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domingo, 14 de junho de 2015

FILME: KAMOME DINER - 2006



Direção: Naoko Ogigami - 2006
Duração: 102 min
Título Original: Kamome Shokudo
País de Origem: Japão 
Filmado na Finlândia. 

Sachie (Satomi Kobayashi) é uma japonesa que abriu um café em Helsinki na Finlândia, para servir comida japonesa esperando com isto apresentar sua culinária ao povo filandês, o que acaba não dando muito certo. Seu único cliente é Tommi (Jarkko Niemi) que é fã da cultura nipônica. Justamente para ajudar Tommi com a letra de uma música, visitando uma livraria ela vê outra japonesa ali e puxa conversa. Ela acaba indo ajudar Sachie no café, e mais tarde também outra que ao visitar a Finlândia espera por suas malas que foram perdidas pela Cia Aérea. 


Aos poucos elas irão se dar conta que para os finlandeses elas são estranhas, e mais ainda a comida. Resolvem então tentar com comidas locais. Fazem um bolinho de canela que imediatamente atrai as pessoas. 
Então surge a ideia de começarem a fazer comida japonesa com ingredientes locais como o salmão, arenque, camarão. E isto dá certo. 




Esta é a primeira lição do filme, que é preciso misturar as coisas, nem o totalmente finlandês, mas nem o nipônico, para começar a aproximação, desfazer o estranho. Mas o filme vai além, porque cada uma destas pessoas e também outros clientes tem seus problemas, e elas acabam envolvidas nisto, como uma forma terapêutica de ajuda. Afinal a comida é sempre uma forma de cura e de aproximação. 


Nakao Ogigami nasceu em 1972 em Chiba, Japão 

domingo, 30 de novembro de 2014

FILME: COMER BEBER E VIVER - 1994



Direção: Ang Lee - 1994
Duração: 123 min
Título Original: Yin Shi nan nu

País de Origem: Taiwan

Um pai viúvo que é chef de cozinha, Chu (Sihung Lung) e suas três filhas - Jia-Jen, Jia-Chien e Jia-Ning. Ele apesar de cozinhar muito bem perdeu o paladar, não sente mais nada ao provar a comida. Aos domingos ele prepara um jantar onde reúne a família, o que nem sempre agrada à filhas. Uma delas desejava ser como o pai, cozinheira, mas ele a afastou da cozinha a enviando para a faculdade, pois dizia que não queria sua filha numa cozinha gordurenta. 

As relações entre eles não é as mais afetuosas, os conflitos familiares estão latentes, e mesmo com todo o amor e dedicação com que Chun prepara a comida, isto não os aproxima. Aos poucos as coisas vão se destrinchando, algumas verdades vem a tona. O eterno problema de pensar que se sabe o que o outro pensa e quando se fala descobre-se que é exatamente o contrário. 

O que mais encanta no filme é a arte gastronômica de Chun, que esconde em suas belas criações na cozinha tudo que sente por dentro. Somente no dia em que ele finalmente revela seu segredo é que acaba recuperando o paladar, e por coincidência justo num dia em que sua filha que ele não queria ver cozinheira prepara o jantar para ambos. 

Pode ser no ocidente ou no oriente as relações familiares são sempre complicadas e na falta de um diálogo as pessoas se ressentem e se afastam. Mas o amor pode aproximar as pessoas. 

Ang Lee 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

FILME: CHOCOLATE - 2000


Direção: Lasse Hallström - 2000
Duração: 121 min
Título Original: Chocolat

Vianne Rocher (Juliette Binoche) e sua filha de seis anos Anouk chegam a uma pequena cidade da França onde o povo segue os desejos do Conde Reynaud (Alfred Molina) que preza a moralidade e a igreja fazendo com que todos ali se comportem de forma prevista e que não destoe disto.

Vianne aluga uma antiga confeitaria de Armande (Judi Dench) e abre uma chocolateria na quaresma o que deixa a todos indignados. Mas ela também é mãe solteira e o Conde se aproveita disto tudo para desmoraliza-la e fazer com que vá embora.




Os chocolates que Vianne prepara são especiais, ela conhece segredos e se utiliza de uma roda onde pede às pessoas para dizer o que vêem quando ela gira para então baseada no imaginário de cada um saber qual o chocolate preferido daquela pessoa.



Desta forma ela conquista algumas amizades, mas principalmente de Josephine (Lena Olin) que é considerada louca por todos na cidade que já não suporta o marido Serge (Peter Stormare)que a agride. Ela foge e pede refúgio à Vianne que a acolhe o que irá mudar sua vida. Outros também se encantam com os chocolates e pelas transformações que isto lhes traz em suas vidas, mas o Conde não desiste e como detém o poder na cidade obriga o padre a fazer sermões inflamados contra a chocolateira.

Mas mal sabe ele que ainda estava por vir o pior, chega à cidade que fica a beira de um rio vários nômades que viajam em seus barcos, cujo líder é Roux (Johnny Deep). O conde então lança uma campanha para que eles partam deixando claro que não são bem vindos.



O que ele não esperava é que aos poucos Vianne irá conquistando as pessoas, inclusive as mais próximas a ele, e isto trará grandes mudanças na cidade.

Os preconceitos e o medo das mudanças, o estranho e o estrangeiro, o pecado, e um conde tirano que gosta de comandar a tudo e a todos, eis os ingredientes, mas quando se acrescenta chocolate, pimenta, nozes e outros itens nesta mistura algo acontece, e o prazer de viver aparece mudando as pessoas, ou melhor, libertando o que há de melhor dentro delas e com isto permitindo que possam sentir prazer sem culpa, possam mudar suas vidas, possam construir algo.
Lasse Hallström nasceu em 1946 em Estocolmo, Suécia. 

sábado, 16 de agosto de 2014

FILME: PÃO DA FELICIDADE - 2012


Direção: Yukiko Mishima - 2012
Duração: 114 min
Título original: Shiawase no pan 

Um dos mais belos filmes que assisti nos últimos tempos. De uma delicadeza, sensibilidade e de uma beleza estética ímpar, onde o cuidado com os mínimos detalhes, cores, visuais é extremo ao ponto de quase se sentir o cheiro e o sabor do pão.

Rie (Harada Tomoyo) e Sang (Oizumi Yo) mudam-se de Tóquio para o Lago Toya em Hokkaido e abrem um café com pousada. Ele faz pães com muito amor e um mais bonito e aparentemente saboroso que o outro, ela prepara o café moendo os grãos num moedor manual e cozinha as refeições. As estações passam, e a cada uma alguém vem para ficar na pousada e temos sua história e de como o prazer de comer um simples pão com um café maravilhoso pode fazer a diferença.





O filme nos mostra uma globalização do Japão, mas também nos traz o antigo, tudo preservado junto neste local acolhedor. Vemos um japonês tocando acordeon, uma mulher que tem uma loja e que tem um ouvido muito bom, pois sempre está pronto e embrulhado o que a pessoa pensa comprar em sua loja, o pão é assado no forno a lenha, o café moído em um moedor manual, as panelas são lindas, os detalhes da louça, dos enfeites, tudo de um extremo bom gosto, mas simples.





A generosidade e o que é feito com paixão é o que acolhe e transmite calor humano aos que buscam um pouco de aconchego. O pão é um alimento básico e simples, mas é justamente sua simplicidade que oferece às pessoas a possibilidade de perceber que é nas coisas simples que está o prazer.

Recomendo.


Yukiko Mishima 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FILME: BISTRÔ ROMANTIQUE - 2012


Direção: Joël Vanhoebrouck- 2012
Duração: 102 min
Título Original: Brasserie Romantiek

Pascaline (Sara De Roo) tem 40 anos e é proprietária de um pequeno restaurante mais conhecido como Brasserie na Bélgica que mantém junto ao seu irmão Angelo (Axel Daeseleire) que é o chef de cozinha. Eles possuem uma estrela no guia gastronômico. Além disto ela tem sua sobrinha que mora com ela, pois a mãe não lhe dá atenção.

É o dia dos namorados e todas as mesas estão reservadas e o cardápio neste dia é fechado e terá 05 pratos entre a entrada e a sobremesa. O filme passará por estas etapas apresentando a cada uma o prato que será servido.

As pessoas começam a chegar, mas o primeiro surpreende Pascaline, ele não está acompanhado como todos os outros, mas vem sozinho e somente para encontrá-la, trata-se de Frank (Koen de Bouw) que é um ex-namorado de Pascaline, por quem ela continua apaixonada depois de tantos anos. Ele lhe faz uma proposta que ela jamais poderia esperar. Após 20 anos sem aparecer ele está de partida para Buenos Aires naquela noite e quer que ela vá com ele.

Roos (Barbara Sarafian) chega e espera seu marido Paul que como sempre está vendendo um carro pelo celular. Durante o jantar Roos contará a ele que tem um amante.

Mia (Ruth Becquart) chega sozinha, ela explica que o marido a deixou pela sua melhor amiga, se é que se pode chamar de amiga, mas que retornou ali pois foi onde tudo começou, ele a pediu em casamento ali. Agora ela come chocolates e os vomita e pensa seriamente em se suicidar. O garçom Lesley (Wouter Hendrickx) se ocupa dela durante o jantar tentando fazer com que ela olhe a vida de outra forma.

Walter (Mathijs Scheepers) também aguarda sua convidada que ele não conhece pessoalmente, foi um contato pela internet e ela está atrasada o que o deixa extremamente tenso.

Outros casais também chegam e ocupam suas mesas, menos uma que fica vazia, não vieram nem justificaram sua ausência.

Durante o jantar iremos ver a história de cada um se desenrolar, as dificuldades no relacionamento, um casamento falido, as tentativas de arrumar alguém, as dúvidas.

Um filme sem grandes novidades, mas que é gostoso de assistir. Eu pessoalmente gostei muito foi de ouvir a língua flamenga sendo falada, pois minha família materna é dos Flandres.

Joël Vanhoebrouck nasceu em 1974 em Vivoorde, na Bélgica

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

FILME: COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE - 1992


Direção: Alfonso Arau - 1992 
Duração: 150min 

Baseado no romance homônino de Laura Esquivel 

Um filme belíssimo e que nos traz um retrato do feminino dos mais belos e completos.

Logo no início vemos a sobrinha-neta de Tita na cozinha com o livro de receitas que foi dela, e que irá nos narrar esta história.

Tita (Lumi Cavazos) nasceu na cozinha do rancho onde vive sua família no México quando sua mãe Elena (Regina Torné) estava cortando cebolas. . Seu pai logo a seguir morre de um ataque do coração ao saber que talvez ela não seja sua filha legítima. Segundo a tradição da família a filha caçula não se casará pois deverá permanecer solteira para cuidar da mãe até sua morte. Eis o destino de Tita.

Tita é alimentada por Nacha (Ada Carrasco) na cozinha e ali ela cresce e brinca entre cheiros e temperos. Suas irmãs são totalmente diferentes, Gertrudis (Claudette Maillé) irá embora e se tornará uma revolucionária, já Rosaura (Yareli Arizmendi) se casará com o grande amor de Tita, Pedro (Marco Leonardi) por determinação de sua mãe Elena, uma vez que Tita não pode se casar. Porém Pedro só se casa com Rosaura para poder ficar perto de Tita.



Tita é uma cozinheira excelente, aprendeu com Nacha os segredos e também a sentir com seu olfato ou paladar se a comida está boa. A cozinha é um local de muito trabalho, mas também de criatividade, talento, paciência.



Mama Elena é uma representante do mundo patriarcal, assim como sua filha Rosaura, Tita, Nacha e Gertrudis nos apresentam um lado muito mais feminino, sensual, do prazer, sem tantas preocupações com a aparência, o pudor, a decência, elas vivem muito mais, apesar de confinadas à cozinha e ao rancho, Tita sente muito mais prazer na vida do que sua mãe. Ela luta para manter sua individualidade e criatividade.

O Filme vai se desenrolando por capítulos como no livro. No primeiro temos o mundo doméstico e a opressão de Mama Elena. Tita resiste tecendo uma colcha. No segundo é o casamento de Rosaura e Mama Elena ordena que Tita ajude na preparação do banquete e que não chore. Porém enquanto prepara a cobertura do bolo ela chora e suas lágrimas caem na mistura. Todos que comem do bolo começam a sentir uma profunda tristeza ao lembrar amores perdidos e tem acessos de vômito. Nacha também sente a falta de alguém e é encontrada morta com uma foto na mão. Mama Elena está convencida que foi Tita quem envenenou o bolo e a espanca.



No capítulo três Tita ganha flores de Pedro. Sua mãe a manda jogar fora, mas ela escuta a voz de Nacha dentro de si e prepara codornas com rosas. Se Rosaura não gosta e passa mal, Gertrudis sentiu um calor forte, a comida agiu como um afrodisíaco. Ela corre para tomar um banho e o banheiro se incendeia, é salva por um rebelde e foge com ele. Pedro também sentiu um imenso prazer ao comer. As rosas de um homem são transformadas no desejo. Do passivo para o ativo.


Na sequência nasce o filho de Pedro e Rosaura, mas ela não consegue amamentá-lo e será Tita quem fará isto. Mas Mama Elena mandará Pedro e Rosaura para longe, e o menino more de fome. Tita acusa sua mãe e quase enlouquece de dor refugiando-se no pombal. Será o Dr. Brown (Mario Iván Martinéz) que vai socorrê-la e a leva para sua casa. O silêncio cai sobre Tita, a comida da casa do médico não é boa, ela olhava suas mãos e não sabia o que fazer. O médico conta a Tita o que dizia sua avó. Que todos nós nascemos com uma caixa de fósforos dentro de nós, mas não podemos acendê-los sozinhos. O oxigênio que é o agente de combustão deve vir de outra pessoa, do amor que ela tem em si. Mas não devemos acender todos de uma só vez. Esta história se transforma numa metáfora para Tita e tudo que ela sente.

Ao receber a visita da índia que trabalha no rancho com seus caldos que ela traz Tita volta à vida. Mama Elena morre num ataque ao rancho e Tita retorna. Nasce Esperanza e que deve ter o mesmo destino de Tita, já que Rosaura não pode mais ter filhos. Mais uma vez Rosaura não pode amamentar e é Tita quem cuida da alimentação do bebê. É a festa de Reis, e Gertrudis volta ao lar para comemorar. Pedro cai na fogueira e tem queimaduras feias. Tita irá curá-lo com receitas caseiras. E finalmente chega o dia que Tita após enfrentar o fantasma de sua mãe enfrenta também Rosaura, e lhe diz que Esperanza não terá o mesmo destino que ela.

Rosaura morre de problemas digestivos, e finalmente após alguns anos temos o casamento de Esperanza e a união de Pedro e Tita, quando todos os fósforos que trazem dentro de si se acendem.

O filme todo nos fala da criatividade e da narrativa que as mulheres desenvolvem, mesmo confinadas a um pequeno espaço. O livro de receitas de Tita traz estes segredos e anotações a parte que conduzem uma mulher a se libertar. É na cozinha que se desenvolve a história, é ali que ocorrem as mudanças, é ali que as mulheres vencem a ideologia patriarcal que atua não somente na sociedade, mas dentro de casa, neste caso representado pela mama Elena e por Rosaura. A culinária é uma arte, o tecer também, e podem criar coisas novas e diferentes, mas também cuidam das feridas e da dor. Alimentam a alma.

Alfonso Arau nasceu em 1932 na Cidade do México. É casado com a escritora Laura Esquivel. 


Trilha sonora de Leo Brouwer 

Leo Brouwer nasceu em 1959 em Havana, Cuba 

domingo, 3 de agosto de 2014

FILME: A FESTA DE BABETTE - 1987


Direção: Gabriel Axel - 1987
Duração: 102 min
Título Original: Babette's gaestebud 

Adaptação do conto de Isak Dinesen pseudônimo de  Karen Blixen do livro A festa de Babette e outras anedotas do destino. 

1871 - Em uma península da Dinamarca  vivem duas irmãs, Filippa (Bodil Kjer) e Martine (Birgitte Federspiel)  cujo pai falecido foi um rigoroso pastor luterano, aparece uma mulher chamada Babette (Stéphane Audran) , refugiada da França, cujo marido e filho foram assassinados durante e a Comuna de Paris, pedindo asilo e abrigo. Ela bate a porta das duas irmãs que após lerem uma carta que ela traz consigo a recebem em sua casa. Esta história começa muitos anos antes.



É uma comunidade luterana, e aqui vale lembrar como nos mostrou  Max Weber em seu brilhante "A ética protestante e o espírito do capitalismo" que se trata de uma religião que abole o intermediário com Deus, não há como se confessar a um padre que perdoa e lhe dá uma penitência, absolvendo-o dos seus pecados podendo reiniciar tudo, não, aqui Deus vê tudo e a melhor forma de garantir sua salvação é o trabalho e o ascetismo. Não há lugar para o prazer, para a vida mundana.



Os luteranos não se afastam totalmente da sexualidade, porém esta se limita ao casamento e á procriação. O pastor tem duas filhas jovens e muito bonitas, vários rapazes a desejam e frequentam os cultos somente para vê-las, mas não é desejo do pai vê-las casadas, são como ele diz: sua mão direita e esquerda. A vida de ambas é regida pela retidão do espírito por se separar do corpo. A comida é apenas uma forma de se manter vivo, não um prazer, é insípida, é por ser necessária.

Loewenhielm se apaixona por Martine, mas apesar dela sentir seu corpo reagindo ela o recusa. Ele é o mundo mundano, vaidoso e cheio de ilusões. É como uma interpenetração de dois mundos, que se tocam, mexem, mas recuam. Ele havia ido para a aldeia para pensar sobre si mesmo. Achille Papin um tenor chega a aldeia e se apaixona por Filippa e sua bela voz. Torna-se seu professor de canto, mas a música os aproxima demais, aproxima os corpos, e ela toma a decisão de não ter mais aulas. Ambas se sacrificam. Elas precisam manter a retidão e escapar ao pecado original, precisam de autocontrole, usam a negação de si mesmas e a austeridade para alcançar isto. Lembremos que não há confissão, não há penitência, então é o sacrifício, o controle que garante a salvação.

Babette virá com a carta de Papin, e assim ela ficará com as irmãs. Vive com elas por 14 anos até que ganha na loteira e recebe 10 mil francos. Na mesma ocasião as irmãs preparam-se para homenagear o pai que completaria 100 anos caso estivesse vivo. É então que Babette pela primeira vez pede algo às irmãs: prepara um jantar francês para este dia. No início elas relutam, mas acabam aceitando.

Neste ínterim percebemos que a comunidade começa a sofrer os conflitos dos humanos, a inveja, o ciúme, cobranças, passar a perna no outro, e tudo isto é pecado.

Quando as irmãs vêem os ingredientes para o jantar chegando elas se assustam e procuram seus irmãos de fé, estão apavoradas, com medo e culpa. Então eles fazem um pacto entre si, não falarão nada sobre a comida e a bebida durante o jantar. É uma recusa aos apelos sensuais, e a língua será usada para louvar, não para sentir os prazeres.

No dia do jantar os convidados chegam e entre eles está o general Loewenhielm que veio visitar sua tia. A mesa está posta com muito requinte e sofisticação. Babette está na cozinha, feliz, finalizando os pratos e instruindo um rapaz que serve à mesa. O cocheiro que levou o general e sua tia também está ali e poderá provar das delícias que ali estão. O jantar é servido, a francesa, um prato atrás do outro, uma bebida atrás da outra de acordo com o prato. Mas ninguém fala nada sobre tudo isto, se recusam a ver, com exceção do general que está encantado com tudo aquilo e reconhece cada bebida, cada prato, inclusive citando uma chef de cozinha num restaurante em Paris que tinha por especialidade codornas no sarcófago e que foi uma criação sua. É ignorado.



Mas aos poucos eles não resistem. Estão diante de uma arte, diante de uma revelação. Vamos notando olhos começando a brilhar, rostos ficando vermelhos, um leve sorriso, e aos poucos eles também começam a deixar de lado suas rusgas e conflitos. Estão se embriagando de corpo e alma. E é isto que o filme nos mostra, que temos apetite físico e espiritual que os dois não são excludentes, pelo contrário, se completam para tornar a vida melhor, sem que com isto estejamos pecando, para usar a linguagem da religião.

O jantar promove a união de todos, os desejos a tanto tempo reprimidos aparecem, eles perdem seu ar carrancudo e austero para sorrir, acolher um ao outro.

A comida é algo que representa a vida, é nascimento, afastando a morte. Levi-Strauss diria que ela é boa para pensar e é feita para ser compartilhada. A cozinha francesa neste filme permite despertar o lado bom, a inteligência, o amor, ao contrário da austera que bloqueia e reprime. Cozinhar é uma arte.





Por outro lado o filme também mostra a natureza na cozinha, quando vemos animais vivos e mortos, sangue, mas que após preparados se transforma em algo civilizado. A passagem da natureza para a civilização. O sonho das irmãs com o inferno e animais mortos e comida, a repressão do desejo que aparece ali.

Babette finalmente diz ás irmãs que ela era uma chef na França, no Café Anglais e que era uma artista.

Gabriel Axel nasceu em 1918 em Aarhus, Dinamarca e faleceu em 2014 em Bagsvaerd, Dinamarca

domingo, 27 de julho de 2014

FILME: JULIE & JULIA - 2009


Direção: Nora Ephron - 2009 
Duração: 123 min


Baseado no livro Julie & Julia de Julie Powetl e no livro Minha vida na França de Julia Child com Alex Prud'homme. 

Baseado em fatos reais

Julia Child (Meryl Streep)  foi morar na França em 1949 com seu marido Paul (Stanley Tucci), um diplomata. Ela não sabia bem como preencher seu tempo e então resolveu se matricular na famosa escola Cordon Bleu da culinária francesa. Para isto teve que enfrentar o preconceito sobre mulheres ali, e principalmente uma americana, que segundo a dona da escola não tinha nenhum jeito para cozinha. Mas Julia conseguiu. Sua vida então passou a ser dedicada à cozinha e escreveu um livro em inglês para as americanas saberem cozinhar como na França.

Julie Powetl (Amy Adams) é uma jovem nova-iorquina que acaba de se mudar para cima de uma pizzaria e que trabalha num local de atendimento para reclamações, suporte emocional para problemas, e informações, um trabalho que não a satisfaz. Pensa então no que poderia fazer para tornar sua vida mais plena e seguindo a ideia de seu marido para fazer um blog opta por cozinhar e se propõe a dentro de um ano cozinhar 534 receitas do livro de Child.

O filme entrelaça a vida das duas em tempos com diferença de 50 anos.

Inicialmente achei Meryl Streep um tanto forçada, com seus olhares e poses, mas o fato é que Julia Child era uma mulher de 1,90 e tinha um jeito de falar como se estivesse dublando um personagem, o que aparece no filme quando Julie assiste os programas de Julie. Então percebi que Meryl conseguiu incorporar seu personagem.

Duas vidas distantes, duas mulheres casadas com bons maridos, mas ambas sem saber o que fazer de sua vida. A cozinha surge para preencher este espaço e dar um sentido, além do prazer que isto proporciona. A persistência e os desafios que ambas enfrentaram, cada uma a seu tempo, mostra que vale a pena insistir em seu desejo e num sonho. De qualquer maneira, como diria o marido de Julie, todos irão sobreviver caso não desse certo, mas o melhor de tudo foi que deu certo.


Assista a Julia Child apresentando na TV:




JULIA CHILD 

JULIE POWETL 

Nora Ephron nasceu em 1941 em New York,EUA e faleceu em 2012 na mesma cidade.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

FILME: O TEMPERO DA VIDA - 2003


Direção: Tassos Boulmetis - 2003
Duração: 108 min  
Título Original: Politiki Kouzina 
Roteiro: Tassos Boulmetis
País: Turquia - Grécia 

Logo no início do filme a seguinte fala: " Meu avô dizia que a palavra sonho está contida em arroto." e surge na tela um bebê mamando no seio. É o início de tudo, do desejo, do que se busca, este objeto perdido para sempre e que os temperos tentam suprir.




Quando vi o filme ainda não tinha lido O Sal da Vida de Françoise Héritier, que já postei, mas o livro e este filme se completam de alguma maneira.

A culinária, seus temperos, o significado da comida em nossas vidas, os rituais de comer que unem a todos, mas que também podem separar se o tempero não for o certo. Uma filosofia a base da culinária.
Todo o ritual que se opera na cozinha, as mulheres, o amor, os casamentos e as separações, o sabor da vida que vem pela boca.



Fanis (Marku Ossi) vive em Istambul, na Turquia e é grego. Sua família é deportada e retornam à Grécia. Mas já não são de lugar nenhum. Seu avô Vassilis (Tassos Bandis) não os acompanha e passa a vida prometendo visitá-los, até que Fanis (Georges Corraface)  aos 35 anos resolve voltar à Turquia para reencontrar o avô e seu primeiro amor, Saime (Basak KöklüKaya) .

O melhor do filme é realmente os temperos e o que significam, como podem unir e desunir, os segredos culinários que as mulheres guardam e não ensinam quando desejam que algo não dê certo, ou ao contrário, passam para que o casamento aconteça. O avô tem uma loja que vende os temperos e suas dicas são ótimas. Para ele tanto a comida quanto a vida precisam de tempero, um pouco de sal para ganhar sabor.


Tassos Boulmetis nasceu em 1957 em Istambul, Turquia. Foi para a Grécia em 1964.