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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

IFEMELU: IDENTIDADE E IMIGRAÇÃO

 


AMERICANAH

CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2014

520 páginas~

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um romance poderoso que explora questões de identidade, raça, imigração e pertencimento, a partir da experiência de Ifemelu, uma jovem nigeriana que se muda para os Estados Unidos em busca de educação e novas oportunidades. A obra examina de maneira sensível e crítica os desafios enfrentados por imigrantes e as nuances do racismo estrutural, das diferenças culturais e da adaptação em um país estrangeiro.

O romance também aborda a vida na Nigéria, revelando as complexidades sociais, econômicas e políticas do país, bem como as relações humanas marcadas por classe, gênero e tradição. Ao acompanhar o percurso de Ifemelu, Adichie investiga a construção da identidade, a experiência do “não-lugar” do imigrante e a importância da memória cultural para manter o vínculo com suas origens.

Além disso, o livro destaca a questão racial de forma direta, especialmente nos Estados Unidos, discutindo como a cor da pele influencia oportunidades, interações e percepção social. Americanah é, portanto, tanto uma história de amor e autodescoberta quanto uma análise crítica sobre raça, identidade e as tensões entre pertencimento e deslocamento.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, Nigéria, em 1977. É uma feminista e escritora nigeriana. 




sábado, 7 de fevereiro de 2026

A LITERATURA QUE SE ESCREVE SOBRE SI MESMA

 


A MAIS RECÔNDITA MEMÓRIA DOS HOMENS

MOHAMED MBOUGAR SARR

FÓSFORO – 1ª ED.  2023

400 páginas 

Magistral! Há muito tempo não lia algo tão rico, um livro que celebra a própria literatura em cada página. Mohamed Mbougar Sarr cria uma narrativa que é, simultaneamente, investigação, reflexão e homenagem à escrita. Tudo começa com a busca de um autor desaparecido, cujo livro, celebrado na França, passou a ser acusado de plágio. E é nesse jogo de autoria, reconhecimento e intertextualidade que Sarr opera com incrível precisão: há trechos que evocam outros autores, seja propositalmente, seja como gesto literário de diálogo com a tradição.

O romance dialoga com múltiplos registros: pode-se notar elementos de realismo mágico, embora seja complicado reduzir a experiência africana a esse rótulo, dada a riqueza de mitos, superstições, adivinhos e visões que atravessam o continente. Há cenas memoráveis, como a de um Cristo pintado na parede, que funcionam como símbolos de presença e ausência, fé e memória. Outro recurso notável é o uso de biografemas, termo proposto por Roland Barthes: informações que os personagens desconhecem, mas que o leitor recebe, permitindo uma compreensão mais ampla dos acontecimentos e uma experiência de leitura quase de cumplicidade com o autor. É como se pudéssemos sussurrar aos personagens o que eles não sabem, completando a narrativa por fora da consciência deles.

A história se encadeia aos poucos, entre França, Argentina, África e Holanda, na busca pelo autor desaparecido. Essa travessia geográfica e temporal não é apenas física: ela toca as tragédias do colonialismo, do holocausto, e das violências que moldam a memória coletiva. A narrativa constrói, passo a passo, um mosaico literário e histórico que exige do leitor atenção e entrega, mas recompensa com uma experiência literária intensa e múltipla.

No fim, A mais recôndita memória dos homens é mais que um romance: é uma ode à literatura, à escrita, à memória e ao diálogo entre passado e presente, entre autores e leitores, entre culturas e histórias que insistem em atravessar o tempo.



Mohamed Mbougar Sarr nasceu no Senegal em 1990 e vive na França. Recebeu o prêmio Goncourt pela A Mais Recôndita Memória dos Homens. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

TRADIÇÃO, COLONIZAÇÃO E A TRAGÉDIA DE UM MUNDO EM RUPTURA

 


O MUNDO SE DESPEDAÇA

CHINUA ACHEBE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2009

240 páginas 

O Mundo se Despedaça é, antes de tudo, um romance sobre a violência das rupturas. Achebe nos apresenta o povo ibo, na região que hoje corresponde à Nigéria, antes da colonização, permitindo que conheçamos seus rituais, sua organização social, suas crenças, sua justiça e suas formas próprias de pertencimento. Trata-se de um gesto político e literário fundamental: mostrar que havia mundo, sentido e complexidade antes da chegada europeia.

No centro da narrativa está Okonkwo, um grande guerreiro de Umuófia, cuja vida é marcada por um medo profundo: o de se tornar semelhante ao pai, considerado fraco e indigno pela comunidade. Esse pavor molda sua personalidade e o conduz a uma adesão quase violenta à tradição, à honra e à virilidade. Okonkwo não se permite falhar, não se permite sentir, não se permite vacilar. Sua rigidez é tanto sua força quanto sua ruína.

Achebe constrói Okonkwo como uma figura trágica. Seu apego intransigente à tradição não nasce de uma reflexão serena, mas de uma ferida íntima. O que está em jogo não é apenas a preservação cultural, mas uma identidade masculina construída sobre o medo da fragilidade. Quando o destino o atinge — obrigando-o ao exílio por sete anos —, não é apenas um indivíduo que se afasta da aldeia, mas uma forma inteira de estar no mundo que começa a se desfazer.

Durante sua ausência, chegam os missionários e os homens brancos. A colonização não aparece como um evento súbito, mas como um processo lento de infiltração, que atua sobre as fissuras internas da sociedade ibo: a conversão de alguns membros, a introdução de novas leis, a deslegitimação das autoridades tradicionais, a substituição gradual dos sentidos do sagrado e da justiça. O mundo não explode — ele se despedaça.

Quando Okonkwo retorna, encontra uma aldeia transformada. Aquilo que antes era consenso agora é dúvida; o que era tradição torna-se objeto de negociação. Incapaz de se adaptar, Okonkwo percebe que já não há lugar para ele naquele novo arranjo colonial. Sua tragédia pessoal espelha a tragédia coletiva de um povo cuja cosmologia, linguagem e organização social são violentamente reordenadas a partir de parâmetros externos.

Achebe escreve contra a narrativa colonial que retratou as sociedades africanas como primitivas ou sem história. O Mundo se Despedaça devolve densidade, humanidade e contradição a esses mundos, ao mesmo tempo em que revela que a colonização não destrói apenas culturas, mas produz sujeitos deslocados, presos entre um passado que não pode retornar e um presente que não lhes pertence.

É um romance profundamente antropológico, político e ético. Um livro que mostra que a perda mais radical não é apenas territorial ou econômica, mas simbólica: perder o sentido do que se é.



Chinua Achebe em Ogidi, Nigéria, em 1930 e faleceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 2013. Foi um romancista, poeta e crítico literário. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

LIVRO: TERRA SONÂMBULA - MIA COUTO



Couto, Mia. Companhia das Letras, 2007
206 Páginas

Moçambique após a independência, a guerra civil que devasta o país, o velho Tuahir resgata o menino Muidinga da morte num campo de refugiados e começa a Odisseia dos dois. Vão em busca dos pais do menino, pelo menos é o que alegam, mas onde procurar numa terra devastada pela guerra, que já não oferece caminhos para isto? Somente no sonho, na fábula seria possível reconstruir a identidade do menino.
Encontram um ônibus incendiado e resolvem se abrigar nele. Lá encontram uma mala, dentro os cadernos de outro garoto, Kindzu, outro que foge deste mundo atroz e que escreveu estes cadernos conforme vai sonhando.
De um lado o nu das atrocidades da guerra civil, dos bandos que assassinam, dos campos de refugiados, da perda de tudo, família, lugares, sua história, mas o pior, perder sua identidade, como diz o feiticeiro no sonho de Kindzu : " - Que morram as estradas, se apaguem os caminhos e desabem as pontes. (...) Porque esta guerra não foi feita para vos tirar o país, mas para tirar o país de dentro de vós." De outro lado, a linguagem, a narrativa, contar histórias e os sonhos.
Diante do árido, do sem sentido, do caos é melhor sonhar do que se perder. E Muidinga vai sonhando com os cadernos de Kindzu, reconstruindo um saber que lhe escapava, através das tradições, dos mitos, das crenças de seu povo, até poder se constituir e saber quem é ele, o que Kindzu lhe dará ao final.

Um belo livro. A riqueza antropológica, a narrativa e a capacidade de construir o caminho e deixar as estradas viverem para poder não se perder. Diante de tantas guerras civis onde o conquistador quer apagar os traços do que constitui o povo, sonhar e contar histórias é a possibilidade de não perder suas origens e de manter vivo tudo aquilo que se é.

Mia Couto nasceu em 1955 em Beira, Moçambique.É biólogo e escritor.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

LIVRO: CIDADE ABERTA - TEJU COLE


Cole, Teju. Companhia das Letras, 2012
Tradução: Rubens Figueiredo 
315 páginas

Julius é um nigeriano que vive nos Estados Unidos em Nova York no pós-Onze de Setembro e faz residência em psiquiatria
Um livro sobre o híbrido, traumas e uma imensa solidão. Ele passa seus dias no Hospital e depois sai para caminhar pela cidade. A sensação da solidão que ele nos passa caminhando e relatando o que vê somado a informações históricas e também suas lembranças do passado. Aquele momento onde percebemos em alguma coisa ou algo uma pequena lembrança de algo que nos ocorreu que nos vem da memória. Mas ele também empreende uma fuga de tudo, deixa muitas reticências, não consegue se confrontar com seus fantasmas e prefere esquecê-los. 
Faz uma tentativa indo procurar sua avó que mora na Bélgica, mas passa seus dias naquela cidade fazendo a mesma coisa, flanando pela cidade, com uma diferença que ele conhece Farouq e mantém conversas com ele, porém em todos os momentos de seus encontros ele mais escuta e pensa do que fala. E não me parece que faz algum esforço para encontrar sua avó de fato, e que talvez nem ele mesmo saiba o que foi fazer ali, pois provavelmente tinha consciência da dificuldade que seria encontrá-la, supondo que ainda estivesse viva.
É no relato de suas errâncias que notamos mais profundamente o hibridismo atual, nas diferenças e nos iguais, que ele relata. Seja nos restaurantes que cita e que são vários podendo ser locais ou indianos, chineses, seja nas lojas que visita e que igualmente podem ser representativas de vários locais, e nas pessoas que encontra nas ruas. Farouq defende a diferença, outros acham que as pessoas precisam ser vistas como iguais. 
Os traumas de guerra e da vida que surgem seja nas lembranças de Julius, no que ele vê ou nos relatos de pacientes. As pessoas que deixam seus locais de origem devido ditaduras cruéis, genocídios, guerras e lutas tribais e sonham com um país que haja liberdade, mas será que esta liberdade tão desejada existe? Ou será que há algo oculto na representação da Estátua da Liberdade que a tantos fez chorar de alegria ao vê-la pela primeira vez? 
Porém há um outro lado neste livro que só me surgiu quando eu já estava quase terminando a leitura, e confesso que há momentos que se torna até cansativo aquele desenrolar de suas percepções, e foi quando ocorre uma revelação de um fato ocorrido há muitos anos atrás no qual ele seria o vilão. O que realmente me chocou foi que Julius apenas assume que todos nós temos um lado bom e outro mau

" Temos a capacidade de fazer o bem e o mal, e na maioria das vezes optamos pelo bem. Quando não o fazemos , não nos perturbamos com isso..." 

Ele deixou uma vida marcada para sempre, e com consequências trágicas, porém não é isto o que me revelou este livro, o que ele mostra claramente, depois que acompanhamos Julius por 300 páginas é sentir e perceber como se sente ou não se sente uma pessoa que cometeu uma violência, relegando isto totalmente ao esquecimento, ou talvez recalcando, mas não acredito que aqui seja isto, ele simplesmente esqueceu, por que para ele isto não o afetou. E quando Moji lhe relata ele chega mesmo a pensar que talvez seja mais uma história onde o outro se vitimiza sem perceber que também está no centro da questão, apesar de ela lhe parecer convincente. Ele não lhe diz nada, apenas dá graças por ela não ter chorado. 

Enquanto Moji passou sua vida toda pensando a cada dia nisto, sentindo a marca em si, ele continuou andando e vivendo sua vida, e nem a reconheceu quando a viu no mercado.

Cole nos dá um relato excepcional aqui, pois como esta revelação vem ao final do livro, surpreende e nos pega já mergulhados na vida de Julius, e diante do fato é que percebemos como é com outros que também cometeram atos assim. Crimes que se perpetuam, não só este, mas a violência que vemos no mundo. 

Um relato trágico do que ocorre nestes crimes, e que também fazem parte de todas as guerras.  

Teju Cole nasceu em 1975 na Nigéria. É fotógrafo, escritor e historiador de arte. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: A INFÂNCIA DE JESUS - J.M. COETZEE



COETZEE, J.M. Companhia das letras, 1ª Ed. 2013
Tradução: José Rubens Siqueira
304 páginas. 

A SOCIEDADE IDEAL, ETERNA UTOPIA.

Uma sociedade ideal, Novilla, onde as pessoas não tem mais desejos, pulsões, tudo é controlado, não há emoções, não há sexualidade, nem erotismo. Só há uma língua, o espanhol que todos devem aprender. Quando se chega ao local é preciso esquecer tudo, você não tem mais história ou passado. É um local para recomeçar tudo, e sem ter que sofrer. As pessoas são renomeadas, recebem uma moradia e um emprego. Chegam ali os recém nomeados: Simon um homem de meia idade e David um menino.

Uma sociedade perfeita, mas onde nada acontece. Tudo é previsto, não há sentimentos, paixões, sem conflitos. Lendo é que se percebe o quanto seria monótono uma vida assim, sem sabor, sem sal. As pessoas sonham com uma vida assim, onde não se sofre, onde não haja conflitos, mas isto seria deixar de viver.
Uma única língua, me lembra a tentativa com o Esperanto, mas que não funciona, pois uma língua traz em si toda uma cultura e um jeito de falar e de se expressar. Ao se colocar uma única língua se limita as trocas, e a sociedade não muda.

A alimentação é suficiente, mas de poucas opções, sem o prazer da comida, os sabores. As moradias são bem parecidas, poucos móveis, pouca roupa, tudo é regulado. Estamos diante da apatia.

É contra tudo isto que Simon e David irão se rebelar e lutar contra. Simon pensa em comidas, fica atônito diante da frieza das mulheres, não compreende que as pessoas não queiram fazer nada para melhorar ou mudar algo. Ele já não sabe o que fazer, como se comportar e aos poucos vai até se acomodando, mas não David.

E é aí que talvez vamos ter uma boa nova! Além de paralelos que surgem rapidamente com a vida de Jesus durante toda a obra. É Davi que vai questionar e não aceitar a ordem das coisas, ele quer mudanças.

Então talvez compreendamos que recomeçar tudo de novo é justamente fugir do conhecido e fazer algo diferente dos outros. É enfrentar a vida com todos seus sabores e dissabores.

Esta sociedade também me lembra muito os modelos totalitários e o livro 1984. Da maneira que o mundo se conduz hoje, sem ao menos perceber, estamos ficando cada vez mais iguais, pois consumimos exatamente as mesmas coisas, só compramos o que está em evidência ou é ofertado pelo marketing e pela mídia, nos comportamos como esperam que o façamos do contrário somos excluídos, não é de bom tom, não é politicamente correto. A cegueira vai tomando conta, e fico muito assustada a cada vez que vejo uma fila se formando na noite anterior diante de shoppings para comprar o mais novo lançamento tecnológico que será vendido no dia seguinte. A cada vez que me criticam por que meu celular é do modelo antigo, apesar de funcionar muito bem ainda, e que vou ter que trocar quando não puder mais usar pois não será mais compatível com a tecnologia atual, ou seja, sou obrigada a fazê-lo. A cada vez que entro numa livraria e nunca encontro um livro que não esteja na lista dos mais vendidos e tenho que recorrer ao sebo e as pessoas me olham de forma estranha por estar procurando este tipo de livro e não aqueles de auto ajuda ou os últimos lançamentos.

A história se passa no mundo atual, mas é como termos um novo messias que venha nos ensinar a ver as coisas de outra forma, por que por incrível que pareça, ainda precisamos de um messias, um líder, ou da mídia, só que o primeiro tenta nos fazer enxergar, enquanto que os outros tentam nos fazer viver em Novilla.



J.M. Coetzee é um escritor sul-africano. Nasceu em 1940 na Cidade do Cabo e recebeu o Nobel de Literatura em 2003.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


Agualusa, José Eduardo. Editora Foz, 2012
176 páginas


Guerra Civil em Angola, independência de Portugal. Ludo, após o desaparecimento da irmã e do cunhado, ergue uma parede e se enclausura no apartamento com seu cachorro Fantasma, de onde sairá 30 anos depois. Ela tem medo, não confia na humanidade devido uma tragédia em sua infância.
Somente quando ela se perdoa pode novamente sair ao mundo e ser reconhecida e também reconhecer, e pede perdão a si mesma, à criança que ficou parada  em uma curva na infância.
Mas, apesar do seu isolamento, ao seu redor coisas acontecem, e sem que ela saiba ou queira isto, acaba fazendo parte de todas elas.

Há uma cena simbólica belíssima com o espelho, onde atrás dela há sempre o estranho e seu duplo introjetado, e a troca dos espelhos na casa irá permitir que ela abra a porta para a vida, livrando-se deste invasor. Ela diz então: Teria sido tão fácil abrir a porta! Mas ela só o faz quando já está velha, quase cega, e pessoalmente me pergunto se ela o teria feito antes, teria sido capaz? Ludo tenta se isolar do outro, tem muito medo do outro, porém quando abre a porta, as histórias, coisas que aconteceram no mundo convergem para sua porta, e então no que é possível, se esclarecem.