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domingo, 18 de janeiro de 2015

FILME: PLUS TARD TU COMPRENDRAS - 2008


Direção: Amos Gitaï - 2008
Duração: 89 min
Título em português: Mais tarde, você compreenderá

Cinebiografia sobre a mãe de Catherine Clément

Comecei a ler o livro de Memórias de Catherine Clément e logo nas primeiras páginas ela fala de sua infância e de sua mãe, Rivka, judia, que teve seus pais deportados e mortos na Segunda Guerra. Seu irmão Jérôme Clément escreve sobre a história de sua mãe e é este relato que se transformou neste filme. Interessada procurei o filme, mas só o encontrei na internet em francês, que é minha língua materna. Assisti ao filme. 

No filme logo no início quando Victor visita o memorial em Paris aos judeus mortos na Shoah, vemos ao fundo a própria Catherine Clément e seu irmão Jérôme que fazem esta pequena aparição no filme. 

O filme mudará os nomes dos personagens, sendo que Victor (Hippolyte Girardot) será o irmão, e Tania (Dominique Blanc) é Catherine. 

Jeanne Moreau é Rivka, maravilhosa como sempre. O filme começa com a televisão mostrando o início do processo de Klaus Barbie, Rivka não suporta ouvir. Victor chega para jantar com ela, ele está buscando a história de sua família judia, tenta lhe fazer perguntas, mas Rivka desliza, ela não responde. Ele acaba de encontrar uma carta onde seu pai se declara ariano, assim como à filha Tania, mas a mãe como judia, o que o revolta. Ele ainda não havia nascido nesta época. Tania lhe mostra que seus pais fizeram o que todos fizeram, acreditavam no governo Francês, não imaginavam o que iria acontecer, mas ainda assim ele protegeu a filha declarando-a católica e ariana, e que com certeza Rivka sabia disto e esteve de acordo. 

Rivka está muito doente e em breve vai morrer. Ela nunca falou de sua família judia, do que aconteceu com seus pais, o que ocorreu com a maioria das pessoas após a guerra, a negação, ela acreditava que não contando protegia o filho, que era seu predileto, com o qual tinha maior ligação. Com isto o filme também reflete as relações de mãe-filho. 

Victor ficará indignado ao descobrir que o apartamento onde moravam seus avós paternos era o de seus avós maternos, ele foi lá durante anos e nunca lhe foi dito nada sobre isto. Ao final Rivka fala aos seus netos, filhos de Victor, os leva à Sinagoga e entrega ao garoto a estrela amarela que guardou durante anos e lhe pede para nunca esquecer. 

Quando Rivka morre é o tempo que a França reconhece sua culpa pelo colaboracionismo sob o governo de Vichy e por não ter protegido seus judeus franceses. Victor vai até a comissão onde é feito o levantamento dos bens para uma compensação financeira aos familiares, numa tentativa de reparar, principalmente pelo lado simbólico deste ato é necessário. Não mudará a história, mas simbolicamente há o reconhecimento da culpa e do erro. 

Há muitos detalhes neste filme que também remetem à Catherine Clément, que percebemos de onde vem, como por exemplo, ela gosta de falar das vacas sagradas da Índia, foi viver na Índia, mas sua mãe já era uma Hinduísta e dizia que queria renascer como uma vaca, mas uma vaca indiana, sagrada, pois assim não teria que ter medo de ser morta. 

Também a questão de não falar, de acreditar que assim se protege o outro, mas não é possível, a herança psíquica está ali, e vai vir a tona, o recalcado sempre retorna. 
  


Amos Gitaï nasceu em 1950 em Haifa, Israel. 

Jerome Clément 
Catherine Clément 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

FILME: AMAR BEBER E CANTAR - 2014


Direção: Alain Resnais - 2014
Duração: 108 min 
Título Original: Aimer boire et chanter 

Um grupo de teatro fica sabendo que um amigo está com câncer. A partir daí o filme gira em torno de George que não aparece em momento algum durante o filme. O filme é uma peça dentro do filme, eles ensaiam uma peça, mas o filme também se utiliza de cenários de teatro. Diferente e interessante, o que vale são os diálogos com fundos que representam onde estão os personagens. Gostei muito da forma como ele apresenta as casas com desenhos. A história se passa na Inglaterra.

Logo no início Colin (Hippolyte Girardot) que é médico recebe a notícia de um colega e não consegue se conter passando a informação a mulher Kathryn (Sabine Azéma) que logo conta para Jack (Michel Vuillemoz) que é o melhor amigo de George que fala para sua esposa Tamara (Caroline Sihol). Estes por sua vez falam com Monica (Sandrine Kiberlain) a ex-mulher de George que agora vive com Simon (André Dussollier).

Tudo gira em torno destes personagens que começam a recordar passagens de suas vidas com George e a pensar no futuro sem ele. A presença da morte faz com que todos repensem muitos aspectos de suas vidas, e todos sempre falam de George como um homem feliz e que sabia viver, ele parece o modelo que nenhum deles atingiu. O filme é um grande diálogo sobre o viver e o morrer. Tudo se passa num teatro e palco, o que é uma referência também a vida que atuamos sempre, os atores e os papéis que assumimos e da dificuldade de sair disto e poder ser o que se é realmente.

Alain Resnais filmou Amar Beber e Cantar aos 91 anos e foi seu último filme.

Alain Resnais nasceu em 1922 em Vannes na França e morreu em 2014 em Paris.