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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: A MULHER NO CORPO DE XAMÃ

 

A MULHER NO CORPO DE XAMÃ: O feminino na religião e na medicina

BARBARA TEDLOCK

ROCCO – 1ª ED. – 2008

350 páginas

Barbara Tedlock resgata o papel central das mulheres no xamanismo. Ela própria neta de uma parteira e herborista ojibwe e antropóloga, procurou responder algumas perguntas que fazia a si mesma, principalmente: “Existem mulheres xamãs?”.

Iniciada no xamanismo pelos maias K’iche’ do planalto da Guatemala, procura resgatar o papel das mulheres no xamanismo, frequentemente desconsiderado por muitos pesquisadores homens. Durante muito tempo, os estudos sobre o xamanismo foram conduzidos majoritariamente por homens, que associavam essa prática quase exclusivamente ao universo masculino.

Em 1924, em um sítio arqueológico localizado na atual República Tcheca, conhecido como Doní Vestonice, foi encontrado um túmulo que continha o corpo de uma mulher de aproximadamente 40 anos, deitada em posição fetal sobre o lado direito. O corpo fora pintado de vermelho (ocre) e coberto por duas escápulas de mamute. Havia a presença de uma lança de sílex junto à cabeça e o corpo de uma raposa em uma das mãos. Com esses elementos identificou-se indícios claros que se tratava de uma xamã.

Segundo Tedlock, “o registro escrito mais antigo de uma mulher xamã real na América é de Ix Balam K’ab’al Xook, ou lady do Jaguar Shark Lineage. Essa mulher da nobreza maia viveu na antiga cidade de Yaxchilán, onde hoje é Chiapas, no México.”

A autora também demonstra como homens pesquisadores desconsideraram as mulheres como xamãs. Eram vistas como curandeiras ou parteiras, mas jamais como xamãs, o que ela demonstra ser um erro. A maioria dos xamãs foram e são mulheres.

Por fim, a autora propõe uma reflexão sobre a necessidade de a humanidade melhorar sua relação consigo mesma e com o planeta. O Xamanismo não é apenas uma forma de cura, mas um saber que entrelaça história, medicina, espiritualidade e psicologia, convidando o leitor a repensar o papel das mulheres nessas tradições e a própria relação entre ser humano e natureza.


Barbara Tedlock nasceu em Battle Creek, Michigan, EUA, em 1942 e faleceu em Rio Rancho, Novo México, EUA, em 2003. Foi uma antropóloga cultural e onirologista (estudo dos sonhos) estadunidense. 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

PENSAR DE LONGE PARA COMPREENDER DE PERTO


 

DE PERTO E DE LONGE

CLAUDE LÉVI-STRAUSS E DIDIER ERIBON

COSAC & NAIFY – 1ª ED. 2005

272 páginas

Em De Perto e de Longe, Didier Eribon entrevista Claude Lévi-Strauss. O livro é particularmente instigante para quem deseja conhecer não apenas a obra, mas o percurso de vida e de pensamento desse que foi um dos grandes mestres da antropologia do século XX. Não se trata de uma entrevista protocolar, mas de uma travessia biográfica e intelectual, marcada por deslocamentos, hesitações e escolhas que ajudam a compreender a formação de um pensamento singular.

O relato de Lévi-Strauss é fascinante justamente porque não constrói uma narrativa heroica de si. Ao contrário, ele revisita sua trajetória com distanciamento, quase com pudor. Seu percurso entre filosofia, antropologia, exílio, trabalho de campo e reflexão estrutural — aparece como algo que se fez aos poucos, muitas vezes contra expectativas iniciais. Para quem, como eu, estuda filosofia, mas sente que o desejo maior aponta para a antropologia, esse livro funciona também como espelho e estímulo.

Um dos momentos mais interessantes da entrevista é quando Lévi-Strauss retoma sua aproximação entre antropologia e psicanálise. Foi ele quem comparou o xamã ao analista, ressaltando tanto as semelhanças quanto as diferenças entre esses dois modos de escuta e intervenção simbólica. No entanto, é também o mesmo Lévi-Strauss que, em A Oleira Ciumenta, formula uma crítica rigorosa à psicanálise. Essa ambivalência não é contradição, mas método: aproxima-se para compreender, afasta-se para pensar.

Talvez um dos aspectos mais intrigantes do livro seja a recorrente afirmação de Lévi-Strauss de que não se lembra de nada, de que esquece tudo. Essa confissão, vinda de alguém cuja obra é atravessada por mitos, estruturas e sistemas de memória coletiva, produz um efeito quase paradoxal. Mas é justamente aí que o livro se abre para uma reflexão mais profunda: talvez lembrar exija esquecer. Talvez o pensamento só se organize quando o excesso de memória cede lugar à estrutura.

Nesse sentido, De Perto e de Longe não é apenas um livro sobre Lévi-Strauss, mas sobre o próprio ato de pensar. Um pensamento que não se ancora na autobiografia como confissão, mas no distanciamento; que não acumula lembranças, mas as reorganiza; que só pode ver de perto porque aprendeu, antes, a olhar de longe.


Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1908 e faleceu em Paris, França, em 2009. Foi um antropólogo.

Didier Eribon nasceu em Reims, França, em 1953. É um escritor e filósofo francês. 


 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

SOCIEDADES DE PARCERIA E SOCIEDADES DE DOMINAÇÃO

 

O CÁLICE E A ESPADA

RIANE EISLER

PALAS ATHENA – 1ª ED. 2007

362 páginas

O Cálice e a Espada, de Riane Eisler, apresenta uma reflexão profunda sobre a história da humanidade a partir de duas lentes simbólicas: o modelo do “cálice”, representando sociedades baseadas na parceria, cooperação e respeito, e o modelo da “espada”, associado à dominação, guerra e hierarquia opressiva. Eisler analisa como a humanidade transitou entre essas formas de organização social, propondo que muitas culturas antigas, especialmente pré-patriarcais, valorizavam a complementaridade, a igualdade de gênero e a vida comunitária.

O livro explora as raízes históricas do patriarcado, demonstrando como a dominação e a violência foram naturalizadas ao longo do tempo, transformando relações sociais, econômicas e de gênero. Eisler argumenta que os valores da “cultura do cálice” – empatia, cooperação e cuidado – foram suprimidos, mas permanecem como um modelo alternativo para a construção de sociedades mais justas e igualitárias.

Combinando pesquisa histórica, antropologia e teoria social, O Cálice e a Espada nos convida a refletir sobre como a violência estrutural, a desigualdade de gênero e a dominação moldaram a civilização moderna, ao mesmo tempo em que oferece um caminho de inspiração para reimaginar a convivência humana baseada na parceria e no respeito mútuo.


Riane Eisler nasceu em Viena, Áustria, em 1937. É uma acadêmica, escritora e ativista social. 


VIOLÊNCIA, TERRA E RESISTÊNCIA NO BRASIL PROFUNDO


 A DÁDIVA MAIOR

A vida e a morte corajosa da Irmã Dorothy Stang

BINKA LE BRETON

GLOBO – 2008

248 páginas 

A Amazônia — esta floresta tropical de dimensão continental que abrange Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso e Amapá, estendendo-se ainda pelo Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela e Guianas — aparece neste livro não como paisagem exótica, mas como território em disputa. Um espaço violentado por grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais, protegido por pistoleiros, enquanto, do outro lado, resistem posseiros, assentados, ribeirinhos e povos indígenas. Muitos acabam mortos, expulsos ou escravizados pela exploração do trabalho. É essa realidade brutal que atravessa a narrativa sobre a vida e o assassinato de Dorothy Stang.

Binka Le Breton reconstrói a trajetória dessa mulher extraordinária com precisão e sensibilidade. Dorothy surge como alguém profundamente indignada diante da crueldade e da devastação, mas também como uma figura prática, obstinada, que acreditava que educação é uma forma de libertação. Ensinar a ler, escrever, compreender direitos,  isso, mais do que discursos, ameaçava os poderosos. Não por acaso, escolas de taipa e telhado de palha erguidas pelas comunidades eram incendiadas, repetidas vezes, como aviso.

O livro também evidencia as sucessivas ondas de migração estimuladas pelo governo militar em nome do “desenvolvimento” da Amazônia. Famílias inteiras eram atraídas para a região com promessas vagas e, uma vez lá, ficavam abandonadas: sem terra regularizada, sem infraestrutura, sem proteção. Dorothy abraça a causa dessas pessoas e passa a lutar junto à justiça e ao Incra para que pudessem ao menos garantir um pequeno pedaço de terra para morar, plantar e sobreviver.

Essa luta, no entanto, confrontava diretamente os interesses dos grandes fazendeiros. Eles não queriam convivência, nem reforma agrária, nem justiça social, queriam a terra. Terras públicas apropriadas ilegalmente, transformadas em propriedade privada por meio de violência e de conchavos políticos. Desmata-se tudo, planta-se uma ou duas vezes até o solo virar areia, e depois transforma-se o território em pasto para bois, sob o discurso da “produtividade”.

Contra essa lógica predatória, Dorothy propunha um modelo de agrofloresta: plantar mantendo a floresta viva. Um projeto simples, sustentável e profundamente subversivo, porque colocava em xeque o modelo econômico dominante. Ela incomodava porque orientava, esclarecia, organizava. Porque caminhava ao lado dos mais pobres e não aceitava o silêncio como forma de sobrevivência.

Seu assassinato, brutal e anunciado, é apresentado no livro não como um fim, mas como um ponto de inflexão. Dorothy Stang foi morta porque ousou permanecer. O Brasil retratado aqui, e que infelizmente ainda persiste, é o país que mais mata ambientalistas no mundo. Os executores foram presos; os mandantes, embora identificados, jamais punidos.

O que eles não previram é que sua morte se tornaria semente. Em vez de silenciar a luta, fortaleceu-a. A Dádiva Maior é, assim, mais do que uma biografia: é um testemunho incômodo sobre o Brasil profundo, sobre a violência estrutural no campo e sobre o preço pago por aqueles — e sobretudo aquelas — que ousam defender a vida onde só se reconhece lucro.


Binka Le Breton nasceu em Wiltshire, Reino Unido. É uma escritora britânica. 


sábado, 14 de fevereiro de 2026

MULHERES, TECNOLOGIA E O APAGAMENTO DA PRÉ-HISTÓRIA

 


SEXO INVISÍVEL: o verdadeiro papel da mulher na pré-história

OLGA SOFFERJ.M. ADOVASIOJAKE PAGE

RECORD – 1ª ED. - 2009

312 páginas 

Cheguei a este livro depois de já ter lido obras mais recentes sobre as mulheres no Paleolítico e no Neolítico, como O homem pré-histórico também é mulher e Lady Sapiens. Ainda assim, quando Sexo Invisível foi citado em um curso online sobre a história das mulheres, meu interesse foi imediato. Li e a leitura se mostrou relevante, apesar do tempo decorrido desde sua publicação.

É evidente que, por se tratar de um livro mais antigo, muitas descobertas arqueológicas e revisões teóricas ocorreram depois. Ainda assim, para quem se interessa pela reconstrução crítica da pré-história, a obra permanece valiosa, sobretudo por seu gesto fundador: questionar frontalmente a narrativa androcêntrica que dominou a arqueologia e a história por décadas.

Escrito por três pesquisadores, o livro trouxe para mim uma contribuição específica e decisiva: a ênfase nas pesquisas sobre fibras. O avanço tecnológico permitiu estudar vestígios de cestos, cordas e tecidos — materiais tradicionalmente desconsiderados por se deteriorarem mais rapidamente. Em determinados contextos arqueológicos, no entanto, esses objetos se preservaram parcialmente, revelando um universo técnico sofisticado, invisibilizado pela centralidade atribuída às armas e à caça.

Essa discussão imediatamente remete ao texto de A ficção como cesta: uma teoria, de Ursula Le Guin, no qual ela defende que o cesto — e não a lança — foi a grande invenção do período. Sem recipientes, não haveria como carregar, armazenar ou partilhar alimentos. Hoje, sabe-se que a base da alimentação humana na pré-história era composta majoritariamente por vegetais e pequenos animais, e não pelos grandes mamutes caçados esporadicamente, como insistiu o imaginário heroico masculino.

Foram as mulheres, segundo os autores, que desenvolveram o cesto, as cordas, os tecidos e, mais tarde, a agricultura. Tecnologias essenciais à sobrevivência, à sedentarização e à própria emergência daquilo que chamamos civilização. Ao recuperar essas práticas, Sexo Invisível devolve às mulheres um lugar central na história humana — um lugar que lhes foi sistematicamente negado.

O livro também evidencia como historiadores e arqueólogos do século XIX projetaram seus próprios valores sobre o passado, valorizando apenas aquilo que se alinhava a uma visão masculina de poder, força e conquista. O resultado foi uma narrativa profundamente distorcida, que reduziu o papel das mulheres a algo marginal ou inexistente.

Sexo Invisível não é apenas uma obra sobre a pré-história: é um exercício de crítica epistemológica. Ele nos obriga a perguntar não apenas quem fez a história, mas quem foi autorizado a ser visto como agente histórico. E essa pergunta segue sendo atual.


Olga Soffer nasceu em 1942. É antropóloga

James M. Adovasio nasceu em Youngstown, EUA, em 1944. É arqueólogo e especialista em artefatos perecíveis.

Jake Page nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1936. É um escritor. 


 




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DIREITOS, PODER E PRESENÇA FEMININA NO EGITO DOS FARAÓS


 

A MULHER NO TEMPO DOS FARAÓS

CHRISTIANE DESROCHES NOBLECOURT

PAPIRUS - 2007

422 páginas 


Li outros livros sobre as mulheres egípcias e também sobre a história do Egito depois deste, mas sempre retorno a A Mulher no Tempo dos Faraós por considerá-lo o mais completo que encontrei sobre o tema.

Para quem se interessa pela história das mulheres no Antigo Egito, este é um livro fundamental. A arqueóloga Christiane Desroches Noblecourt foi especialista em Egito, dirigiu durante anos o setor egípcio do Museu do Louvre e participou de diversas escavações no país, o que confere ao livro um rigor e uma riqueza de detalhes notáveis.

A obra reúne informações sobre a mitologia egípcia com foco nas figuras femininas, aborda as esposas reais e as rainhas, as concubinas, as mulheres faraós e a complexa relação entre o faraó e a esposa real. Mas vai além: apresenta também dados preciosos sobre a vida cotidiana das mulheres, as leis e os direitos, o casamento, a educação, além de temas como a condição das viúvas e das prostitutas.


Christiane Desroches Noblecourt nasceu em Paris em 1913 e faleceu na mesma cidade em 2011. Foi uma egiptóloga. 


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DESEJO, INCONFORMISMO E O CASTIGO DA TRANSGRESSÃO

 


MADAME BOVARY

GUSTAVE FLAUBERT

NOVA ALEXANDRIA – 3ª ED. - 2007

432 páginas 

Madame Bovary é um romance que provoca leituras contraditórias — e talvez por isso continue tão atual. O que mais me chamou a atenção foi a figura de uma mulher que não se conforma com a vida que lhe foi destinada. Emma Bovary recusa a mediocridade do casamento, a monotonia do cotidiano, o horizonte estreito da pequena cidade. Ela quer mais — e quer intensamente.

Emma não é uma mulher acomodada. Ao contrário: ela age, deseja, se arrisca. Busca no amor, no consumo, na fantasia romântica e nas relações extraconjugais uma saída para uma existência que lhe parece sufocante. Sua insatisfação não é passiva; ela tenta, erra, insiste. Nesse sentido, Emma é profundamente moderna: uma mulher que se recusa a aceitar o destino como algo natural.

Mas Flaubert não permite que essa recusa permaneça sem punição. O romance inteiro parece caminhar para o castigo da personagem — um castigo moral, social e físico. Emma paga caro por desejar demais, por sair do lugar, por não aceitar o papel que lhe foi reservado. A narrativa, fria e precisa, observa sua queda quase como um experimento: o que acontece quando uma mulher quer mais do que lhe é permitido?

Essa ambiguidade é central. Emma é ao mesmo tempo vítima e agente. Ela sofre sob as restrições impostas às mulheres de seu tempo, mas também se ilude, se engana, consome sem medida, projeta na fantasia literária uma saída que a realidade não oferece. Flaubert parece oscilar entre a crítica à sociedade provinciana e a necessidade de punir sua personagem por transgredir suas normas.

Talvez seja justamente aí que Madame Bovary se torne tão potente. O romance não oferece conforto. Ele expõe o impasse feminino do século XIX: entre a submissão silenciosa e a transgressão castigada. Emma escolhe transgredir, e por isso paga com a própria vida.

Reler Madame Bovary hoje é perceber que a pergunta que o livro deixa em aberto permanece atual: Até que ponto o desejo feminino pode existir sem ser patologizado, ridicularizado ou punido? Emma incomoda porque ela não se arrepende de desejar. E talvez esse seja seu maior crime.

Gustave Flaubert nasceu em Rouen, França, em 1821 e faleceu na mesma cidade em 1880. Foi um escritor francês. 




INFÂNCIA, POBREZA E ESCÂNDALO MORAL


 

CAPITÃES DA AREIA

JORGE AMADO

COMPANHIA DE BOLSO – 2009

280 páginas

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Ler Capitães da Areia muito jovem é uma experiência que não se esquece. Talvez porque Jorge Amado não escreva sobre a infância a partir da nostalgia, mas a partir da rua, da fome, da violência e da liberdade brutal que marca a vida dos meninos e meninas abandonados de Salvador. O livro revela um Brasil que prefere não ver: crianças vivendo à margem, organizadas em bandos, sobrevivendo entre pequenos furtos, afetos precários e uma relação dura com a cidade.

O que mais me marcou à época foi justamente essa revelação da pobreza infantil não como exceção, mas como estrutura. Jorge Amado não romantiza completamente esses meninos, embora haja ternura, ele os insere em um sistema social que os produz e depois os condena. A violência não surge do nada, ela é resposta, defesa, aprendizado precoce.

Há também um segundo impacto, inseparável da idade em que li o livro: a presença de uma cena de sexo envolvendo personagens muito jovens. Algo que causa polêmica até hoje e talvez por isso mesmo continue sendo um ponto sensível da obra. Na época, o choque não vinha apenas do conteúdo, mas do fato de que o livro desmontava a imagem idealizada da infância como espaço de pureza e proteção. Em Capitães da Areia, a infância é atravessada pelo desejo, pela exploração, pela falta de escolha.

Essa cena, tantas vezes isolada em debates morais, só faz sentido dentro do universo que o livro constrói: um mundo onde não há mediação adulta cuidadora, onde o corpo também é um território exposto. A polêmica persiste porque o livro obriga o leitor a encarar uma pergunta incômoda: o que a sociedade faz com suas crianças antes de julgá-las?

Reler Capitães da Areia hoje, mesmo à distância da leitura original, é perceber que o romance não envelheceu. A pobreza infantil, a criminalização da juventude pobre, o desconforto diante de corpos jovens fora do controle moral continua presente. O escândalo, talvez, nunca tenha sido o livro — mas a realidade que ele insiste em mostrar.


Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, em 1912 e faleceu em Salvador em 2001.Foi um escritor brasileiro. 


Um Certo Capitão Rodrigo — sedução, liberdade e a força de Bibiana


 

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS - 2005

192 páginas

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Um Certo Capitão Rodrigo é um daqueles livros que a gente guarda com afeto. Há nele uma vibração diferente, mais viva, mais solar, marcada pela figura carismática de Rodrigo Cambará — conquistador, andarilho, provocador das normas — e, sobretudo, pela presença firme de Bibiana, que não se deixa apagar pelo brilho masculino.

Rodrigo entra na narrativa como quem entra numa cidade: anunciando-se, ocupando espaço, desafiando regras. Seu jeito sedutor, livre, quase teatral, faz dele uma figura magnética. Mas Érico Veríssimo não constrói um herói simples. O mesmo impulso que encanta também desestabiliza; a mesma liberdade que seduz traz insegurança e conflito. Rodrigo é movimento, enquanto a vida exige permanência.

É Bibiana, porém, quem sustenta a densidade do romance. Sua força não é estridente, mas sólida. Ela ama, escolhe, enfrenta a família, aceita o risco de se unir a um homem que não se encaixa. Bibiana não é ingênua diante do temperamento de Rodrigo; ela sabe com quem está lidando e, ainda assim, decide. Há nela uma autonomia rara para personagens femininas de romances históricos: não é prêmio, não é sombra, não é apêndice.

A relação entre Bibiana e Rodrigo se constrói nesse contraste: ele, o conquistador, o que passa; ela, a que fica, a que sustenta, a que transforma a instabilidade em vida possível. Enquanto Rodrigo se move pelo mundo, Bibiana cria raízes. E é nessa diferença que se revela sua força maior.

Lido na juventude, o romance encanta pela aventura e pelo carisma do Capitão Rodrigo. Lido mais tarde, ele revela algo mais profundo: a história de uma mulher que escolhe amar sem se dissolver no outro. Bibiana não perde a si mesma na relação; ao contrário, afirma-se dentro dela.

Talvez seja por isso que Um Certo Capitão Rodrigo permaneça tão querido. Não apenas pelo charme do personagem masculino, mas porque, por trás dele, há uma mulher que sustenta a narrativa com firmeza, coragem e presença. Sem Bibiana, Rodrigo seria apenas passagem. Com ela, a história permanece.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ECOLOGIA, MULHERES E RESISTÊNCIA NO QUÊNIA

 


INABALÁVEL

WANGARI MAATHAI

NOVA FRONTEIRA – 1ª ED. 2007.

400 páginas 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS - QUÊNIA 

Inabalável é a autobiografia de Wangari Maathai e o relato de uma luta que articula ecologia, política e justiça social no Quênia. Ao narrar sua própria trajetória, Maathai expõe os efeitos profundos da imposição colonial: a substituição de culturas tradicionais por monoculturas lucrativas, o desmatamento em larga escala e suas consequências diretas sobre o solo, o meio ambiente, os animais e, sobretudo, sobre a vida humana, marcada pela fome e pelo desemprego.

O livro começa na infância, acompanhando o cotidiano familiar, as dificuldades econômicas e os deslocamentos impostos pela busca de trabalho. Wangari retorna com a mãe e a irmã à região de origem para poder estudar, já que onde o pai trabalhava não havia escolas. Sua formação tem início em um colégio católico, experiência que a colocará em contato direto com a educação colonial e suas contradições.

Seu percurso acadêmico é notável. Impedida de ingressar na Universidade da África Oriental, ela recebe uma bolsa da Fundação Kennedy e parte para os Estados Unidos, onde obtém o bacharelado em biologia. Em seguida, conclui o mestrado na mesma área, passa pela Alemanha, trabalhando com medicina veterinária, e retorna ao Quênia. Em 1971, torna-se a primeira mulher a obter um doutorado pela Universidade de Nairóbi, onde passa a lecionar anatomia veterinária.

A entrada na política marca uma ruptura decisiva em sua vida. Ao candidatar-se ao Parlamento, Wangari perde o cargo na universidade, enfrenta perseguições institucionais e vê seu casamento se desfazer. É um período de grande vulnerabilidade pessoal e material. Ainda assim, o livro deixa claro que a ideia de recuo nunca se impõe como opção real. A inabalabilidade do título não é retórica: é prática cotidiana de resistência.

Ao perceber a relação direta entre desmatamento, empobrecimento do solo, fome e exclusão social — especialmente das mulheres — Wangari funda, em 1977, o Movimento Cinturão Verde, voltado ao plantio de árvores nativas. A iniciativa, simples em aparência, confronta diretamente os interesses do Estado e das elites econômicas. Por isso, ela enfrenta perseguição política, violência e prisão. Ainda assim, persiste.

Inabalável é também um livro sobre mulheres: sobre como são elas as primeiras a sentir os efeitos da degradação ambiental e as últimas a serem ouvidas nas decisões políticas. A luta ecológica, aqui, não é separável da luta feminista, nem da crítica ao colonialismo e às suas permanências.

Em 2004, Wangari Maathai recebe o Prêmio Nobel da Paz. Mais do que um reconhecimento individual, o prêmio simboliza a legitimidade de uma luta que fez diferença concreta na vida de milhares de pessoas no Quênia. Wangari faleceu em 2011, em Nairóbi, vítima de câncer, deixando como legado a prova de que ecologia, política e cuidado com a vida não podem ser pensados separadamente.



Wangari Maathai nasceu em lite, Nieri, Nairóbi,  em 1940 e faleceu em Nairóbi em 2011. Foi uma ativista política do meio ambiente do Quênia. Foi a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2004. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

TRADIÇÃO, COLONIZAÇÃO E A TRAGÉDIA DE UM MUNDO EM RUPTURA

 


O MUNDO SE DESPEDAÇA

CHINUA ACHEBE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2009

240 páginas 

O Mundo se Despedaça é, antes de tudo, um romance sobre a violência das rupturas. Achebe nos apresenta o povo ibo, na região que hoje corresponde à Nigéria, antes da colonização, permitindo que conheçamos seus rituais, sua organização social, suas crenças, sua justiça e suas formas próprias de pertencimento. Trata-se de um gesto político e literário fundamental: mostrar que havia mundo, sentido e complexidade antes da chegada europeia.

No centro da narrativa está Okonkwo, um grande guerreiro de Umuófia, cuja vida é marcada por um medo profundo: o de se tornar semelhante ao pai, considerado fraco e indigno pela comunidade. Esse pavor molda sua personalidade e o conduz a uma adesão quase violenta à tradição, à honra e à virilidade. Okonkwo não se permite falhar, não se permite sentir, não se permite vacilar. Sua rigidez é tanto sua força quanto sua ruína.

Achebe constrói Okonkwo como uma figura trágica. Seu apego intransigente à tradição não nasce de uma reflexão serena, mas de uma ferida íntima. O que está em jogo não é apenas a preservação cultural, mas uma identidade masculina construída sobre o medo da fragilidade. Quando o destino o atinge — obrigando-o ao exílio por sete anos —, não é apenas um indivíduo que se afasta da aldeia, mas uma forma inteira de estar no mundo que começa a se desfazer.

Durante sua ausência, chegam os missionários e os homens brancos. A colonização não aparece como um evento súbito, mas como um processo lento de infiltração, que atua sobre as fissuras internas da sociedade ibo: a conversão de alguns membros, a introdução de novas leis, a deslegitimação das autoridades tradicionais, a substituição gradual dos sentidos do sagrado e da justiça. O mundo não explode — ele se despedaça.

Quando Okonkwo retorna, encontra uma aldeia transformada. Aquilo que antes era consenso agora é dúvida; o que era tradição torna-se objeto de negociação. Incapaz de se adaptar, Okonkwo percebe que já não há lugar para ele naquele novo arranjo colonial. Sua tragédia pessoal espelha a tragédia coletiva de um povo cuja cosmologia, linguagem e organização social são violentamente reordenadas a partir de parâmetros externos.

Achebe escreve contra a narrativa colonial que retratou as sociedades africanas como primitivas ou sem história. O Mundo se Despedaça devolve densidade, humanidade e contradição a esses mundos, ao mesmo tempo em que revela que a colonização não destrói apenas culturas, mas produz sujeitos deslocados, presos entre um passado que não pode retornar e um presente que não lhes pertence.

É um romance profundamente antropológico, político e ético. Um livro que mostra que a perda mais radical não é apenas territorial ou econômica, mas simbólica: perder o sentido do que se é.



Chinua Achebe em Ogidi, Nigéria, em 1930 e faleceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 2013. Foi um romancista, poeta e crítico literário. 

O CUSTO HUMANO DA SALVAÇÃO

 


O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DE BOLSO – 2005

376 páginas 


Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago propõe uma reinterpretação radical da figura de Jesus, narrando sua história de modo a desafiar frontalmente as crenças religiosas convencionais. Não se trata de uma negação simples do cristianismo, mas de uma reescrita que desloca seus fundamentos, expondo tensões éticas, políticas e teológicas geralmente silenciadas.

A narrativa se inicia com o nascimento de Jesus em Belém, mas desde as primeiras páginas fica claro que Saramago não está interessado em repetir a versão bíblica consagrada. O autor rapidamente abandona a infância milagrosa e avança para a vida adulta, concentrando-se no momento em que Jesus passa a ser confrontado pelas exigências de sua missão — exigências que não aparecem como redenção, mas como imposição.

O Jesus de Saramago é, antes de tudo, um homem. Um homem atravessado por dúvidas, medos, desejos e tentações. Um homem que sofre, ama, hesita e se interroga. Ao humanizar radicalmente Jesus, Saramago desmonta a imagem de um messias plenamente consciente de seu destino e revela o peso insuportável de uma identidade divina que não foi escolhida, mas imposta. A relação com Deus não é de obediência serena, mas de conflito; a fé não é conforto, mas inquietação.

As relações de Jesus com seus discípulos, com Maria e com outras figuras bíblicas são igualmente deslocadas. Maria deixa de ocupar o lugar idealizado da virgindade intocável para surgir como mulher marcada pela dor, pela culpa e pela perda. A santidade dá lugar à experiência concreta, corporal e histórica. Ao fazê-lo, Saramago questiona não apenas dogmas específicos — como a Trindade ou a virgindade de Maria —, mas a própria lógica que sustenta uma teologia fundada no sacrifício.

Ao longo do romance, a crítica à Igreja Católica e ao seu papel histórico é incisiva. O cristianismo aparece menos como mensagem de amor e mais como projeto de poder, sustentado pela dor e pelo sofrimento humanos. Essa crítica atinge seu ponto mais alto no célebre encontro, em um barco, entre Jesus, Deus e o diabo. O diálogo entre os três é magistral e perturbador: Deus surge como figura sedenta de domínio, disposto a sacrificar o próprio filho para ampliar seu reino; o diabo, paradoxalmente, aparece como aquele que reconhece o horror desse plano; e Jesus, preso entre ambos, percebe que seu destino não é salvar o mundo, mas inaugurá-lo como espaço permanente de culpa e violência.

Nesse sentido, O Evangelho Segundo Jesus Cristo não é apenas um romance religioso, mas uma reflexão profunda sobre poder, obediência e responsabilidade. Saramago nos obriga a perguntar: que tipo de Deus exige o sofrimento como prova de amor? Que tipo de fé se funda no sacrifício de um inocente? Ao devolver a Jesus sua humanidade, o autor desloca o sagrado e expõe o custo humano das grandes narrativas de salvação.

É um livro incômodo — e justamente por isso necessário.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias na Espanha em 2010. Foi um escritor português que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.



À BEIRA DO MITO, À BEIRA DE SI

 


KAFKA À BEIRA-MAR

HARUKI MURAKAMI

ALFAGUARA – 1ª ED. 2008

576 páginas 


Kafka à Beira-Mar é um romance que resiste à resenha tradicional. Murakami constrói uma narrativa deliberadamente aberta, na qual explicações definitivas parecem sempre escapar. O livro não se oferece como enigma a ser resolvido, mas como experiência a ser atravessada. Cada leitura produz sua própria interpretação e talvez seja justamente aí que resida sua força.

Apesar dessa abertura radical, o romance está longe de ser decepcionante ou disperso. Ao contrário: prende o leitor do início ao fim de suas mais de quinhentas páginas, com uma fluidez quase hipnótica. É uma leitura que envolve, conduz e perturba, mesmo quando não se deixa compreender plenamente. Murakami parece apostar menos na clareza narrativa do que na intensidade da atmosfera.

A obra é atravessada por múltiplas referências literárias e filosóficas, com destaque para o mito grego de Édipo, que funciona como uma espécie de eixo subterrâneo da narrativa. Ao mesmo tempo, o romance articula elementos da modernidade ocidental com lendas e imaginários japoneses, criando um espaço híbrido, onde tradição e contemporaneidade coexistem sem hierarquia.

A história se desenrola a partir de dois personagens centrais. Kafka Tamura é um garoto de quinze anos que foge de casa em razão da relação conflituosa com o pai, que o amaldiçoa com uma profecia incestuosa: Kafka estaria destinado a dormir com a mãe e a irmã, ambas desaparecidas desde que ele tinha apenas quatro anos, deixando-o para trás. Essa maldição ecoa o mito de Édipo, mas é deslocada para um registro psicológico, simbólico e contemporâneo.

O segundo personagem é Nakata, um idoso que, ainda criança, passou por uma experiência inexplicável que o incapacitou de ler e escrever, mas lhe concedeu dons extraordinários: falar com gatos e antecipar acontecimentos fora da ordem comum das coisas. À primeira vista, Kafka e Nakata não compartilham nada — idade, história, linguagem, mundo. Ainda assim, suas trajetórias correm em paralelo e acabam se cruzando de maneira enigmática, como se obedecessem a uma lógica que ultrapassa a causalidade linear.

Murakami constrói, assim, um romance sobre solidão, amizade, amadurecimento, culpa e destino. Mas esses temas não aparecem como conceitos fechados; surgem como estados de espírito, como forças que atravessam os personagens sem jamais se estabilizar. O destino, em especial, não é apresentado como fatalidade clara, mas como algo nebuloso, que se cumpre justamente quando tenta ser evitado.

Kafka à Beira-Mar não pede compreensão total. Pede entrega. É um livro que se move no limiar entre o real e o onírico, entre o mito e a vida cotidiana, convidando o leitor a habitar esse espaço de incerteza. Ao final, talvez reste menos a sensação de ter entendido tudo e mais a de ter sido transformado pela travessia.


Haruki Murakami nasceu Fushimi, Quioto no Japão em 1949. É um escritor e tradutor japonês. 


sexta-feira, 27 de maio de 2016

LIVRO: AS ÁGUAS DO MEU POÇO - Reflexões sobre experiências de liberdade - IVONE GEBARA


Gebara, Ivone. Brasiliense, 2005
243 páginas
Tradução: Jacqueline Castro
Título Original: Les eaux de mon puis

Descobri Ivone Gebara em meu curso de Filosofia. Este livro é um mergulho em si mesma em busca de se conhecer e compreender, é um mergulho íntimo que ela nos relata com sinceridade, simplicidade, mostrando suas dúvidas, dificuldades, conflitos, buscas, dores e alegrias. 

Desde sua adolescência ela busca a liberdade e agora faz um balanço sobre o que é a liberdade, e como atingi-la, tarefa difícil, tarefa de toda uma vida. Mas fala também de outros temas e de sua experiência junto com Dom Helder Câmara na Teologia da Libertação, de seu "exílio" em Louvain-la-Neuve na Bélgica após haver dado uma entrevista e falado sobre o aborto. 

Ivone é uma freira católica, mas que enxerga o mundo como ele é, é sensível as dificuldades dos outros, às necessidades das pessoas. Vive no meio do povo mais pobre e também de sua violência. 

Este livro foi escrito em francês, apesar dela ser brasileira, mas ela aceitou este desafio. 

Ao se confrontar neste percurso do livro, neste mergulho em suas águas profundas ela descobre a si mesma e traça este caminho e nos doa isto, sua experiência. O livro é um mergulho na singularidade de cada um, e que pode nos iluminar e incentivar a fazer o mesmo, debruçar-se a beira de seu poço e escutar suas águas profundas. Um percurso que apesar de difícil e muitas vezes doloroso vale a pena ser feito, principalmente para o que deseja uma libertação.

No que se refere a mim, encontrei em seu relato algo que me tocou e muito. Sempre defendi o feminismo sem igualar a mulher ao homem, exceto em seus direitos como cidadã. Porém percebo que todas nós pensamos através de uma linguagem, cultura masculina, e isto é estrutural. Ivone começa este questionamento quando se dá conta do Deus masculino, patriarcal, visto pela sociedade desta forma. Então ela descobre a Teologia feminista que busca reinterpretar a Bíblia sob o viés feminino. Mas o que ela me mostrou é que realmente é difícil mudar o discurso, a linguagem, mas não é impossível. É preciso reinterpretar, reavaliar, olhar com outros olhos, e se aproximar do feminino. Tarefa longa e difícil, mas possível. 

Ivone Gebara nasceu em 1944 em São Paulo. É filosofa, teóloga e freira católica. É doutora em filosofia e Ciências Religiosas.