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quarta-feira, 27 de maio de 2026

QUANDO A GUERRA ULTRAPASSA TODOS OS LIMITES


 

HIROSHIMA

JOHN HERSEY

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2002

176 páginas

Ao lermos o livro “Hiroshima” de John Hersey, nos compadecemos dos japoneses afetados e também ficamos horrorizados com tamanha monstruosidade perpetrada pelos Estados Unidos contra civis. De fato, aquele povo era inocente, exceto talvez pelos militares locados na cidade e em Nagazaki.

É preciso lembrar que os japoneses foram extremamente cruéis na sua expansão pela Ásia, como ocorreu no Massacre de Nanquim (1937), na China, que ficou conhecido como o Estupro de Nanquim, marcado por estupros e assassinatos em massa. Em Cingapura, em 1942, também massacram chineses no episódio conhecido como o Massacre de Sook.

No entanto, esses atos de crueldade não justificam o que ocorreu em Hiroshima e Nagazaki. Lançar bombas atômicas que em questão de segundos destruíram tudo, matando mais de cem mil pessoas imediatamente em Hiroshima.  Muitas outras morreram depois sob os efeitos da radiação, algo totalmente desconhecido pelos médicos na época.

Pessoalmente, não aceito a justificativa dos Estados Unidos de que, agindo assim, pouparam inúmeras vidas. Com certeza, pouparam vidas americanas e de militares. Acredito que foi mais um experimento para observar os efeitos e os resultados de uma bomba atômica e, diante do sucesso destrutivo, impor o medo ao mundo, já que naquele momento apenas eles possuíam tal arma.

Hersey, jornalista estadunidense, traz em seu livro o relato e o testemunho de seis sobreviventes do horror e retorna 40 anos depois para saber o que lhes aconteceu. Mesmo tendo sobrevivido, todos sofreram as consequências de terem sido expostos à explosão e à radiação, o que mudou suas vidas.

É interessante perceber que a cultura japonesa levou a grande maioria da população a aceitar o que ocorreu; em momento algum levantavam a questão ética e moral do uso de uma bomba dessa magnitude contra duas cidades. Mas precisamos, sim, pensar nessa ética, e mais do que nunca, pois estamos assistindo a outra destruição atualmente, em Gaza, com a morte de milhares de pessoas, não instantaneamente, mas dia após dia, sem falar nos traumas dos que conseguem sobreviver.

Ler Hiroshima é um alerta. Aquela primeira bomba ainda era considerada “fraca”; hoje, bombas atômicas ou de hidrogênio possuem um poder de morte e destruição infinitamente maior. 

John Hersey nasceu em Tianjin, China, em 1914 e faleceu em Key West, Flórida, EUA, em 1993. Foi um escritor e jornalista estadunidense. 



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A REPRESSÃO DA IGREJA E A EMERGÊNCIA DO PATRIARCADO

 


AS DEUSAS, AS BRUXAS E A IGREJA

MARIA NAZARETH ALVIM DE BARROS

ROSA DOS TEMPOS – 2001

As Deusas, as Bruxas e a Igreja, de Maria Nazareth Alvim de Barros, investiga a complexa relação entre poder religioso, gênero e repressão histórica. O livro analisa como a Igreja, ao longo dos séculos, perseguiu figuras femininas que simbolizavam saberes, práticas religiosas e autonomia social, transformando mulheres em “bruxas” ou demonizando a espiritualidade feminina.

A autora traça paralelos entre cultos e mitologias antigas, nos quais deusas e mulheres possuíam posições centrais de poder e conhecimento, e a emergência de uma sociedade patriarcal sustentada por dogmas e punições religiosas. Ao estudar processos de caça às bruxas, perseguições e estigmatizações, o livro mostra como a repressão religiosa serviu para controlar a sexualidade, o saber e a liberdade das mulheres.

O livro também explora a persistência de estereótipos e a marginalização feminina na história, oferecendo uma reflexão crítica sobre os mecanismos de poder que ainda influenciam a sociedade contemporânea. É uma leitura essencial para compreender a violência simbólica e histórica contra as mulheres e o papel do patriarcado na construção da cultura ocidental.

Maria Nazareth Alvim de Barros tem formação em psicanálise e mestrado em literatura francesa. É palestrante.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FÉ, DÚVIDA E ÉTICA HUMANA

 


OS IRMÃOS KARAMAZOV

FIODOR DOSTOIÉVSKI

MARTIN CLARET – 2003

760 páginas

Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, é uma obra-prima da literatura russa que explora de forma profunda a complexidade da condição humana, envolvendo questões de moral, fé, dúvida, amor, ódio e responsabilidade. A história gira em torno da família Karamazov, especialmente dos três irmãos – Dmitri, Ivan e Aliócha – e seu pai, Fiódor Pávlovitch, cuja personalidade e ações desencadeiam conflitos éticos, emocionais e existenciais de grandes proporções.

O romance aborda temas centrais como a liberdade individual versus a responsabilidade moral, o problema do sofrimento humano e a busca por sentido em um mundo marcado pelo caos e pela injustiça. Dostoiévski utiliza a família Karamazov como microcosmo da sociedade, mostrando como paixões, fraquezas e virtudes se entrelaçam, conduzindo a dilemas universais. A obra também investiga a relação entre religião e moralidade, questionando se a fé é necessária para sustentar a ética ou se a razão e a consciência humana são suficientes.

Além de seu valor filosófico e teológico, Os Irmãos Karamazov é uma narrativa rica em psicologia, oferecendo personagens complexos cujas motivações e conflitos internos refletem dilemas humanos atemporais. O romance nos convida a uma reflexão profunda sobre amor, perdão, justiça e a luta entre o bem e o mal dentro e fora de cada indivíduo.


Fiodor Dostoiévski nasceu em Moscou, Rússia, em 1821 e faleceu em São Petersburgo, Rússia, em 1881. Foi um escritor, filósofo e um dos maiores romancistas e pensadores da História. 


sábado, 7 de fevereiro de 2026

UMA VIDA VIVIDA FORA DE LUGAR

 


FORA DO LUGAR: MEMÓRIAS 

EDWARD SAID

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2004.

448 páginas 


Edward Said é amplamente conhecido por Orientalismo, obra fundamental para a crítica ao eurocentrismo e às formas pelas quais o Ocidente construiu discursivamente o chamado “Oriente”. Em Fora do Lugar, no entanto, ele desloca o foco: trata-se de uma autobiografia da infância e da juventude, vividas sobretudo entre o Cairo e o Líbano, marcada por desenraizamento, disciplina, medo e inadequação constante.

A leitura causa, em muitos momentos, um certo espanto. Said descreve uma infância atravessada por uma relação difícil com os pais: uma mãe manipuladora, emocionalmente instável, e um pai autoritário, profundamente patriarcal, cuja rigidez produziu nele medo e traumas duradouros. Esses episódios não aparecem como simples memórias pessoais, mas como marcas psíquicas que o acompanharam por toda a vida. Said retorna a elas diversas vezes, como se tentasse compreender de que modo o sentimento de não pertencimento se enraizou tão cedo.

Muito antes da consolidação do pensamento decolonial como campo teórico, Said já afirmava algo decisivo: o Oriente não existe como essência, mas como construção do olhar ocidental. Em Fora do Lugar, ainda não encontramos a formulação sistemática dessa crítica, mas é possível acompanhar o seu nascimento. A experiência de viver entre línguas, culturas e sistemas educacionais distintos — sempre como alguém deslocado, nunca plenamente integrado — constitui a matriz sensível de suas ideias futuras.

A autobiografia também se cruza com a história política do século XX. Said relata a trajetória de sua família palestina e o impacto da expulsão dos palestinos de suas terras com a criação do Estado de Israel, processo imposto sem levar em conta a população local. A perda, o exílio e a violência simbólica e material desse evento atravessam o livro e ressoam de maneira dolorosamente atual. Não se trata apenas de memória individual, mas de uma história coletiva marcada pela injustiça e pelo apagamento.

Escrito quando Said já enfrentava um câncer e se encontrava próximo do fim da vida, Fora do Lugar carrega um tom de balanço existencial. Não é um livro de vitórias, mas de exposição de fragilidades. Ao acompanhar a formação emocional e intelectual de Said, o leitor compreende melhor o alcance e a urgência de suas obras. Ler esta autobiografia é perceber que sua crítica ao imperialismo cultural não nasce apenas da teoria, mas de uma vida inteira vivida na fronteira, sob a experiência constante de não pertencimento.

É uma leitura que não idealiza o autor, mas o humaniza — e, justamente por isso, ilumina com mais profundidade sua obra crítica.


Edward Said nasceu em Jerusalém em 1935 e faleceu em Nova Iorque, EUA, em 2003. Foi um acadêmico, crítico literário e ativista político palestino. Esteve entre os fundadores dos estudos pós-coloniais


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Quando a memória vira romance

 


VIVER PARA CONTAR 

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ 

Record - 15ª ed. 2003

476 páginas 

Após assistir à série Cem Anos de Solidão, fui até a minha biblioteca e peguei para ler a autobiografia de Gabriel García Márquez, Viver para Contar.

Foram 474 páginas de um mergulho na vida dele e na história da Colômbia. A cada episódio de sua trajetória, encontrei traços claros de seus livros, especialmente de Cem Anos de Solidão: personagens baseados em pessoas reais, familiares, situações vividas.

Ele reconstrói sua história a partir da memória, mas também com uma boa dose de imaginação. Recorda a infância, a adolescência e os primeiros anos no jornalismo. Li recentemente, em outro livro que ainda não postei, que muitas vezes a imaginação acaba se transformando em memória. A memória é um romance: é a forma como lembramos, e nem sempre corresponde exatamente aos fatos. A psicanálise que o diga.

Há também, de forma muito presente, a história da Colômbia: suas divisões internas, tanto geográficas quanto políticas; as lutas, principalmente entre liberais e conservadores; a censura, os militares, as revoltas e os assassinatos de políticos.

Gabo, na juventude, era muito pobre. Vivia um dia de cada vez, frequentava bares e bordéis, e teve muitos amigos — sempre fiéis. Mas nunca abandonou completamente a família e sempre a respeitou, mesmo vivendo apenas alguns períodos com os pais. Foi criado pelos avós maternos, que marcaram profundamente sua vida. Após a morte do avô, vai morar com os pais, mas logo parte para estudar. Primeiro em uma escola católica, depois em um colégio e, por fim, chega à universidade de Direito, curso que não irá concluir.

Sempre foi uma pessoa muito tímida, cheia de receios e medos — e ainda assim se tornou o autor de uma obra magistral: Cem Anos de Solidão.


Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca, Colômbia, em 1927 e faleceu na Cidade do México em 2014. Foi escritor, jornalista, ativista editor e político. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

LIVRO: NIETZSCHE EM TURIM o fim do futuro - LESLEY CHAMBERLAIN



Chamberlain, Lesley. Difel. 2000
288 páginas
Tradução: Pedro Jorgensen Jr.
Título Original: Nietzsche in Turin - the end of the future

Este livro é um tipo de biografia que acompanha Nietzsche em seu último ano em Turim, 1888, até o momento em que ele sofre o colapso abraçado a um cavalo em consequência da sífilis. Um ano especialmente produtivo quando ele escreveu vários de seus livros. 

A autora faz uma análise paralela sobre as condições emocionais e psicológicas de Nietzsche, inclusive baseando-se também em Freud em alguns momentos. Ela acompanha o filósofo em suas emoções, ânimos,impressões, fazendo ao mesmo tempo uma descrição dos lugares e de como isto deveria afetá-lo. 

Há uma análise da relação de Nietzsche com Wagner que é brilhante mostrando o quanto ele ficou dependente do músico ao tê-lo colocado no lugar de um pai, pai este que sempre foi idealizado enquanto as mulheres da família o sufocavam, principalmente sua irmã Elisabeth.

Será neste ano de 1888 que Nietzsche escreverá O Caso Wagner como uma tentativa de se curar desta relação tão forte de amor, O anticristo, Ecce Homo e Ditirambos dionisíacos, após concluir em julho Genealogia da Moral

Chamberlain nos mostra a relação da vida familiar, pessoal do filósofo com suas criações - o trágico, o dionisíaco, a vontade de potência, o super-homem, as lacunas entre sua vida e suas reflexões. O quanto toda produção de Nietzsche falava apenas dele, numa tentativa de cura e de auto-superação. Toda a relação com a música, seja a da infância, a de Wagner e a de Bizet com Carmen. 

A doença, a solidão, suas inibições com o amor e o sexo, sua grande paixão por Lou Salomé, a morte de Wagner. Todas as máscaras que usa para enfrentar a vida e a doença. Nos livros tudo o que ele gostaria de ser, na vida o que ele era.

É realmente tocante seguir este ano com Nietzsche e perceber toda sua luta para se manter são, se superar como homem no sentido de ser alguém melhor. Não o super homem perfeito, de raça pura, que infelizmente foi utilizado depois pelo nazismo devido sua irmã que era uma simpatizante, Nietzsche jamais apoiaria o nazismo. Ele é introspectivo, está sempre fazendo uma auto-análise, na tentativa de se livrar dos traços e faltas da infância, principalmente o pai que morreu cedo o deixando em meio a várias mulheres por quem foi criado. É interessante como ele é um precursor da psicanálise, indo tão a fundo em si mesmo ele desvela o ser humano e seu inconsciente, seus dramas e suas tragédias. 

Nietzsche era humano, demasiadamente humano!!!


Lesley Chamberlain nasceu em 1951 em Rochford, Reino Unido. Estudou alemão e russo em Exeter e Oxford, trabalhou como jornalista em Moscou e vive em Londres onde escreve e leciona. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

LIVRO: DIANTE DA DOR DOS OUTROS - SUSAN SONTAG


Sontag, Susan. Companhia das Letras, 2003
107 páginas
Tradução: Rubens Figueiredo
Título Original: Regarding the pain of others

Trata-se de um ensaio sobre a questão da fotografia sobre temas que chocam, fotos de guerra,conflitos, e sobre a questão ética e efeitos de suas publicações. 

Sontag nos traz um percurso histórico desde o tempo dos desenhos como Goya em relação a invasão da Espanha pelos franceses até os dias atuais. Os primeiros fotógrafos de guerra, as fotos tiradas no local e as que são encenadas. Ela se questiona qual seria a função e a necessidade de mostrar ao público estas fotos. 

Com a recente publicação da foto do garotinho sírio morto numa praia que foi veiculada em todos os jornais e redes sociais, é uma questão importante. Sontag levanta a questão também do direito da família, mas sem deixar de frisar que estas questões normalmente surgem quando se trata de alguém branco e ocidental, por que ninguém questiona isto quando se trata de uma foto de uma menina morrendo de fome na Etiópia, por exemplo. 

Como reagimos diante da dor do outro? estaremos realmente insensibilizados devido ao excesso de veiculação de imagens? ou as imagens ainda podem chocar e levar a ação? A foto das crianças fugindo de uma aldeia no Vietnã resultou num protesto maior contra esta guerra e acelerou seu final. 

Eu pessoalmente acho que é necessário que a verdade surja, que seja veiculada, para nos tirar do comodismo, apesar de que sei que quando se está em segurança o efeito não é o mesmo do que para aquele que está vendo ou vivendo o que a foto nos traz. Mas o ocultamento dos fatos também não é bom. Por outro lado um dos pontos é que muitas vezes mudamos de canal ou deletamos a foto porque não podemos fazer nada a respeito. O que eu não concordo é que nos ocultemos sob a ilusão de que isto primeiro só acontece lá longe, e segundo que ignoremos estes fatos tristes e dolorosos. Concordo que provavelmente a foto não traga grandes mudanças, mas eticamente falando, você já não pode se desresponsabilizar sob a ignorância do fato. 

A foto do pequeno sírio resultou em vários protestos na Europa para que os países acolhessem os emigrados, refugiados. 

Um outro ponto importante levantado por Sontag é a questão do reconhecimento pelo outro da dor que se sente. Quem sofre quer ser reconhecido, e não consolado pelo fato de outro sofrer tanto ou mais que ele, precisa do crédito disto pelo outro. Que seu sofrimento não seja banalizado, exemplificado, mas visto e reconhecido. 

Quem não está numa guerra e nunca passou por ela não consegue nem mesmo pela imaginação saber o que é isto, e na maioria das vezes nada podemos fazer, mas não podemos nos ocultar sob isto. 

Susan Sontag nasceu em 1933 em Nova Iorque, EUA e faleceu em 2004 na mesma cidade. foi uma escritora, crítica de arte e ativista. Recebeu o prêmio National Book Award de 2000 pela ficção e em 2003 o Prêmio Princesa das Astúrias

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

LIVRO: O FEMININO E O SAGRADO - CATHERINE CLÉMENT e JULIA KRISTEVA



Clément, Catherine; Kristeva, Julia. Rocco, 2001
220 páginas
Tradução: Rachel Gutiérrez

Um livro escrito a duas mãos, duas vozes. Catherine Clément e Julia Kristeva através de cartas falam sobre o feminino e o sagrado.

O que é o sagrado para o feminino?

Não é fácil escrever sobre este livro que acabo de reler. Os temas são variados dentro do que ambas consideram como sagrado e nem sempre vai de encontro ao que eu mesma penso sobre isto, mas é muito interessante e enriquecedor. 

Kristeva fala do lado Ocidental, com sua formação psicanalítica e linguística, nasceu na Bulgária e vive na França, já Clément é  francesa, judia e viveu por muitos anos na Índia e África, romancista, estudou filosofia, professora e jornalista, tem uma visão mais antropológica. Elas concordam e discordam, há um momento no livro que se sente um pouco a tensão entre as duas que defendem seus pontos de vista, uma certa agressividade até, para depois se recomporem e continuar. Não há nada de conclusivo e nem era esta a intenção, o que elas fazem é levantar questões e falar sobre elas cada uma de seu ponto de vista e compreensão. 

Kristeva fala da Virgem Maria, das místicas ocidentais, de suas analisandas, da anorexia; Clément das africanas e do transe, sobre as tradições Indus, sobre o pudor e a sujeira. Pessoalmente me sinto mais atraída pela visão de Clément que está falando do que viu, viveu, do que acontece de fato na realidade que ela vive. Kristeva em um dado momento chama de sedução de terceiro mundismo, não gostei desta posição dela. Penso que para falar do sagrado a antropologia está mais habilitada do que a filosofia ou a psicanálise. Mas isto é uma opinião pessoal que não significa que Kristeva também não agrega pontos muito interessantes, principalmente sobre as místicas, as santas, sobre Catarina de Siena. Será ela que depois vai escrever um belíssimo livro sobre Teresa D'Ávila. Mas Clément escreveu a Louca e o Santo junto com um psicanalista hindu. 

Num ponto elas concordam, o sagrado é uma separação, ele separa, classifica, é uma maneira de se sair do profano, do mundano, do cotidiano, e viver algo diferente, recuperar-se, e voltar. O sagrado não é divino, há uma diferença, e por isto mesmo nem sempre está ligado à religião. É uma experiência privada, e o risco de se tornar coletiva é o fundamentalismo, a violência, pelo menos no mundo atual, uma vez que entre os povos ditos "primitivos" os rituais eram coletivos e cumpriam seu papel. As aldeias tinham seu espaço sagrado e era respeitado. No mundo atual para se encontrar um espaço sagrado realmente precisamos da privacidade e penso que se trata de uma experiência pessoal para cada um. O sagrado pode estar numa música, num lugar, na dança. Eu mesma considero minha casa um espaço sagrado e a rua o profano, mas também busco na natureza e na terra esta experiência. 

Catherine Clément 

Julia Kristeva nasceu em 1941 em Sliven, Bulgária 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

LIVRO: ANDANDO EM CÍRCULOS - As pedras milenares e o caminho da tríplice espiral - RICARDO MENDES



Mendes, Ricardo. Axcel Books do Brasil, 2004
163 páginas

Ricardo Mendes esteve no Sul da Inglaterra e na Irlanda visitando os locais onde se encontram as pedra milenares, monumentos megalíticos que foram erguidos há mais de cinco mil anos, antes de qualquer religião.

O livro é uma sequência de fotos destes locais em preto e branco. Ele nos relata a força energética que existe nestes locais e o que podemos sentir ao ir ali e nos deixar levar por isto. O livro é um relato espiritual sobre o seu encontro com as pedras, os círculos, e sua energia.

Nada substitui estar nestes locais, mas se deixar levar para dentro das fotos tiradas por Ricardo já nos proporciona um bem estar e uma visão diferente deste planeta onde vivemos, que como se diz na introdução do livro, é uma pedra flutuante.

Ricardo Mendes 

sábado, 24 de maio de 2014

LIVRO: TU CARREGAS MEU NOME - A herança dos filhos de nazistas notórios - NORBERT & STEPHAM LEBERT


Lebert, Norbert & Stephan. Record, 2004
206 páginas
Tradução: Kristina Michahelles


Um tema tabu, pouco estudado e revelado, e também pouco pensado. Costumamos pensar nas vítimas, na herança psíquica de seus descendentes, os traumas, mas não pensamos no que aconteceu com os filhos dos nazistas, principalmente dos líderes que foram julgados e condenados à morte ou a prisão perpétua ou por muitos anos. O que aconteceu com eles? quais os traumas que carregam, qual o peso deste fardo?

Norbert Lebert, pai de Stephan, um jornalista, em 1959 entrevistou filhos e filhas de nazistas como Rudolf Hess, condenado à prisão perpétua, Martin Bormann, desaparecido, Hermann Göring, condenado à morte e que se suicidou antes, Heinrich Himmler, que se suicidou quando foi capturado, Baldur von Schirach, condenado a 20 anos de prisão e Hans Frank, condenado à morte.

O que era ser portador deste sobrenome? o nome de seu pai que se tornou ou uma vergonha para alguns ou um símbolo de uma glória perdida para outros?

Quarenta anos depois, seu filho, Stephan retomou seu trabalho para saber o que havia acontecido com eles, o que haviam feito de suas vidas e como lidavam com esta herança. Quais as consequências de ser portador deste nome? como isto havia afetado a vida deles, seja para melhor ou para pior.

Não devemos ignorar que estes criminosos eram seus pais, e que se por um lado foram cruéis, sádicos, perversos, autoritários, e levaram a morte milhões de pessoas, por outro, eram bons maridos, bons pais de família, amorosos com seus filhos. Como separar este pai amoroso do pai acusado de crimes tão hediondos? O grande erro é pensar que seres assim são maus com todos, não, eles também tem um lado bom, amoroso, gentil, educado. Isto assusta, pois nos revela que qualquer um pode se transformar num monstro assassino, e realmente é assim. Quantas vezes não ouvimos relatos sobre um psicopata de como ele era um bom vizinho, não incomodava ninguém, era educado? Sim, todos nós carregamos em si mesmo o mau e o bom, depende de vários fatores, como contexto, entorno, situações que surgem para que o gatilho seja ativado ou não.

A Alemanha foi imersa numa ideologia fascista, estava traumatizada com a Primeira Guerra, derrotada, humilhada, e eis que surge um líder, um bom pai, que vem para resolver tudo isto e devolver ao país seu lugar e orgulho. Os comícios, a juventude hitlerista, a mídia, a propaganda, e a ameaça àqueles que não aderiam. Então, o que dizer dos filhos? que eram pequenos na época da guerra, alguns com 03 anos de idade, como poderiam ter consciência do que acontecia? como podem ser responsabilizados pelos atos dos pais? que culpa eles tem? Mas eles são símbolos, são o nome do pai.

Mas a questão é mais profunda. Como lidar com este pai? com este nome? como viver com isto? O filho se identifica com os pais, são seus modelos. Como fazer desaparecer um passado, a infância e a família?

O livro busca algumas respostas. Stephan volta a entrevistar alguns deles e nos traz o relato de 1959 e o atual. O que cada um deles fez.

Wolf-Rüdiger Hess, filho de Rudolf Hess; Martin Bormann filho e Martin Bormann pai, Niklas e Norman Frank, filhos de Hans Frank; Gudrun Himmler, filha de Himmler, Edda Göring, filha de Hermann Göring, os irmãos Von Schirach filhos de Baldur Von Schirach e Karl-Otto Saur filho e pai.

Vários escreveram livros sobre seus pais. Alguns tentam resgatar o nome, outro quer destruir o pai, ainda há o que procura a religião. A negação do que ocorreu, se negar a enxergar para alguns e para outros a maturidade suficiente de enfrentar a realidade. A sacralização do pai ou sua destruição. Alguns se fecham em seu mundo negando tudo, não conseguindo enxergar o que houve, outros procuram formas possíveis de viver, constroem um mundo para poder viver.

"Podemos dizer que os descendentes dos nazistas se situam numa zona fronteiriça entre criminosos e vítimas"

(...) o criminoso se realiza através do seu ato, enquanto a vítima é interrompida em tudo aquilo que ainda quer realizar."

E o que ficou no meio? no liminar? Nenhum deles é culpado ou responsável pelo o que fez seu pai, e todos amavam o pai, mas alguns admitem o horror que o pai fez, provocou, outros não conseguem ver.



Wolf-Rüdiger Hess 









 Martin Bormann filho

Gudrun Himmler

Edda Göring e o pai

karl-Otto Saur filho


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

LIVRO: QUANDO ÉRAMOS ÓRFÃOS - KAZUO ISHIGURO


Ishiguro, Kazuo. Companhia das Letras, 2000
Tradução: José Marcos Macedo
393 páginas
Título Original: When we were orphans

A história é narrada por Christopher Banks quando se encontra na Inglaterra pós-guerra em retrospectiva sobre sua vida. Ele é um famoso detetive que desvendou vários casos que ficaram famosos, porém o mais importante para ele,o desaparecimento de seus pais em Xangai antes da Segunda Guerra, ele foi procrastinando até finalmente tomar a decisão de voltar e resolver também este caso.

A maior parte da narrativa é em Xangai, iniciando com as recordações de Christopher sobre sua infância na Colônia Internacional onde vivia e sua amizade com Akira, um garoto japonês que era seu vizinho. Quando seu pai desapareceu misteriosamente ambos brincavam de ser o inspetor Kung, o responsável pela investigação, e resolviam o mistério. O que não se esperava é que sua mãe também desapareceria.

Após o desaparecimento de seus pais Christopher é levado para a Inglaterra e criado por sua tia.

A força dos registros da infância transparecem o tempo todo no livro. Primeiro Christopher escolhe como profissão ser detetive, mas reluta em ir atrás do mais importante para ele até que finalmente o faz. Volta à Xangai e começa a investigar e é neste momento que todo o trauma da perda de seus pais passa a atuar.

Xangai está cercada pelos japoneses, e quando ele encontra um soldado japonês ferido nos escombros do cortiço onde imagina estarem seus pais ele vê nele Akira. O soldado percebendo que seria sua chance de sobreviver e não ser morto pelos chineses entra no jogo e o leva até onde ele quer ir, a casa indicada pelo inspetor Kung como sendo a única que ele não revistou na época do desaparecimento de seus pais, porém ela está destruída também.

Xangai no tempo de sua infância era dominada pelo comércio do ópio, e sua mãe e o chamado Tio Philip, eram contra isto, e faziam campanha para acabar com o tráfico. Agora Christopher quer se encontrar com o Cobra amarela, que supõe saber o paradeiro de seus pais. Ao final ele terá grandes surpresas quando descobrir finalmente o que aconteceu.

Por mais que Christopher fosse um renomado e excelente detetive quando se trata de si próprio a coisa já não é tão simples, lhe falta objetividade e distanciamento, ele é envolvido em suas emoções e memórias que nem sempre são exatas, se fixam no tempo, faltam pedaços e são registradas segundo a ótica de uma criança, o que lhe dificulta enxergar a realidade do que investiga. Ele parece voltar no tempo quando brincava com Akira de detetive, ignora inclusive que o japonês está seriamente ferido, não percebe que não é Akira, uma vez que em sua mente ele teria que resolver o mistério junto com seu amigo, só assim o conseguiria.

Além da questão do ópio e do poder, o livro passa levemente pela questão dos costumes, e do amor patológico, onde um ego ferido é capaz de vingança.

Quando carregamos um trauma de infância, acabamos passando a vida dirigindo nossas energias psíquicas para isto, na tentativa de solucionar revivemos e buscamos a resposta, como os órfãos de pais desaparecidos, um vazio que se cria. Christopher e Jennifer, a criança que perdeu seus pais e ele adota, retribuindo à vida o que sua tia fez por ele,  passam a vida tentando compreender, e ao fim o que buscam é a paz, o viver um pouco e com pequenos prazeres possíveis.

Kazuo Ishiguro nasceu em 1954 em Nagasaki no Japão, mas emigrou com sua família para a Inglaterra quando tinha seis anos.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

LIVRO: DIA DE FINADOS - CEES NOOTEBOOM


Nooteboom, Cees. Companhia das Letras, 2001
Tradução: José Marcos Macedo
345 páginas

Arthur Daane, um cinegrafista holandês, perdeu sua esposa e filho num acidente aéreo. Sua vida após esta perda trágica passa a ser perambular e ocasionalmente fazer algum trabalho para ganhar algum dinheiro, mas sua principal ocupação é filmar fragmentos, pedaços, tudo aquilo que está ali, mas ninguém vê ou percebe, e faz isto por onde anda Espanha, Holanda, Japão, Estônia e principalmente em Berlim onde se encontra por mais tempo no momento.

É o relato de um solitário, que não supera seu luto, que busca em vão compreender o que é impossível. Berlim é uma cidade onde os mortos também permanecem, estão ali nos escombros, no ar, na culpa que também acompanha os alemães como a ele também. O último instante quando ele registra sua mulher e filho na fila no aeroporto. Ele não estava com eles.

Apesar da solidão tem bons amigos, Erna na Holanda e Victor, Arno e Zenóbia em Berlim, além de outros cinegrafistas com os quais divide apartamentos pelo mundo. Conhece uma mulher, Elik, que também carrega em si um trauma, é uma historiadora, e da mesma forma que Arthur, também uma solitária, só que ao invés de perambular pelo mundo ela se enclausura na história e está fazendo seu doutorado sobre uma rainha da idade média, Urraca.

Temos interrupções no decorrer do livro, são os anjos que tudo vêem, ou o coro, como acontece no teatro grego que nos falam de coisas que cabe a cada um, mas que o outro não pode ver, mas eles vêem tudo ao mesmo tempo. Arthur socorre uma senhora e a deixa no metrô, mas jamais saberá que ela morreu.

O que o impressiona é aquela sensação de estar num lugar onde tantos já estiveram antes, passaram também por ali, falaram algo, e o lugar fica, mas onde estão todos estes? As vozes ficam? os movimentos? Um lugar onde já houve guerra e muitos morreram, e agora está calmo, mas é o mesmo lugar. Como filmar isto? Uma cidade é feita de edifícios e vozes, mas se retiramos as vozes o que sobra?

Ele busca vestígios, não pode esquecer, e não compreende que as coisas passem, que tudo muda, se transforma, mesmo que o lugar seja o mesmo, a transitoriedade de tudo.

Diante de uma foto do Dia de Finados onde as mulheres se encontram, limpam os túmulos, levam flores, fazem isto todos os anos ele começa a compreender que é preciso lembrar para esquecer.

Cees Nooteboom, pseudônimo de Cornelis Johannes Jacobus Maria, nasceu em 1993 em Haia, Holanda.

sábado, 18 de janeiro de 2014

LIVRO: O CANTOR DE TANGO - TOMÁS ELOY MARTÍNEZ



Martínez, Tomás Eloy. Companhia das Letras, 2004
Tradução: Sérgio Molina
221 páginas
Título original: El cantor de tango

Irei a Buenos Aires este ano e como não conheço a cidade fui em busca de algo sobre ela. Nunca fui de ler guias de turismo, prefiro um romance, uma história que me fale do lugar e não podia ter feito melhor escolha pegando o Cantor de tango que estava na minha Biblioteca já faz um tempo aguardando para ser lido.

Foi um mergulho na Buenos Aires, nos lugares, na vida, na sua história, me senti lá, e ao terminar o livro tenho a sensação de já estar vendo a cidade, não a turística, mas o labirinto que é Buenos Aires, assim como seu povo que é este labirinto, pois " que a forma de um labirinto não está nas linhas de seu traçado e sim nos espaços entre essas linhas." E o que temos neste espaço? as pessoas e sua vida.

Bruno chega em Buenos Aires para tentar encontrar um cantor de tango que dizem ser melhor que Gardel, mas que não é conhecido no meio musical uma vez que nunca gravou nada, para completar sua tese sobre Borges e os tangos que segundo este seriam os que eram cantados antigamente nos bordéis e não os que vieram depois e provocaram o desaparecimento dos verdadeiros.

Mas esta busca não será fácil, pois Julio Martel, nome artístico de Estéfano, não é fácil de ser encontrado uma vez que não canta mais em lugares acordados, mas sim nos mais improváveis, como túneis, prédios antigos, em frente ao mercado, sem nenhum anúncio disto.

Acompanhamos Bruno nesta busca que nos leva por Buenos Aires, por seus lugares e sua história, como se estivéssemos num labirinto seja de ruas, seja de histórias que se sobrepõem. Um mapa que não é o da cidade, mas sim dos locais onde ele cantou e que poderia indicar o próximo, mas para isto é preciso saber porque ele cantou em determinado lugar.

Conheceremos então uma Buenos Aires que se assemelha ao tango, que é cantada no tango, na solidão e no amor, na tragédia, na dor, e na esperança.


 Tomás Eloy Martínez nasceu em 1934 em Tucumán, Argentina e faleceu em 2010 em Buenos Aires. Formado em Literatura Espanhola e Latino-americana, foi jornalista e escritor.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

LIVRO: A MULHER E O DESEJO - Muito mais do que a vontade de ser querida - POLLY YOUNG-EISENDRATH


EISENDRATH-YOUNG, Polly. Rocco, 2001
Tradução: Léa Viveiros de Castro
220 páginas
Título original: Women and desire: beyond wanting to be wanted 

Algum tempo atrás eu disse ao meu analista que não queria ser desejada, eu queria ser amada. Como diria Lacan, falei sem saber o que dizia. E justamente o livro começa com uma frase que eu desconhecia de Lacan sobre isto : "as mulheres querem ser desejadas, não amadas." 
A autora inicialmente duvidou se podia aceitar esta afirmação, mas ao longo de seu trabalho como psicanalista ela percebeu que ele tinha razão, que realmente era isto que as mulheres desejavam, mas o que ela não concorda é que isto seja normal e que basta, muito pelo contrário, ela irá questionar isto, e ficara com esta frase a incomodando por muito tempo, até perceber de que apesar de correto, isto não era bom, mas era uma angústia danosa e que provinha da formação feminina em uma sociedade patriarcal, onde se espera que as mulheres agradem aos homens. 
A autora é feminista, e eu pessoalmente apesar de todo meu respeito e admiração pelo movimento que em minha opinião foi um dos mais revolucionários dos últimos tempos na questão de mudanças, prefiro atualmente ter um olhar sobre o feminino e o masculino, que são gêneros e construídos socialmente. E é justamente nesta construção que vamos encontrar esta questão que é muito atual e que apesar da ilusão de que as mulheres conquistaram sua liberdade, ainda estão longe disto, infelizmente. 
Lendo o livro percebi que eu também não poderia me vangloriar de minha declaração ao analista, apesar de ter uma ligeira percepção do que se passava, este querer ser amada ainda me colocava na condição de querer agradar ao outro, de me preocupar com o que o outro pensa de mim. 
E esta é a questão do livro, passar de objeto de desejo para Sujeito do desejo. E muitas vezes nos enganamos ao pensar que temos escolha, por que no fundo nossas escolhas são regidas justamente pelo desejo de ser objeto de desejo, o que nos leva a uma insatisfação e um conflito interno. Achamos que temos escolha quando vamos ao salão de beleza, quando vamos para a academia, quando vamos ao shopping e compramos roupas, mas no fundo estamos atendendo a este desejo de agradar ao outro, o que se formos sujeito de nosso desejo, talvez não seja tão relevante assim usar a roupa certa, estar com as unhas feitas, ou magra. Isto passa a ser uma escolha quando é feita para atender ao que nós desejamos para nós, como nós nos sentimos bem, mas não para que o outro veja e admire, mesmo que admire e seja bom, desde que possamos escolher. 

Young-Eisendrath então percorrerá um caminho através de contos de fadas, mitos e relatos de suas pacientes, além de exemplos próprios para provocar e tentar evitar a armadilha onde a maioria de nós cai. 

Ela usará  os arquétipos da musa e da bruxa megera. A musa que desperta o desejo, que atrai os olhares, que é admirada, e a bruxa megera, quando a mulher ocupa um espaço e é chamada de autoritária, mandona, controladora, nos mostrando como nós ficamos entre estas duas, sentindo vergonha e inibição e o quanto isto afeta nossa vida. Falará também da criança divina e do mito da mãe perfeita, zelosa que cuida dos seus filhos, o que acaba sendo prejudicial tanto para a mulher quanto para o filho até chegar as três patologias que a mulher acaba sofrendo.A patologia do furto em lojas, da compulsão por compras  e da orgia alimentar que pode resultar ou em anorexia ou que engordemos. A autora demonstra como isto é uma forma de poder ter escolha, mas de forma doentia, que surge por não atingirmos o ideal que desejamos para nós, para mascarar dores, para suprir um vazio imenso. O vazio e a dor de não haver construído um sentido para sua própria vida de acordo com uma escolha com autonomia. 

O maior equívoco é confundir ser sujeito de seu desejo com independência financeira ou individualidade. Ser sujeito de seu desejo é soberania, ter autonomia, mesmo que você viva com outra pessoa, que divida as despesas, ou até mesmo seja sustentada por um tempo, mas lembrando que ganhar a vida é um dos passos para a soberania. Grandes executivas, que ganham bem estão presas nesta situação, e mesmo profissionalmente sofrem, por que se afirmam suas idéias, se dão ordens, são chamadas de megeras. 

Parece algo ultrapassado? mas não é, e justamente a questão que mais chama a atenção é a anorexia, a bulimia, o consumismo desenfreado, a tentativa de preencher vazios e solidão comprando, trocando, sem nunca se satisfazer. 

Vale a pena ler o livro. Gosto muito também das psicanalistas junguianas que trabalham com as histórias, contos e mitos para ajudar a falar sobre algo. A angústia é o inefável, e muitas vezes não conseguimos ver ou compreender algo, e uma história pode iluminar e trazer as palavras necessárias, que curam. 

" A soberania pessoal é algo diferente da assertividade, da individualidade, da independência e de fazer as coisas a seu modo. A soberania pessoal ou autonomia consiste em sentir-se livre para escolher e para direcionar suas ações." 


Polly Young-Eisendrath é psicóloga e psicanalista junguiana e clínica em Burlington - Vermont, além de professora-assistente de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Vermon.