, nem do sadomasoquismo.

Temos uma cena num divã onde Vanda nos parece assumir o lugar de um psicanalista. Thomas está no divã e ela lhe fala de sua noiva e da relação dos dois. Fala sobre o desejo dele.

Um filme que fala do amor, do patológico, de desejos, de poder. Do querer ser um objeto para preencher um espaço vazio que se vê no outro.



Roman Polanski nasceu em 1933 em Paris, França. Emmanuelle Seigner, protagonista deste filme é sua esposa. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FILME: NINA! - 2014



Direção: Rafael Botta - 2014
Duração: 10 min


Curta-metragem de Rafael Botta, diretor bauruense é uma mostra do que sente uma mulher intensa e apaixonada. Toda a dor e angústia de uma separação. Ela está desnuda, despiu-se de todo o imaginário amoroso e cai num real de dor e também de paralisação de vida. A cena onde ela caminha pela rua vestida apenas com um casaco e nua por baixo, nua como está naquele momento. 

Ao nos apaixonarmos nos perdemos, mas estamos no outro, onde vemos ilusoriamente o que desejamos, vemos a nós mesmos. E entre este se perder e se achar paralisamos. Sensação de completude que não suportamos. Nos sentimos dominados pelo outro, mas no fundo somos nós mesmos nos dominando, o outro não tem este poder. E vem o desejo de escapar disto, respirar. É quando nos sentimos tentados ao suicídio para que o outro morra, este outro que somos nós e que está em nós, e que não toleramos mais. Chorar! talvez seja a melhor forma para sair disto, pelo menos é um passo. O choro tira algo de nós, ele escorre, é salgado, mas é bom.

Nina (Renata Sarmento)  nestes curtos 10 minutos vive tudo isto, sozinha, a dor é somente dela. Mas quando ela resolve olhar pela janela.....

Li alguns comentários sobre o curta, e vejo que muitos interpretam esta olhada pela janela como sendo uma nova possibilidade que se mostra, talvez um novo amor, a volta por cima. Mas me pergunto: não seria recair no mesmo? e novamente viver tudo isto, porque como é difícil o amor, como é difícil viver um amor sossegadamente. E  então recomeçamos, a eterna repetição. Prefiro ver esta olhada pela janela como - não sou só eu, não estou tão sozinha assim, não sou eu quem tem um defeito, todos nós somos faltantes, e temos um vazio dentro de nós. Todos nós buscamos algo que pensamos ter perdido e que nunca tivemos, mas é justamente esta falta que nos move. Resta aprender que a paixão é ilusória, é uma tentativa de fazer com que 1+1 seja igual a UM. E não será!

Prefiro ver esta olhada pela janela como se defrontar com seu vazio e sua solidão, mas saber ao mesmo tempo que todos nós somos assim, e que ainda assim é possível conviver com o outro, amá-lo, desejá-lo, sem que com isto desapareçamos, sem que com isto fiquemos tão nus à mercê do nada que nos aflige. Podemos sim construir uma história com isto, contá-la, como neste curta.

Participação de Luiz Felipe Sobral.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

FILME: M. BUTTERFLY - 1993


Direção: David Cronenberg - 1993
Duração: 100 min
Roteiro: David Henry Hwang
País: Estados Unidos

Filme impressionante! Lembrando de início que não se trata de Madame Butterfly, a ópera sobre a história de um oficial da marinha americana Benjamin Pinkerton que se casa com uma gueixa Cio-Cio San. Ele retorna aos Estados Unidos prometendo voltar, o que não faz e se casa com uma americana. Butterfly (Cio-Cio San) então se mata. A ópera é de Giacomo Puccini e o filme esta relacionado a ela e também a fatos reais que inspirou uma peça de teatro de David Henry da qual o filme é a adaptação, sobre o relacionamento entre um diplomata francês, Bernard Boursicot, e um cantor da ópera de Pequim, Shi Pei Pu. 



René Gallimard (Jeremy Irons) é um diplomata francês em Beijing, China, nos anos 60. Ele conhece Song Liling numa apresentação na Embaixada que canta Madame Butterfly e se impressiona com ela. René é casado com Jeanne ( Barbara Sukowa), mas se apaixona por Song. Eles iniciam um relacionamento, e são separados quando começa a Revolução Cultural na China. O Embaixador Toulon (Ian Richardson) diante da depressão de René pela separação resolve que ele vai voltar para a França. 



Não entrarei em detalhes do filme, vale a pena assistir. Mas o que me impressionou é que se trata de um dos melhores filmes que assisti sobre a patologia do amor, quando completamente cegos não enxergamos mais nada.



René vê em Song uma idealização de mulher perfeita, influenciado por ela mesma e por tudo que sabe sobre a cultura oriental, onde a mulher é educada para agradar ao homem. Seu casamento não ia bem, e seu desejo é despertado diante de Song, ele se encanta e isto o torna absolutamente cego, a um ponto inimaginável que para muitos é difícil de compreender e acreditar, mas o fato é que isto é possível. Quando alguém se apaixona em geral se apaixona ou por si mesmo ou pelo o que vê na pessoa e deseja para si, mas isto normalmente está muito longe de quem é o outro. Quando a paixão se desfaz é que veremos o outro já de uma outra maneira, mas mesmo assim sempre permanece um véu, uma máscara atrás da qual está o verdadeiro outro. O filme nos mostra como funciona a paixão para o que está envolvido nela, que perde a noção do que é real para criar para si mesmo um ser desejado que é o objeto da paixão. 

A falta que René tinha e que preenchia com seu trabalho, e em sua dedicação inclusive de ser incorruptível desagradando aos seus colegas se volta para Song, ela vem preencher este lugar, e desperta em René o que ele escondia de si mesmo e não conhecia. 

Para se aprofundar mais é preciso falar do filme e do que acontece. 

David Cronenberg nasceu em 1943 em Toronto, Canadá

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: ELE TIROU SUA PELE POR MIM - 2014



Direção: Ben Aston - 2014
Duração: 11 min
Título Original: He took his skin off for me
País: Reino Unido 

Este curta-metragem é o trabalho de conclusão de curso do diretor Ben Aston para a faculdade London Film School. O trabalho durou dois anos, foi feito através de financiamento coletivo, e não há nenhum efeito digital, todo o corpo com os músculos expostos foi criado com próteses e tinta, foram exatamente 1.152 pedaços de músculos falsos. Foi baseado no conto de Mary Hummer. 

Um homem (Sebastian Armesto) decide tirar toda sua pele para atender ao desejo de sua mulher que o quer assim. Porém logo logo eles irão descobrir que isto não foi bom, as consequências alteram a vida e a relação dos dois. O sangue que fica pela casa toda, a reação dos outros, a perda dos clientes em seu trabalho, até atingir a relação amorosa de ambos.  

É um alerta sobre atender ao desejo do outro, sobre o estar apaixonado e fazer o que o outro quer para agradá-lo e de como isto não irá garantir que este outro o ame, mesmo diante de algo tão surpreendente, drástico, como tirar sua pele. o esta A-MANDO de outro que o descaracteriza por completo. 

O filme é impressionante, extremamente curto, mas não precisa mais. Já diz tudo. 

Ben Aston 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

FILME: A DIFÍCIL ARTE DE AMAR - 1986



Direção: Mike Nichols - 1986
Duração: 108 min
Título Original: Heartburn
País: Estados Unidos 

Após assistir a Villa Amalia este filme parece vim complementar com a outra faceta feminina diante uma infidelidade.

Rachel (Meryl Streep) conhece Mark (Jack Nicholson) em uma festa e logo eles estarão casados apesar de Rachel não acreditar no casamento alegando que nunca dá certo. Mas após estar casada ela logo se acomoda na situação deixando seu trabalho de escritora de matérias culinárias para ser uma perfeita dona de casa, esposa e mãe de sua filha. Tudo parece perfeito, ela engravida de um segundo filho e é então que descobre que Mark está tendo um caso. 

Ela parte com a filha para a casa de seu pai. Mas esta decisão não é definitiva para ela que espera que Mark venha atrás dela, que se arrependa, que lhe diga que a ama. Aqui temos o primeiro ponto divergente com o filme Villa Amalia onde Ann após descobrir a traição e seu marido lhe dizer que a ama não aceita mais isto pois perdeu todo o sentido para ela. 

Rachel volta com o marido, nasceu mais uma filha, porém ela não vai demorar a descobrir que ele não deixou a outra mulher, levando-a a uma nova separação. 

Rachel assumiu um lugar de mulher de Mark, dA mulher de Mark, deixando para trás o que ela era, inclusive sua certeza de que casamentos não dão certo e aceitando se casar com ele. Se transformou na esposa e depois em mãe. Passou a cuidar de uma casa, cozinhar e ser mãe. Mark chega um momento que não suporta mais esta vida, ele que sempre foi o solteirão. Não é que não ame Rachel, mas ele não consegue viver neste cotidiano de um casamento.

O filme Villa Amalia é muito mais profundo e nos fala muito mais da subjetividade de uma mulher diante da perda do amor, da infidelidade, do lugar da mulher. Aqui Rachel ainda sonha com o amor, acredita que ao sair de casa ele vera que a ama e o quanto ela faz falta e com isto irá restabelecer o pacto ilusório. Mas Rachel irá descobrir que isto é impossível. Ao voltar ela nunca mais confiará nele, e passa a se angustiar, olhando os bolsos das roupas, sentindo o cheiro a procura da prova do suposto crime. Ele também não vai abrir mão do que deseja, mesmo que queira a família. 

Há um momento no filme que Mark diz a Rachel o lugar que ela está ocupando: - Se não estamos na casa de minha mãe porque você fala comigo como se fosse minha mãe. Este não é o lugar de mulher que Ann ocupa em Villa Amalia. 

Mike Nichols nasceu em 1931 em Berlim, Alemanha e faleceu em 2014 em Manhattan, Nova Iorque, EUA

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

FILME: METEORA - 2012


Direção: Spiros Stathoulopoulos - 2012
Duração: 82 min
País: Grécia 

Metéora é um dos maiores complexos de mosteiros do Cristianismo Oriental. Foram construídos sobre rochas de arenito na Grécia Central. Os monges eremitas fugindo dos otomanos encontraram nas cavernas dos rochedos de Metéora um lugar ideal para se refugiarem. Foram construídos em torno de 20 mosteiros dos quais restam atualmente apenas seis, sendo que cinco são masculinos e um feminino. É neste local que o filme se passa.

Theodoros (Theo Alexander) vive em um destes mosteiros. É um monge do cristianismo ortodoxo. Em frente ao seu mosteiro, separados por um abismo e uma rocha onde há uma árvore vive Urania (Tamila Koulieva), uma freira. Os dois se apaixonam e se vêem frente uma escolha entre a fé e o desejo.



O filme é repleto de simbolismos. O que mais me tocou foi o labirinto que é representado através de desenhos animados lembrando a arte bizantina. O labirinto é extremamente simbólico, como um retorno ao centro para enfim alcançar a liberdade, e no filme quando o Theo animado entra nele levando um bola de lã, numa referência ao fio de Ariadne, alcança o centro ele encontra Cristo na Cruz, e então ele lhe prega as mãos na cruz provocando um mar de sangue que o leva de volta para onde está Urania. Para alguns pode simbolizar o inferno, mas o sangue também é a vida.

O desespero é considero o maior pecado, o único que não tem perdão. Mas também pode levar à liberdade e ao amor. No início do filme vemos um retábulo onde Theo e Urania estão separados por uma imagem dos dois mosteiros e Deus acima. Ao final do filme voltamos a este retábulo, mas já com mudanças.



Os mosteiros parecem estar no céu, muito acima do mundo, da vida que corre abaixo dele. E os dois se encontram neste plano inferior. Quando retornam tentam expiar o pecado, ele com orações e ela queimando sua mão, mas o desejo fala, e há uma bela cena de Urania tocando seu corpo se masturbando. Ela tenta não ver os sinais que Theo lhe envia usando espelhos para que o sol brilhe do outro lado, mas finalmente numa lembrança à Rapunzel ela irá estender seus cabelos que crescerão e irão até o outro lado.

O cenário é belíssimo, e podemos ver detalhes dos costumes do povo e também rituais dos monges. De minha parte apenas não gostei do abate de um cabrito para servir de almoço para Urania, feito por Theo. A cena é muito triste, o animal grita desesperado, também desesperado. O filme nos traz em muitos momentos a questão da natureza com a civilização, da razão com a fé, mas principalmente do desejo, e este, será da natureza ou da cultura? Será o urso que come o figo ou o homem? como vemos na animação?


Veja o trailer:


Spiros Stathoulopoulos  nasceu em 1978 na Grécia. Mudou-se com sua família para a Colômbia.

Assista imagens de Metéora na Grécia

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

FILME: PRAGA - 2006



Direção: Ole Christian Madsen - 2006 
Duração: 92 min
Título Original: Prag 

Christoffer (Mads Mikkelsen) e sua mulher Maja (Stine Stengade) viajam para Praga para buscar o corpo do pai de Christoffer para ser enterrado na Dinamarca onde eles vivem e está o túmulo da família, para que ele fique junto de sua mãe da qual se separação há muitos anos atrás e após isto nunca mais reviu o filho. 

O casamento dos dois está em ruínas, há um distanciamento enorme entre eles, e Maja tem um amante. Mas ele também não é inocente, como aliás sempre ocorre numa relação. A maior parte do filme são diálogos, ou quase monólogos, pois um não consegue mais compreender o outro, sobre esta relação. Paralelamente Christoffer vai descobrir coisas sobre seu pai que ele não sabia e terá que lidar com aspectos culturais sobre o ritual de morte. 

Christoffer parece gozar em se auto-torturar, nenhum dos dois consegue se separar e também não conseguem expressar o que desejam, o que pensam, a raiva fica contida, a dor fica contida. Ele parece transferir para sua infância de filho abandonado todo o abandono que parece sentir no momento, mas não dá um passo para modificar tudo isto, nem aceita compreender seu pai. Ela ainda ama o marido, mas não consegue mais se aproximar dele. Há um momento de explosão de raiva e dor, em uma cena em público, onde também não ocorre um resgate para os dois. 

Aos poucos todos os segredos vem a tona, e cada vez mais se vê a desestruturação do casamento, os cacos que já havia se quebram ainda mais. 

Um filme sobre o quanto duas pessoas que vivem juntas há 14 anos podem se afastar, se desconhecer, mesmo se amando e as consequências disto. 

Ole Christian Madsen nasceu em 1966 na Dinamarca 

terça-feira, 10 de junho de 2014

FILME: O MARIDO DA CABELEIREIRA - 1990


Direção: Patrice Leconte - 1990 
Duração: 82 min 
Título original: Le mari de la coiffeuse 


Ganhou o César de melhor filme


Qual o traço que nos marca e que iremos procurar sempre ao nos apaixonarmos?

Antoine (Jean Rochefort) quando criança viu uma cabeleireira com os seios a mostra, e isto o marcou, fazendo com que adorasse ir cortar os cabelos, ia mais até do que necessário. Já adulto se apaixona por Mathilde (Anna Galiena), também cabeleireira.

O objeto perdido e o traço do amor, que permanece e aparece em toda busca amorosa. O filme irá falar da descoberta da sexualidade, do erotismo, da velhice e da morte. O que faz uma mulher quando descobre o real, quando se dá conta que o traço que carrega e que faz com que o outro se apaixone nada tem a ver com ela em si mesma? mas que é algo que ficou marcado em algum momento da infância?

Vale a pena assistir.


Patrice Leconte nasceu em 1947 em Paris, França 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

FILME: MEDEIA - 1988


Direção: Lars Von Trier - 1988
Duração: 76 min 
Título original: Medea 
Roteiro: Lars von Trier - Preben Thomsen 
País: Dinamarca 

Baseado na adaptação de Medea de Carl Theodor Dreyer. 

Medea (Kirsten Olesen) , sua história é conhecida, Eurípedes foi seu autor. Uma mulher traída e a que ponto chega sua vingança, seu ódio, sua dor. Ela mata os filhos por ser a única coisa que poderia atingir Jasão (Udo Kier) , lhe tirar algo também.



Lars Von Trier nos apresenta uma Medea terrível, atormentada. Quando Medea puxa a padiola com seus filhos e atravessa um túnel com seres loucos o que Von Trier nos mostra é a loucura, seu interior, toda a dor e ódio que ela carrega junto ali, e ela sofre para puxar a padiola, como pesa, avança com todo este peso da loucura.

Ela é uma mãe carinhosa, amorosa, lambe a ferida do joelho de seu filho, mas a mulher ferida e traída sobrepõe-se à mãe. Ela mata a rival, o pai dela que havia decidido pelo casamento de Jasão e pelo seu exílio com os filhos, e mata seus filhos partindo em seguida.



Terrível, mas não inacreditável. Quantas vezes vemos isto? pai ou mãe que matam seus filhos?

Assustador, mas não estranho nem impossível.  No final do filme ele diz que há coisas que Deus pode fazer e são inacreditáveis, um tremendo soco no estômago.

Lars Von Trier 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

FILME: A HISTÓRIA DE ADÈLE H - 1975


Direção: François Truffaut  - 1975
Duração: 96 min 
Título original: L'Histoire d'Adele H. 
Roteiro: François Truffaut - Jean Gruault - Suzanne Schiffman
País: França 

Baseado no livro de Frances Vernon Guille e no diário de Adèle Hugo. 

Adèle Hugo (Isabelle Adjani) é a segunda filha do famoso escritor Victor Hugo. A mais velha, Leopoldine, morreu afogada e segundo conta Adèle seu marido ao ver que não poderia salvá-la deixou-se ir também. Uma interpretação pessoal uma vez que ele provavelmente morreu afogado também por não conseguir sair. Adèle tem pesadelos, está afundando, se afogando, ficando sem ar.

Apaixonou-se pelo namorado Tenente Pinson (Bruce Robinson) que a abandona, ele parte para o Canadá e ela vai atrás dele. O filme começa quando ela chega à Halifax.

Pinson já a esqueceu e ela não aceita isto, tem um amor obsessivo que a levará ao delírio e finalmente a loucura. Ele é um sedutor, nunca se apaixonou e deixa várias mulheres sem se afetar.

Adèle mente, inventa histórias e quer destruir Pinson. Persegue-o, vai atrás onde ele for até o momento em que já nem o reconhece de tão fixada que está no que criou em sua mente. No final será internada e viverá no asilo até sua morte, ou seja, por 40 anos.

Hugo, viver a sombra de um pai imenso, ela lhe envia suas músicas, pede notícias e sempre lhe davam desculpas. As cartas que recebia do pai sempre falavam de sua mãe, como se ela estivesse muito preocupada, está doente, você precisa voltar, mas onde está esta mãe? A mãe se separou de Hugo, sempre teve uma vida libertina, com amantes. Ele viveu exilado por muitos anos devido suas posições políticas, a irmã morreu, ela era só e se fixa neste amor que lhe parece ser tudo que deseja.

Um belo filme sobre a vida de Adèle H que se tornou conhecido pois se encontraram seus diários.



Adèle Hugo e Victor Hugo


François Truffaut nasceu em 1932 em Paris e faleceu em 1984 em Neully-sur-Seine, na França. um dos maiores cineastas do século XX. Seus temas principais foram as mulheres, a infância e a paixão.
Foi criado pelos avós maternos, já que foi rejeitado pela mãe e nunca conheceu seu pai.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FILME: ZELIG - 1983



Direção: Woody Allen, 1983
Duração: 79 min 
Roteiro: Woody Allen 
País: Estados Unidos 

Woody Allen nos apresenta um pseudo-documentário, onde aparecem inclusive personagens conhecidos como Susan Sontag, Saul Bellow entre outros para falar sobre a vida de Leonard Zelig, um homem-camaleão. É uma ficção, drama, sátira.

Um homem, Leonard Zelig, que com medo de não agradar aos outros transforma-se no outro feito um camaleão, acho até que é mais que isto, pois um camaleão se iguala ao meio ambiente para não ser encontrado, enquanto que Zelig quer ser amado pelo outro. 

Perde sua identidade, não sabe quem é, não tem opinião. Exatamente como a maioria das pessoas, que para pertencer, não ser excluído entra na roda e dança como todos. 
Depois, é o outro extremo, ele quer se afirmar e então só a opinião dele é que vale, é a verdade. Como a outra maioria das pessoas,  para se auto-afirmar, se sentir forte e poderoso. 

Num momento o povo o ama, no outro o odeia, conforme atenda ao que todos desejam, acham correto, é moral. Por ir contra a moral com o adultério, fraudes, passa a ser odiado. Com um feito que dá glória ao povo, atravessar o Atlântico em tempo recorde, volta a ser amado. 

Enquanto isto a mídia manipula, dando ênfase a coisas absurdas ou minímas. Como sempre faz. 

E o futuro é este, doutores, psiquiatras e pacientes. E ele se sente salvo pelo amor de uma mulher. É amado. 

Um retrato tragicômico do que somos! Todos nós queremos ser amados, mas também queremos ser autônomos, então viramos pequenos camaleões.


Assista ao trailer





Woody Allen nasceu em 1935 em Nova Iorque. É cineasta, roteirista, escritor, ator e músico. Foi indicado 23 vezes ao Oscar e ganhou três vezes o de melhor roteiro original e uma de melhor diretor. 


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

FILME: O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN - 2001



Direção: Jean-Pierre Jeunet - 2001
Duração: 122 min
Título Original: Le fabuleux destin d'Amélie Poulain
País: França  

Um filme singelo, maravilhoso.

A criança solitária que cresce numa cidade do interior e depois vai para Paris. A dificuldades que sente, a falta de um amor de ser amada.



Nos mostra o lado imaginário de uma criança que cresce sozinha, e me identifiquei muito, pois sou filha única. O mundo se transforma naquilo que ela imagina, as pequenas vinganças, a criatividade, a solidão.
No fim ela encontra o amor, mas será necessário um outro para que a empurre a agir, vencer sua timidez e o medo.



Amélie (Audrey Tautou) deixa seu pai e vai para Paris onde trabalha como garçonete. Um dia encontra uma caixa no banheiro de sua casa e resolver devolver ao seu dono. Pensando que era do antigo morador da casa conhece Dominique (Maurice Bénichou). Diante de sua alegria ela percebe como é bom ajudar aos outros e decide ajudar outras pessoas.

Lindo! e divertido, ri muito em várias cenas.

Assista ao trailer




Jean-Pierre Jeunet nasceu em 1953 em Roanne, França.

Trilha Sonora Alexandre Desplat 

domingo, 29 de dezembro de 2013

FILME: AMOR - 2012




Direção: Michael Haneke - 2012 
Duração: 124 min
Título original: Amour 
País- França - Áustria - Alemanha 

Venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2012 e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012. 


Um dos mais belos filmes que já vi sobre o Amor.

Apesar de ser um filme duro, um soco no estômago como disseram alguns, ele realmente mostra o que é amar, sem os disfarces da ilusão, do erotismo, dos véus. Ele retira os véus e é isto que choca.



Quando se envelhece vem a doença, a deterioração do corpo e em alguns casos da mente da pessoa que você mais ama. Os véus são retirados e você se vê diante de uma pessoa que mostra seu corpo nu, cru, sem fantasias. O que mais pode ser o amor neste momento? um pacto, uma aliança?

Quando Anne (Emmanuelle Riva) adoece Georges (Jean-Louis Trintignant)  poderia tê-la internado, como todos sugeriam, inclusive a filha, mas não, ele fica ao seu lado e cumpre com o que lhe prometeu.

Reduzida ao corpo e suas necessidades, comida, mas também evacuar, urinar, voltando a ser uma criança totalmente dependente, um bebê, mas que não tem futuro como este, a cada dia que passa é a deterioração que se acentua e não o crescimento. Ela deixa atrás de si uma vida, uma história, era pianista, dava aulas.



Ele fica no vazio rodeado das lembranças, da música, dos livros, quadros. E são estas lembranças que o mantém, que fazem que aguente. Mas o tempo passa.



Ela havia dito em um momento no início do filme: há uma imensa diferença entre a imaginação e a realidade, e o que ele vivia além da realidade era o real. Aquela mulher que ele amou, onde está ela? o corpo que ele amou, com o qual fez amor, onde está?

A filha  Eva (Isabelle Huppert) não compreende, acha que o pai está louco de fazer isto. Não percebe o gesto de amor. Talvez se incomode por sentir culpa por não cuidar ela da mãe, por não estar ali, mas ela não consegue, não consegue olhar para aquela mulher onde não vê sua mãe, a que era. Até ele, seu pai, lhe dizer isto, e ela desistir de tentar interferir.



Já não é mais o amor romântico que desejamos e que é construído, mas o real. E aí temos o amor real. Ambos sofrem muito, e não é o felizes para sempre! São aqueles que atravessam as tempestades juntos com um pacto, que sabem o que é o amor, que pode ver o outro em seus piores momentos e se sustenta ali, pelo amor, sem gritar por um outro, por ajuda que virá se colocar em seu lugar, permitindo fugir. Ele atende ao desejo dela, lhe dá o que não tem, até chegar a exaustão.



Ele a mata, como ela desejaria. A cena do tapa é por desespero e amor, e o rosto dela é de quem tem consciência ainda de sua degradação. É triste, é terrível esta cena, onde o amor se mostra pelo seu lado mais forte, real e terrível. Ele a mata por que não suportava que a vissem assim, ela gritava sem parar dor... dor... dor! Esta dor não era física. Ela teria se matado se pudesse.

A cena do pombo, quando ele captura o pombo com o cobertor para depois soltá-lo, apenas para ter algo a contar em sua carta que escreve. Foi a cena mais bela que vi até hoje sobre a solidão.

Um filme forte, mas belo, belíssimo. O belo nem sempre é o bonito que desejamos, mas faz parte da vida.

Assista ao trailer em francês com legendas em inglês






Michael Haneke nasceu em 1942 em Munique, Alemanha. Estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena. É considerado um cineasta Austríaco.