Mostrando postagens com marcador Leya. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Leya. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FEMINICÍDIO E CULPABILIZAÇÃO DA MULHER

 

MULHERES EMPILHADAS

PATRÍCIA MELO

LEYA - 2019

240 páginas

Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo, constrói pela ficção um retrato duro e necessário da vida de mulheres reais atravessadas pela violência doméstica, psicológica e, em muitos casos, pelo feminicídio. O romance expõe não apenas a violência em si, mas também os mecanismos de culpabilização da mulher, tanto no plano social quanto no jurídico, revelando como essas estruturas contribuem para a repetição e a naturalização da brutalidade.

A narrativa acompanha uma jovem advogada que deixa São Paulo e segue para o Acre para assistir a julgamentos de feminicídio. O estado aparece como um território marcado por índices alarmantes de mortes de mulheres cometidas por companheiros, ex-companheiros ou homens movidos por misoginia explícita. O deslocamento geográfico é também um deslocamento de consciência: ao se aproximar dessas histórias, a protagonista se confronta com a extensão da violência e com a fragilidade das respostas institucionais.

Paralelamente, o livro incorpora um mito indígena e seus rituais ligados às mulheres, criando uma camada simbólica que dialoga com a narrativa principal. Essa dimensão mítica não suaviza a violência, mas a aprofunda, estabelecendo conexões entre passado, ancestralidade e o presente brutal. Aos poucos, a protagonista reconhece que ela própria vive uma relação marcada pela violência, compreendendo que um tapa não tem justificativa, não é exceção, nem acidente, mas sinal claro de um ciclo que tende a se agravar.

O romance intercala a ficção com notícias reais de mulheres assassinadas por seus companheiros, rompendo qualquer possibilidade de distanciamento confortável por parte do leitor. Essa estratégia reforça o caráter político do livro, que se recusa a tratar o feminicídio como estatística ou exceção. Mulheres empilhadas é uma leitura incômoda, urgente e necessária. Um livro que toda mulher deveria ler, não como alerta abstrato, mas como reconhecimento de uma realidade que insiste em se repetir.


Patrícia Melo nasceu em Assis em 1962. É uma escritora, roteirista, dramaturga e artista plástica brasileira. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

A IMPERATRIZ QUE NÃO COUBE NO IMPÉRIO

 


SISSI E O ÚLTIMO BRILHO DE UMA DINASTIA

Uma breve história não contada dos Habsburgos

PAULO REZZUTTI

LEYA – 1ª ED. – 2022

264 páginas 

O livro retrata a vida de Elizabeth da Áustria-Hungria, mais conhecida como Sissi, desde a infância até sua morte violenta, assassinada por um anarquista em um porto da França. Paulo Rezzutti reconstrói não apenas a trajetória de uma imperatriz, mas também o crepúsculo de uma dinastia.

Desde jovem, Sissi se destaca por uma personalidade forte, inquieta e profundamente independente — traços que destoavam do ideal feminino esperado pela corte. Foi justamente essa diferença que atraiu o imperador Francisco José I, que a escolheu em detrimento da irmã, considerada a noiva “adequada” segundo os rígidos critérios de sua mãe e da monarquia.

Essa mesma personalidade, no entanto, torna-se fonte constante de conflito. Sissi jamais se adaptou plenamente à vida da corte, às suas regras, vigilâncias e performances. Enfrentou a pressão da monarquia, da aristocracia e da sociedade, sentindo-se frequentemente sufocada em um papel que não escolhera. A imperatriz encarna, assim, a tensão entre desejo individual e dever dinástico.

Apesar do afeto que uniu Sissi e Francisco José, a relação é marcada por distanciamentos. Ela passa longos períodos fora da corte, vivendo em outros países, em uma espécie de exílio voluntário. O afastamento não é apenas geográfico, mas também simbólico: Sissi se retira de um mundo que já não lhe oferece sentido.

Paralelamente à biografia da imperatriz, o livro traça um panorama histórico da Áustria-Hungria e da Europa do período, revelando um império em declínio, pressionado por conflitos internos, transformações sociais e tensões políticas. A vida de Sissi se entrelaça, assim, ao fim do Império dos Habsburgo — seu “último brilho” antes da dissolução.

A figura de Sissi emerge menos como ícone romântico e mais como uma mulher deslocada em um sistema que não comportava sua subjetividade. Sua história pessoal espelha o esgotamento de uma ordem política e social prestes a desaparecer.



                      Paulo Rezzutti nasceu em São Paulo em 1972. É escritor, biógrafo e historiador.


domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: O ANO DA LEITURA MÁGICA - NINA SANKOVITCH



Sankovitch, Nina. Leya, 2011
Tradução: Paulo Polzonoff
232 páginas
Título original: Tolstoy and the purple chair. My year of magic reading.

Um sanatório de livros.

É a segunda vez que leio o livro. Trata-se de um livro onde os livros se transformam em terapia.
Nina após a morte de sua irmã empreende uma fuga ocupando-se de tudo e todos numa não aceitação da morte. Três anos assim e ela se dá conta que não pode continuar, precisa parar.
Ela inicia o que chamou de o ano da leitura mágica, ou seja, ler um livro por dia durante um ano e resenhá-lo. É um percurso solitário, mas as resenhas eram uma forma de troca com os outros a respeito do que leu.
Foi a forma que encontrou para poder fazer o luto da irmã, mas foi muito mais rico que isto, pois foi uma viagem, um percurso de crescimento, compreensão, desenvolvimento pessoal.
Ela chamou de Sanatório de livros. A palavra sanatório vem de sanar, curar, acabar com algo ruim.

Pessoalmente acho complicado absorver um livro por dia, preciso de mais tempo para saboreá-lo, digerir, pensar, criticar, aprender, apesar de que há livros que leio em poucas horas. Mas ela conseguiu.

Livros são companheiros, ler é um bálsamo, uma fuga, uma viagem, um encontro consigo e com o outro, é aprender, conhecer, compreender, mas é também um lazer, um entretenimento, dependendo do que buscamos em suas páginas. Livros tem vida própria, são vagabundos, andam por aí, voltam, somem, e caem em nossas mãos exatamente quando precisamos deles. Quando entro em uma livraria sem nenhum título em mente, mas precisando de algo, eu costumo andar pelos corredores, e de repente, um livro me atrai, e com certeza é o que eu preciso. É maravilhoso!

Nina em sua poltrona roxa lendo um livro por dia durante um ano. Ela nasceu em Evanston, Illinois, EUA.