Mostrando postagens com marcador Religião e Espirituais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Religião e Espirituais. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O SAGRADO COMO ESPELHO DO BRASIL


 

APARECIDA

A biografia da santa que perdeu a cabeça, tornou-se negra, foi roubada, cobiçada pelos políticos e conquistou o Brasil

RODRIGO ALVAREZ

RECORD – 1ª ED. – 2023

256 páginas


Em Aparecida, Rodrigo Alvarez constrói uma biografia que escapa ao tom devocional tradicional para narrar a história de Nossa Senhora Aparecida como fenômeno religioso, político, social e cultural. A santa não aparece apenas como objeto de fé, mas como personagem atravessada por disputas de poder, violência simbólica, racismo e projetos de nação.

O ponto de partida do livro é conhecido, mas ganha densidade narrativa: a pequena imagem de terracota encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, no século XVIII, quebrada, escurecida pelo tempo e pela água. A partir daí, Alvarez reconstrói como essa imagem frágil se transforma na padroeira do Brasil, acompanhando as metamorfoses simbólicas que a cercam.

Um dos aspectos mais instigantes da obra é a atenção dada ao corpo da santa. Uma imagem que perde a cabeça, é recomposta, escurece, é roubada, restaurada, coroada e politicamente disputada. O livro mostra como cada uma dessas etapas produz sentidos distintos: a santa negra, a santa do povo, a santa nacional, a santa apropriada por projetos de poder. Nada disso é neutro.

Alvarez articula a devoção popular com o contexto histórico brasileiro: escravidão, Império, República, ditadura e democracia. Aparecida atravessa esses períodos como símbolo maleável, capaz de acolher tanto a fé dos pobres quanto os interesses das elites políticas e eclesiásticas. Presidentes, militares e governantes tentam se aproximar da santa, buscando legitimação simbólica por meio dela.

O livro também evidencia a tensão constante entre religiosidade popular e Igreja institucional. A devoção a Aparecida nasce fora dos grandes centros de poder e resiste às tentativas de controle absoluto. Mesmo quando institucionalizada, ela carrega marcas de insubordinação: uma santa negra em um país racista, uma devoção popular em uma estrutura hierárquica masculina, uma fé que não se deixa reduzir à doutrina.

Outro mérito do livro está em tratar o roubo da imagem, e sua posterior restauração, não apenas como episódio policial, mas como acontecimento simbólico. A violência contra a santa revela o quanto ela se tornou objeto de disputa e projeção. Restaurar Aparecida não é apenas recompor um objeto quebrado, mas decidir qual imagem, qual narrativa e qual Brasil se deseja preservar.

Sem idealizar a religião, Alvarez mantém um olhar crítico e jornalístico. Ele não transforma a santa em mito intocável, mas tampouco desqualifica a fé. O livro reconhece a força da devoção como experiência coletiva, afetiva e política, especialmente em um país marcado por desigualdades profundas e exclusões históricas.

Aparecida é, assim, menos uma biografia religiosa e mais um retrato do Brasil visto a partir de sua santa mais emblemática. Ao acompanhar a trajetória de uma imagem pequena, frágil e negra, o livro revela como o sagrado, no Brasil, nunca esteve separado da política, da raça, do gênero e da disputa por sentido. Aparecida não apenas conquistou o Brasil, ela expõe suas contradições.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

FILME: IRMÃ DULCE - 2014


Direção: Vicentem Amorim - 2014
Duração: 90 min

Cinebiografia de Irmã Dulce

O filme nos mostra um pouco da vida de Irmã Dulce (Bianca Comparato/Regina Braga)  e de toda sua dedicação aos pobres e doentes tendo para isto que enfrentar obstáculos dentro da própria igreja que como instituição defendia o claustro e não aceitava  a vida que ela levava andando pelas ruas no meio do povo socorrendo os necessitados, exatamente a mensagem que o Papa Francisco transmite hoje para a igreja, dizendo que a igreja tem que ir à rua, ao povo, aos que precisam. 


Uma das cenas que mais me tocou foi quando ao pedir ajuda para seus pobres um homem lhe cospe na mão, e ela responde limpando a mão no hábito que este foi para ela, e agora ao estender a mão novamente, ela diz: agora para meus pobres.



Uma mulher corajosa, determinada e que dedicou sua vida ao outro, aos que precisavam de acolhimento. 

Vicente Amorim nasceu em 1966 em Viena, Áustria. É um cineasta austro-brasileiro. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

FILME: FRANCISCO O SANTO RELUTANTE - 2003


Direção: Pamela Mason Wagner - 2003 
Duração: 60 min
Título Original: Reluctant Saint, Francis of Assis 

Baseado na biografia de Francisco de Assis de Donald Spoto 

O filme é narrado por Liev Schreiber e nos mostra um lado mais humano de Francisco (Robert Sean Leonard) retirando a áurea mítica que o envolve. 

Francisco era filho de um próspero mercador de tecidos que desejava que seu filho o sucedesse nos negócios. Quando jovem era fanfarrão, gostava de se divertir, rir, estar com os amigos, até o dia que a cidade vizinha Perúgia entra em guerra com Assis e Francisco se envolve na batalha sendo preso pelos rivais. Passará um ano numa cadeia fria e sozinho, doente, o que será o início de sua mudança. 

O filme mostra Francisco como um homem que era radical, enfrentava os poderosos e pregava a paz e o amor, mas que nunca desejou a santidade. Ele tem visões, ouve vozes e muitos o consideraram louco, mas muitos também o seguiram e acreditaram nele. Foi fundamental que naquela época a igreja passasse por uma crise de descrédito estando envolvida em devassidão, ganância e poder. Ele foi considerado o protetor dos animais por haver pregado aos pássaros uma vez que o povo não o escutava, mas o retrataram pregando às gralhas e corvos que representavam o povo e isto fez diferença. 

Após sua volta do Egito onde pregou ao Sultão que ao contrário do que pensavam os católicos sobre os muçulmanos, era um homem culto, educado e que também desejava a paz, ele encontrou seus seguidores divididos, sendo que a maioria já optava por construir mosteiros e estavam mudando o ideal de pobreza que Francisco pregava. Desiludido, cansado, ele se retira para uma montanha por 40 dias, é quando o vemos como o místico que foi. 

Dois anos após sua morte a igreja o considerou Santo. E até hoje é mais conhecida a prece que foi feita para ele na Primeira Guerra Mundial do que pelos seus salmos e cânticos que fez enquanto vivia. 

Pamela Mason Wagner 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

FILME: O CORAJOSO: O INÍCIO DA VIDA DE JOSH McDOWELL - 2011



Direção: Cristobal Krusen - 2011
Duração: 65 min 
Título original: Undaunted: The early life of Josh McDowell 

Esta é uma história real, uma biografia da vida de Josh McDowell.

Josh (John Klicka) teve uma infância muito difícil, um pai alcoólatra que agredia sua mãe que era muito obesa a impossibilitando inclusive de fazer muitas coisas. Sua irmã cometeu suicídio, a outra foi para o exército para se afastar da família. O irmão processou os pais. Havia muita solidão e muita vergonha. E como se não bastasse ele ainda sofria desde os 13 anos abuso sexual por um empregado da família. Ele tentou contar para sua mãe que nunca acreditou nele.

Josh ( Allen Willianson)  deixou de acreditar em Deus com 11 anos quando seu irmão ganha o direito sobre a casa e todos os vizinhos debocham e chamam seu pai de beberrão. Quando jovem o esporte foi sua válvula de escape, ele havia se tornado cético e insensível. Até o dia que se dispõe a provar para os cristãos do colégio que estavam errados sobre o cristianismo. Sua busca é intelectual, vai para a Europa pois não encontra nos Estados Unidos o suficiente para sua tese. É o primeiro passo, os indícios históricos lhe mostram que é verdade.

Quem nos conta tudo isto é Josch quando já um homem maduro de cabelos brancos ( Allen Williamson). Ele volta ao lugar de sua infância e começa a relatar tudo que se passou.

Porém o intelectual não basta, ele continua a odiar seu pai, antes odiava Deus, agora o pai, até que percebe que sempre amou quem ele ama, mas que devia amar quem odeia, e assim consegue dizer ao seu pai que o amava. Ele também consegue dizer isto ao seu agressor que abusou sexualmente dele. Quando ele sofre o acidente de carro vai ficar na casa do pai, e ali eles realmente se reencontram.

Josh diz que o cristianismo é um relacionamento, é Deus vindo até nós através de Jesus nos oferecendo um relacionamento, diferente da religião que com seus rituais busca um caminho até Deus.

Diferente do filme Deus não está morto, aqui temos um relato real, de uma vida e da fé que possibilitou a Josh superar sua infância difícil e todos os traumas. Foi através do cristianismo e na sua crença e fé que ele aprendeu a amar.

Cristobal Krusen nasceu em 1952 em Tampa, Flórida, EUA. 

Josh McDowell 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

FILME: DEUS NÃO ESTÁ MORTO - 2014



Direção: Harold Cronk - 2014 
Duração: 113 min
Título Original: God's not dead


 Josh (Shane Harper) vai para a faculdade e se defronta com o professor Radisson (Kevin Sorbo) que não acredita em Deus. No primeiro dia de aula Radisson pede aos alunos que escrevam numa folha Deus está morto e assinem, mas Josh não consegue fazer isto e aceita o desafio de provar que Deus existe perante a classe que será o júri. Paralelamente há outras histórias acontecendo que também se remetem ao cristianismo.

O filme é uma glorificação do cristianismo, deixando de considerar as outras religiões como se a cristã fosse a única detentora da verdade. Aliás o filme todo reproduz isto, todos são donos de uma verdade e não consideram o outro. Mas não vou falar do filme pelo viés da crença em Deus, mas sim do ser humano e dos argumentos humanos.

Josh acredita que Deus quer que alguém o defenda, só isto já é um tanto de arrogância, supor que Deus deseja isto, porque quem quer fazer isto é Josh, e de qualquer maneira  não vejo porque Deus precisaria de defesa. Quem tem que se defender é Josh, ele quer defender sua verdade, o que ele acredita, mas precisa transferir a um outro este desejo, não pode simplesmente assumir que é ele quem quer provar algo para si mesmo e para os outros.

O professor de filosofia tem um ego exacerbado, é narcisista e faz uso do poder do lugar que ocupa para intimidar. Contradiz totalmente a filosofia que é justamente a liberdade de pensar de cada um. A filosofia argumenta, discute e coloca vários pontos de vista, apesar do desejo de uma verdade absoluta a própria filosofia demonstra através de seus filósofos que se contradizem que isto não existe.

A namorada de Josh quer atender ao seu desejo e não respeita em momento algum o desejo de Josh, que é provar que sua crença é verdadeira e que Deus está vivo. Ela chega a terminar com ele usando isto como uma arma para demovê-lo. Os outros personagens também demonstram isto, como o namorado da jornalista que está com câncer, que só visa a sua vida perfeita, ou melhor, supostamente perfeita. A namorada de Radisson que se alimenta da aprovação dele para ser sentir alguém com valor, ao invés de gerá-la em si mesma. Ela apenas transfere para Jesus a mesma aprovação.

O professor é intransigente, também quer que os outros acreditem no mesmo que ele, além da arrogância intelectual que o filme mostra. Apesar da academia ser um tanto arrogante intelectualmente, o fato é que nem todos são assim.

O debate ocorrem em 03 sessões de 20min. Josh ao invés de se utilizar dos filósofos, o que seria melhor num curso de filosofia, se utiliza da ciência.Quando Nietzsche disse que Deus estava morto ele referia-se à cultura. Durante a apresentação ele fala sobre o moralismo, que sem Deus não haveria moral, e não concordo com isto, os budistas são morais. Por que temos que temer algo para sermos morais? A moral vem da cultura, da palavra.

A questão é a visão de Deus como um grande Outro, assim como os pais, o Estado, a sociedade. Deus não tira nada de ninguém, não concordo com esta posição. A religião não é uma doença, mas uma sustentação que torna possível viver para alguns.

Não sou contra a religião, ela faz parte do nosso viver para muitos, mas o filme é uma glorificação do cristianismo, onde uma muçulmana troca sua religião, onde um japonês passa a ser cristão, mas se Deus existe ele está em todas as religiões. O professor Radisson odeia Deus, por que pensa que ele levou sua mãe quando ele era criança, e eis aí um efeito nefasto da crença. Radisson não é ateu, muito pelo contrário, como se diz no filme, não se pode odiar alguém que não existe.

Quando ele sofre o acidente e está à morte Radisson aceita Jesus pelo medo da morte. A jovem com câncer também o faz pela solidão e pelo medo. O mais saudável é quando se faz isto por amor, por desejo, mas não se transfere para Deus seus desejos. Na vida nada é por acaso, inclusive as dores, tristezas, obstáculos e a morte é algo da qual ninguém escapa.

Eu pessoalmente não gosto de nada que se impõe pelo medo, pelo desejo do outro ou Outro e o que mais vi no filme foi isto, a imposição do desejo do outro. Josh sai como vencedor, ele leva a palavra de Jesus, toca o coração dos outro, e a impressão que dá é que ele estava com a verdade, mas a verdade existe? a absoluta? ou a cada um a sua verdade? Quando aceitamos isto podemos amar ao outro com todas as suas diferenças e alteridades. E não é isto que se vê no filme, onde os que pensavam diferente são os perdedores, como uma alegoria ao castigo divino.

E finalizando, quando os alunos aceitam a imposição do professor também não estão respeitando a si mesmos, e apenas agindo em seu próprio interesse, ou seja, passar no curso, e o fazem pela imposição da autoridade. A posição do professor é errada, ele não respeita em momento algum a liberdade de crença e do pensar que a filosofia defende.

Harold Cronk nasceu em 1974 em Reed City, Michigan, EUA 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

FILME: LOURDES - 2009


Direção: Jessica Hausner - 2009
Duração: 96min 

Lourdes é um santuário na França nos Pireneus onde a Nossa Senhora apareceu para Bernadete na gruta. As peregrinações ao local são constantes em busca de uma cura milagrosa e também de conforto espiritual.

Christine (Sylvie Testud) é jovem e  sofre de uma doença degenerativa e participa de viagens organizadas pelos obreiros da Cruz de Malta e voluntários. Desta vez ela vai para Lourdes. Não consegue se mover, utiliza uma cadeira de rodas e depende dos outros para tudo, comer, beber, se locomover, vestir. Ela não consegue nem mover as mãos. Nesta viagem ela reencontra um rapaz da Cruz de Malta (Bruno Todeschini) que conheceu em outra viagem, para Roma. Christine está sob os cuidados de uma voluntária, Maria (Léa Seydoux) que também se interessa pelo mesmo rapaz da Cruz de Malta.




Acompanhamos o olhar de Christine por Lourdes, ela fala muito pouco e não é devota, apenas participa de tudo. Ela gostaria de ter uma vida "normal" e olha para os que podem andar, comer sozinhos com uma certa inveja. Sempre que a olham ou falam com ela dá um pequeno sorriso. Ela também será ajudada por Madame Hartl (Gilette Barbier) que não está ali em busca de uma cura, mas para preencher o vazio de sua vida, a solidão e por isto deseja ser útil e passa a cuidar de Christine e a rezar por sua cura.

O grupo com o qual Christine viaja é liderado por Cécile (Elina Lowensohn) que é metódica e séria. Ela diz que ali não se cura o corpo, mas sim a alma.

Em um dado momento Christine conseguirá mover suas mãos e os braços até levantar-se e andar. Esta cura surtirá inveja dos que não foram curados e questões sobre porque ela e não um outro. Ela terá que ser avaliada por uma junta médica que lhe dirá que esta recuperação pode não ser permanente, que pode ocorrer em sua doença. Mas Christine está feliz, ela pode então acompanhar o grupo ao passeio externo do qual estava excluída por ser cadeirante, e passa a ter uma esperança com o jovem da Cruz de Malta, com o qual dançará na festa de despedida. Mas ali ela cairá, e apesar de se levantar e ficar parada um pouco, assim que o jovem se vai, ela se senta novamente na cadeira de rodas e se deixa levar por Madame  Hartl.

O filme nos mostra o que é Lourdes ou qualquer outro santuário onde as pessoas movidas pelo desespero, pela doença, pela solidão vão em busca de um milagre. Mas Deus escolhe os que cura, e seus desígnios são insondáveis. Por que justamente Christine que nem devota é? A esperança de todos ali é encontrar a felicidade, mas esquecem que ela é efêmera e vai e volta. Buscam algo que na verdade está dentro de cada um, a liberdade, mas a maioria fica presa a uma cadeira de rodas ou a uma muleta.

Vemos as pessoas no filme que falam em Deus, rezam, esperam, mas também estão invejando, comentando, falando do outro, criticando, competindo. Sentem raiva e ciúmes. Então temos o palco do ser humano diante dos olhos. Eles não crêem com a fé, eles perguntam o que devem fazer para obter um milagre, para ter sucesso. Então acreditam que aquele que mais rezou, mais pediu é que deveria ser beneficiado com o milagre, como a menina na cadeira de rodas cuja mãe vai todos os anos à Lourdes em busca da cura, e não compreendem que Christine que foi ali para poder sair de casa, viajar é quem recebe a cura. Por outro lado Christine sabe que esta cura pode não durar.

Pessoalmente ainda vou um pouco mais longe, saindo da questão religiosa e da fé, Christine que fala tão pouco durante o filme vai á confissão e diz ao padre que sente raiva, diz o que deseja, e a palavra também tem o poder da cura. Além disto há o desejo e o amor, ela gostaria de poder estar ao lado do rapaz, de ser "normal" acreditando que assim poderia conquistá-lo, como vê Maria fazendo. Esta por sua vez ao perceber o interesse dos dois se afasta de Christine, não lhe dando mais a atenção devida, na hora de se alimentar ou a deixando parada num local na cadeira e indo embora.

Christine traz a força de dentro de si mesma para se levantar, do divino que tem em si, ela não espera uma cura de fora, e talvez esta seja a diferença.

Jessica Hausner nasceu em 1962 em Viena - Áustria 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

DOCUMENTÁRIO: O GRANDE SILÊNCIO - 2005


Direção: Philip Gröning - 2005 
Duração: 169 min 
Título original: Die groBe Stille 

Na verdade não se trata de um documentário, mas de um mergulho na vida e no dia a dia do Mosteiro Grande Chartreuse na França, a casa-mãe da ordem dos monges Cartuxos.

É algo que toca a alma, se deixe levar para dentro do filme, sinta, ouça os pequenos sons das folhas, da chuva, uma serra cortando madeira, uma bacia batendo na pedra. Se deixe levar pelo silêncio, pela meditação, os versos gregorianos, o arrastar dos pés pelos corredores. Se deixe levar pelas mudanças de estações, pelo som dos sinos, pela contemplação. E também pela alegria dos monges quando saem do mosteiro e entram em contato com a natureza e também brincam na neve.


São duas horas e meia que você vive dentro do Mosteiro. Não há comentários, não há explicações, não há nada que nos diga algo sobre o filme, por isto não o considero um documentário, mas uma experiência estética e espiritual.

O tempo é outro, o silêncio e os sons, os monges vivem em suas celas, os que trabalham o fazem sempre sozinhos. Eles tem momentos comunitários, no domingo e em dias festivos eles fazem a refeição juntos. Eles saem do Mosteiro para passeios e é o único momento onde os vemos falar um com os outros.

Durante 2 horas e meia submergimos no mundo contemplativo de uma vida dedicada ao amor à Deus. "E Deus me seduziu e eu me deixei seduzir". O filme é lento como a vida dos monges, um aprendizado de paciência e respeito ao tempo. Sempre dizemos que o tempo voa, mas é o mesmo tempo ali, só que ao focar nos detalhes, vivenciar cada momento, o tempo é mais lento e completo, do contrário, não o percebemos porque não é vivido. Na correria do dia a dia não notamos nada, não vemos os detalhes. Quantas vezes passamos por uma mesma rua e não vemos os detalhes de uma casa, uma bela árvore que está ali há anos?



Moro num local onde as pessoas dizem que é quieto demais, silencioso demais. As pessoas já não conseguem viver sem barulho? o que este barulho vem preencher? Não existe silêncio total na vida, há inúmeros sons, a natureza tem seus sons, nosso corpo tem sons. O silêncio se torna grande quando há falta, uma ausência, como senti durante o luto de minha mãe, mas no dia a dia eu gosto dos pequenos sons. No filme um dos mais belos sons são os sinos. Sinos relembram a minha infância.



Por duas vezes a câmera foca um avião que passa no céu. Que mundo distinto. Mas é para pensar, senão é questão de ser monge, mas que mundo é este que vivemos?  com todo o barulho, poluição visual e sonora, onde não temos um momento de silêncio, de meditação, nenhum refúgio, um jardim secreto. Quando busco um lugar para ficar só e em silêncio vou a um cemitério, e ainda assim... às vezes não é possível pois há uma avenida passando ao lado.



O mosteiro Grande Chartreuse fica em Saint-Pierre-de-Chartreuse, ao norte de Grenoble, nos Alpes. A ordem dos cartuxos foi fundada por São Bruno. Há monges e monjas, e mosteiros em vários lugares do mundo,inclusive no Brasil, em Ivorá - RS - Cartuxa de N. Sra. Medianeira.



Philip Gröning solicitou permissão para filmar dentro do Mosteiro em 1984, os monges responderam que precisavam pensar, que ainda era cedo. Levaram 16 anos para conceder a permissão. Gröning precisou filmar sozinho, sem equipe técnica e sem iluminação. Ele viveu no mosteiro por 6 meses.

Trailer:




Philip Gröning nasceu em 1959 em Düsseldorf, Alemanha. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

FILME: CHICO XAVIER - 2010



Direção: Daniel Filho - 2010 
Duração: 123 min 
Roteiro: Marcos Bernstein
País: Brasil

Baseado no livro As vidas de Chico Xavier de Marcel Souto Maior 

Uma cinebiografia de Chico Xavier, o maior médium brasileiro, desde sua infância até sua morte. Desde criança ele ouvia vozes e via os espíritos dos mortos sendo desacreditado, mas isto continua e ao crescer ele começa a psicografar. Ele vai se tornando muito conhecido e procurado pelas pessoas, o que irrita o padre da cidade. Mais velho interpretado então por Nélson Xavier, participa do programa de TV "Pinga Fogo" onde conhece Orlando (Tony Ramos) que é ateu e sofre junto com sua esposa Glória (Christiane Torloni) pela perda de seu filho.



Chico Xavier escreveu mais de 400 livros e morreu aos 92 anos conforme havia previsto, num dia de festa para o Brasil, ele partiu silenciosamente, enquanto todos comemoravam o penta na Copa do Mundo.



Daniel Filho nasceu em 1937 no Rio de Janeiro

Trilha Sonora Egberto Gismonti - Iluminada

Egberto Gismonti em 1947 em Carmo, Rio de Janeiro. É um compositor brasileiro. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FILME - MINHAS VIDAS - 1986




Direção: Robert Butler - 1986 
Duração: 235 min 
Título Original: Out on a limb 

Baseado no livro Minhas Vidas de Shirley MacLaine que também é a protagonista do filme. 

Trata-se de um filme espiritualista.

Já li o livro há muitos anos atrás e agora assisti ao filme. Shirley está num momento de questionar sua vida, seus amores, principalmente o que ela vive no momento com um importante político casado.

É o relato de uma longa jornada que ela empreendeu para dar um sentido à sua vida. Ela sentia falta de algo, apesar de todo sucesso que fazia. É o relato de sua jornada espiritual onde nos falará de reencarnação, médiuns, vidas passadas, suas experiências, o que viveu e sentiu. Fará uma viagem ao Peru onde passará por momentos especiais.

Uma busca de si mesma através da espiritualidade, da matéria espírito.

"Não temos uma alma, nós somos uma alma"


Robert Butler nasceu em 1927 em Los Angeles, Califórnia, EUA 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

FILME: ALÉM DA VIDA - 2010



Direção: Clint Eastwood - 2010
Duração: 129min 
Título original: Hereafter 
Roteiro: Peter Morgan 
País: Estados Unidos 

Ganhou o prêmio David di Donatello de melhor filme estrangeiro 

O tema é a morte, o que não conhecemos e não temos como conhecer. Os três personagens do filme tentam lidar com ela.

A jornalista Marie (Cécile de France), famosa, rica, inteligente que sempre destrincha e desvenda tudo e todos se vê diante de algo que não se explica. Ela se salva de um tsunami, mas enquanto esteve submersa na água após bater com a cabeça tem "visões". Após esta experiência ela não consegue mais retomar seu lugar na vida, ninguém consegue compreendê-la ou acreditar nela. Deixará tudo para ir em busca de explicações e de pessoas que possam acreditar nela. Acaba escrevendo um livro. Perde sua vida anterior o que também não deixa de ser uma morte. Ela acabara encontrando o vidente que vê nela alguém como ele, que também teve contato com a morte.



O vidente George (Matt Damon) que após uma cirurgia no cérebro passa a ter contato com os mortos, tem visões rápidas ao tocar na pessoa ou em um objeto e os escuta. Faz disto um meio de ganhar dinheiro, mas percebe que isto não é um dom e sim uma maldição, que não pode viver lidando com a morte diariamente. Ele para com isto e tenta levar uma vida comum.

O menino  Marcus (Frankie McLaren/ George McLaren) que perde seu irmão gêmeo e quer reencontrá-lo, não consegue viver sem ele. Ele encontra o vidente que acaba por atendê-lo e ouve do irmão que era ele quem tomava decisões e cuidava dele, mas que agora ele vai embora e ele tem que cuidar de si, que está por conta própria a partir de agora.

A questão aqui não é dizer se estas visões e vozes são reais ou delírios, mas sim o que faz o vivo para lidar com a morte. O filme mostra a exploração por pessoas de má fé deste desejo humano de ter contato com os mortos e da crença em uma outra vida após a morte como consolo pelo o que todos nós sabemos, ou seja que vamos morrer um dia. O medo, o não aceitar a perda.

Uma coisa é certa, haja ou não vida após a morte são dois mundos separados e cada um deve ficar e estar no seu, por isto o luto onde tudo que fazemos e sentimos é por nós mesmos, é sobre nós, não sobre os que partiram. É sobre como viver sem eles aqui deste lado onde não estão mais. A aceitação disto, porque a falta nunca se preenche, esta perda não é recuperável, mas é preciso viver e para que isto possa acontecer precisamos viver o luto.

Uma observação sobre o filme: a filmagem do tsunami é incrível, muito bem feita.

Clint Eastwood nasceu em 1930 em São Francisco, Califórnia, EUA. É um ator de cineasta.

Tema do filme. Composição de Clint Eastwood.