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domingo, 29 de maio de 2016

FILME: ELE ESTÁ DE VOLTA - 2015



Direção: David Wnendt - 2015 
Duração: 101 min
Título Original: Er ist wieder da 
País de Origem: Alemanha 

Baseado no livro Ele está de volta de Timur Vermes.

Um filme comédia e documentário que todos deveriam assistir.

O ano é 2014 e Hitler (Oliver Masucci) acorda perto de seu bunker em Berlim e tenta entender o que ocorreu ao mundo, para isto se vale de ler todos os jornais numa banca de um jornaleiro que o acolheu. Enquanto isto em uma grande emissora de TV uma mulher toma posse da diretoria e o vice que acreditava que seria promovido se torna seu inimigo. É ele quem demite um cinematógrafo, justamente quem irá encontrar Hitler.  Resolvem então rodar pela Alemanha para que Hitler possa ouvir as pessoas. 

O estarrecedor, ou não, já nem sei, é que as filmagens sobre Hitler falando com pessoas é real, e a reação que as pessoas tem assustam até mesmo o ator. Hitler ouve atentamente o que o povo tem a dizer sobre a Alemanha.   

A emissora de TV lhe dará espaço e o promoverá, tudo por audiência. Até mesmo quando o vice consegue tirar a nova diretora e lhe perguntam se então é a favor de Hitler ele responde - agora eu sou o diretor. Ou seja, a partir deste momento seus princípios, se é que tinha algum, deixam de valer, e o que importa é a audiência. 

O filme mostra claramente o que é a mídia, mas pior que isto, é ver como as pessoas buscam um herói que as livre de tudo aquilo que consideram estranho, diferente, pois uma das principais queixas dos alemães são os emigrantes, apenas trocam os judeus pelos muçulmanos, africanos e outros. 

Hitler sabe que o povo espera este salvador, e sabe fazer uso da propaganda. Interessa-se de imediato pela Televisão e pela internet. Mas também percebe que na TV só passa besteiras, entretenimento, o que evita que as pessoas pensem. As pessoas riem com o personagem Hitler, mas que no filme é o próprio. Hitler sabe que o melhor momento para ele é quando há crise, insatisfação, problemas econômicos. O discurso de salvar o país, a Alemanha para os alemães, recuperar a moral e a tradição, a família. Os alemães que aparecem no filme dizem que é necessário uma experiência nacionalista para que se recuperem os bons costumes, se combata os corruptos, haja emprego. Temas atuais e tão conhecidos nossos também. 

O filme que serviu de alerta para o povo alemão deve servir para outros países também. Há uma tendência para a extrema-direita seja na França, Áustria e outros países, inclusive o Brasil. O que fica visível no filme é a manipulação da mídia e da política, do discurso que vai de encontro ao que deseja o povo. Isto é impactante. O final do filme quando Hitler diz que não adianta matá-lo, que ele está em cada um de nós é uma verdade que é difícil de digerir. Ele lembra então que quem o elegeu foi o povo. 

Após a apresentação dos nomes dos participantes há cenas do mundo atual, que em nada diferem do que foi o fascismo. E o único que se deu conta e resolveu agir, bom este, acaba internado num hospital psiquiátrico.

Temos que ver este filme, pensar, se analisar. O racismo, o sexismo, a violência, o desejo de se livrar do diferente e estranho, a necessidade de que venha um salvador e resolva tudo isto, tudo isto ainda é atual. 

David Wnendt nasceu em 1977 em Gelsenkirchen, Alemanha

terça-feira, 24 de maio de 2016

LIVRO: A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO - Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura - MARIO VARGA LLOSA



Llosa, Mario Vargas. 1ªed. Objetiva, 2013
208 Páginas
Tradução: Ivone Benedetti
Título Original: La civilización del espectáculo

Um livro atual e ao mesmo tempo já sentimos falta de eventos ocorridos no mundo, uma vez que tudo é tão acelerado e o mundo muda a cada dia. 

Llosa faz uma crítica a falta de cultura no mundo atual e refere-se ao que se chama de cultura como entretenimento com intuito de fugir da realidade, de não ter que confrontar nem a si mesmo e menos ainda se engajar em ações em prol do mundo e do outro. É como um narcótico que faz com que as pessoas se desliguem, ao invés de agir, levando ao que toda ditadura sonha, um povo entorpecido e que não reage mais e se torna obediente cuidando de sua família e trabalho sem questionar nada. 

Discordo do conceito de cultura que Llosa utiliza ao se referir criticamente ao que a Antropologia considera cultura dizendo que devido a este relativismo foi possível chegar a situação atual. A Antropologia realmente tem um conceito de cultura que não diferencia o dito "primitivo" de uma cultura civilizada ou superior, considera a todas com real valor e importantes, sendo que nenhuma delas pode ser considerada inferior. Mas Llosa nos fala principalmente da literatura, do cinema, das artes, e neste caso acredito que nos falta então uma palavra, sim tudo isto é cultura, porém para a Antropologia são itens que estão na cultura, que abrange mais do que isto. Aqui eu pensei em erudição, mas ainda não é isto. 

Llosa separa o que ele considera uma cultura das elites de uma cultura mais popular considerando a primeira como a fonte de aprendizado, estudos, conhecimentos e que proporciona a possibilidade de compreender a si mesmo e ao mundo, sem escapar das misérias, da dor, da morte, e que nos ensina a não nos deixar enganar pelas ilusões e engôdos. Somente esta "alta" cultura é capaz de proporcionar isto e não leva ao entorpecimento. 

Realmente, às vezes sinto falta de grandes teóricos, de grandes escritores, de grandes artistas no mundo atual. Recentemente visitei uma exposição de arte moderna e saí dela me perguntando se aquilo era realmente arte, ou o que era aquilo. Quando vejo um pedaço de pedra coberto por massinha de modelar num grande museu eu estranho isto e não consigo compreender e aceitar isto como arte. Parecia que eu estava vendo o resultado da aula de arte ou de lazer de um jardim de infância. 

Mas o livro é extremamente interessante e oportuno para lidar com o que vemos hoje no mundo chamado de cultural. Porém, por sorte, ainda temos muitas produções de alto nível, nem tudo está focado no entretenimento e para escapar da realidade. Apesar de que também considero isto importante, desde que não seja a única opção. Precisamos sim, de vez em quando, escapar de tudo isto e entrar num mundo ilusório.

A crítica que o autor faz a política é importante, e realmente penso que ele tem razão quando diz que hoje homens éticos, interessados no outro, já não se interessam pela política, uma vez que esta mesma está desacreditada e fornece uma visão de algo corrupto, interesseiro, e de muitas mentiras. Principalmente nós que vivemos este momento atual no Brasil, onde se vê claramente um estado de exceção, onde uns são condenados e outros que cometeram o mesmo crime não. Não estou aqui sendo nem de esquerda, nem de direita, mas ética. 

A civilização do espetáculo é real, realmente temos muitos livros, artes e filmes que se enquadram nisto, e a grande maioria da população prefere isto do que ler um grande clássico, ou um filme de arte ou alternativo. Ninguém quer pensar muito, se foge do esforço necessário, da reflexão necessária diante de uma obra de arte. Visita-se os museus para dizer que esteve lá, que viu a exposição tal, e claro, tirar selfs para postar no facebook. Quem atualmente fica horas dentro de um museu admirando cada obra, deixando os efeitos desta surtirem em si mesmo, procurando conhecer o artista e o que ele realmente quis dizer ali e o que nós sentimos? Quem lê atualmente Ulissses de James Joyce, A montanha mágica de Thomas Mann, o Dom Quixote de Cervantes, a Divina Comédia de Dante? Quem assiste a filmes produzidos por cineastas que não pertencem nem a Hollywood e nem ao cinema europeu? Os asiáticos, os africanos? Fiquei impressionada com o filme Timbuktu de Abderrahmane Sissako, mas não encontrei ninguém com quem falar sobre este filme. Ou Winter Sleep de Nuri Bilge Ceylan que ganhou o Palma de Ouro? Sim, este filme é longo, com muitos diálogos, sem ação, sem entretenimento, é feito para refletir sobre a vida, mas belíssimo. Para ver e rever. Mas estes filmes só chegam ao público através de pouquíssimos cinemas, que sempre estão nas capitais e voltados para um público seleto. Inclusive por causa de suas salas vips. 

Por outro lado, sou a favor que todos tenham acesso à cultura, possam ler os grandes clássicos, os bons livros, assistir aos bons filmes, Possibilitar o acesso de todos a isto. Não concordo que tenha que permanecer como algo seleto, da uma minoria, porém, o grande público não se interessa por isto, talvez por já estar domesticado, imbuído da necessidade de prazer, felicidade e sucesso, que nos impõe a ideologia atual. Não se deve sofrer ou ter que enfrentar as questões, tome um anti-depressivo e seja feliz. Mas isto é saudável? ou é uma grande fuga? Esta divisão que Llosa faz com a cultura das elites e a do povo é um tanto divisória, como esquerda e direita, como pobres e ricos, como norte e sul. E não gosto disto, gera discursos de ódio. 

O livro é um grande alerta ao que ocorre atualmente. Não foi dado o acesso a todos à cultura, pelo contrário, foi dado acesso ao mundo da ilusão, de uma arte, literatura, cinema controlado, comercial, que serve para domesticar a todos, levar a inércia diante dos fatos da vida e da fuga a eles. 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

FILME: A ONDA - 2008



Direção: Dennis Gansel - 2008
Duração: 108 min
Título Original: Die Welle
País de Origem: Alemanha


Assisti ao filme A Onda, é um excelente filme para mostrar como o passado retorna mesmo quando se acredita que não irá mais acontecer. Os alunos do Prof. Rainer (Jürgen Vogel) são adolescentes que participam de um projeto da escola cujo tema é Autocracia, governo de um só, ou seja uma ditadura. O exemplo que usam é do nazismo, porém alegam que isto nunca mais acontecerá. Então o professor utiliza de um método diferente fazendo com que eles vivenciem uma situação de autocracia onde ele é o líder. É o suficiente para que os efeitos em um grupo que busca amparo, mudanças, que está enfrentando questões difíceis, no caso deles, de família, de exclusão, de aceitação, de identidade, se unifiquem num só pensamento excluindo os que não aderiram. O líder passa a ser a autoridade e a voz maior, um deus. 

Por outro lado, no filme "Romero" que postei recentemente no blog  isto também acontece, mas o resultado não é um fascismo, um fundamentalismo, mas ao contrário, é a luta pela liberdade, pelo fim da ditadura. Romero consegue dar esperança ao povo que sofre, luta por ele, o defende, e eles passam a acreditar que podem sair da situação em que estão e ter uma vida melhor. Onde estaria a diferença? Provavelmente no líder e na sua necessidade ou não de poder? de domínio ou não? 
Esta situação se repete a cada vez que haja pessoas com medo, com questões difíceis e que buscam alguém que as salve ou lhes traga respostas e alternativas, elas irão seguir este líder, irão agir com um só em relação à ele. Por isto uma das formas que as ditaduras possuem de desmantelar um espírito de grupo, de união e identificação deixando as pessoas temerosas e sem rumo, é justamente lhes proibindo associações e até mesmo a religião, ou fazendo o contrário como o nazismo fez, trazendo a todos para junto do líder seguindo suas idéias. 


O filme se passa numa escola na Alemanha, o grupo se denomina "A Onda", usam uniforme e tem até uma saudação. Somente uma aluna percebe o perigo e se opõe, mas não é ouvida e dizem que ela age assim por que não fazem o que ela deseja. O professor acaba perdendo o controle da situação o que leva a um desfecho trágico e ele não consegue mais conter o grupo. 

Dennis Gansel nasceu em 1973 em Hanôver, Alemanha

sábado, 14 de maio de 2016

FILME: ROMERO - 1989



Direção: John Duigan - 1989
Duração: 102 min
País de Origem: Estados Unidos

O filme Romero nos mostra a situação de El Salvador em 1977 frente a uma crise de poder em um país onde o povo vive na miséria. A igreja se mantém distante alegando que é a vontade de Deus, o que gera o conformismo e a alienação, conforme Marx já nos alertava. Porém alguns padres não concordam com isto e se aliam ao povo acreditando que seria o que Jesus teria feito e alegando que no fundo a Bíblia é revolucionária. A situação piora, os militares ganham a eleição, como ocorreu em vários países da América Latina neste período, e passam a eliminar os que se opõem a eles, baseando-se supostamente na lei e na ordem a serem mantidas e na garantia da perpetuação do capitalismo, que beneficia os ricos e mantém o povo na pobreza. Romero (Raul Julia) que no início era visto como o padre certo para ser o arcebispo devido sua pacificidade, diante do que vê começa a repensar sua posição e começa a lutar pelo povo seguindo o preceito que a fé exige que se mergulhe no mundo e que a igreja se identifica com os pobres. Acaba assassinado em 24 de março de 1980. 
Esta é uma situação que se repetiu em outros lugares, no Brasil temos vários padres que também lutaram contra a ditadura ajudando ao povo, aos familiares dos desaparecidos, falando em nome da paz e do amor.

Romero vivia voltado para a reflexão, leituras, e acreditava na paz, porém ao entrar em contato com a realidade de eu país e dos pobres que sofriam, ao perder para a ditadura amigos como o Padre Rutílio Grande (Richard Jordan) assassinado, ver outros serem torturados, ele começa a mudar sua posição e a lutar contra o governo militar. 

A situação de El Salvador é a mesma de inúmeros outros lugares que passaram e passam por um regime ditatorial, porém adepto do capitalismo. A aristocracia almeja viver como os americanos e para isto explora os pobres. Romero acredita que a igreja se identifica com os pobres, diz que a fé exige que se mergulhe no mundo, se torna um adepto da teologia da libertação. 

Sou a favor de um Estado laico até mesmo para ser justo com todos os que vivem no país garantindo a liberdade de cada um por optar ou não por uma religião. Porém a igreja não precisa ficar isenta do que se passa no país, deve defender aquele que está desamparado, com medo e que busca um apoio, um consolo por sua situação e uma luz para sair de sua atual situação.

Diante disto se pode dizer então que a igreja não pode estar separada do Estado e deve intervir, mas podemos também pensar que a igreja em seu papel espiritual e formadora de sentidos deve acolher as pessoas diante de suas dificuldades, dores, desespero, medo, mortes, pobreza, sem com isto se imbuir na política, mas sim, agindo ao lado do povo, uma vez que a igreja se identifica com os pobres seguindo o exemplo de Jesus, neste caso específico por se tratar da igreja católica no filme.
  


John Duigan nasceu em 1949 em Hartley Wintney, Reino Unido. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

LIVRO: MINHA PARIS MINHA MEMÓRIA - EDGAR MORIN



Morin, Edgar. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
224 páginas
Tradução: Clóvis Marques
Título Original: Mon Paris, Ma Mémoire

Neste livro Morin nos traz uma autobiografia de sua vida através dos endereços onde morou em Paris, uma vez que foi nesta cidade que ele viveu seus momentos mais importantes, confundindo suas memórias com as da cidade e todos os eventos ocorridos ao longo dos anos, desde seu nascimento até os dias atuais. 

Mas Morin não nos fala apenas sobre eventos públicos, mas principalmente sobre ele mesmo diante destes acontecimentos, assim como sobre o que ocorria em sua vida pessoal. Sua infância, sua adolescência, seus amores, sua vida acadêmica, seus aprendizados com a vida e suas lutas.

Lendo as memórias de Morin nos damos conta de como ele formou seu pensamento complexo. Ele nos relata a história de seu país e de sua cidade através de sua história passando pela Resistência durante a Segunda Guerra, sua adesão ao comunismo e depois sua saída, suas amizades, e  me interessei especialmente pela amizade com Marguerite Duras.

Morin é também um grande cinéfilo e no livro nos fala dos principais filmes que marcaram sua vida. Agora o mais impressionante é seu desejo de viver, e mesmo agora, nonagenário continua ativo e vivendo o que o mundo oferece de bom e de ruim, sempre aprendendo e buscando compreender.

Este livro nasceu de seu desejo de escrever sobre Paris como palco de suas memórias após pronunciar o discurso de agradecimento ao receber em 05 de junho de 2012 das mãos do Prefeito Bertrand Delanoë a Médaille de Vermeil de la Ville de Paris.

Edgar Morin nasceu em 1921 em Paris, França.

domingo, 26 de julho de 2015

FILME: OS MEUS BONS CONTERRÂNEOS - 1969



Direção: Vojtech Jasny - 1969
Duração: 120 min
Título Original: Vsichni dobrí rodáci
País: República Tcheca

Uma pequena aldeia na Morávia, antiga Tchecoslováquia, em 1948 após o fim da Segunda Guerra Mundial vemos sete amigos cuidando de suas vidas e se encontrando sempre para beber , cantar e tocar música, numa relação boa, de fraternidade. Aos poucos somos apresentados a cada um deles. Tudo estaria perfeito não fosse que agora que os nazistas se foram aparecem os soviéticos e o socialismo que acabará por dividir estes amigos, sendo que alguns ficarão ao lado de Frantiek (Radoslav Brzobohatý) que fará oposição ao regime político.



Um filme sobre a realidade do socialismo muito longe de sua utopia e teoria e de como o ser humano, independentemente do regime político se deixa corromper pelo poder. Mas nada dura para sempre, e as situações se invertem.



Fico pensando que muitos países do norte Europeu sofreram com a Segunda Guerra, mas após seu fim retomaram sua liberdade política, o que não ocorreu no leste e este filme retrata justamente isto, um local pacato, pequeno, que sofre as consequências de outro regime político. Gostei muito do filme e também do fato de trabalhar com os aldeões , alguns já bem idosos, retratando como funciona a vida nestes lugares pequenos e rurais, e por outro  lado mostrando como se obriga uma pessoa a fazer o que não deseja, mesmo com toda lealdade que sentem por Frantiek o medo muitas vezes é maior. O que era uma aldeia pacífica e o que eram amigos unidos pelo afeto se transforma e se perdem os laços entre as pessoas, em função de um regime político.

Assista um trecho:



Votjtech Jasny nasceu em 1925 em Kelc, República Tcheca 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

FILME: A FITA BRANCA - 2009


Direção; Michael Haneke - 2009 
Duração: 144 min. 
Título original: Das Weisse Band 
Roteiro: Michael Haneke
País: Alemanha - França 

Venceu o Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2009 e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. 

1913 - uma aldeia no norte da Alemanha um pouco antes da Primeira Guerra Mundial. O filme é em preto e branco. Começam a ocorrer estranhos eventos no local, acidentes que não são explicados e nem se descobre o autor ou autores. O primeiro que sofre uma acidente é o doutor (Rainer Bock) que cai de seu cavalo devido um fio de arame estendido por onde ele passava. Depois temos a horta do barão (Ulrich Tukur) que é destruída durante a comemoração da colheita. Uma mulher morre ao cair num buraco numa sessaria do barão. A próxima vítima é o filho do Barão que é torturado. Um incêndio num celeiro e novamente uma criança com problemas mentais é torturada. Em todos estes episódios temos sempre um grupo de crianças por perto que parecem se preocupar e querer ajudar.

O professor (Christian Friedel) forma um coral com estas crianças. O pastor (Burghart KlaBner) as prepara para a crisma.



Aos poucos vamos tendo a noção de como estas crianças são educadas, e de como se comportam estes pais e mestres. A rigidez, a moral, a disciplina, a frieza. Vemos pouca alegria nas crianças, elas não brincam alegremente, não sorriem, não podem gritar, cantar, correr. Duas cenas são tocantes. A primeira é quando um pequeno menino filho do doutor pergunta à sua irmã sobre a morte e finalmente compreende que sua mãe não foi viajar, mas morreu. A segunda é quando o filho do pastor lhe pede para cuidar de um pequeno pássaro machucado e tem que enfrentar um interrogatório seco sobre a responsabilidade deste ato até que consegue permissão para isto, e depois, como o passarinho de seu pai foi morto pela sua irmã como vingança, ele o oferece ao pai. Há tanta singeleza em seu ato, seu olhar, e o pai apenas o agradece, sem nenhuma demonstração de afeto ou amor.



A sexualidade reprimida. O garoto, filho do pastor que se masturba e tem as mãos atadas a noite para poder controlar seu corpo e não acabar morto como outro pobre garoto que fez isto. As traições e escapadas sexuais dos adultos, o desprezo, a crueldade do doutor ao dizer à parteira que não a quer mais como parceira sexual, dizendo-lhe que ela o enoja. O mesmo doutor que obriga sua filha Ana a relações incestuosas com ele. Enquanto que o professor tem que esperar um ano para poder se casar com Eva, e a timidez dela com ele, até para pegar em sua mão.

O menino deficiente filho da parteira que é desprezado pelas outras crianças, mas porque então quando ele sofre a tortura elas se preocupam com ele? As surras, castigos, os preconceitos, as diferenças sociais. Mas, por baixo de tudo isto os adultos contradizem tudo agindo de outra forma.

A fita branca que é utilizada pelo pastor para lembrar aos seus filhos de não pecar, almejando a pureza. As surras que são consideras uma purificação. O efeito é o oposto, aos poucos as crianças que não podem ser crianças, inocentes, alegres, brincalhonas, que não recebem respostas para suas perguntas, vão se moldando ao que vêem, e se tornam frias e cruéis. Em uma cena o pequeno filho do barão tem uma flauta, o outro tenta fazer uma com um galho de árvore, não consegue, então ele pega a do menino que não quer lhe dar, acaba por empurrá-lo na água do rio, ele não volta à tona, ele não se mexe para ajudar, é preciso que o outro pule na água para pegar o menino. Isto não é nada parecido com brigas comuns entre crianças que desejam o que o outro tem, há maldade, há indiferença, há crueldade. Brigar, empurrar ainda é comum, mas deixar a criança se afogar olhando sem se mover, é outra história.

As crianças julgam seus pais e mestres que os castigam, obrigam a uma obediência e disciplina sádica, perversa, mas se comportam de maneira totalmente diferente. A cena onde o pequeno abre a porta e vê seu pai e sua irmã, o olhar dele....

De um lado a obediência, a honra, a moral, do outro a agressão e repressão. O pai diz que dói mais nele bater nos filhos do que doerá neles. Mas em momento algum este pai demonstra amor, afeto, carinho.



As bases que se criam numa sociedade para que se possa vir um totalitarismo, uma ideologia que leva a atos cruéis, como ocorreu com o fascismo, o nazismo, ou até mesmo as religiões extremistas e fanáticas.


Assista ao trailer:


Michael Haneke 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

FILME: BARBARA - 2012


Direção: Christian Petzold - 2012
Duração: 105 min 
Roteiro: Christian Petzold e Harun Farocki
País: Alemanha

Barbara (Nina Hoss) é uma cirurgiã pediátrica em um hospital a leste de Berlim que em 1980 estava dividida pelo murro, sendo que seu namorado está do lado oeste. Ela é transferida para uma pequena clínica no interior por suspeita pelas autoridades de que está se preparando para fugir e ir ao encontro do namorado. Na clínica conhece André (Ronald Zehrfeld) que é seu chefe e responsável por sua permanência ali. Será que ela pode confiar nele?

O filme mostra o outro lado do murro, de como os suspeitos de desejarem fugir são tratados de forma humilhante pelas autoridades. Senti um incomodo forte ao ver as revistas em seu corpo feitas sem o menor escrúpulo para ver se ela escondia algo e a sua sujeição obrigatória a isto. Também há campos de reeducação, e uma das detentas é levada para a clínica e Barbara se afeiçoa à ela.

Ela se arriscará e muito, indo de bicicleta a todos os lugares, e se encontrando clandestinamente com seu namorado até que a fuga esteja planejada e marcada.

Um retrato da paranoia da Alemanha Oriental e comunista. Barbara fica obcecada pelo medo de estar sendo vigiada o que a impede de aceitar a amizade de André, pois desconfia que ele a está vigiando. O filme é seco, cru, sem muitas cores e nos transmite realmente a sensação de mal estar, de estar constantemente sob o olhar do outro.



Christian Petzold nasceu em 1960 em Hilden, Alemanha. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

FILME: UM SKINHEAD NO DIVÃ - 1992



Direção: Suzanne Osten e Niklas Radström - 1992 
Duração: 83 min
Título original: Tala! Det är sa mörkt // Speak up! it's so dark 
País: Suécia 


O filme é uma reflexão sobre a onda neonazista que assola a Europa nos anos 90.


Jacob (Etienne Glaser) é um psicanalista judeu cuja família morreu em Auchswitz, sendo que ele e a mãe conseguiram sobreviver por fugirem para a Suécia. Sören (Simon Norrthon) é um jovem skinhead que Jacob socorre após uma manifestação. Ele resolve então oferecer sua escuta ao jovem.

As sessões entre os dois se transforma numa reflexão sobre os aspectos políticos e psicológicos do racismo. Aos poucos vai se delineando os aspectos do indivíduo que adere aos grupos, e este aspecto ao meu ver é o brilhante do filme, pois em grupo somos capazes de fazer coisas que jamais faríamos sozinhos, e analisar o grupo é diferente das motivações pessoais.

Vamos descobrindo como era o pai e mãe deste jovem que sente tanto ódio. A mãe é super protetora e se nega a enxergar o óbvio, diz que os cartazes nazistas no quarto do filho são apenas decoração. O pai é ausente e violento, e dentro de seu individualismo diz que os problemas do filho são dele, mas durante a infância deste sempre abusou de sua força com o garoto. O grupo ao qual ele pertence que são mostrados entre as sessões, são todos bêbados, violentos, sem nenhuma razão de ser. Sörer admira o nazismo, afirma que Auschwitz é uma invenção dos judeus e a compara com Hollywood. Ao invés de namorar, ele direciona seu desejo sexual para o ódio e a violência. Sua mãe em nada ajuda para que ele se interesse por mulheres, pois prefere ter o filho com ela, ou deseja que volte a ser assim.

O psicanalista também se confronta com suas questões, ele é um imigrante, que fez da Suécia seu lar, mas é judeu e apesar de possuir a cidadania, não nasceu ali. Ele também sentiu muito medo quando criança, é um sobrevivente. Mas ele não teme o confronto com o jovem, e se propõe a compreender a alguém que age como os que mataram sua família. Para isto além das sessões ele irá também adentrando o universo de Sören.

Jacob diz que por baixo do ódio está a dor, e embaixo desta o medo.

Há um medo que se generaliza, de um lado eles tem medo dos emigrantes, que se apossem de seu país, os consideram culpados por todos os problemas que ocorrem, e estes temem os ataques dos Skinheads. E ao invés de considerá-los uns loucos que precisam ser combatidos o que Jacob se propõe é a compreender o porque disto, e para isto apesar do medo não irá demonstrá-lo e não se deixará intimidar mesmo diante das ameaças do outro. E este ponto é importante, pois como dirá Sören no filme, eles precisam do medo do outro para serem fortes e poderem agir.



Niklas Radstrom nasceu em 1953 em Estocolmo, Suécia. 

Suzanne Osten nasceu em 1944 em Estocolmo, Suécia.