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segunda-feira, 8 de junho de 2015

FILME: JE VEUX VOIRE - 2008


Direção: Joana Hadjithomas e Khalil Joreige - 2008
Duração: 68 min
País de origem: França e Líbano
Filmado no Líbano

Em julho de 2006 uma guerra estoura no Líbano, os produtores do filme são pegos de surpresa fora do país e não podem retornar. Para eles e libaneses não é apenas mais uma guerra, mas a que vem quebrar as esperanças de paz e o ânimo das pessoas. Não há mais o que escrever, o que dizer, o que mostrar, então os produtores pensam num encontro, o encontro de Catherine Deneuve com um ator libanes, Rabih Mroué, que após olhar por uma janela para Beirute, se vira e diz: Eu quero ver!

Os atores representam a si mesmos. São apresentados, é Rabih quem conduzirá o carro, irão os dois neste carro, aos poucos vão se conhecendo. No sul de Beirute, a região mais atingida são impedidos de filmar, são bairros controlados pelas milícias xiitas. Vão para o sul, onde a guerra começou visitar a vila natal de Rabih, onde morava sua avó. Chegam e só encontram escombros, tudo destruído, a tal ponto que ele se sente incapaz de encontrar onde ficava a casa de sua avó. Ela olha para tudo isto sem compreender, ele se sente totalmente desamparado. 

Pegam uma estrada que não estava previsto e são impedidos pela equipe de segurança de prosseguir. Há minas espalhadas por todo o território, não podem ir por ali, mesmo que a paisagem seja mais bonita. Os cartazes com os mártires do Hezbollah nos postes a beira da estrada.  

Não se trata de um documentário, é um filme, um filme onde os atores atuam eles mesmos, como eles estão vendo tudo aquilo, o sentimento de cada um. Uma outra forma de mostrar, revelar o que são os destroços de uma guerra. 

Na vila ao sul 

O sul de Beirute 
No final do filme vemos uma outra Beirute, a que não foi atingida e que acompanha a globalização, o mundo, no fundo, as duas faces de uma mesma moeda. 



A guerra do Líbano de 2006 foi um episódio do conflito árabe-israelense, ocorrendo no norte de Israel e sul do Líbano tendo começado em 12 de julho de 2006 após o sequestro de dois espiões israelenses pelo Hezbollah, e envolveu as forças de defesa de Israel e o braço armado do Hezbollah, e em menor grau, o exército libanês. O Líbano passou por uma guerra civil de 1975 à 1990, depois a Primeira Guerra do Líbano em 1982 e esta Segunda Guerra em 2006. 

O filme foi rodado em uma semana. 

Joana Hadjithomas  e Khalil Joreige nasceram em 1969, ambos em Beirute. São casados.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

FILME: EM UM PÁTIO DE PARIS - 2015



Direção: Pierre Salvadori - 2015
Duração: 91 min
Título original:  Dans la cour 
País: França 

Um filme sobre a depressão e outros aspectos da dor de existir da atualidade. Antoine (Gustave Kervern) não consegue mais dormir, deixa a banda onde tocava e procura um novo emprego. Acaba conseguindo como zelador de um prédio em Paris que tem um pátio interno. São poucas as suas obrigações e ele se dá bem. Aos poucos ele vai conhecendo os moradores do prédio.

Ele foi contratado por Matilde (Catherine Deneuve) e seu marido Serge (Féodor Atkine). Ela está aposentada e não se satisfaz com nada, é obsessiva, tem medos e também não consegue dormir. Mas não é apenas ela que tem problemas, aos poucos percebemos que os outros moradores do prédio também tem suas questões. Stéphane (Pio Marmai) coleciona bicicletas e faz uso de drogas. Mr. Maillard (Nicolas Bouchaud) está sempre preocupado com a vida dos outros e em impor o que deseja. E também um vendedor de livros de uma seita  (Oleg Kupchik)  e seu cachorro que vem para dormir no porão. 

É um retrato em tamanho reduzido da sociedade e suas mazelas, a solidão, a falta de sentido, a depressão, as obsessões, pânicos. Eles procuram um sentido para suas vidas, não sabem o que fazer nem como, e as pessoas que os rodeiam não compreendem o que se passa como o marido de Matilde que se irrita, diz que ela está louca e acaba ligando para o médico e vendo inclusive a possibilidade de interná-la. Será Antoine que acabará dando o maior apoio à Matilde procurando compreendê-la, mas ninguém se voltará para ele o que o levará ao desfecho que terá no filme. 

O filme não se aprofunda nas dores de cada um, ficamos sabendo muito pouco sobre cada um, mas justamente o que o filme busca mostrar é o dia a dia de pessoas que estão doentes e como eles agem, pensam, suas dificuldades, levando ao público uma abordagem do que é a depressão e as formas como eles tentam superá-la , mesmo não sabendo como fazer. 

O interessante do filme é que a abordagem apesar de ser rápida e sem muitos esclarecimentos nos mostra justamente o que é a depressão e como agem as pessoas deprimidas, e não há nenhum final feliz de superação. A depressão é algo que tem seu tempo e se por um lado precisa do apoio do outro, da compreensão, também precisa esperar o tempo do doente para que ele consiga sair dela e retomar sua vida. E o que mais me chamou a atenção é que  o filme não aborda o viés psiquiátrico que almeja a cura com anti-depressivos, mas ao contrário, é pelo tempo e a reação de cada um que se sai da depressão, ao invés de camuflá-la com remédios visando a pronta recuperação e obviamente que o sujeito volte a produzir e consumir.
Pierre Salvadori nasceu em 1964 na Tunísia

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FILME: ELA VAI - 2013


Direção: Emmanuelle Bercot - 2013
Duração:  116 min 
Título original: Elle s'en va 
País: França 

Bettie (Catherine Deneuve) tem um pequeno restaurante e vive com sua mãe (Claude Gensac). Ela tem um caso com um homem casado que após muitas promessas que largaria da esposa ele realmente o faz, mas para ficar com uma mulher bem mais jovem. Bettie fica perturbada com isto e larga tudo saindo de carro pela estrada. 

Um dos primeiros encontros dela é com um senhor bem velho, e ali ela se confronta com a velhice e a solidão, o homem nunca se casara e tiveram uma namorada quando jovem que morreu, ele então ficou celibatário cuidando de uma fazenda. De alguma maneira isto afeta Bettie, que teve um grande amor quando jovem e foi eleita miss Bretanha, um depto. da França, e ao ir para o concurso miss França sofre um acidente onde este homem morre. Ela se casou, teve uma filha, Muriel (Camille Dalmais) da qual é distanciada, no fundo não amou o pai dela que acabou morrendo numa cena senão irônica, literalmente trágica, uma vez que ele se engasgou no restaurante onde jantava com sua amante e o médico que o foi socorrer era o marido da mulher, mas também amante de Bettie.



Aos poucos rodando pela estrada ela vai vivendo experiências, situações, até que a filha lhe pede que leve o neto Charly para seu avô, pois ela precisa viajar para um novo emprego. Bettie o faz, e começa uma nova relação com este garoto, do qual também nunca se aproximou, carente de amor e de uma família que se ame.

No início do filme vemos Bettie andando de costas, até o momento em que ela se vira, o rosto ainda muito bonito, mas neste momento focam uma foto de Deneuve jovem, sendo que hoje ela tem mais de 70 anos, e o filme justamente também gira em torno disto, da jovem candidata a miss, de uma beleza estonteante à mulher madura, mas já envelhecida, que se confronta com este estágio da vida. É preciso continuar a viver e querer continuar a ser jovem é perda de tempo, é preciso assumir o que se é e viver este momento. 

Emmanuelle Bercot nasceu em 1967 em Paris, França

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FILME: PRINCESA MARIA - Princesse Marie - 2004



Direção: Benoît Jacquot - 2004
Duração: 190 min 
Título original: Princesse Marie 
País: França 

O filme retrata a relação da Princesa Marie Bonaparte com Sigmund Freud e como ela ajudou para que a família de Freud pudesse fugir de Viena durante a Segunda Guerra e durante seu exílio em Londres.

A Princesa Marie (Catherine Deneuve) é sobrinha-neta de Napoleão e casada com o príncipe Jorge da Grécia. Devido a sua frigidez ela se consultou com Freud (Heinz Bennent). Tornam-se amigos e quando é preciso fugir dos nazistas será ela quem ajudará financeiramente, politicamente e acolherá Freud e sua família em Londres. Ela também será uma referência para Anna Freud (Anne Bennent). 

A Princesa Marie foi a primeira psicanalista francesa e uma das poucas analisadas por Freud. Usará sua fortuna para divulgar a psicanálise na França e fez parte do grupo fundador da Associação Psicanalítica na França.



Benoît Jacquot nasceu em 1947 em Paris, França.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

FILME: TRISTANA - UMA PAIXÃO MÓRBIDA - 1970


Direção: Luis Buñuel - 1970 
Duração: 95 min 
Título original: Tristana una pasion morbosa 
Roteiro: Luis Buñuel e Julio Alejandro
País: Espanha 

Baseado em romance homônimo de Benito Pérez Galdós

Trist(Ana) - triste Ana, um filme que pode ser olhado pelo viés do desejo e do abuso.

Tristana (Catherine Deneuve)  é uma orfã que é entregue aos cuidados de Dom Lope (Fernando Rey). Dom Lope é como um pai, mas é também um homem que não nega seus desejos e acaba tornando sua pupila sua amante.

Um sociedade hipócrita, moralista, católica onde um beijo na rua é um atentado ao pudor. Lope mantém Tristana em casa onde ela sufoca, vai à missa para poder respirar. Sai escondida e um dia conhece um pintor italiano Horácio (Franco Nero) com quem irá fugir, mas retorna dois anos depois doente. É levada a seu pedido para a casa de Lope. Tem sua perna amputada e está amarga e rancorosa, com ódio. Dom Lope dizia que a mulher correta era a que ficava em casa com a perna quebrada.

Tristana acusa Horácio de tê-la levado para lá, que um homem que amasse sua mulher não a levaria para outro. Ele disse que aguardaria até ela se curar, mas ele partiu após sua amputação. Ela se casa com Dom Lope, o padre estava certo, era uma forma de aplacar sua culpa e ser olhada de outra forma pela sociedade. Só que isto não acabou com seu rancor.

Tristana não conseguiu lidar com seu desejo inconsciente, ela desejou Dom Lope, mas não aceitava isto. No início do filme o sonho que se dá com os meninos, o despertar da sexualidade, ela meio que se defendendo, porque tem que ser assim, mas não efetivamente, o jogo da adolescência, do deixar tocar e afastar, eles sobem uma escada nesta brincadeira e quando chegam em cima Tristana vê a cabeça de Dom Lope no badalo do sino. Assustada acorda.

Por outro lado Dom Lope ocupa o lugar de pai, há um incesto aí pois ocupa simbolicamente este lugar apesar de não ser seu pai. Ela se deixa levar por ele, não resiste, entre o asco e o desejo, ela o quer mas não suporta isto.

Este ódio que se volta contra si mesma por ter permitido algo que não se suporta mas se deseja ao mesmo tempo ou contra quem o provoca.  Se ele tivesse se comportado como um pai ela poderia tê-lo amado. Na psicanálise desejamos o pai, mas ele castra a filha levando-a a desejar um outro homem, mas continua a amá-la com carinho paternal, ele não pode ser o objeto de desejo dela que é transferido para outro, e Tristana não o transferiu, apesar de tentar com Horácio, mas ela tem que ficar doente para retornar e ter sua perna amputada para não poder ir embora. Só matando ela vai se livrar disto, vai aplacar seu desejo, simbolicamente ou de fato. Ela não o mata, mas o deixa morrer fingindo ter solicitado socorro médico.


Luis Buñuel nasceu em 1900 em Calanda, Espanha e faleceu em 1983 na Cidade do México, México. Trabalhou com Salvador Dalí . Estudou com os Jesuítas em Saragoça e em 1917 foi para Madri onde conheceu Federico Garcia Lorca e Dalí, depois formou-se em Filosofia e Letras em 1924. Seu filme "Um cão Andaluz" é um marco do cinema surrealista. Com a Guerra Civil na Espanha mudou-se para os Estados Unidos e depois foi para o México naturalizando-se em 1949. Morreu aos 83 anos vítima de câncer.