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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

LIVRO: DIANTE DA DOR DOS OUTROS - SUSAN SONTAG


Sontag, Susan. Companhia das Letras, 2003
107 páginas
Tradução: Rubens Figueiredo
Título Original: Regarding the pain of others

Trata-se de um ensaio sobre a questão da fotografia sobre temas que chocam, fotos de guerra,conflitos, e sobre a questão ética e efeitos de suas publicações. 

Sontag nos traz um percurso histórico desde o tempo dos desenhos como Goya em relação a invasão da Espanha pelos franceses até os dias atuais. Os primeiros fotógrafos de guerra, as fotos tiradas no local e as que são encenadas. Ela se questiona qual seria a função e a necessidade de mostrar ao público estas fotos. 

Com a recente publicação da foto do garotinho sírio morto numa praia que foi veiculada em todos os jornais e redes sociais, é uma questão importante. Sontag levanta a questão também do direito da família, mas sem deixar de frisar que estas questões normalmente surgem quando se trata de alguém branco e ocidental, por que ninguém questiona isto quando se trata de uma foto de uma menina morrendo de fome na Etiópia, por exemplo. 

Como reagimos diante da dor do outro? estaremos realmente insensibilizados devido ao excesso de veiculação de imagens? ou as imagens ainda podem chocar e levar a ação? A foto das crianças fugindo de uma aldeia no Vietnã resultou num protesto maior contra esta guerra e acelerou seu final. 

Eu pessoalmente acho que é necessário que a verdade surja, que seja veiculada, para nos tirar do comodismo, apesar de que sei que quando se está em segurança o efeito não é o mesmo do que para aquele que está vendo ou vivendo o que a foto nos traz. Mas o ocultamento dos fatos também não é bom. Por outro lado um dos pontos é que muitas vezes mudamos de canal ou deletamos a foto porque não podemos fazer nada a respeito. O que eu não concordo é que nos ocultemos sob a ilusão de que isto primeiro só acontece lá longe, e segundo que ignoremos estes fatos tristes e dolorosos. Concordo que provavelmente a foto não traga grandes mudanças, mas eticamente falando, você já não pode se desresponsabilizar sob a ignorância do fato. 

A foto do pequeno sírio resultou em vários protestos na Europa para que os países acolhessem os emigrados, refugiados. 

Um outro ponto importante levantado por Sontag é a questão do reconhecimento pelo outro da dor que se sente. Quem sofre quer ser reconhecido, e não consolado pelo fato de outro sofrer tanto ou mais que ele, precisa do crédito disto pelo outro. Que seu sofrimento não seja banalizado, exemplificado, mas visto e reconhecido. 

Quem não está numa guerra e nunca passou por ela não consegue nem mesmo pela imaginação saber o que é isto, e na maioria das vezes nada podemos fazer, mas não podemos nos ocultar sob isto. 

Susan Sontag nasceu em 1933 em Nova Iorque, EUA e faleceu em 2004 na mesma cidade. foi uma escritora, crítica de arte e ativista. Recebeu o prêmio National Book Award de 2000 pela ficção e em 2003 o Prêmio Princesa das Astúrias

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: ÍRISZ: AS ORQUÍDEAS - NOEMI JAFFE



Jaffe, Noemi. 1ª ed. Companhia das Letras, 2015
222 páginas

Um belíssimo livro sobre traumas, sobre falta, sobre como construir uma história para dar conta de uma incompreensão sobre sua origem. 

Írisz foge da Hungria após o fracasso do levante contra a União Soviética, ela vem para trabalhar no Jardim Botânico em São Paulo onde conhece Martin. Através de seus relatórios para ele aos poucos ela nos conta sua história. O desconhecimento do paradeiro de seu pai que sua mãe queria acima de tudo esquecer, sua desilusão com o levante em seu país, sobre Imre, o homem que ela ama e que não quis deixar o país em função de um ideal e um sonho. Aos poucos ela vai questionando tudo, lidando com sua culpa por ter deixado a mãe doente e Imre e vindo para o Brasil, culpa esta que ela sustenta, sem se deixar abater por ela. 

Írisz constrói uma história, uma ficção para compreender seu pai, e também sua mãe. Ela aprende a ler nos silêncios, nos olhares, nos gestos, o que sua mãe obstinadamente esconde dela sobre seu pai. É a busca de sua origem, de sua filiação, que ela elabora, onde podemos ver acontecendo numa vida o que a psicanálise tenta construir numa análise. 

Por outro lado temos Martin, que abriu mão de tudo em prol do comunismo. Nunca se casou, não teve filhos, viveu em função deste ideal e que agora também desmorona, principalmente com as notícias que chegam do massacre em Budapeste. A idealização que se desmonta, a desidentificação a algo, tudo aparece nos escritos de Martin, cartas que ele escreve para Írisz. 

Há uma terceira voz, que seria como o coro grego, que surge no meio da leitura nos dando outras informações. E é belo de acompanhar as metáforas de que Írisz se utiliza com as orquídeas para se explicar, se compreender. 

Um livro profundo, bonito, muito bem escrito. Recomendo!!

Noemi Jaffe nasceu em 1962 em São Paulo. 

segunda-feira, 30 de março de 2015

LIVRO: O TODOMEU - ANDREA CAMILLERI



Camilleri, Andrea. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
140 páginas
Tradução: Ana Maria Chiarini
Título Original: Il Tuttomio

Estou impressionada com este livro. Não sei dizer se o que ocorre no Todomeu, um lugar oculto no sotão da casa de Giulio e Ariadne que ela usa como um refúgio secreto onde mantém uma boneca como sua única amiga e confidente, é fantasia, realizações inconscientes do desejo de vingança ou se é real. 

A história de Ariadne nos é apresentada em vários tempos, o passado e o presente, e aos poucos vemos que ela sofreu abusos sexuais em sua infância e adolescência. Quando criança ela tinha uma caverna para se refugiar que chamava de Todomeu que recriou depois no sótão da casa onde vivia com Giulio, seu marido, bem mais velho do que ela e que havia sofrido um grave acidente transformando-o num eunuco. 

É uma brilhante descrição do psiquismo de uma mulher que sofreu abusos na infância e que permanece aquela criança apesar de haver crescido e se tornado uma bela mulher. Ela ainda faz xixi na cama, faz manhas, adora ver desenhos na TV, como Tomy e Jerry, se lambuza para comer. Giulio se encanta com este lado. Devido ao acidente ele não pode satisfazê-la sexualmente e por isto decide que todas as quinta-feiras ela irá se encontrar com um homem. Um jogo muito perigoso, ainda mais que Ariadne traz marcas da infância de abusos, o que Giulio não sabe e que lhe deixa um desejo de ser amada sem poder sê-lo, mas também o desejo de vingança, é o ódio-amor. 


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

LIVRO: O INCOLOR TSUKURU TAZAKI e seus anos de peregrinação - HARUKI MURAKAMI


Murakami, Haruki. 1ªed. Obejtiva, 2014
326 págs.
Tradução: Eunice Suenaga
Título Original: Shikisai o motanai Tazaki Tsukuru to, kare no junrei no toshi

País: Japão 

Tsukuru morava em Nagoia e fazia parte de uma comunidade de cinco amigos contando com ele. Os outros tinham em seus nomes uma cor, então havia Azul, Vermelho, Branca e Preta. 
Ele eram um jovem tímido, meio bobo, e estes amigos tinham uma importância imensa para ele. Havia um trato tácito entre eles de que não haveria namoros ou interesses sexuais para que desta forma não se formassem casais e com isto afetasse o grupo. Quando terminam o ensino médio todos ficam em Universidades em Nagoia, exceto Tsukuru que desde pequeno sonhava em construir estações de trem, o que aliás já trazia em seu nome Tsukuru quer dizer construir coisas, e então ele segue para Tóquio para cursar engenharia, mas todas as férias ele retorna até que no segundo ano de faculdade ao retornar nenhum de seus amigos quer falar com ele e o excluem do grupo sem dizer nada, sem explicar nada. 

Esta rejeição e exclusão será um choque e traumático para Tsukuru que durante 06 meses passará por uma crise que o modificará, mas ele consegue sobreviver, apesar que sempre carregará este peso em si mesmo, tornando-se uma pessoa que praticamente não terá amigos, e que terá namoros sempre passageiros, até o dia em que conhece Sara que irá fazer com que ele volte a Nagoia em busca de uma explicação. 

O livro nos fala de amizades e de desencontros, mas vai muito além pois nos mostrará que as coisas nem sempre são como pensamos e que vivemos sempre diante da incerteza, pois a vida muda, coisas acontecem, não podemos controlar.

Nesta volta ao passado Tsukuru passará por modificações, irá construir sua identidade fora do grupo e aprenderá a aceitar o desconhecido. Nem sempre temos as respostas para o que nos ocorre. Ele que carregava uma dor no peito aprenderá a ir desmanchando este nódulo e se abrir para a vida e para os outros, mesmo correndo o risco deste outro de repente desaparecer sem dar explicações ou não querer mais saber dele e não dizer porque.

O que Tsukuru aprende é que ele não pode mudar o outro ou fazer com que o outro lhe responda ou atenda ao seu desejo, mas que ele pode sim mudar ele mesmo, e que ao mudar ele muda o entorno, mudando a si mesmo ele pode mudar o outro em relação à ele.

Haruki Murakami nasceu em 1949 em Fushimi, Quioto, Japão. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

LIVRO: SYNGUÉ SABOUR Pedra-de-paciência - ATIQ RAHIMI



Rahimi, Atiq. Estação Liberdade, 2009
147 páginas
Tradução: Flávia Nascimento
Título Original: Syngué Sabour: pièrre de patience

Ganhador do prêmio Goncourt de 2008

O livro é em homenagem a uma dupla libertação. A primeira é do autor em relação à língua, quando ao escrever em francês ele se liberta da autocensura e do pudor inconsciente ancorados nele desde a infância, e a segunda é a libertação da dor que lhe causou o assassinato da poeta afegã Nadia Anjuman, espancada até a morte por seu marido com a conivência da mãe pela acusação de ser liberal demais, e causar vergonha na família. Ela andava sem o véu.

Um livro belíssimo. É o relato de uma mulher que cuida de seu homem numa cidade do Afeganistão que levou um tiro na nuca e está em estado vegetativo. Ela ouviu de seu sogro a história da pedra-da-paciência, a Syngué sabour, onde contamos tudo que nos aflige e angustia, nossos segredos para uma pedra que acabará por explodir quando receber tristezas demais e libertará a pessoa de suas dores e tormentos. Al-Sabour é também o último nome de Deus, o paciente!

No início a mulher cuida do homem inerte, com seus olhos vidrados fixos em algum lugar, ele não tem nenhuma reação, apenas respira. Ela reza, a cada dia um dos nomes de Deus, na esperança que ele volte para ela, mas nada acontece. Do lado de fora há conflito, tiros, bombas e as chamadas do Mulá para as rezas. O bairro vai se esvaziando após os ataques, ela leva as filhas embora, mas não consegue levar ele. Está sozinha, a família do marido também a abandonou.

Aos poucos ela começa a falar, a colocar para fora suas dores, angústias, seus segredos, transforma o marido em sua Syngué sabour. Conta-lhe coisas que jamais teria contado se ele não estivesse inerte, ele a teria matado. Todo o universo feminino vem a tona, quando um homem é duro com sua mulher, uma mulher também é dura com seu homem. Por baixo do véu há muita vida, tristeza, desejos, angústias, medos. E ela vai ficando cada vez mais ousada relatando tudo que estava enterrado dentro dela e lhe causando uma dor imensa, enchendo a sua pedra até que ela exploda e a liberte.

Atiq Rahimi nasceu em 1962 em Cabul, Afeganistão. Durante a guerra nos anos 80 exilou-se na França onde vive  e hoje tem dupla nacionalidade. 

Nadia Anjuman 


sábado, 24 de maio de 2014

LIVRO: TU CARREGAS MEU NOME - A herança dos filhos de nazistas notórios - NORBERT & STEPHAM LEBERT


Lebert, Norbert & Stephan. Record, 2004
206 páginas
Tradução: Kristina Michahelles


Um tema tabu, pouco estudado e revelado, e também pouco pensado. Costumamos pensar nas vítimas, na herança psíquica de seus descendentes, os traumas, mas não pensamos no que aconteceu com os filhos dos nazistas, principalmente dos líderes que foram julgados e condenados à morte ou a prisão perpétua ou por muitos anos. O que aconteceu com eles? quais os traumas que carregam, qual o peso deste fardo?

Norbert Lebert, pai de Stephan, um jornalista, em 1959 entrevistou filhos e filhas de nazistas como Rudolf Hess, condenado à prisão perpétua, Martin Bormann, desaparecido, Hermann Göring, condenado à morte e que se suicidou antes, Heinrich Himmler, que se suicidou quando foi capturado, Baldur von Schirach, condenado a 20 anos de prisão e Hans Frank, condenado à morte.

O que era ser portador deste sobrenome? o nome de seu pai que se tornou ou uma vergonha para alguns ou um símbolo de uma glória perdida para outros?

Quarenta anos depois, seu filho, Stephan retomou seu trabalho para saber o que havia acontecido com eles, o que haviam feito de suas vidas e como lidavam com esta herança. Quais as consequências de ser portador deste nome? como isto havia afetado a vida deles, seja para melhor ou para pior.

Não devemos ignorar que estes criminosos eram seus pais, e que se por um lado foram cruéis, sádicos, perversos, autoritários, e levaram a morte milhões de pessoas, por outro, eram bons maridos, bons pais de família, amorosos com seus filhos. Como separar este pai amoroso do pai acusado de crimes tão hediondos? O grande erro é pensar que seres assim são maus com todos, não, eles também tem um lado bom, amoroso, gentil, educado. Isto assusta, pois nos revela que qualquer um pode se transformar num monstro assassino, e realmente é assim. Quantas vezes não ouvimos relatos sobre um psicopata de como ele era um bom vizinho, não incomodava ninguém, era educado? Sim, todos nós carregamos em si mesmo o mau e o bom, depende de vários fatores, como contexto, entorno, situações que surgem para que o gatilho seja ativado ou não.

A Alemanha foi imersa numa ideologia fascista, estava traumatizada com a Primeira Guerra, derrotada, humilhada, e eis que surge um líder, um bom pai, que vem para resolver tudo isto e devolver ao país seu lugar e orgulho. Os comícios, a juventude hitlerista, a mídia, a propaganda, e a ameaça àqueles que não aderiam. Então, o que dizer dos filhos? que eram pequenos na época da guerra, alguns com 03 anos de idade, como poderiam ter consciência do que acontecia? como podem ser responsabilizados pelos atos dos pais? que culpa eles tem? Mas eles são símbolos, são o nome do pai.

Mas a questão é mais profunda. Como lidar com este pai? com este nome? como viver com isto? O filho se identifica com os pais, são seus modelos. Como fazer desaparecer um passado, a infância e a família?

O livro busca algumas respostas. Stephan volta a entrevistar alguns deles e nos traz o relato de 1959 e o atual. O que cada um deles fez.

Wolf-Rüdiger Hess, filho de Rudolf Hess; Martin Bormann filho e Martin Bormann pai, Niklas e Norman Frank, filhos de Hans Frank; Gudrun Himmler, filha de Himmler, Edda Göring, filha de Hermann Göring, os irmãos Von Schirach filhos de Baldur Von Schirach e Karl-Otto Saur filho e pai.

Vários escreveram livros sobre seus pais. Alguns tentam resgatar o nome, outro quer destruir o pai, ainda há o que procura a religião. A negação do que ocorreu, se negar a enxergar para alguns e para outros a maturidade suficiente de enfrentar a realidade. A sacralização do pai ou sua destruição. Alguns se fecham em seu mundo negando tudo, não conseguindo enxergar o que houve, outros procuram formas possíveis de viver, constroem um mundo para poder viver.

"Podemos dizer que os descendentes dos nazistas se situam numa zona fronteiriça entre criminosos e vítimas"

(...) o criminoso se realiza através do seu ato, enquanto a vítima é interrompida em tudo aquilo que ainda quer realizar."

E o que ficou no meio? no liminar? Nenhum deles é culpado ou responsável pelo o que fez seu pai, e todos amavam o pai, mas alguns admitem o horror que o pai fez, provocou, outros não conseguem ver.



Wolf-Rüdiger Hess 









 Martin Bormann filho

Gudrun Himmler

Edda Göring e o pai

karl-Otto Saur filho


segunda-feira, 24 de março de 2014

LIVRO: SEM MEDO DE FALAR - Relato de uma vítima de pedofilia - MARCELO RIBEIRO



Ribeiro, Marcelo. Paralela, 2014 - 1ª edição
197 páginas

Um relato corajoso e franco sobre o que é ser uma vítima de abuso sexual infantil e de como o pedófilo costuma assediar, aliciar, seduzir sua vítima passando despercebido de todos. Todos os pais deveriam ler este livro, todos nós devemos ler este livro.

Marcelo relata a dor, o trauma que sofreu, trauma este que não é apenas a sua integridade física que foi abusada, mas também moral e psicológico. Os efeitos que atuam e que não são percebidos, o que é passado ao outro sem que a vítima tenha percepção, desencadeando uma cadeia muito maior de afetados. Ele também demonstra como um pedófilo, termo psicológico, e que trata de uma pessoa que está doente, que tem sérios problemas e distúrbios também, de comportamento moral, sexual, e afetivo.

É de extrema importância que livros assim sejam escritos, divulgados, pois se trata de um crime que se repete, mais comum que a maioria das pessoas imagina ou supõe, e que infelizmente prescreve, o que não deveria acontecer, uma vez que uma vítima de trauma de abuso sexual na infância levará anos para conseguir falar, se falar, enquanto que seu agressor continua com seus abusos com novas vítimas.

Por que a criança não fala? ele tenta responder a questão que é extremamente difícil, pois nem o abusado sabe direito, mas o mais evidente é o medo, a vergonha, e o fato de que de alguma forma sabe que aquilo não é certo, mas ainda não tem conhecimento sobre o sexual. Marcelo vai além, ele fala sobre a questão da repulsa/atração, não como duas coisas opostas, mas que ocorrem simultaneamente, e isto é de difícil compreensão uma vez que vivemos numa sociedade que aprende a falar e pensar através dos opostos, dos contrários e que divide as coisas, como o bem e o mal, o amor e o ódio, a atração e a repulsa, o fascínio e o nojo. Acontece que estes pares são muito mais que o verso da mesma moeda, eles podem ocorrer juntos, ao mesmo tempo, e isto reflete no corpo, na mente, sem obter resposta, criando angústia.

A resposta da sociedade e dos outros, quando a vítima fala, geralmente não acreditam, ou acham que é um desabafo, ou pior, a mulher é acusada e o homem é tratado como maricas. E eis aí mais um motivo de vergonha para a vítima e uma forma de isentar o culpado que se sente poderoso e seguro.

Muitos pensam que é um trauma que após falar, desabafar passa, tem que tocar a vida, mas nada mais longe da realidade da vítima, é todo um processo, quando é possível atingir uma cura. A vítima precisa de muito amor, confiança, acolhimento, para poder transformar isto. E mais ainda para poder compreender o agressor, o que não significa que o isenta, ao contrário, é o momento que o responsabiliza. Como isto geralmente ocorre muitos anos depois do abuso, a lei não permite que seja denunciado, e mais, a lei exige o flagrante, e isto é impossível em quase todos os casos.

Os pais devem ler, estar atentos, perceber, a criança apresenta mudanças de comportamento, se afasta dos outros, está aterrorizada com o fato de alguém descobrir, assustada, e o agressor geralmente está muito perto, faz parte da família, da escola, da vizinhança. Geralmente alguém que a criança respeita, admira, sente afeto por ela.

Marcelo foi vítima do abuso por um maestro ,  o abusador geralmente é alguém respeitado na sociedade, e justamente por isto, isento de críticas, e caso a criança consiga falar será desacreditada, e será a palavra dela e a de alguém que é querido por todos.

Recomendo a leitura.

LIVRO: NÃO HÁ SILÊNCIO QUE NÃO TERMINE - Meus anos de cativeiro na selva colombiana - INGRID BETANCOURT


Betancourt, Ingrid. Companhia das Letras, 2010
Tradução: vários tradutores
553 páginas
Título original: Même le silence a une fin.

Durante a campanha eleitoral para a presidência da Colômbia de 2002, Ingrid Betancourt, então candidata, foi sequestrada pelas FARC junto com sua comitiva. Era o dia 23 de fevereiro de 2002. Ela só será libertada pelo exército colombiano em uma operação montada que enganou os guerrilheiros em 02 de Julho de 2008. O livro relata estes seis anos e meio de cativeiro.

Um relato lúcido, objetivo que trata mais de sua introspecção frente a todas as dificuldades que passou e que não foram poucas. Humilhações, ofensas, fome, doenças, a psicologia do agressor, o comportamento dos outros reféns.

No início as suas dificuldades quando se viu num mundo totalmente oposto ao que estava acostumada, e sem o poder que estava acostumada a exercer. Era uma mulher orgulhosa, segura, determinada e autoritária, que intimidava os outros, e agora aos poucos ela irá aprender a obedecer e se calar, mas o que mais me impressiona é sua capacidade de não perder a dignidade diante de uma situação onde normalmente a vítima acaba se submetendo por medo para não sofrer represálias, e Ingrid em momento algum demonstra este medo e não se deixa levar pela psicologia do opressor que pretende culpabilizá-la pelas represálias. Em um momento ela diz que é seu direito tentar fugir e recuperar sua liberdade e é função do captor tentar mantê-la presa.

Este modo de agir muitas vezes incomoda seus companheiros, seja pela inveja por ela obter o que deseja, ou seja pelas represálias que atingem a todos. Eles a consideram egoísta, arrogante. Porém Ingrid também reconhece sua mesquinhez em vários momentos, onde irá lutar por um espaço melhor, pelo prato de comida ou a fatia maior de uma torta. Como julgá-los? não devemos, cada um por si lutando por sua vida e esperando a libertação.

O livro nos mostra a face do ser humano quando está em condições limites, aprisionado, humilhado, com medo, sem recursos, sem sua família, tendo que viver na selva, em meio a sujeira, frio, umidade, animais e insetos terríveis como formigas, carrapatos, e outros que queimam como ácido, sofrendo de doenças sem remédios e recursos, sem ter sua intimidade preservada, tendo que fazer suas necessidades diante de todos, e as mulheres sem absorventes higiênicos, sem alimentação adequada baseada principalmente em arroz, além de suportar a opressão, o uso do poder por parte de seus captores. Cada um reage diferente, uns tentam se aproximar do agressor, ser simpáticos com eles querendo com isto garantir o seu, outros se afastam e se calam, se isolam, outros simpatizam e se afeiçoam ao agressor, e alguns fazem como Ingrid. Não há o que dizer, cada um se defende como pode de acordo com aquilo que é.

Do outro lado vemos uma guerrilha composta de jovens e crianças, imaturos ainda por um lado mas embrutecidos por outro. O prazer que eles obtém em usar o poder para humilhar àqueles que consideram seus opressores na vida e que os obrigaram a estar ali, é a ideologia que opera considerando os burgueses os culpados por tudo. Não que eles tenham um vida boa, muitas das mulheres aderiram para escapar à prostituição, preferem ter que estar com alguns guerrilheiros ou ser a namorada de um deles, do que se prostituir com todos, e ali pelo menos elas tem proteção e não passam fome.

Sem analisar a situação em que todos se encontram podemos ter a tendência a ver o pior do ser humano, quando aqueles que estão na mesma situação ao invés de se unirem são os primeiros a delatar o outro, a reclamar quando, por exemplo, Ingrid foi levada numa rede numa mudança de local, por estar com malária e incapacitada de andar e seus companheiros a acusavam de estar fingindo. O olhar de satisfação dos que a recebiam diante de mais uma fuga frustrada, porém a própria Ingrid consegue compreender isto, como se sente o que fica diante daquele que conseguiu a liberdade de volta. Só que ele não tenta, não se arrisca, mas irá sofrer as represálias junto em várias ocasiões.

As tentativas de fuga, que desespero, por mais que se tenha planejado, pensado, na hora o medo se apodera da pessoa. Um medo que tanto paralisa como serve de impulso. Quando eram pegos novamente, todo o sofrimento, a violência, humilhação e que os raptores diziam ser culpa dela, se não tivesse tentado fugir... Mas quem não iria querer fugir? Eles se colocam como se fossem bons e que ela se rebelou, e no entanto esquecem que são eles os agressores.

Por outro lado entre os guerrilheiros também vemos o lado bom deles, são jovens, brincam, dançam, muitas vezes eles ajudam aos reféns, mostram um lado mais humano, mas estão constantemente sob vigilância também, entre eles também há os delatores, a competição. O agressor não é o monstro, ele também tem seu lado bom. E do lado dos reféns também há cooperação, há ajuda, como quando um deles sofre um infarto e o outro lhe cede a aspirina que foi negada pelas FARC, ou o desespero de Ingrid para socorrer seu amigo diabético. As palavras que trocam, e também os momentos em que riem.


Recomendo a leitura, é uma lição de vida, um mergulho no ser humano.


Ingrid Betancourt em seu cativeiro e após a libertação.

Ingrid nasceu em 1961 em Bogotá na Colômbia. Viveu boa parte de sua juventude em Paris onde estudou ciências políticas no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Vive atualmente em Oxford onde faz doutorado em Teologia. Ela pediu uma indenização ao governo da Colômbia e tem sido muito criticada por isto, assim como sua partida para a França logo após a libertação.    

domingo, 23 de março de 2014

LIVRO: O SILÊNCIO DO ALGOZ - FRANÇOIS BIZOT



Bizot, François. Companhia das Letras, 2014 - 1ª ed.
Tradução: Hugo Mader
210 páginas
Título original: Le silence du bourreau

Face a face com um torturador do Khmer Vermelho.

François Bizot, etnógolo francês, foi sequestrado pelo Khmer Vermelho no Camboja em 1971. Foi o único ocidental a sair com vida das temidas prisões do Khmer Vermelho, apesar de ter sido condenado à morte. O feito se deu graças ao seu carcereiro conhecido como Deuch, um jovem intelectual que falava francês e que criou um laço com seu prisioneiro durante os três meses de cativeiro.

Bizot saiu, deixando seus dois companheiros e auxiliares lá, Lay e Son que seriam mortos. Somente anos depois Bizot descobrirá que Deuch era o responsável por torturar e matar mais de 40 mil prisioneiros políticos do regime de Pol Pot, e que ficou conhecido como o algoz de Tuol Sleng, a prisão e centro de execução e atualmente um museu do genocídio.

Em 2009 Bizot foi convocado a testemunhar contra Deuch nos processos do Khmer Vermelho.

O livro é o relato do questionamento de Bizot sobre sua relação com o algoz e principalmente saber como um homem comum pode se transformar em um algoz. Ele chama a atenção de todos sobre um fato que Hannah Arendt já havia trazido a tona durante o julgamento de Eichmann, o fato da humanidade do monstro, o que é muito difícil de ser aceito, uma vez que temos que aceitar que todos nós carregamos em si este lado, e que não se trata de uma aberração, algo à parte, mas de algo muito humano, e isto assusta, cria pânico, aterroriza. Como lidar com algo que não é perceptível facilmente, com o fato de que qualquer pessoa pode vir a ser este algoz? Que ele não pode ser identificado por ser diferente de todos os outros?

Esta constatação não leva ao perdão, mas à compreensão de que é fato que a grande maioria dos monstros da história, os algozes, tem outro lado, são pais de família amorosos, bons maridos, e que acreditam estar fazendo o certo, o que devem fazer, como qualquer outro em seus deveres profissionais. Eles não demonstram remorsos, não pedem desculpas.

Bizot talvez seja levado a esta lucidez mais rapidamente por ter cometido um ato de crueldade anos antes e que carrega em si, e com isto percebe que foi capaz também de ser cruel com um ser indefeso e que confiava nele, o amava. O algoz está diante de vítimas que são seres humanos, mas que não lhe dizem respeito. Em geral há sempre uma ideologia, uma crença que o livra da culpabilidade, além da desumanização da pessoa no cativeiro, transformando-o num objeto, que é mais fácil eliminar sem culpa.

Mas quando se tece uma relação entre o algoz e a vítima, não há desumanização e talvez tenha sido isto que levou Deuch a conseguir a libertação de Bizot. Ele não poderia matá-lo. Além de ter se convencido que a vítima era inocente e que dizia a verdade, não era um espião. Mas, o que leva a vítima a estabelecer o laço com o carrasco, a simpatizar com ele? o que chamamos de Síndrome de Estocolmo?

Bizot desenvolve no livro esta análise, de como o medo pode nos levar à isto, de como o fato de inconscientemente vermos no algoz algo que temos em nós nos leva a nos identificarmos com ele. A vítima se liga ao algoz e muitas vezes passa a defendê-lo e até se recusar a depor contra ele. E foi justamente isto, ao ser convocado para depor contra aquele que lhe salvou a vida, que levou Bizot a esta análise profunda.

Um livro que nos leva a encarrar que o bem e o mau não são separados, não são duas coisas distintas, mas convivem juntos em cada um de nós. O silêncio do algoz que está em nós e não se manifesta devido a máscara imposta pela sociedade que com a educação e para a psicanálise o supereu, controla nossas pulsões, mas nada garante que não possa surgir e atuar, está ali.


François Bizot nasceu em 1940 em Nancy na França. É um antropólogo especialista em Budismo do Sudeste Asiático, diretor da École Pratique des Hautes Études e catedrático da Sorbonne. Chegou ao Camboja em 1965.


Deuch durante o julgamento. 

domingo, 9 de março de 2014

LIVRO: EU, UM OUTRO - IMRE KERTÉSZ



Kertész, Imre. Editora Planeta do Brasil , 2007
Tradução: Sandra Nagy
173 páginas
Título original: Valaki Más. A változás Krónikája

Eu, um outro é uma reflexão sobre quem sou eu que Kertész desenvolve ao longo destas páginas após terem se passado 40 anos desde que sobreviveu a Auschwitz.

Ele narra seu cotidiano, suas viagens ao mesmo tempo que analisa quem é ele agora, após tudo que viveu e ao que sobreviveu. É um constante perder-se para se reencontrar, mas sempre um outro.

Carregamos um passado que se atualiza, mas também vivemos novas experiências, conhecemos lugares e pessoas, e vamos nos transformando no decorrer da vida. Mesmo as experiências mais amargas, duras, tristes nos transformam em um outro quando depois de vivermos o luto, a passagem, a vida nos acena novamente e nos chama para continuar a viver.

A vida é uma história de mortes, e isto é fato, morrer para algo, mas continuar vivo para outras coisas. A felicidade como idílio não existe, mas os momentos felizes sim. E apesar de toda a dor que Kertész carrega em si mesmo ele também consegue ver a vida pulsando e construir um sentido para si mesmo.


Imre Kertész nasceu em 1929 em Budapeste. Foi deportado para Auschwitz e Buchenwald. Ganhou o prêmio nobel de literatura em 2002.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

LIVRO: EM BUSCA DE SENTIDO - VIKTOR FRANKL



Frankl, Viktor. Editora Vozes, 2009
Publicação: 1946
Tradução: Walter Schlupp e Carlos Aveline
186 páginas
Título Original: Ein Psycholog erlebt das kozentrationslager

Neste livro o psiquiatra Viktor Frankl fala que aquele que passou por uma experiência traumática sabe compreendê-la de uma forma que aquele que não passou não consegue, apesar de não possuir o distanciamento exigido pela ciência e de que ocorrem distorções.

Em função de sua experiência e vivência em campos de concentração na segunda guerra ele questiona o que mantém o ser humano vivo, o que o faz viver? e costuma perguntar a seus pacientes que passam por sofrimentos difíceis por que ele não opta pelo suicídio?

O livro descreve o método psicoterapeuta de Frankl para encontrar uma razão para viver. Na primeira parte ele fala de suas experiências no campo de concentração e na segunda introduz a logoterapia.

Ele vai desviar de Freud e a sexualidade, apesar de sua admiração por ele, e penso que o faça pois viveu algo onde a sexualidade quase que desaparece, não havia nada sexual nos campos como acontece nos quartéis, com soldados em guerra, ou qualquer outra situação de reclusão ou aglomeração. Talvez seja o único lugar onde o sexo não pode diminuir a morte. Não há onde colocar uma libido. Mas há porém uma pulsão de vida que ainda prevalece nos que conseguem sobreviver a tudo que enfrentam.

Quando vivemos momentos que nos colocam diante da morte o sexo e a comida são formas de lidar com isto, mas nos campos justamente nem uma coisa nem outra, então eles sonhavam com comida e ao acordar enfrentavam o horror da realidade. Então Frankl questiona isto, o que mantém o ser humano vivo, sem a pulsão sexual e agressiva, onde ele busca forças? Quando a fome devora o próprio corpo transformando-o num esqueleto, quando o frio congela os dedos que caem ou são retirados com uma pinça? quantos aguentaram e como? por que? O que salvou os sobreviventes? Podiam se suicidar nas cercas elétricas como  muitos fizeram.

São estas perguntas e respostas que Frankl busca, o sentido para viver, o por que viver?

Mas eu me pergunto até que ponto isto é possível? sobreviver sim, continuar vivo sim, e realmente deve haver algo muito poderoso que permite isto em face a tamanhas atrocidades e dores, fome, frio e doenças, mas será que o psiquismo consegue elaborar todos estes traumas? como ficou o psiquismo dos que sobreviveram? Muitos se suicidaram depois, outros escrevem para tentar exorcizar.

Muitos não aguentaram não serem ouvidos, ninguém queria saber de tudo isto, principalmente depois da guerra, queriam comemorar, viver, foi uma época de gozo da vida. Quantos sobreviventes não se sentiram párias? um excluído? Muitos se casaram entre si, logo após a libertação e seguiram com a vida, mas a herança psíquica está nos filhos e quantas gerações serão necessárias para que isto desapareça?

No campo de concentração todos estavam na mesma situação, mas depois da libertação, enfrentar o olhar de nojo, pena do outro? ao invés de ser visto como um herói, que conseguiu sobreviver?

O que Viktor Frankl nos mostra é como buscar um sentido para a vida quando se passa pelo extremo da dor e da humilhação. Não penso que todos sejam capazes, mas para aqueles que conseguiram achar um sentido, aqueles que se dedicaram também ao outro no meio de tudo isto dando um sentido a si próprio no meio de tudo, é possível. O que te faz viver? um filho? um desejo que você acredita realizar? um sonho? as recordações que te sustentam?

Não é fácil quando se vive o que viveram os presos de campos de concentração, mas vários conseguiram não morrer ali. E não foi apenas a sorte, de não ser escolhido na seleção para a morte, muitos nem foram para as câmaras de gás, morreram antes ou se mataram.

Viktor transformou o maior sofrimento de sua vida, inimaginável para quem não o viveu, na logoterapia, transformou o trauma em algo que pode ajudar muitas pessoas, e isto sim, eu acredito seja uma forma de curar um trauma, transformá-lo em algo.


Viktor Frankl nasceu em 1905 em Viena, Áustria e faleceu em em 1997 com 92 anos na mesma cidade. Fundador da logoterapia que explora o sentido existencial do ser humano. Ficou preso nos campos de concentração por 13 anos, perdeu seus pais, seu irmão e sua esposa grávida mortos pelos nazistas.

Assista a entrevista com Viktor Frankl para saber mais:


LIVRO: QUANDO ÉRAMOS ÓRFÃOS - KAZUO ISHIGURO


Ishiguro, Kazuo. Companhia das Letras, 2000
Tradução: José Marcos Macedo
393 páginas
Título Original: When we were orphans

A história é narrada por Christopher Banks quando se encontra na Inglaterra pós-guerra em retrospectiva sobre sua vida. Ele é um famoso detetive que desvendou vários casos que ficaram famosos, porém o mais importante para ele,o desaparecimento de seus pais em Xangai antes da Segunda Guerra, ele foi procrastinando até finalmente tomar a decisão de voltar e resolver também este caso.

A maior parte da narrativa é em Xangai, iniciando com as recordações de Christopher sobre sua infância na Colônia Internacional onde vivia e sua amizade com Akira, um garoto japonês que era seu vizinho. Quando seu pai desapareceu misteriosamente ambos brincavam de ser o inspetor Kung, o responsável pela investigação, e resolviam o mistério. O que não se esperava é que sua mãe também desapareceria.

Após o desaparecimento de seus pais Christopher é levado para a Inglaterra e criado por sua tia.

A força dos registros da infância transparecem o tempo todo no livro. Primeiro Christopher escolhe como profissão ser detetive, mas reluta em ir atrás do mais importante para ele até que finalmente o faz. Volta à Xangai e começa a investigar e é neste momento que todo o trauma da perda de seus pais passa a atuar.

Xangai está cercada pelos japoneses, e quando ele encontra um soldado japonês ferido nos escombros do cortiço onde imagina estarem seus pais ele vê nele Akira. O soldado percebendo que seria sua chance de sobreviver e não ser morto pelos chineses entra no jogo e o leva até onde ele quer ir, a casa indicada pelo inspetor Kung como sendo a única que ele não revistou na época do desaparecimento de seus pais, porém ela está destruída também.

Xangai no tempo de sua infância era dominada pelo comércio do ópio, e sua mãe e o chamado Tio Philip, eram contra isto, e faziam campanha para acabar com o tráfico. Agora Christopher quer se encontrar com o Cobra amarela, que supõe saber o paradeiro de seus pais. Ao final ele terá grandes surpresas quando descobrir finalmente o que aconteceu.

Por mais que Christopher fosse um renomado e excelente detetive quando se trata de si próprio a coisa já não é tão simples, lhe falta objetividade e distanciamento, ele é envolvido em suas emoções e memórias que nem sempre são exatas, se fixam no tempo, faltam pedaços e são registradas segundo a ótica de uma criança, o que lhe dificulta enxergar a realidade do que investiga. Ele parece voltar no tempo quando brincava com Akira de detetive, ignora inclusive que o japonês está seriamente ferido, não percebe que não é Akira, uma vez que em sua mente ele teria que resolver o mistério junto com seu amigo, só assim o conseguiria.

Além da questão do ópio e do poder, o livro passa levemente pela questão dos costumes, e do amor patológico, onde um ego ferido é capaz de vingança.

Quando carregamos um trauma de infância, acabamos passando a vida dirigindo nossas energias psíquicas para isto, na tentativa de solucionar revivemos e buscamos a resposta, como os órfãos de pais desaparecidos, um vazio que se cria. Christopher e Jennifer, a criança que perdeu seus pais e ele adota, retribuindo à vida o que sua tia fez por ele,  passam a vida tentando compreender, e ao fim o que buscam é a paz, o viver um pouco e com pequenos prazeres possíveis.

Kazuo Ishiguro nasceu em 1954 em Nagasaki no Japão, mas emigrou com sua família para a Inglaterra quando tinha seis anos.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

LIVRO: UMA VONTADE LOUCA DE DANÇAR - ÉLIE WIESEL


Wiesel, Élie. Bertrand Brasil, 2008
Tradução: Jorge Bastos
308 páginas

Doriel procura uma psicanalista para ajudá-lo a vencer o que ele considera sua loucura. Órfão de pais, seus irmãos foram mortos na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas, foi acolhido pelo seu tio que o levou para os Estados Unidos, mas carregou consigo todas as marcas e traumas do que lhe aconteceu.

Um vazio imenso ao lado de um excesso de memória, transborda mas para onde? a sensação de estar enlouquecendo como se isto pudesse salvá-lo de suas lembranças e marcas, protegê-lo. Nunca quis se casar e ter filhos, não queria colocar filhos no mundo para um outro matá-los. Aprofunda-se no estudo, busca respostas que não encontra.

Mas se ele tem um excesso de memória, tem também uma cripta traumática, algo que ele não consegue acessar, inefável, obscuro. Thérèse Goldschmidt uma renomada psicanalista fará de tudo para ajudá-lo a entrar neste lugar obscuro e apesar de achar que não o conseguiu o resultado como ocorre nas análises surge quando menos se espera e sem compreensão de como ocorreu.

Doriel tem medo de amar, tem medo da perda e levará anos para poder se entregar e finalmente sentir uma vontade louca de dançar.

Um livro que trata dos sobreviventes do nazismo, de seus traumas e marcas profundas, da culpa que sentem por terem sobrevivido diante da perda de seus entes queridos, das rupturas que sofreram, das marcas no corpo e na mente. Não é possível ultrapassar isto, é preciso aceitar e transformar.


Élie Wiesel nasceu em 1928 em Shiguetu Marmatiei na Romênia, localidade que fez parte da Hungria entre 1941 e 1945. Judeu, sobreviveu aos campos de concentração. Foi deportado junto com sua família para Auschwitz-Birkenau, onde sua mãe e irmã mais nova morreram. Foi enviado junto com o pai para Buchenwald onde perdeu o pai. Somente depois de libertado soube que duas irmãs mais velhas também sobreviveram. Inicialmente guardou silêncio, mas após uma entrevista com François Mauriac que insistiu que relatasse sua experiência escreveu Noite e sua obra foi então dedicada a resgatar a memória do Holocausto. Recebeu o prêmio nobel da paz em 1986 pelo conjunto de sua obra.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

LIVRO: UM SÉCULO DE SABEDORIA - CAROLINE STOESSINGER


Stoessinger, Caroline. Seoman, 2013
Tradução: Martha Argel e Humberto Moura Neto
215 páginas

A vida de Alice Herz-Sommer, um século de vida. Ela tem atualmente 110 anos.

Alice nasceu em Praga em 1903, teve uma infância feliz. Conheceu Franz Kafka por quem tinha um imenso carinho e o chamava de Tio Franz,  Max Brod que escreveria a biografia de Kafka e foi responsável pela publicação de sua obra, que Kafka queria destruir, além de através das amizades de sua mãe ter conhecido Gustav Mahler, Sigmund Freud e Rainer Maria Rilke.

Porém seu mundo iria mudar radicalmente com a ascensão de Hitler ao poder. Sua família era judia e Alice seria deportada junto com seu marido e filho para Theresienstadt. Suas duas irmãs, sendo que uma era gêmea de Alice conseguiram ir para a Palestina, mas Alice ficou para cuidar da mãe que também morreu no campo de concentração. Na época venderam a maior parte de suas propriedades para possibilitar a ida das irmãs. Os britânicos cobravam uma taxa de desembarque que equivale atualmente a US$ 100 mil para cada pessoa que entrasse na Palestina.

Alice e seu filho Rafi sobreviveram ao holocausto e retornaram à Praga onde encontraram seu apartamento ocupado por outras pessoas, o que ocorreu com muitos judeus que conseguiram sobreviver. Depois ela se mudará para a Palestina para ficar próxima às suas irmãs e onde será amiga de Golda Meir.

Alice é uma grande pianista, sua vida foi dedicada ao filho e à música, e foi isto que a salvou. No campo de concentração de Teresin ou Theresienstadt como era chamado pelos alemães ela continuou ensinando piano e até dando concertos, pois este campo era usado pelos nazistas como propaganda para ser apresentado ao mundo como um lugar muito bom onde os judeus eram bem tratados e estavam bem. Era aí que a Cruz Vermelha fez suas visitas de inspeção.

Seu filho também se tornou um músico, tocava violoncelo e como morava em Londres, Alice acabou se mudando para lá, mas sempre manteve sua independência vivendo sozinha e dando aulas de piano. O maior desafio de Alice foi quando seu filho faleceu prematuramente. Muitos temeram por ela e pensaram que não iria se recuperar, mas um dia ela voltou a tocar, devagar, e aos poucos foi retomando sua vida.

Alice também nos ensina sobre a velhice " Você não pode ver meu eu verdadeiro dentro desta pele enrugada, a vida que há em minhas emoções. O que enxerga é só a aparência externa de uma mulher muito velha." Aos 83 anos ela teve um câncer de mama, fez a cirurgia que o médico achava até desnecessário em função de sua idade, e continua entre nós mais de 20 anos depois. Em Londres foi estudar filosofia na Universidade da Terceira Idade.

Ela é uma fortaleza, um exemplo de vida, passou pelo século XX todo, sobreviveu a muitas perdas, ao holocausto e ao câncer e sempre se manteve otimista e sorridente. Rir é a melhor cura para a dor.

Como ela fez isto? vivendo para a música, a música a salvou. Se mantendo sempre ocupada e independente.  "Aprecie as tarefas simples, elas ajudam a transpor os maiores desafios da vida". Vive em Londres até hoje.








 Caroline Stoessinger com Alice. Caroline é uma pianista e vive em New York e apesar de já haver escrito e produzido roteiros para programas de TV sobre música este é seu primeiro livro.