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sábado, 11 de abril de 2026

UMA VIDA CONTADA COM A MESMA IRREVERÊNCIA DE SUAS MÚSICAS


 

RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA

RITA LEE

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2016

296 páginas


Adorei ler esta autobiografia. Rita Lee fez parte da minha adolescência e cheguei a assistir um show dela - O Fruto Proibido.

No livro, ela conta sua vida sem rodeios ou subterfúgios. Fala abertamente de sua dependência alcóolica, de sua rebeldia, de sua forte ligação com a família, de seu período durante a ditadura e da censura que atingiu suas músicas.

Também aparece com força seu amor pelos animais e sua personalidade irreverente, que marcou sua trajetória artística e pessoal.


Rita Lee nasceu em São Paulo, em 1947 e faleceu na mesma localidade em 2023. Foi uma cantora, compositora, escritora e ativista brasileira. 


domingo, 29 de março de 2026

ESCREVER COMO RESISTÊNCIA

 

DIÁRIOS DE RAQQA

A história real do estudante que desafiou o Estado Islâmico, foi jurado de morte e conseguiu fugir de uma cidade sitiada

SAMER

GLOBO CLUBE - 1ª ED. – 2017

112 páginas

É um livro bem curto, mas de uma densidade imensa. Comecei a ler e não larguei até terminar.

 Um jovem de 24 anos que vive em Raqqa, na Síria, de repente vê o Daesh - mais conhecido por Estado Islâmico - invadir sua cidade. A partir desse momento, o que já não estava bom, em função da guerra civil síria contra o ditador Assad, torna-se mil vezes pior. o Daesh impõe a sharia - ou aquilo que eles consideram ser a sharia - e executam todos os que não lhes obedecem.

Além disso, exploram um povo já empobrecido ao extremo, literalmente roubando o pouco que lhes restava por meio de taxas e multas que eles próprios inventam.

Samer, pseudônimo do autor, relata o dia a dia dessa vida sob terror. Recorda também os bons momentos de antes, enquanto vive permanentemente no medo e na insegurança.

Como se não bastasse, os russos bombardeiam a cidade. É em um desses ataques que ele perde o pai, quando sua casa é atingida. A mãe passa a viver desesperada com o que possa acontecer ao filho, sobretudo porque ele, quando estudante na universidade, participou dos movimentos rebeldes.

Quando Samer descobre que foi jurado de morte pelo Estado Islâmico, finalmente reúne coragem para deixar tudo e todos para trás e consegue fugir.

Mas enquanto esteve lá, arriscou-se ao máximo. Queria que o Ocidente e outros países soubessem o que estava acontecendo em Raqqa, na esperança de uma ajuda que nunca veio. Ele conseguiu transmitir seu diário para fora do país, e o material chegou à BBC. Se fosse descoberto, teria sido imediatamente morto.

São esses relatos que compõem este livro.


Samer é um pseudônimo de um jovem que conseguiu escapar de Raqqa. Atualmente ele vive em um campo de refugiados.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TESTEMUNHAR A CATÁSTROFE

 

HAITI, DEPOIS DO INFERNO: MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER NO MAIOR TERREMOTO DO SÉCULO

RODRIGO ALVAREZ

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2010

120 páginas

Em Haiti, depois do inferno: memórias de um repórter no maior terremoto do século, o jornalista Rodrigo N. Alvarez constrói um relato marcado pela experiência direta do horror. O livro nasce do que foi visto, vivido e sentido durante o terremoto de 2010, que atingiu de forma devastadora o Haiti, especialmente a capital Porto Príncipe, deixando milhares de mortos, feridos e desabrigados, em um cenário de escassez extrema de água, comida e socorro imediato.

A narrativa é atravessada por imagens de destruição absoluta, mas também por uma dimensão humana intensa: corpos sob os escombros, pessoas vagando sem destino, o desespero coletivo e a sensação de abandono. Alvarez escreve como repórter, mas também como alguém afetado profundamente pela tragédia, o que confere ao texto uma força testemunhal que ultrapassa a simples descrição factual.

O livro, porém, não se limita ao acontecimento sísmico. O autor amplia o olhar ao contextualizar a catástrofe dentro da história do Haiti, marcada por séculos de exploração colonial, primeiro sob domínio francês e depois sob forte interferência dos Estados Unidos. Ao retomar esse passado, Alvarez evidencia como o terremoto não atua sozinho: ele incide sobre um país já fragilizado por dívidas impostas, intervenções estrangeiras, pobreza estrutural e sucessivos processos de despossessão.

Nesse sentido, a tragédia natural revela também uma tragédia política. O modo como os Estados Unidos e a comunidade internacional atuam durante o desastre expõe relações de poder assimétricas, interesses geopolíticos e limites evidentes da chamada “ajuda humanitária”. O sofrimento haitiano aparece, assim, como resultado de uma longa história de violência colonial que não se encerra com o fim formal da dominação.

Curto e direto, o livro não pretende esgotar a complexidade do Haiti, mas cumpre um papel importante: introduz o leitor à história do país e às camadas profundas que tornam uma catástrofe natural ainda mais devastadora. É uma leitura rápida, mas incômoda, que nos obriga a confrontar a desigualdade global e a lembrar que desastres nunca são apenas naturais. Vale a leitura, sobretudo como exercício de memória, consciência histórica e responsabilidade ética.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

VIOLÊNCIA, TERRA E RESISTÊNCIA NO BRASIL PROFUNDO


 A DÁDIVA MAIOR

A vida e a morte corajosa da Irmã Dorothy Stang

BINKA LE BRETON

GLOBO – 2008

248 páginas 

A Amazônia — esta floresta tropical de dimensão continental que abrange Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso e Amapá, estendendo-se ainda pelo Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela e Guianas — aparece neste livro não como paisagem exótica, mas como território em disputa. Um espaço violentado por grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais, protegido por pistoleiros, enquanto, do outro lado, resistem posseiros, assentados, ribeirinhos e povos indígenas. Muitos acabam mortos, expulsos ou escravizados pela exploração do trabalho. É essa realidade brutal que atravessa a narrativa sobre a vida e o assassinato de Dorothy Stang.

Binka Le Breton reconstrói a trajetória dessa mulher extraordinária com precisão e sensibilidade. Dorothy surge como alguém profundamente indignada diante da crueldade e da devastação, mas também como uma figura prática, obstinada, que acreditava que educação é uma forma de libertação. Ensinar a ler, escrever, compreender direitos,  isso, mais do que discursos, ameaçava os poderosos. Não por acaso, escolas de taipa e telhado de palha erguidas pelas comunidades eram incendiadas, repetidas vezes, como aviso.

O livro também evidencia as sucessivas ondas de migração estimuladas pelo governo militar em nome do “desenvolvimento” da Amazônia. Famílias inteiras eram atraídas para a região com promessas vagas e, uma vez lá, ficavam abandonadas: sem terra regularizada, sem infraestrutura, sem proteção. Dorothy abraça a causa dessas pessoas e passa a lutar junto à justiça e ao Incra para que pudessem ao menos garantir um pequeno pedaço de terra para morar, plantar e sobreviver.

Essa luta, no entanto, confrontava diretamente os interesses dos grandes fazendeiros. Eles não queriam convivência, nem reforma agrária, nem justiça social, queriam a terra. Terras públicas apropriadas ilegalmente, transformadas em propriedade privada por meio de violência e de conchavos políticos. Desmata-se tudo, planta-se uma ou duas vezes até o solo virar areia, e depois transforma-se o território em pasto para bois, sob o discurso da “produtividade”.

Contra essa lógica predatória, Dorothy propunha um modelo de agrofloresta: plantar mantendo a floresta viva. Um projeto simples, sustentável e profundamente subversivo, porque colocava em xeque o modelo econômico dominante. Ela incomodava porque orientava, esclarecia, organizava. Porque caminhava ao lado dos mais pobres e não aceitava o silêncio como forma de sobrevivência.

Seu assassinato, brutal e anunciado, é apresentado no livro não como um fim, mas como um ponto de inflexão. Dorothy Stang foi morta porque ousou permanecer. O Brasil retratado aqui, e que infelizmente ainda persiste, é o país que mais mata ambientalistas no mundo. Os executores foram presos; os mandantes, embora identificados, jamais punidos.

O que eles não previram é que sua morte se tornaria semente. Em vez de silenciar a luta, fortaleceu-a. A Dádiva Maior é, assim, mais do que uma biografia: é um testemunho incômodo sobre o Brasil profundo, sobre a violência estrutural no campo e sobre o preço pago por aqueles — e sobretudo aquelas — que ousam defender a vida onde só se reconhece lucro.


Binka Le Breton nasceu em Wiltshire, Reino Unido. É uma escritora britânica. 


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

APÁTRIDAS, FRONTEIRAS E A VIOLÊNCIA DA INVISIBILIDADE

 

MAHA MAMO: A luta de uma apátrida pelo direito de existir

MAHA MAMO E DARCIO OLIVEIRA

GLOBO LIVROS – 1ª – 2020

272 páginas 


Esta biografia retrata a vida de Maha Mamo, uma mulher apátrida que, ao conseguir vir para o Brasil como refugiada, alcançou finalmente o direito à cidadania brasileira, assim como sua irmã. Trata-se de um livro que nos obriga a encarar uma condição muitas vezes invisibilizada: a de existir sem pertencer oficialmente a lugar algum.

Hoje, Maha Mamo é ativista na luta pelos direitos das pessoas apátridas, e elas são muitas no mundo. Mas o que significa, concretamente, não ter cidadania? No livro, Mamo narra como essa condição atravessou sua vida, a de sua irmã e a de seu irmão — este, infelizmente, vítima da violência no Brasil, assassinado em um assalto em Belo Horizonte. Ainda assim, mesmo diante dessa dor imensa, Maha e sua irmã não deixam de expressar profunda gratidão ao Brasil e às pessoas que as acolheram e ajudaram.

Seus pais eram sírios, mas o pai era cristão e a mãe muçulmana, uma união proibida na Síria. Para poderem se casar, fugiram para o Líbano, onde tiveram três filhos. O problema é que o Líbano reconhece a nacionalidade apenas pelo sangue paterno; como o pai era sírio, os filhos não obtiveram a cidadania libanesa. Diferentemente do Brasil, onde vigora o princípio do jus soli — o direito à cidadania para quem nasce em território nacional —, Maha e seus irmãos cresceram sem qualquer nacionalidade reconhecida.

As consequências dessa condição são devastadoras: pessoas apátridas não conseguem estudar, não têm acesso pleno à saúde, não podem tirar carteira de habilitação, não podem sair do país por falta de documentos e, quando conseguem trabalhar, ficam restritas a empregos precários. São pessoas vivas, que existem, mas que não existem oficialmente.

O livro também nos faz refletir sobre uma realidade brasileira pouco discutida: a de pessoas que nasceram no país, têm direito à cidadania, mas não possuem certidão de nascimento — seja por negligência, pobreza, isolamento geográfico ou outras razões. Sem esse documento básico, a exclusão se instala desde o início da vida.

Maha Mamo segue sua luta junto ao ACNUR, órgão da ONU responsável por refugiados, realizando palestras em órgãos governamentais e empresas, dando visibilidade a uma causa urgente. Conhecer a situação das pessoas apátridas é fundamental — especialmente em um mundo marcado pelo aumento dos deslocamentos forçados e das crises humanitárias.

Um livro necessário, que nos lembra que o direito de existir não deveria depender de fronteiras, religiões ou burocracias.


              Maha Mamo nasceu em Beirute, Líbano, em 1988. É um ativista de direitos humanos.


                                                   Darcio Oliveira é um jornalista brasileiro.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

LIVRO: A HORA DA HISTÓRIA - THRITY UMRIGAR




Umrigar, Thrity. 1ª ed. Globo Livros, 2015
333 páginas
Tradução: Amanda Orlando
Título Original: The Story Hour

Trata-se da história do encontro entre Maggie, uma psicanalista e Lakshmi, uma jovem indiana que tentou o suicídio. Para liberar Lakshmi do hospital, Maggie convence o marido desta a permitir que ela faça análise.

É deste encontro entre duas pessoas tão diferentes, mas ao mesmo tempo parecidas que se tece a Hora da História. Sobre as dificuldades de ser um estrangeiro, um imigrante ou de outra cultura num país. Maggie é negra e casada com um indiano, mas tem uma boa situação financeira. Lakshmi veio para os Estados Unidos por causa do marido, mas é sozinha, não tem amigos, e sente falta da família e de seus costumes. 

Maggie por sua vez, apesar de ser casada com um homem que a ama, gentil, atencioso, também sente falta de algo e acaba se envolvendo com Peter, um fotógrafo free lancer que vive viajando pelo mundo e jamais ficaria ao lado dela para sempre, e mesmo assim Maggie arrisca seu casamento. 

Uma história que aborda de maneira leve o conflito dos que estão em outro país e se sentem excluídos, não aceitos, e sentem falta de reconhecimento. Mas também sobre os conflitos das relações humanas e dos casamentos. 

Thrity Umrigar nasceu em Bombaim, Índia