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quarta-feira, 1 de abril de 2026

MERKEL: PODER, PRUDÊNCIA E ANTECIPAÇÃO POLÍTICA

 


ANGELA MERKEL: A CHANCELER E SEU MUNDO

STEFAN KORNELIUS

EDITORA nVERSOS – 1ª ED. 2015

288 páginas

Stefan Kornelius no traz uma biografia política de Angela Merkel. No início do livro são apresentados alguns fatos de sua infância e de sua vida durante 35 anos na RDA, a Alemanha oriental, e os efeitos que essa experiência teve sobre sua formação, principalmente no que se refere à questão da liberdade.  

Merkel era filha de um pastor protestante que, junto com sua esposa e mãe de Angela, soube preservar na intimidade de sua casa, a portas fechadas uma liberdade de pensamento. Porém, do outro lado da porta, era preciso se fazer de inocente e saber dissimular para não se tornar alvo de perseguição política.

No início de sua carreira política no Ocidente, após a queda do muro de Berlim, Angela encontra dificuldades para compreender o pensamento ocidental. Aos poucos, contudo, vai se entrosando, embora sempre guarde para si o valor máximo da liberdade.

O livro trata dos dois primeiros períodos de seu governo, tendo sido publicado antes do terceiro. Nele aparecem questões centrais da política internacional, como a guerra do Iraque, a invasão da Líbia e, sobretudo, a crise do euro. Kornelius mostra também o estilo de governo de Merkel: sempre cauteloso, passo a passo, sem lances intuitivos ou emocionais, marcado por uma postura extremamente analítica e racional.

São descritos ainda seus encontros e negociações com os governos da Rússia, da China e dos Estados Unidos, bem como sua aliança com a França durante a crise do euro, parceria que posteriormente se enfraqueceu com a mudança de presidente francês.

Somos apresentados, assim, a uma mulher que foi considerada a mais poderosa do mundo e, se não do mundo, certamente da Europa. Embora não se apoie na intuição, Merkel possui um senso de análise que a leva a antecipar crises futuras, inclusive aquelas que hoje se desenham nas tensões entre Rússia, Estados Unidos e China.


Stefan Kornelius nasceu em 1965. É um jornalista alemão. 


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

NEUROSSEXISMO, CIÊNCIA E PODER

 


HOMENS NÃO SÃO DE MARTE MULHERES NÃO SÃO DE VÊNUS

Como a nossa mente, a sociedade e o neurossexismo criam a diferença entre os sexos

CORDELIA FINE

CULTRIX – 1ª ED. 2015

424 páginas 

Você provavelmente já viu o livro — ou o filme — Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, que supostamente “provaria” a existência de diferenças sexuais no cérebro humano. A partir dessa ideia, constrói-se a narrativa de que os homens seriam mais racionais e lógicos, saberiam ler gráficos e dirigiriam melhor, enquanto as mulheres seriam mais emocionais, teriam maior empatia e facilidade para os relacionamentos, mas seriam péssimas motoristas, incapazes de interpretar dados ou lidar com números — e assim por diante.

Pois bem: a neurocientista e psicóloga Cordelia Fine, apoiada em inúmeras pesquisas científicas, desmonta esse mito pseudocientífico das diferenças cerebrais entre homens e mulheres.

É verdade que podem ser encontradas algumas diferenças, mas nenhuma que justifique desigualdades na capacidade intelectual entre os sexos. Matemática, física e ciência são igualmente possíveis para homens e mulheres; assim como empatia, cuidado com a casa, com os filhos e com os outros também o são. Não há predisposição biológica que determine essas divisões.

Mais uma vez, nos deparamos com uma pseudociência que tenta justificar a superioridade masculina a partir da biologia e da “natureza”. O mais preocupante é que muitas mulheres acabam acreditando nesses discursos e, por efeito social, passam a apresentar desempenho inferior em áreas consideradas masculinas. Ao mesmo tempo, muitos homens sequer se aventuram em campos vistos como femininos — e, quando o fazem, correm o risco de serem estigmatizados e feminizados pela sociedade.

Apesar de trazer uma grande quantidade de pesquisas e relatos — e embora a tradução por vezes me pareça um pouco truncada —, a leitura vale muito a pena.


Cordélia Fine nasceu em Toronto, Ontario, Canadá, em 1975. É uma psicóloga e Filósofa.


UTOPIA, DECEPÇÃO E VIOLÊNCIA POLÍTICA

 


O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

LEONARDO PADURA

BOITEMPO – 2ª ED. 2015

608 páginas

É um livro impressionante. O homem que amava os cachorros narra a história de Ramón Mercader, o assassino de Trotsky no México, e, em paralelo, a trajetória da própria vítima. Mas o romance é muito mais do que a reconstituição de um crime histórico. Ele é, sobretudo, uma reflexão profunda sobre o stalinismo e sobre a destruição de uma utopia.

Padura mostra como, naqueles anos, se instaurou uma fé cega em Stálin e no comunismo stalinista — algo muito distante do projeto comunista original. Essa fé foi construída por meio de mentiras sistemáticas, propaganda e manipulação, num mecanismo que guarda semelhanças inquietantes com o que ocorreu no nazismo de Hitler, especialmente na fabricação do antissemitismo. É impossível não traçar paralelos com o presente, quando a desinformação e as fake news continuam sendo instrumentos eficazes de controle.

Outro elemento central é o medo. Um medo profundo e paralisante. Posicionar-se contra Stálin significava, muitas vezes, a morte — não apenas para opositores declarados, mas também para qualquer um que ameaçasse, ainda que minimamente, o ego inflado do líder. O terror era parte estruturante do sistema.

Talvez o ponto mais forte do livro seja a descrição do fim de uma utopia compartilhada por toda uma geração. O sonho de uma sociedade mais justa, em oposição ao capitalismo predatório, foi sendo corrompido nas mãos de líderes que se revelaram ditadores: Stálin, Mao e, em certa medida, Fidel Castro, quando observamos a miséria, o controle e o medo que também marcaram Cuba.

Muitos se perguntam hoje como tantos intelectuais, escritores e artistas aderiram ao comunismo stalinista. Padura ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar que pouco se sabia, de fato, sobre o que ocorria dentro dos países comunistas. Para muitos, tratava-se da única alternativa possível contra a pobreza, a exploração e a miséria do trabalhador. As denúncias eram facilmente descartadas como invenções capitalistas ou fascistas.

Ao final da leitura, permanece uma sensação profunda de decepção, frustração e, em alguns casos, culpa. A figura do assassino de Trotsky encarna isso de forma trágica: um homem cuja vida foi conduzida por outros, transformado em instrumento de um ódio que não era verdadeiramente seu. Um ódio que, no fundo, era o ódio de Stálin por alguém que estivera na vanguarda da Revolução Russa, mas que, no momento de sua morte, já era um velho isolado e desacreditado — alvo de mentiras, como a falsa acusação de aliança com os nazistas, que nunca existiu.

É uma leitura fundamental tanto para compreender o stalinismo e esse período histórico quanto como alerta para o presente. Um livro que nos ensina a desconfiar de verdades absolutas, de líderes carismáticos e de tudo aquilo que se espalha sem mediação crítica, especialmente nas redes sociais.

Leonardo Padura Fuentes nasceu em Havana, Cuba, em 1955. É um escritor e jornalista cubano.




sábado, 7 de fevereiro de 2026

A FORÇA SILENCIOSA DE EUNICE PAIVA


 

AINDA ESTOU AQUI

MARCELO RUBENS PAIVA

ALFAGUARA – 1ª ED. 2015

296 páginas 

Não assisti ainda ao filme, mas diante de toda a repercussão recente, confesso que esperava mais do livro. Ainda estou aqui tem sido amplamente mobilizado no debate público como uma obra sobre a ditadura militar, mas, na leitura, essa dimensão aparece de forma relativamente limitada e, em certos momentos, até repetitiva.

A prisão e o assassinato de Rubens Paiva ocupam menos espaço do que se poderia supor. Os episódios ligados à repressão retornam ao longo do texto, mas sem grande aprofundamento histórico ou político, o que contrasta com a centralidade que o tema ganhou na mídia. A ditadura está ali, sem dúvida, mas não é esse o núcleo mais potente do livro.

O que realmente se impõe como experiência literária e afetiva é o relato do Alzheimer de Eunice Paiva. É um texto pungente, delicado, por vezes devastador. Se é possível usar essa palavra diante de uma doença tão cruel, trata-se de um relato “belíssimo”, justamente por sua contenção e honestidade. O apagamento progressivo da memória, a inversão de papéis entre mãe e filhos, a perda cotidiana e irreversível da pessoa que se ama é narrado com uma sensibilidade que sustenta o livro.

Chama atenção, no entanto, o pouco espaço dedicado à vida de Eunice entre a prisão do marido e o início da doença. Há apenas apontamentos: sua formação em Direito, sua atuação na defesa dos povos indígenas, a conquista de autonomia e independência. Eunice era uma mulher de classe média alta, dona de casa, inserida em um casamento tradicional, cuja vida foi abruptamente virada do avesso. Essa transformação — talvez uma das mais fortes — permanece quase como pano de fundo.

O livro toca em um ponto delicado e raramente explorado: a raiva que Eunice sentiu do marido. Uma raiva legítima, complexa, que conviveu com a lealdade, a defesa incansável de sua memória e a luta por justiça. Essa ambivalência humaniza a personagem e rompe com qualquer idealização fácil.

Até hoje, não se sabe exatamente do que Rubens Paiva foi acusado. No livro, a explicação apresentada envolve uma correspondência vinda do Chile com seu nome, destinada a outra pessoa. Ainda assim, a violência foi extrema e rápida. Muitos morreram nos porões da ditadura, mas esse caso se destaca pela brutalidade concentrada em poucas horas. Não há registro de delação. Eunice foi presa junto com a filha; a menina foi libertada rapidamente, enquanto Eunice permaneceu dias encarcerada. Mesmo sem agressão física direta, trata-se de tortura psicológica, e isso também destrói.

No fundo, Ainda estou aqui é menos um livro sobre a ditadura e mais um livro sobre uma mulher. Uma mulher que, de um dia para o outro, precisou se emancipar. Que perdeu o marido, o amparo financeiro, a posição social e a segurança. Sem pensão, já que Rubens Paiva foi declarado fugitivo e não morto, ela assumiu sozinha a criação dos filhos, o sustento da família e a reconstrução de si mesma.

Vou assistir agora ao filme — já ouvi que ele enfatiza muito mais a ditadura. Resta ver como essa escolha desloca o centro da narrativa. O livro, ao menos, permanece como o retrato de uma força feminina silenciosa, construída na perda, na raiva contida e na resistência cotidiana.



Marcelo Rubens Paiva nasceu em São Paulo em 1959. É escritor, dramaturgo e roteirista 

JANE EYRE — INDEPENDÊNCIA FEMININA NO CORAÇÃO DO ROMANCE VITORIANO

 


JANE EYRE

CHARLOTTE BRONTË

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2015

780 páginas 

Publicado em pleno período vitoriano, Jane Eyre nasce em uma sociedade rigidamente estruturada pelo moralismo puritano, pela divisão de classes e por uma ética religiosa que regulava, de forma especialmente severa, o comportamento feminino. Trata-se de uma Inglaterra atravessada por contradições: prosperidade econômica impulsionada pela Revolução Industrial e pelo imperialismo, mas também miséria urbana, exploração do trabalho e exclusão social. Charlotte Brontë, filha de um pastor anglicano, escreve a partir desse mundo — e contra ele.

A presença da religião é constante na obra, seja por meio de referências bíblicas, seja pela linguagem moral que atravessa os dilemas dos personagens. No entanto, o que torna Jane Eyre um romance profundamente inquietante para seu tempo é justamente a forma como Brontë constrói uma protagonista feminina que não se limita a internalizar essa moral. Jane busca, ao longo de toda a narrativa, não apenas a sobrevivência material, mas sobretudo uma independência mental e intelectual. Ela pode obedecer exteriormente, mas sua consciência permanece indomável.

Desde a infância, Jane se recusa a aceitar a humilhação imposta pela madrasta e os filhos desta. Sua rebeldia não é estridente, mas firme: nasce da recusa em naturalizar a injustiça. Enviada para uma escola de órfãs, onde permanece por oito anos — primeiro como aluna, depois como professora —, ela experimenta tanto a disciplina rígida quanto a formação intelectual que lhe permitirá, mais tarde, agir por conta própria. Quando decide partir, não espera ser escolhida: toma a iniciativa de procurar trabalho sozinha.

Ao se tornar governanta e preceptora de Adèle, Jane ocupa um dos poucos espaços socialmente aceitáveis para mulheres sem fortuna, mas com alguma educação. É nesse território ambíguo — entre o serviço doméstico e a respeitabilidade — que ela conhece o Sr. Rochester. A relação entre ambos é marcada por tensão: ele é autoritário, áspero, moldado por privilégios masculinos e por um passado de sofrimento; ela, por sua vez, recusa o lugar da submissão emocional. O amor que surge ali não é idealizado: é conflituoso, atravessado por desigualdades e por um segredo que inviabiliza a união.

Quando Jane parte, ela o faz para não trair a si mesma. Passa por dificuldades extremas, até receber uma herança que lhe garante autonomia material — elemento decisivo, mas não suficiente, para suas escolhas. Ao recusar um casamento que lhe exigiria anular seus desejos e sua integridade, Jane afirma algo radical para o século XIX: não basta ser escolhida, é preciso escolher.

O retorno final a Rochester não representa uma capitulação romântica, mas um reencontro em novas condições. Jane volta quando pode amar sem abdicar de si. Jane Eyre não é apenas um romance de formação ou uma história de amor: é a narrativa de uma mulher que insiste em existir como sujeito, em um mundo que sistematicamente tenta reduzi-la ao silêncio.



Charlotte Brontë nasceu em Thornton em 1816 e faleceu em Haworth em 1855. Foi uma escritora britânica. 

domingo, 29 de maio de 2016

LIVRO: A AMIGA GENIAL - Infância, Adolescência - ELENA FERRANTE


Ferrante, Elena. 1ªed. Biblioteca Azul, 2015 .
336 páginas
Tradução: Maurício Santana Dias
Título Original: L'amica geniale: infanzia, adolescenza
Série Napolitana - Primeiro Romance

Confesso que sou atraída muitas vezes por capas, e neste caso o efeito foi contrário, me pareceu um daqueles romances bem água com açúcar, mesmo lendo a sinopse do livro. Mas, por sorte, li uma resenha de um psicanalista sobre os livros da tetralogia de Elena Ferrante que falava sobre as questões de identificações, édipo, e todo o conflito da infância e adolescência. A partir disto procurei um pouco mais de informações sobre os livros, que são quatro, porém lançados no Brasil até o momento foram dois. Este A Amiga genial que é o primeiro, e o segundo que é História do novo sobrenome.

A primeira coisa que me intrigou foi a autora. Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que se mantém fora do circuito da mídia, não se conhece seu rosto, nem quem é. Ela diz que após o livro estar escrito ele não precisa mais dela. Por outro lado isto lhe dá uma liberdade de escrever de uma forma real, indo a fundo nos sentimentos e na descrição de um bairro em Nápoles, pobre, violento, logo após a Segunda Guerra.

A autora tem o dom de colocar em palavras todo o universo interior feminino, começando pela infância que é o caso deste primeiro livro. Suas dúvidas, desejos, a raiva/ódio do pai ou da mãe, a competição, as identificações que fazemos, o corpo e suas modificações, a sexualidade, os sonhos, os medos. 

Este primeiro livro se passa praticamente dentro de um bairro em Nápoles, onde vivem várias famílias pobres e duas que possuem uma condição financeira um pouco melhor e por isto dominam o bairro seja pelo ódio ou pelo medo, mas ao mesmo tempo é explícito a inveja, o ciúme e o desejo de ser igual a eles, mesmo com todas as recriminações que lhes fazem. 

Ali vivem Lila e Lenu e todo o romance irá girar em torno delas. Logo no início, o tempo passou e Lenu recebe um telefonema do filho de Lila dizendo que ela desapareceu. Para impedir este desaparecimento, o apagar de todos os vestígios, a ausência, Lenu começa a escrever a história das duas. 

Ao longo do romance veremos como Lenu vai se identificando à Lila para escapar de sua mãe que é manca, isto me lembra a história de Édipo, mas versão feminina. Na família edipiana os homens tinham problemas nos pés. Lila é ágil, rápida, ativa, o contrário de uma pessoa que manca. Começa uma competição que se no livro é contada por Lenu, não deixa de ocorrer com Lila também. A saída de Lenu para competir com Lila são os estudos, mas virá a frustração, quando Lila se casar com um dos melhores partidos do bairro. Para que serve o estudo? o saber? Lenu ama Nino, que é muito estudioso também, mas deixou o bairro quando criança por seu pai ter se envolvido com Melina que ficou viúva. Nino odeia o pai.

A crueldade infantil não ficará de fora, aqui na competição entre Lila e Lenu, na maneira como elas querem ser melhor uma que a outra e na forma como se provocam. Mas uma não consegue ficar distante da outra, apesar de parecer que Lila o consegue, quando Lenu ler seus escritos verá a dor que ela também sentiu.

Ferrante nos desvenda o feminino desde a infância de uma forma feroz e honesta, talvez justamente por poder se ocultar ela pode falar como ninguém e mostrar o que realmente se passa no íntimo sem subterfúgios,  máscaras sociais.

Recomendo a leitura!!!! 

terça-feira, 24 de maio de 2016

LIVRO: A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO - Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura - MARIO VARGA LLOSA



Llosa, Mario Vargas. 1ªed. Objetiva, 2013
208 Páginas
Tradução: Ivone Benedetti
Título Original: La civilización del espectáculo

Um livro atual e ao mesmo tempo já sentimos falta de eventos ocorridos no mundo, uma vez que tudo é tão acelerado e o mundo muda a cada dia. 

Llosa faz uma crítica a falta de cultura no mundo atual e refere-se ao que se chama de cultura como entretenimento com intuito de fugir da realidade, de não ter que confrontar nem a si mesmo e menos ainda se engajar em ações em prol do mundo e do outro. É como um narcótico que faz com que as pessoas se desliguem, ao invés de agir, levando ao que toda ditadura sonha, um povo entorpecido e que não reage mais e se torna obediente cuidando de sua família e trabalho sem questionar nada. 

Discordo do conceito de cultura que Llosa utiliza ao se referir criticamente ao que a Antropologia considera cultura dizendo que devido a este relativismo foi possível chegar a situação atual. A Antropologia realmente tem um conceito de cultura que não diferencia o dito "primitivo" de uma cultura civilizada ou superior, considera a todas com real valor e importantes, sendo que nenhuma delas pode ser considerada inferior. Mas Llosa nos fala principalmente da literatura, do cinema, das artes, e neste caso acredito que nos falta então uma palavra, sim tudo isto é cultura, porém para a Antropologia são itens que estão na cultura, que abrange mais do que isto. Aqui eu pensei em erudição, mas ainda não é isto. 

Llosa separa o que ele considera uma cultura das elites de uma cultura mais popular considerando a primeira como a fonte de aprendizado, estudos, conhecimentos e que proporciona a possibilidade de compreender a si mesmo e ao mundo, sem escapar das misérias, da dor, da morte, e que nos ensina a não nos deixar enganar pelas ilusões e engôdos. Somente esta "alta" cultura é capaz de proporcionar isto e não leva ao entorpecimento. 

Realmente, às vezes sinto falta de grandes teóricos, de grandes escritores, de grandes artistas no mundo atual. Recentemente visitei uma exposição de arte moderna e saí dela me perguntando se aquilo era realmente arte, ou o que era aquilo. Quando vejo um pedaço de pedra coberto por massinha de modelar num grande museu eu estranho isto e não consigo compreender e aceitar isto como arte. Parecia que eu estava vendo o resultado da aula de arte ou de lazer de um jardim de infância. 

Mas o livro é extremamente interessante e oportuno para lidar com o que vemos hoje no mundo chamado de cultural. Porém, por sorte, ainda temos muitas produções de alto nível, nem tudo está focado no entretenimento e para escapar da realidade. Apesar de que também considero isto importante, desde que não seja a única opção. Precisamos sim, de vez em quando, escapar de tudo isto e entrar num mundo ilusório.

A crítica que o autor faz a política é importante, e realmente penso que ele tem razão quando diz que hoje homens éticos, interessados no outro, já não se interessam pela política, uma vez que esta mesma está desacreditada e fornece uma visão de algo corrupto, interesseiro, e de muitas mentiras. Principalmente nós que vivemos este momento atual no Brasil, onde se vê claramente um estado de exceção, onde uns são condenados e outros que cometeram o mesmo crime não. Não estou aqui sendo nem de esquerda, nem de direita, mas ética. 

A civilização do espetáculo é real, realmente temos muitos livros, artes e filmes que se enquadram nisto, e a grande maioria da população prefere isto do que ler um grande clássico, ou um filme de arte ou alternativo. Ninguém quer pensar muito, se foge do esforço necessário, da reflexão necessária diante de uma obra de arte. Visita-se os museus para dizer que esteve lá, que viu a exposição tal, e claro, tirar selfs para postar no facebook. Quem atualmente fica horas dentro de um museu admirando cada obra, deixando os efeitos desta surtirem em si mesmo, procurando conhecer o artista e o que ele realmente quis dizer ali e o que nós sentimos? Quem lê atualmente Ulissses de James Joyce, A montanha mágica de Thomas Mann, o Dom Quixote de Cervantes, a Divina Comédia de Dante? Quem assiste a filmes produzidos por cineastas que não pertencem nem a Hollywood e nem ao cinema europeu? Os asiáticos, os africanos? Fiquei impressionada com o filme Timbuktu de Abderrahmane Sissako, mas não encontrei ninguém com quem falar sobre este filme. Ou Winter Sleep de Nuri Bilge Ceylan que ganhou o Palma de Ouro? Sim, este filme é longo, com muitos diálogos, sem ação, sem entretenimento, é feito para refletir sobre a vida, mas belíssimo. Para ver e rever. Mas estes filmes só chegam ao público através de pouquíssimos cinemas, que sempre estão nas capitais e voltados para um público seleto. Inclusive por causa de suas salas vips. 

Por outro lado, sou a favor que todos tenham acesso à cultura, possam ler os grandes clássicos, os bons livros, assistir aos bons filmes, Possibilitar o acesso de todos a isto. Não concordo que tenha que permanecer como algo seleto, da uma minoria, porém, o grande público não se interessa por isto, talvez por já estar domesticado, imbuído da necessidade de prazer, felicidade e sucesso, que nos impõe a ideologia atual. Não se deve sofrer ou ter que enfrentar as questões, tome um anti-depressivo e seja feliz. Mas isto é saudável? ou é uma grande fuga? Esta divisão que Llosa faz com a cultura das elites e a do povo é um tanto divisória, como esquerda e direita, como pobres e ricos, como norte e sul. E não gosto disto, gera discursos de ódio. 

O livro é um grande alerta ao que ocorre atualmente. Não foi dado o acesso a todos à cultura, pelo contrário, foi dado acesso ao mundo da ilusão, de uma arte, literatura, cinema controlado, comercial, que serve para domesticar a todos, levar a inércia diante dos fatos da vida e da fuga a eles. 

LIVRO: HEREGES - LEONARDO PADURA


Padura, Leonardo. 1ªed. Boitempo, 2015
503 páginas
Tradução: Ari Roitman, Paulina Wacht, com a colaboração de Bernardo Pericás Neto
Título Original: Herejes
País de origem: Cuba

Um livro que não se larga! Dividido em quatro capítulos nos conta a história da Família kaminsky. Trata-se de uma ficção, porém baseado em extensa pesquisa histórica. 

A primeira parte trata da chegada do navio Saint Louis em 1939 com judeus que fugiam da segunda guerra e do nazismo à Cuba e que foi enviado de volta com todos seus passageiros, que após outras tentativas de desembarque em outros locais retornou à Europa sendo que o destino de seus passageiros acabou sendo o campo de concentração e a morte. Neste navio estava a família Kaminsky, pai, mãe e filha, que vinham para ficar com o irmão do pai e o filho, Daniel, que já estava em Cuba. Havia uma esperança de desembarque uma vez que, possuíam um quadro legítimo de Rembrandt que poderia ser negociado. Infelizmente isto não ocorreu. 

Daniel fica com seu tio, casa-se, e irá para os Estados Unidos fugindo de algo que seu filho quer descobrir o que é. Para isto anos depois Elias retorna à Cuba e procura Conde um ex-policial, para ajudá-lo a desvendar o mistério. 

Na segunda parte temos a história do quadro. Amsterdã na época em que os judeus acreditam que o Messias chegou, Baruch Spinoza é excomungado, um jovem judeu se torna aprendiz junto com Rembrandt, coisa inédita e perigosa, uma vez que os judeus proíbem a reprodução de imagens. 

Na terceira parte temos o tempo atual, onde se desvela o restante do mistério sobre o quadro. 

Recomendo!!

Leonardo Padura nasceu em 1955 em Havana, Cuba

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

LIVRO: RELATAR A SI MESMO - Crítica da violência ética - JUDITH BUTLER



Butler, Judith. Autêntica Editora1ª ed.- 2015
198 páginas
Tradução: Rogério Bettoni
Título Original: Giving an Account of Oneself

Butler tem sido minha filósofa preferida de uns tempos para cá, principalmente porque retoma grandes filósofos, antropólogos e psicanalistas fazendo um crítica através do questionamento e não da destruição e partindo deles para criar algo além que acompanhe o mundo atual e suas questões, mas sem desconsiderar o que estes teóricos compreenderam dentro do seu contexto e momento que viviam. Pessoalmente gosto mais desta forma de pensar do que uma dialética onde se nega a tese para se criar a síntese, o novo. 

Ela acaba refletindo minha forma de pensar, ao analisar o que muitos disseram e estudaram e que ainda é paradigmático hoje, chegando muitas vezes a ser inquestionável, mas em que minha opinião precisa ir além, uma vez que o mundo tem  mudado a uma velocidade meteórica e surgem novas formas de relacionar-se, de viver a vida, além de questões como a dificuldade em aceitar as diferenças, o ódio ao outro, a forma como estamos alienados e imbuídos de um sistema que rege nosso pensamento. 

Neste livro ela pensa sobre a ética e o outro. 

A questão do livro é o fato do eu narrar a si mesmo e de como deve agir, porém ao nos darmos conta de que não conseguimos falar de si mesmo sem o outro, sem nos darmos conta que este eu surge dentro de condições sociais, ou seja, pelo outro, surge uma nova maneira de pensar a ética. 

Não há como eu se conhecer de forma completa, este eu não existe sem o outro, sem o social, uma vez que somos constituídos pelas normas sociais, pela linguagem, que nos precede. Então para que eu possa me responsabilizar por mim estou simultaneamente me responsabilizando por este outro que está em mim. 

E a crítica é que justamente vivemos num sistema que cobra o eu, temos que ser consistentes e com pleno autoconhecimento de si mesmo e passamos a nos autocensurar. Mas ao nos darmos conta que destas normas que nos constituem e ao criticá-las podemos também nos dar conta da fragilidade do outro que é constituído da mesma forma. 

Butller traz para um plano filosófico o que aprendi pela psicanálise. Nosso eu é algo frágil, constituído pelo outro, respondemos ao desejo do outro, e ao nos darmos conta disto percebemos o quanto somos limitados e pouco donos de si mesmo, ou como dizia Freud, o eu não é dono em sua casa. Mas isto também nos leva a compreender que o outro é como nós. Mas ela vai além, uma vez que traz a questão para o mundo, no contexto atual e a coloca na ética. 

Só podemos compreender o outro suspendendo nosso juízo, para poder compreender a humanidade do outro, ao invés de fazer juízos. 

Judith Butler nasceu em 1956 em Cleveland, Ohio, EUA. É uma filósofa pós-estruturalista.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

LIVRO: IDENTIDADE E VIOLÊNCIA a ilusão do destino - AMARTYA SEN


Sen, Amartya. 1ª ed. Iluminuras, 2015
208 páginas
Tradução: José Antonio Arantes
Título Original: Identity and violence: the illusion of destiny

Um livro muito atual. O que Amartya defende é que não devemos considerar o outro por uma única identidade aglutinadora, uma vez que as pessoas são muito mais do que uma única identidade. Ao fazer isto, por exemplo, considerar os muçulmanos todos como terroristas, estamos alimentando um discurso de ódio que acaba levando à violência, sendo que a realidade é que alguns terroristas são muçulmanos. 

Um outro ponto extremamente importante é a questão de confusões conceituais que também leva à violência. Ele cita a globalização como um dos exemplos. Há uma ideia generalizada de que a globalização é algo ruim, e que acaba empobrecendo muitas pessoas além de explorá-las. É um fato que realmente isto ocorre, porém a globalização é muito mais do que isto, uma vez que sem ela não haveria a troca de ideias, a troca da ciência, da literatura, do saber. Então a questão não é a globalização em si, mas em como ela opera em diferentes setores. Ele também levanta a questão da ideia falsa de que a democracia seria algo ocidental. Se pensarmos a democracia como a possibilidade de todos participarem não é possível dizer que o Oriente não foi e não pode ser democrático, pelo contrário, é possível ver que a democracia neste sentido surgiu lá muito antes do que na Grécia. 

A questão nisto tudo é que acabamos cristalizando certas ideias e conceitos sem ampliar nosso pensamento o que nos leva infelizmente à pré-conceitos. 

Amartya cita o exemplo da Índia, um país considerado hindu e que tem um número maior de muçulmanos no país. Mas as pessoas são muito mais do que isto, se identificam com sua profissão, com sua situação social, com sua família, com sua língua e muito mais.

Um dos pontos forte do livro é a questão da falsa oposição entre Ocidente e Antiocidente que acaba sendo utilizado para criar ressentimentos que permitem os atos terroristas. É fato que certas atitudes e comportamentos de alguns países ocidentais acabaram criando este ressentimento, porém, é a insistência nesta divisão que alimenta o ódio, e não é apenas do lado do Oriente que isto é utilizado, pois quando os Estados Unidos alega ser difícil ou impossível "impor" a democracia no Iraque está fazendo a mesma coisa. Quando se pensa desta forma, agindo contra o outro, não se está se libertando do outro, pelo contrário, é uma mentalidade de colonizado.

Vale a pena ler o livro, aprendi muito com ele e sacudi um pouco minhas ideias e isto é sempre muito bom.

Amartya Sen nasceu em 1933 em Santiniketan, Índia. É economista e recebeu o Prêmio Nobel de 1998 pelas suas contribuições à teoria da decisão social e do "welfare state".

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

LIVRO: MINHA PARIS MINHA MEMÓRIA - EDGAR MORIN



Morin, Edgar. 1ª ed. Bertrand Brasil, 2015
224 páginas
Tradução: Clóvis Marques
Título Original: Mon Paris, Ma Mémoire

Neste livro Morin nos traz uma autobiografia de sua vida através dos endereços onde morou em Paris, uma vez que foi nesta cidade que ele viveu seus momentos mais importantes, confundindo suas memórias com as da cidade e todos os eventos ocorridos ao longo dos anos, desde seu nascimento até os dias atuais. 

Mas Morin não nos fala apenas sobre eventos públicos, mas principalmente sobre ele mesmo diante destes acontecimentos, assim como sobre o que ocorria em sua vida pessoal. Sua infância, sua adolescência, seus amores, sua vida acadêmica, seus aprendizados com a vida e suas lutas.

Lendo as memórias de Morin nos damos conta de como ele formou seu pensamento complexo. Ele nos relata a história de seu país e de sua cidade através de sua história passando pela Resistência durante a Segunda Guerra, sua adesão ao comunismo e depois sua saída, suas amizades, e  me interessei especialmente pela amizade com Marguerite Duras.

Morin é também um grande cinéfilo e no livro nos fala dos principais filmes que marcaram sua vida. Agora o mais impressionante é seu desejo de viver, e mesmo agora, nonagenário continua ativo e vivendo o que o mundo oferece de bom e de ruim, sempre aprendendo e buscando compreender.

Este livro nasceu de seu desejo de escrever sobre Paris como palco de suas memórias após pronunciar o discurso de agradecimento ao receber em 05 de junho de 2012 das mãos do Prefeito Bertrand Delanoë a Médaille de Vermeil de la Ville de Paris.

Edgar Morin nasceu em 1921 em Paris, França.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: ÍRISZ: AS ORQUÍDEAS - NOEMI JAFFE



Jaffe, Noemi. 1ª ed. Companhia das Letras, 2015
222 páginas

Um belíssimo livro sobre traumas, sobre falta, sobre como construir uma história para dar conta de uma incompreensão sobre sua origem. 

Írisz foge da Hungria após o fracasso do levante contra a União Soviética, ela vem para trabalhar no Jardim Botânico em São Paulo onde conhece Martin. Através de seus relatórios para ele aos poucos ela nos conta sua história. O desconhecimento do paradeiro de seu pai que sua mãe queria acima de tudo esquecer, sua desilusão com o levante em seu país, sobre Imre, o homem que ela ama e que não quis deixar o país em função de um ideal e um sonho. Aos poucos ela vai questionando tudo, lidando com sua culpa por ter deixado a mãe doente e Imre e vindo para o Brasil, culpa esta que ela sustenta, sem se deixar abater por ela. 

Írisz constrói uma história, uma ficção para compreender seu pai, e também sua mãe. Ela aprende a ler nos silêncios, nos olhares, nos gestos, o que sua mãe obstinadamente esconde dela sobre seu pai. É a busca de sua origem, de sua filiação, que ela elabora, onde podemos ver acontecendo numa vida o que a psicanálise tenta construir numa análise. 

Por outro lado temos Martin, que abriu mão de tudo em prol do comunismo. Nunca se casou, não teve filhos, viveu em função deste ideal e que agora também desmorona, principalmente com as notícias que chegam do massacre em Budapeste. A idealização que se desmonta, a desidentificação a algo, tudo aparece nos escritos de Martin, cartas que ele escreve para Írisz. 

Há uma terceira voz, que seria como o coro grego, que surge no meio da leitura nos dando outras informações. E é belo de acompanhar as metáforas de que Írisz se utiliza com as orquídeas para se explicar, se compreender. 

Um livro profundo, bonito, muito bem escrito. Recomendo!!

Noemi Jaffe nasceu em 1962 em São Paulo. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

LIVRO: É UMA PENA NÃO VIVER - GONÇALO JUNIOR



Gonçalo Junior. Planeta do Brasil, 2015
470 páginas


Uma biografia sobre o educador e escritor Rubem Alves

Uma história rica que se inicia no interior de Minas Gerais, passa por várias cidades de Minas, Rio de Janeiro, Campinas e pelos Estados Unidos. Desde uma infância que foi difícil em termos financeiros para sua família que havia perdido tudo, mas que não afetou na época a infância de Rubem, pois como ele mesmo diz, não tinha parâmetros para isto, não sabia o que era ser pobre, até chegar ao Rio e entrar para um colégio onde estudavam vários alunos ricos. E foi justamente aí que um colega ao rir dele o marcou profundamente levando-o a tomar decisões que mais tarde teria que rever e avaliar até que ponto foram boas para ele ou não. 

O relato nos fala da formação intelectual de Rubem e também de seus estudos de teologia, de sua participação na igreja Presbiteriana, e de seu excesso de rigidez moral na época em que seguia e acreditava nos preceitos da igreja. Quando veio a ditadura sofreu uma grande decepção, pois foi justamente estas pessoas da igreja que o denunciaram, levando-o ao exílio nos Estados Unidos para não ser preso. Foi um dos primeiros a falar na Teologia da Libertação apesar de isto não lhe ser creditado após, cabendo a Leonardo Boff este mérito. 

Trabalhou como professor e isto o levou a rever as questões educacionais brasileiras e em geral, criticando-as em busca de uma nova maneira de se educar que fosse mais sensata e de acordo com os dons e habilidades de cada aluno. Uma educação que visa ao viver, e não a passar de ano, obter notas, decorar, aprender coisas que muitas vezes se tornam inúteis na vida de muitos, em prol de um aprendizado mais humanista, voltado para a vida e o bem viver. 

Confesso que a parte que se refere à Igreja Presbiteriana foi um pouco cansativa pois ocupa um grande espaço do livro, mesmo considerando que ela realmente foi uma grande parte da vida de Alves. 

Adentramos também na vida familiar de Alves e dos seus amores, esposa, companheira, filhos. O livro foca mais o lado de Taís, a companheira dele do que a de Lidia, apesar de sua presença e força durante toda a vida de Rubem, mas lemos sobre a dor de Taís com a separação e nada é dito sobre a dor de Lídia quando o marido a deixa para ir viver sozinho e manter uma relação com Taís, com quem ele nunca quis morar junto, o que acabou deteriorando a relação de ambos, apesar do grande amor que os unia. Raquel a filha caçula de Rubens foi um grande aprendizado para ele, ela nasceu com lábio leporino e o céu da boca dividido levando a ser necessário várias cirurgias em sua vida. E foi justamente aí que ele começou a contar histórias que se transformaram em seus livros infantis. Era uma forma de dar coragem à filha. 

É um belo livro, um relato de uma vida vivida, com todos seus obstáculos, perdas, alegrias, vitórias. Vale a pena ler. 

Gonçalo Junior nasceu em Guanambi, BA 

terça-feira, 28 de julho de 2015

LIVRO: QUE FIM LEVOU JULIANA KLEIN? - MARCOS PERES



Peres, Marcos. 1ªed. Record, 2015
347 páginas

Um livro que traz como cenário Curitiba tanto a de Dalton Trevisan como a do Batel

Um delegado de polícia de Maringá é chamado para ajudar num caso em Curitiba. Irineu chega no aeroporto Afonso Pena e se dirige para o casarão do Batel para encontrar Gabriela Klein, a filha de Juliana que está traumatizada com o último episódio sangrento da família. Aos poucos Irineu vai nos contando esta história que começa na Alemanha, a briga filosófica entre os Klein defensores da filosofia de Nietzsche e os Koch, que agora são professores da Universidade Federal do Paraná e da Puc.

O desaparecimento trágico de Juliana Klein foi precedido por outros assassinatos como o de Teresa Koch, professora da Puc, assassinada no teatro Guaíra pelo marido de Juliana após uma conferência onde ela defende que o destino não existe.

Irineu foi o responsável pela prisão de Salvador, o marido de Juliana, e se apaixonou por ela lhe prometendo proteger sua filha Gabriela. Agora diante de mais um assassinato,desta vez de Mirna Klein, a irmã de Juliana, ele volta a se envolver nesta eterna briga de famílias.

Ao longo das páginas somos informados do passado e acompanhamos as novas ocorrências trágicas que envolvem estas família e de sua briga dita filosófica. Juliana sempre dizia que tudo se repete, tudo retorna, e explicava para Irineu o pensamento do Eterno Retorno de Nietzsche, que tudo se repetiria.

Um romance policial filosófico onde a resposta para o mistério se encontra na filosofia de Nietzsche. Não quero me adiantar mais para não tirar o prazer de quem for ler o livro, mas me permito ter um enfoque por outro viés, ou seja, pela psicanálise. Aliás, sempre encontro um paralelo muito grande entre Nietzsche e Freud.

O Eterno Retorno de Nietzsche e a herança psíquica são muito próximos, e é o que veremos no decorrer do livro. A repetição de tudo, com a diferença que  podemos romper o círculo da repetição ou o tempo cíclico de Nietzsche, desde que conheçamos o que move o inconsciente e que nos faz sempre repetir e que acabamos passando aos nossos filhos. E no livro percebemos isto, o quanto tudo se repete e volta, e retorna, só que a ruptura não ocorre.

O autor também se utiliza da Divina Comédia de Dante, com a inscrição da porta do inferno onde contém uma aviso sobre deixar toda esperança do lado de fora, e na porta do quarto de Gabriela tem uma placa que diz que ali tem esperança. Associando a filosofia de Nietzsche o que realmente isto quer dizer é que a esperança é algo que se projeta, algo que se espera, e com o eterno retorno ela deixa de existir.A questão é um tanto religiosa, ou seja, não há vida após a morte, não há esperança que algo mude, exceto no aqui e agora. O inferno é o aqui, o presente, o único lugar onde se pode fazer algo de bom que então irá se repetir.

Ao final do livro teremos três versões para o que aconteceu, mas eu não deixo de fazer uma pergunta em relação à uma das pessoas assassinadas e que é: como o corpo foi retirado da mansão? O que deixa em aberto mais uma possibilidade que foi levantada pelo delegado Irineu já no final da história.

Marcos Peres nasceu em Maringá - PR. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

LIVRO: ROSA CANDIDA - AUDUR AVA ÓLAFSDÓTTIR



Ólafsdóttir, Audur Ava. 1ª ed. Objetiva, 2015
299 páginas
Tradução: André Telles
Título Original: Afleggjarinn 

País: Islândia. 

Penso que criei uma expectativa sobre o livro que acabou não condizendo com que li. Não é fácil então falar do livro quando isto acontece e receio ser injusta. 

Esperava algo mais profundo de um romance de iniciação de um jovem, e também mais detalhes sobre o jardim e as rosas. 

O jovem Lobbi mora com seu pai na Islândia e cuida das plantas em uma estufa que era de sua mãe que faleceu em um acidente de carro. Ele tem um irmão gêmeo que é autista e vive num Centro Especial, vindo para casa nos fins de semana. Em um encontro de uma única vez com Anna ela engravida. Diante de tudo isto e suas interrogações sobre o que fazer com sua vida ele aceita ir cuidar de um famoso porém, abandonado, jardim de rosas que fica num mosteiro e com isto ter tempo para si mesmo. 

Lá ele conhece Frei Tomáz, um cinéfilo que acaba lhe indicando vários filmes para ver diante das questões que lhe surgem, porém não teremos acesso a análise que ele faz destes filmes, o que ele aprende com eles, o que é uma pena. O jardim também logo fica de lado uma vez que Anna o procura e pede que cuide da filha para ela poder estudar para seu mestrado. 

Ao final realmente ocorre uma modificação em Lobbi que cresce diante da vida e das circunstâncias, mas seria mais interessante se durante a leitura pudéssemos ter acesso as suas reflexões, o que acaba empobrecendo a leitura. Há muitas informações sobre suas compras, e tentativas de cozinhar, mas poucas sobre o que realmente ele sente. Percebemos seus medos e receios, suas dúvidas, seus desejos, mas fica o vazio do crescimento que temos que tentar preencher para acompanhá-lo. O livro acaba focando mais o externo que o interno, como se o que ocorre fora é o que pudesse mudar o interior, e não o contrário, apesar de que não posso discordar que experiências e vivências nos amadurecem, porém é preciso sentir e refletir. 

Como eu disse no começo, talvez minha expectativa tenha sido alta, mas o livro não deixa de ser interessante e gostoso de ler. 

Audur Ava Ólafsdóttir nasceu em 1958 em Reykjavík, Islândia

LIVRO: O FRÁGIL TOQUE DOS MUTILADOS - ALEX SENS



Sens, Alex. 1ª ed. Autêntica Editora,2015
415 páginas

Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012

É gratificante encontrar um escritor brasileiro que surpreende de várias maneiras. Primeiramente um jovem que eu diria que tem uma alma velha, tem profundidade e toca em assuntos dolorosos com sabedoria, e em segundo por sairmos da literatura regionalista que foca o Brasil entrando num mundo contemporâneo que pode estar localizado em qualquer lugar do mundo. O cenário onde se passa a história, uma pequena cidade à beira de uma praia, o mar que está constantemente presente ao longo da história e que também tem seu papel, não sabemos onde fica e somente no final somos informados que se trata do Brasil. 

Três irmãos, Magnólia, Orlando e Elisa se encontram após muitos anos para passar as férias na casa do irmão que fica de frente para o mar. Será um momento de reencontro mas que traz toda a carga de culpas, mágoas, desencontros que toda família tem e que quase sempre é varrido para baixo do tapete. Incrível a dificuldade de falar, de expor os sentimentos ao outro, mesmo sendo seu irmão ou irmã, o que acaba se traduzindo em atos ou palavras, provocações, críticas que ao invés de aliviar só pioram a situação. 

Orlando perdeu sua esposa Sara que morreu afogada ali em frente à casa, tem dois filhos - Muriel e Tomás. Após a morte da esposa passou a beber, deixou seu trabalho na rádio e tenta pintar quadros. Ele é o irmão do meio. Magnólia é a mais velha, está casada com Herbert, um apaixonado por Virginia Woolf e que tenta escrever um ensaio sobre ela e quer aproveitar as férias para isto, mas sua esposa tem um transtorno psíquico denominado Borderline, ela tem altos e baixos, se automutila se cortando, ou segurando durante um tempo uma pedra de gelo em sua mão, durante as férias abandona os remédios e passa a tomar muito vinho, aliás, os vinhos fazem parte de sua profissão. Elisa optou por uma vida zen, quer manter uma energia positiva a sua volta para não sofrer as interferências disto em seu equilíbrio, diz que todos temos escolhas, o que irrita e muito Magnólia. 

O livro começa com uma cena onde algo grave ocorreu no último dia das férias para depois entrar na história deste mês e do encontro dos irmãos. Cena esta que só iremos compreender ao final do livro, o que também nos mantém interessados e curiosos, como em um romance policial. Acompanhamos então todo este mês, dia a dia. Magnólia não se importa com o outro, quer atender a seus desejos e é tremendamente crítica e provocadora com tudo que não condiz com o que ela pensa, mas tem pavor de ser abandonada. Orlando vive colocando panos quentes em tudo, sente muita culpa e escapa pela bebida, já Elisa apesar de toda sua aparência zen também tem questões sérias. 

Gostei muito do livro, mesmo que ele não se aprofunde muito nas causas destes problemas dos três irmãos, como sua infância, dando apenas pinceladas, é extremamente válido no sentido de ver como agem e repetem em sua vida adulta questões que nunca foram resolvidas e das quais se foge ao invés de enfrentar, o que aliás, infelizmente, ocorre na maioria das famílias, até porque somos todos esfacelados, ou mutilados e nosso toque ou tentativa de tocar o outro é frágil. 

Alex Sens nasceu em 1988 em Florianópolis SC e se radicou em Minas Gerais